
Por Gabriel Diniz
O lado b da nossa literatura, até agora, trouxe obras do século XIX e do início do século XX que estavam esquecidas. Todos os livros, apresentados nesta coluna do site, enquadram-se no rol de obras pertencentes à escola naturalista. Para variar um pouco resolvi trazer uma obra pautada num viés diferente.
A Família Agulha, escrito por Luís Guimarães Júnior, foi publicado em em forma de folhetim no Diário do Rio de Janeiro. Essa forma de publicação de romances foi muito utilizada no século XIX . Esse modelo, importado da França, consistia em publicar os capítulos duma determinada obra em uma sessão específica do jornal. A prática ajudava a aumentar a venda dos periódicos. José de Alencar, Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, dentre outros, também utilizaram as gazetas da época para levarem ao público os seus trabalhos literários.
Mas no que consiste a obra de Guimarães? O romance humorístico traz à tona a história da família Agulha que é composta por Anastácio — o pai —, Eufrásia — a mãe — e Bernardino — o único filho do casal. Além dessa tríade, o leitor conhece vários tipos da sociedade oitocentista do Rio de Janeiro, tais como: mulheres fofoqueiras, políticos corruptos, jovens interesseiras et cetera. Parece que estou, até mesmo, a falar de nossa sociedade actual. De facto, quiçá esteja, dado que ainda convivemos com figuras desse tipo, sendo nós, também uma delas.
Retornemos ao enredo. Nos primeiros capítulos do livro, Anastácio casa-se com Eufrásia, o mancebo apaixona-se pela moça, graças ao tamanho do pé da jovem. E, é a partir disso, que as aventuras do casal iniciam-se. O senhor Agulha, desde o início, mostra-se totalmente descontrolado. Numa das primeiras confusões que arruma, ele briga com uma de suas vizinhas — uma senhora, cujo hobbie favorito é o de ocupar-se da vida doutros. A contenda com a fofoqueira, põe a família Agulha em maus lençóis, visto que Anastácio pede seu emprego público, pois a mexeriqueira possuía um parente numa posição hierárquica maior que o marido de Eufrásia.
Assim sendo, sem o labor, a família cai na Miséria. Porém, a roda da fortuna gira; Eufrásia recebe uma carta duma de suas amigas, Joaninha Sacramento, cujo marido rico tem verdadeiro amor pela política. Astutamente Anastácio decide tirar provar da situação, e promete fazer com que Leocádio da Boa-Morte — o candidato do senhor Sacramento — consiga eleger-se como um deputado. Para isso, o Agulha angaria uma boa soma de dinheiro para conseguir o maior número de eleitores possíveis. Essa passagem, considero uma das mais interessantes da obra, pois o narrador descreve com maestria a corrupção que acometia as eleições no tocante aos cargos legislativos. A ideia, como bem mostra as cenas da eleição, é a de conseguir fraudar de todos os modos possíveis a disputa eleitoral. Deste modo, grande parte dos que concorriam à “democrática” luta para alçar o cargo de deputado, valiam-se dos meios mais sujos, no intuito de conseguirem a tal almejada cadeira na assembleia. Entretanto, Anastácio decide fugir com o dinheiro que lhe fora confiado, e, desta maneira, parte para a cidade de Macaé junto com a esposa. Por lá fica alguns anos, depois regressa à Corte e apronta outras loucuras, que ganham força com o nascimento de Bernardino.
Após o parto do infante, Anastácio sonha com todos aqueles que ele prejudicara durante a vida, e em seu sonho um sujeito vaticina-lhe que era necessário arrumar um padrinho raro para o garoto; caso isso não fosse feito, a desgraça iria acompanhar a trajectória do menino durante toda a vida. Preocupado com a profecia, o homem parte em busca do padrinho. Acha, por meio de Felisberto — um procurador —, Bernardo, um louco, que já estivera várias vezes internado num hospital de alienados. Isso desencadeia mais problemas ainda, o batizado do infante, i.e, é uma verdadeira loucura.
A prosa de Guimarães, em A Família Agulha, não abre espaços para personagens com densa carga psicológica. Esse aspecto, numa obra em que o autor propõem uma veia humorística não acarreta problemas. Há figuras óptimas como uma mulher que fala todas as vezes sobre seu falecido, outra senhora, Leonarda, sempre está a fazer charadas. Tem também uma cozinheira, que não consegue parar de falar em suas receitas.
As atitudes de Anástácio suscitam o riso a todo momento. Há cenas engraçadíssimas, onde ele faz discursos malucos, tenta abraçar Felisberto a todo momento para demonstrar sua alegria. Com certeza, não podia deixar de ressaltar também os diálogos non sense e hilários que permeiam a obra.
Outra característica que não pode ser deixada de lado aqui, é a crítica mordaz ao Judiciário, e principalmente aos operadores do Direito. Todos os bacharéis no estudo das leis, possuem uma péssima ortografia, não sabem o que fazem. Estão nos cargos da justiça unicamente por indicações.
Destaque também para os nomes. Felisberto, i.e, de feliz não possui nada, na verdade, sua vida torna-se um tormento, graças a Anastácio. Joaninha Sacramento, por exemplo, nada condiz com o seu nome, haja vista que ela leva vários personagens a ruína ao invés da salvação; Bernardino é um desses, que cai nas garras da esperta meretriz.
O narrador, muito bem construído, tal como o que aparece em Memórias de um Sargento de Milícias, é verdadeiro fuxiqueiro. Emite comentários carregados de ironia, e dirige-se em grande parte do livro às leituras. Elemento esse que comprova, como já tem demonstrado diversos estudos dos romances dessa época, que os textos literários eram lidos mormente pelas mulheres.
Para findar, poder-se-ia dizer que relegar a obra de Guimarães é um grande erro. Graças o a trabalho da editora Presença no final da década de 80, a obra pode ser encontrada em alguns sebos. Espero que uma nova reedição seja feita o mais rápido possível. Leitura obrigatória!