Lauro Drummond
alarmes de carros, grilos artificiais
esperança artificial,
dum
dia
melhor
que
virá
virá?
virá
virá?
Lauro Drummond
alarmes de carros, grilos artificiais
esperança artificial,
dum
dia
melhor
que
virá
virá?
virá
virá?
Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mão sacerdotais.
Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhe a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.
Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, p’ra dar fé.
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.
Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de Verão.
Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.
Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida; o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.
E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,
Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.
Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.
E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.
Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tura sorte,
Eu nunca poderei!
Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!
Originally posted 2009-11-23 23:11:37. Republished by Blog Post Promoter
Em 1861, na mesma época em que Flaubert escrevia Salommbô, um homem que comercializa ovos de bicho de seda para uma cidade francesa que subsiste a partir do comércio da seda é incumbido de se aventurar até o distante e exótico Japão para comprar ovos saudáveis enquanto os ovos de toda Europa e Oriente Médio estão sofrendo com uma praga.
Em “Seda” (Ed. Companhia das Letras, 2009) Alessandro Baricco conta a história de uma viagem a um país exótico e como isso afeta seu visitante. Conta a história da vida de um homem. E conta a historia de um romance.
Sua narrativa é rica e concisa e Baricco exprime em 120 páginas uma história bela, complexa e completa. Todo o texto é estruturado com ritmo, quase poético, que embala a leitura de forma agradável e pontua várias mudanças.
Baricco é também autor de “Sem Sangue” e “Essa História”.
Aleksandr Púchkin – Trad. Boris Schnaiderman
Dom inútil, dom fortuito,
por que a vida me foi dada?
E o destino, com que intuito
a condena a um fim: o nada?
Que poder hostil, do pó,
suscitou minha alma ardente
e lhe deu paixão, mas só
duvidas à minha mente?
Sigo a esmo de ermo peito,
mente ociosa e, sem saída,
pesaroso, eu me sujeito
ao maçante som da vida.
Um recém reformado médico de guerra se instala em um apartamento na cidade de Londres na companhia de um excêntrico cavalheiro indicado por um amigo dividindo as despesas de modo a economizar dinheiro. Seu companheiro se mostra bastante misterioso e curioso até que dois oficiais da Scotland Yard bate a sua porta a procura do auxilio de seu companheiro para desvendar um crime aparentemente insolúvel.
Em “Um estudo em Vermelho” (Ed. Jorge Zahar, 2009) Arthur Conan Doyle narra o primeiro romance de Sherlock Holmes. Quando Watson e Holmes se conhecem e o primeiro caso em que trabalham juntos. A trama cria um padrão que está presente em toda obra envolvendo Holmes, onde a lógica e o método cientifico é aplicado na resolução de casos criminalísticos de forma vanguardista prenunciando uma época bem posterior, como muitos investigadores contemporâneos citam em “Não existe crime perfeito”.
Essa edição faz parte de uma reunião definitiva da editora Jorge zahar sobre Sherlock Holmes e é ilustrada e comentada. OS comentários inundam o texto, saciando os mais curiosos e sendo em sua maioria enfadonhos para o leitor não tão curioso com as observações e notas do uso dos chapéus, cigarros e tantos outros assuntos triviais sobre a época. Essas notas podem ser ignoradas a maior parte das vezes.
Atualmente, estou lendo A pele de onagro do célebre escritor frances Honoré de Balzac. Durante a leitura, tenho encontrado diálogos interessantes. Sendo assim, partindo da ideia de que a categoria “Citações literárias” é, segundo as estatística do site, uma das mais visitadas, coloco aqui algumas passagens do livro.
Citações balzaquianas:
“A liberdade gera a anarquia, a anarquia leva ao despotismo e o despotismo reconduz à liberdade. Milhões de indivíduos pereceram sem terem podido fazer triunfar nenhum desses sistemas. Não é o círculo vicioso em que sempre há de girar o mundo moral? Quando o homem acredita ter-se aperfeiçoado, ele apenas mudou as coisas de lugar”.
“Ah! a glória, triste gênero alimentício. Custa caro e não se conserva. Não seria ela o egoísmo dos grandes homens, como a felicidade é o dos tolos?”
“— Atenção, senhores! Maneira de matar um tio. Silêncio! (Atenção! Atenção!) Primeiro, tenham um tio corpulento e gordo, septuagenário pelo menos: são os melhores tios. (Sensação.) Façam-no comer, por um pretexto qualquer, patê de fígado de ganso…
— Mas meu tio é um homem seco, avarento e sóbrio!
— Ah! esses tios são monstros que abusam da vida.
— Anuciem-lhe, durante a digestão, a falência de seu banquerio.
— E se ele resistir?
— Enviem-lhe uma bela garota!
— E se ele for… disse o outro, fazendo um gesto negativo.
— Então não é um tio, os tios são essencialmente pândegos.”
“Será culpa minha se o catolicismo consegue pôr um milhão de deuses num saco de farinha, se a república sempre acaba em algum Napoleão, se a realeza se acha entre o assassinato de Henrique IV e o julgamento de Luís XVI, se o liberalismo transforma-se em La Fayette?”
“Kant? É mais um balão lançado para divertir os tolos, meu senhor. O materialismo e o espiritualismo são duas belas raquetes com que charlatães de beca fazem a bola ir de um lado a outro. Que Deus esteja em tudo, segundo Espinosa, ou que tudo venha de Deus, segundo São Paulo… Imbecis! Abrir ou fechar uma porta não é o mesmo movimento? O ovo vem da galinha ou a galinha do ovo? Eis aí toda a ciência”.
Originally posted 2010-03-28 03:48:47. Republished by Blog Post Promoter
Que a morte me traga consigo no seu bolso
e que no avesso do meu osso
eu descubra que nada da vida foi em vão
E que a trilha se perpetue no caminho
de um andarilho bem mesquinho
que só pensa em juntar pão
E que da silepse que me busco
do contorno que ilustro
da sina que jaz no chão
da fonte que não se mantém
do intruso que vem do além
do pó, das cinzas e do caixão
— Morte, que traz consigo para dar a mim?
— Nada que você deva temer
— Algo que eu deva agradecer?
— Só se isso te machucar.
E do prisma que atinjo
que de vermelho me pinto
Em cristais de sofreguidão
E do aparelho bucal
aparência mais frugal
Do mais veloz alazão
— Morte, por que ainda não me levou?
— Você não merece morrer. Minha lança é um prêmio só para aqueles que descobrem sentido de viver.
— Mas, Morte, se eu descobrir não vou querer mais morrer.
— Eu sei.
– Posso argumentar?
– Você pode tentar
– Talvez eu possa… *choro*
Da música que não escutei
Do cálice que eu quebrei
Do café moído no pilão
Do poço em que me afundo
de morrer faço meu submundo
E de viver meu cão
Originally posted 2009-09-05 07:26:36. Republished by Blog Post Promoter
Sigismund Kryzanowski, o nome polonês, porém pertence a um escritor russo, pouco conhecido, porém com um talento enorme. Publicado pela Editora 34, na tradução de M. Aparecida B. P. Soares, O marcador de página faz parte da chamada Coleção Leste, cujo intuito, como já foi dito em outra resenha neste site, é o de lançar nas terras brasileiras obras da chamada Europa-Centro-Oriental. Infelizmente o livro encontra-se esgotado há bastante tempo. Entretanto, é possível encontrar em alguns sebos. Por sorte, eu achei um exemplar novo numa das livrarias de Belo Horizonte. Continue reading →
Originally posted 2009-05-21 05:14:05. Republished by Blog Post Promoter
Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.
O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.
Murilo Mendes