HQs


18
Jun 10

Fábulas

Felipe Crispi

Em Fábulas (Ed. Pixel/ Ed. Panini, 2009 -) uma equipe de peso da Vertigo DC Comics trabalha em uma história em quadrinhos na qual os contos de fadas clássicos transportando para o nosso mundo e transformando-os em algo moderno. Como: Um invasor conhecido como o Adversário dominou um a um os mundos mágicos de origem das Fábulas matando ou escravizando aqueles que ficaram em seu caminho, aqueles que sobreviveram fugiram para o nosso mundo e se organizaram em comunidades de Fábulas a partir de um contrato universal que lhes perdoavam os crimes cometidos no passado para poderem se unir.

Disso nasceu uma cidade comandada por um Rei Cole, mas que é administrado pela Branca de Neve, tem o Lobo Mau como Xerife e todo um elenco de fábulas residentes, como João das Lorotas, Barbazul, Rosa Vermelha, Bruxa da Casa de Doces, Principe encantado, Cinderela, Bela e Fera, Bela Adormecida e muito mais.

Fora o Lobo Mau que pode mudar de forma, as Fabulas que não são humanas vivem em uma fazenda afastada da cidade para não serem descobertas. Fábulas tais como os Três Porquinhos, a família de ursos de Cachinhos Dourados, a Casa com pés de galinha da Baba-Yaga, dragões, gigantes e muitos outros.

A série toda é repleta de referencias literárias. Na forma de narrativa e nas histórias. Às vezes é escrito em versos, às vezes tem uma narrativa épica. E quando por exemplo as fábulas não humanas decidem se revoltar pelo direito de sair da fazenda onde são obrigadas a residir acontece A Revolução dos Bichos. Quando Branca de Neve viaja para um fabuloso reino árabe para alertá-lo do Adversário e tentar uma aliança ela é enganada para ocupar o lugar de uma jovem noiva que deverá passar a noite de núpcias com o sultão e então ser morta ao amanhecer e então passa 1001 Noites narrando as histórias das Fábulas.

Fábulas ganhou até hoje 25 prêmios Eisner (premiação própria de quadrinhos cujo nome é uma homenagem a Will Eisner, um grande artista do quadrinhos que criou linguagens em quadrinhos).


1
Feb 10

A Metamorfose, de Franz Kafka (adaptação de Peter Kuper)

Por Jeffeson Luiz Maleski

O tcheco Franz Kafka (1883-1924) é considerado um dos grandes escritores do século XX, apesar de ter vendido poucos livros em vida e morrer sem ser devidamente reconhecido. Morreu aos 40 anos de idade, de insuficiência cardíaca, enquanto internado em um sanatório para curar-se da tuberculose.

As histórias de Kafka remetem a situações em que os protagonistas vivem um pesadelo, geralmente fantástico, e pouco parecem se importar com isto. Kafka mistura influências judia, tcheca e alemã, permeando os seus escritos com os sentimentos de culpa, impotência e injustiça.

A Metamorfose é uma de suas obras-primas mais conhecidas. O caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda uma manhã como um inseto gigante. Sem buscar explicações lógicas, tanto o autor quanto Gregor e a sua família tentam readaptar suas rotinas conforme a nova situação. Não tanto por um membro da família agora ser um inseto, mas pelo provedor do sustento estar impossibilitado de trabalhar. Várias nuances psicológicas podem ser levantadas (e aplicadas em nossos dias), como a falta de comunicação entre os membros da família, o interesse egoísta em uns se aproveitarem da boa vontade de outros, etc. A preocupação de Gregor com o seu emprego e com o que os outros vão pensar de sua ausência ao invés de se preocupar com a sua estranha mutação chega a ser cômica. Mas a mensagem está dada, a metamorfose de Gregor ocasionou a de todos à sua volta. Vale a pena refletir como isso se aplica em nosso caso.

Peter Kuper é desenhista norte-americano famoso pelas tiras Spy vs. Spy. Já ilustrou outra HQ (História em Quadrinhos) baseada nas obras de Kafka, Desista! (Conrad, 2008) onde são reunidos nove contos do autor tcheco. O seu estilo crítico em preto-e-branco dá um ar ao mesmo tempo sombrio e cult, deixando no leitor o sentimento exato que Kafka quis passar.

