Contos


28
Aug 10

Quem cochicha o rabo espicha,

ele falou, antes de enfiar um cabo de vassoura no cu do cagueta!

Lauro Drummond.


26
Aug 10

Barata

Ronie Von Rosa Martins

Não. Não era Gregor. Mas era imenso. E era uma barata. E sendo o que era rastejava. Movimento silencioso-furtivo. Era o que era. E ponto. Barata. E estava no lixo. Todos não estavam? Todos não eram baratas? Não eram?
E empanturrava-se de tudo. A fome intensa.  Pretensa forma da fome. Saciar. Saciar os espaços todos do corpo, do desejo, do prazer. Saciar.
A alimentação. Devorava o senso-comum. Todinho. Era o próprio. Não se é o que se come? Pois este era ele.  Máquina veloz e rastejante de ser habitado e habitar o bom-senso, o consenso… corpo apropriado. Antenas compridas, sensação, cheiro, paladar… a imagem. Consumia a imagem mesma, sempre e todo o dia. Podia voar. Mas não gostava, preferia rastejar no senso. Comum a todos. Marcas, idéias, opiniões, doxa. Adorava. Adorava encher o corpo e o ser de restos. Do resto de tudo e todos. Comia. Fartava-se nos lugares comuns, nas ilusões do sujeito, nas crenças da imaginação. Devorava crenças e mitos e acreditava. Sempre acreditava. Não sabia em que. Mas isso não importava.
Os discursos de poder tinham um sabor refinado. Comia com singular prazer. De olhos fechados. Degustando cada pedacinho. Salivando o gozo da doutrina, da subserviência. Tradição e moral. Lambia até os beiços. Era o que gostava. E mesmo assim não sabia o motivo. O gosto. Porque gostava mais disto e não daquilo? Nunca entendera claramente como se dava a obtenção do gosto e seus processos de composição. Mas era barata… Grande barata. Imensa. Já os livros… não. Secos demais. Espessos além da medida. Insípidos.
Preferia os doces programas de domingo. Tranqüilidade, passividade. Docilidade. Fantásticos docinhos que saciavam seu prazer. Prazer?
Pelas paredes a opção dos ângulos, das distancias. As visões variadas-alteráveis inusitadas, mas o olho era o chão. Apenas. Pena. Restrição da opção. Opacidade visual. Restrição sensorial. E podia tanto.
Mas não queria. Ou achava que não queria. Vai saber? Era barata. Como ia saber se queria ou não. Livre arbítrio? Ainda não se alimentara de Schopenhauer. Os clássicos eram os piores. Duros para uma mastigação rápida. Degustação imediata. Fast food.
Mas não havia solidão. Havia sim a algazarra. Varias e tantas outras. Roliças e felizes. Iguais e mesmas. Eco. Reflexo. Tantas quantas fossem possíveis ser produzidas. Reproduzidas, conduzidas, definidas. O lixo é fome e come. O lixo é carne e forma. Outro e mesmo rosto-roto, turvo-parvo.
A morte. O fim. Imenso em sua crença não viu, não olhou nem se importou. Enorme sola sob grande pé dos céus a buscou. O corpo. Em uníssono movimento e som interrompeu.

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25
Aug 10

Lados

Walter Mota

Lados
Emprestou-me seus olhos,
foi então que eu vi o dedo apontando pra mim.


25
Aug 10

O moralista

Leonardo Brasiliense

— Tem quantos anos?
— Doze!
— Bonitinha!
— Tá.
— Fosse minha filha, eu endireitava a tapa.
— Vai dar sermão, é?
— Não, mas se fosse filha minha…
— Então acaba rápido, tio, que seu não voltar logo para casa, e com dinheiro, aí sim, o pai me cobre de porrada.


22
Aug 10

Circo

Letícia

Era o palhaço, até então. Chorou quando viu que havia se transformado, naquela noite, graças à esposa, na fatal vítima dum atirador de facas iniciante.

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22
Aug 10

É muito pouco pra se foder tanto – Cap. I

Letícia

Eu trabalho numa locadora. O bom é que as locadoras estão fechando, estão todas se fodendo por causa a pirataria. Mas eu fico feliz, porque o Estado diz que está criando milhões de empregos. É!, milhões. A vantagem no Brasil é que sendo pobre, quando você sai do ensino médio, você vai limpar privada, servir mesas,  trabalhar com telemarketing; enfim, esses empregos que todos amam e disputam com empenho. Tem uma vaga esperando por mim, eu acho.

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22
Aug 10

Serafim Ponte Grande

Laís Azevedo

Trago, aqui, um trecho do livro Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. O romance, cuja escrita telegráfica e o uso do cubismo, dentre outras técnicas, pode ser considerado um dos mais experimentais do século XX. Ler Oswald e os demais modernistas mostra-nos que a prosa concisa e ligeira, que é praticada nos dias de hoje (os micro-contos, nanocontos e, até mesmo, os contos publicados no Twitter), já, na década de 1920, ganhava forma pela pena dos literatos da semana de 22.

Fatigado
Das minhas viagens pela terra
De camelo e táxi
Te procuro
Caminho de casa
Nas estrelas
Costas atmosféricas do Brasil
Costas sexuais
Para vos fornicar
Como um pai bigodudo de Portugal
Nos azuis do clima
Ao solem nostrum
Entre raios, tiros e jaboticabas.

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17
Aug 10

Dia abstêmio

Daniel Rocha

Seu primeiro dia como abstêmio foi um porre.

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15
Aug 10

A Galinha e o Gato – Fábulas de Esopo

Tradução de Alice Dias

Ao ouvir que uma galinha estava adoentada, num ninho, um gato resolveu visitá-la, por simpatia. Após aproximar-se, furtivamente, dela, ele disse: “Como você está, minha querida amiga?” O que eu posso fazer por você? Você precisa de alguma coisa? É só me falar, e eu trarei qualquer coisa do mundo que você quiser. Apenas mantenha a força e não se assuste.”

“Obrigado”, disse a galinha, “Apenas seja bom o suficiente para me deixar, e eu lhe garanto que logo ficarei bem novamente”.

Visitas não convidadas são, frequentemente, mais bem-vindas quando partem.

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14
Aug 10

De mãos dadas é muito melhor

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Por Leonardo Quintela

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a cidade onde vivo é um amontoado de concreto. esculturas abstratas traçam seu contorno e miolo. tudo é muito feio. tiram de seus habitantes a graça do sorriso acolhedor em troca de alguns papéis assinados com firma reconhecida em cartório. mesmo assim, tento manter o antigo hábito de caminhar por suas movimentadas avenidas onde, de vez em quando, deparo com tristes figuras de um ou outro saudosista como eu.

hoje chamei uma garota pra caminhar de mãos dadas pela cidade. tenho certeza que minha impressão da antiga cidade vai mudar. talvez ela não saiba o que dizer, mas já vejo um colorido adiante.

Originally posted 2009-07-24 01:43:54. Republished by Blog Post Promoter