Soneto do adeus

Barbara Angelica Colono

A chuva caiu como lágrimas de Deus
na rua, no vidro, nos cabelos seus.
as nuvens tristes perderam a direção
com relâmpagos, afetos, alucinação.

Lhe beijei com lábios de adeus
a boca, o queixo, os olhos seus.
os cabelos afagados pelas mãos
finas e frias que não mais voltarão.

- Oh, querido amante que no meu corpo
magro e alvo percorreste ofegante
todos os caminhos à ti confiados.

Chegamos enfim ao fim da noite,
ao fim da chuva, ao fim do caso.
- Adeus, adeus..adeus meu feliz acaso.

O bebê de tarlatana rosa

João do Rio

“O bebê de tarlatana rosa” é um dos primeiros contos nacionais a adentrar no universo do realismo-fantástico. A história, que se passa no carnaval carioca, do início do século XX, traz à tona um narrador uma personagem que compartilha com as demais uma história horripilante. Além do elemento sobrenatural, o conto é uma bom registro da festa carnavalesca do início dos Novecentos.

Leia o conto e assista-o também contado por Antônio Abumjara.

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Poema

hamlet_grave_digger_hiLord Rochester (1647-1680) – Tradução Haroldo de Campos

Fosse eu (que por acaso levo o nome
da rara e prodigiosa espécie: o Homem)
Livre para escolher meu próprio curso,
A carne certa e o sangue natural,
Queria ser Macaco, Cão ou Urso,
Tudo menos o fútil Animal,
Tão orgulhoso de ser Racional.

Dentro da noite

João do Rio

Escritor da Belle Époque brasileira, João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, foi um dos mais notáveis autores de seu tempo. Jornalista, cronista e literato, deixou também uma série de contos que fazem parte da obra Dentro da noite. Explorando as perversões humanas, João do Rio apresenta um painel de personagens atormentadas e bem elaboradas psicologicamente.

“Dentro da noite” é também o nome do primeiro conto que abre o livro, e é ele que você confere aqui a partir de agora. Continue reading

Estamos de volta

Laís  Azevedo

Caros visitantes, como vocês devem ter notado, as atualizações do site haviam diminuído bastante. Isso se deu devido a uma queda em que, infelizmente, fraturei o braço. Como somente eu mexo no sistema WordPress, as postagens novas foram, paulatinamente, minguando, haja a vista a impossibilidade de digitar e, até mesmo, incluir o material enviado pelos visitantes.

O fato é que, agora, estamos de volta, e o site voltará a ser atualizado com mais frequência.

Muito obrigado! E, continuem nos visitando.

L’Assommoir – Émile Zola – Pobreza e alcoolismo em Paris na segunda metade do século XIX – Por Camila Ribeiro

greuzelajpgO romance L’Assommoir descreve a sina da pobre classe trabalhadora em Paris durante a década de 1860. A obra é o sétimo volume da série Rougon-Macquart; ao todo são vinte livros.

Émile Zola é considerado um dos maiores escritores franceses de todos os tempos — para alguns críticos, apenas Victor Hugo e Proust podem ser comparados a ele. Zola — fundador do movimento literário intitulado de Naturalismo — buscava levar para a literatura as descobertas científicas de seu tempo. As teorias tinham um papel crucial na literatura naturalista, uma vez que elas, segundo os escritores da escola zolista,  ajudavam a trazer à tona a realidade da sociedade. Nesse ínterim, na aludida série, o escritor se esforça para explorar os vários aspectos (políticos, econômicos e sociais) da vida na França durante o  Império de Napoleão III.

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“Intolerância”, de Rubem Fonseca

 Rubem Fonseca

Quando me livrei da Gisleine achei que ficaria mais feliz sem uma chata me aporrinhando dentro de casa. Ela criava caso por qualquer coisa, porque eu fazia a barba só duas vezes por semana, porque eu queria ver o jogo de futebol e depois o vídeo do jogo, você não viu essa porcaria de jogo e vai ver novamente?, gritava ela. A voz da Gisleine era irritante, mesmo quando falava baixinho. Cozinhava mal, e quem acabou encarregado da cozinha fui eu, fazia a comida, a minha marmita e ia trabalhar na oficina, mas lavar e enxugar o prato eu não fazia. Um dia ela estava muito cansada e disse para eu lavar e enxugar os pratos do jantar e eu peguei a porra dos pratos e joguei pela janela. Esse foi o primeiro sintoma do meu saco cheio. Lavar roupa quem fazia era a máquina, e Gisleine passava mal e porcamente. Empregada? Eu não tinha dinheiro para pagar uma empregada, mal havia conseguido comprar o meu apartamento no vigésimo andar de um conjunto Continue reading