A adaptação de A Metamorfose por Peter Kuper é excelente, de leitura rápida, com os devidos méritos próprios. Imagine recontar uma história clássica e ao mesmo tempo dar o tom de crítica atual. Ná página 14, por exemplo, onde Gregor reclama que “É sempre a mesma história, dia após dia… Comendo coisas horrorosas pelo caminho”, Kuper desenha sutilmente o protagonista comendo um hambúrguer com dois arcos em forma de M no fundo. Mais crítico, nem desenhando.


31
Jan 10

“O Cabeleira” – Romance de Franklin Távora em quadrinhos

Por Laís Azevedo

Sempre gostei de ver romances, contos ou poemas adaptados para outra linguagem. No Brasil, a adaptação de clássicos da literatura, principalmente a do século XIX, já havia ocorrido em décadas passadas. Neste decênio, a ideia foi retomada, sendo assim, temos, hoje, um alguns títulos dos romances oitocentistas em HQ. Um deles é O Cabeleira, que foi inspirado no romance homônimo de Franklin Távora.

Távora, escritor nascido no Rio de Janeiro, mudou-se ainda criança para Pernambuco. Ele integra a geração de autores românticos brasileiros. Contista, dramaturgo e romancista, o autor de O Cabeleira ficou famoso também pela contenda que teve com José de Alencar. Távora, em uma de suas críticas, dizia que a literatura produzida no sul do Brasil divergia-se daquela elaborada no Norte. O ataque era direcionado ao autor de Iracema. Basta lembrar que Alencar escreveu romances que procuravam abarcar todas as regiões do Brasil. Franklin Távora acusava-o de não conhecer tais regiões para situar suas obras.

Deixando de lados as brigas entre os dois autores, falemos do romance O Cabeleira. Esse traz a história de dum bandido que apavorava a região de Pernambuco durante século XVIII. José Gomes, o Cabeleira, de fato, existiu, e o enredo do romance de Távora foi inspirada na história desse criminoso. Poder-se-ia dizer que Cabeleira foi o Lampião do setecentos. Seus feitos eram cantados em versos por toda a região. O romancista, inclusive, utilizou esses poemas como base na feitura de sua obra.

Mas falemos, agora, especificamente da HQ, que foi elaborada por três pessoas: Allan Alex, Leandro Assis e Hiroshi Maeda. O primeiro ficou responsável pela arte, Assis e Maeda escreveram o roteiro. Antes de tornar-se um quadrinho,  o trabalho foi redigido, inicialmente, como um roteiro de cinema. A dupla de autores elaborou-o com o intuito de  participar do 8° Laboratório de Roteiros de Cinema do Sesc. O roteiro foi aprovado, os escritores receberam boas críticas para melhorar alguns pontos. Nesse tempo, Porém, eles receberam uma proposta da editora Desiderata para a adaptação dos escritos para o formato de HQ.

O Cabeleira foi uma boa supresa para mim. A arte de Allan Alex, realizada em preto e branco, é bastante competente. Deu para sentir que houve uma boa comunicação entre o trio de autores. Os desenhos coadunam bem com o roteiro que contém os bons momentos da obra de Távora.

Com diálogos interessantes, O Cabeleira, em quadrinhos, é uma boa opção para os que querem conhecer um pouco do romance de Franklin Távora e para os que desejam saber mais sobre a história de José Gomes e seu bando.

Abaixo você confere um poema do século XVIII que inspiraram tanto a criação do quadrinho, bem como a criação do romance.

Fecha a porta, gente
Cabeleira aí vem
Matando mulheres
Meninos também

Fecha pora, gente
Cabeleira aí vem
Fum todos dele
Que alma não tem

Corra, minha gente
Cabeleira aí vem
Ele não vem só
Vem seu pai também

***

Eu matei um,
Meu pai não gostou;
Eu matei dois
Meu pai me ajudou

Lá na minha terra
Lá em Santo Antão
Encontrei um homem
Feito um guaribão
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.