Lado B da Literatura


25
Aug 10

O lado B da Literatura Brasileira – Flor de sangue – Valentim Magalhães – Por Gabriel Diniz

19332641Inauguramos com o romance Flor de sangue nossa categoria intitulada de “Lado B” da literatura. A ideia é trazer para o site resenhas e análises de obras que nos manuais de História da Literatura, às vezes, são mencionadas em notas de rodapé.

Seguindo uma linha de estudo tradicional, falemos primeiramente do autor.

Antônio Valentim da Costa Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em 1859; faleceu em 1903. Como grande parte dos escritores oitocentistas, ele também formou-se em Direito. No de 1878, com a ajuda de Silva Jardim, publicou seu primeiro livro, “Idéias de moço”. Afora isso, transitou pelos mais diversos gêneros e exerceceu a crítica literária.

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13
Jul 10

Celeste

imagePor Gabriel Diniz

Infelizmente há obras que foram injustamente esquecidas por grande parte dos estudiosos da literatura brasileira. Uma dessas é Celeste, da escritora Délia (pseudônimo de Maria Benedita Bormann). A autora, nascida no século XIX, foi responsável por escrever seis romances. Todos pautados pela estética naturalista que estava em voga nos últimos decênios do período oitocentista.

Celeste traz para o leitor a história da protagonista de nome homônimo. Seguindo os ditames da escola zolista, Délia busca fazer uma trajetória dos progenitores da moça. Entretanto, o romance abre-se justamente com o término do matrimônio de Celeste com Artur. A jovem decide abandonar a casa do marido e parte rumo ao domicílio da mãe.

Como já foi frisado anteriormente, no segundo capítulo, a narradora conta a história de Cândida e Venâncio Lima, os pais de Celeste. O casamento é um fracasso. Cândida, do mesmo modo que a filha fará anos depois, contrai núpcias a contragosto de seu pai. Todavia, ela não chega a separar-se do marido.

Nos capítulos subsequentes, acompanhamos a trajectória de Celeste desde sua infância. A esperta infanta, que nutre uma admiração especial por sua ama — uma escrava — mostra-se bastante inteligente. Ela ingressa no colégio e após findar os estudos, começa a frequentar os bailes e os demais eventos da corte. Por ser muito bela, desperta logo a atenção de vários mancebos que não perdem a oportunidade de corteja-la Porém, apenas um o interessa; contudo, esse primeiro amor, inicialmente, não é correspondido.  A jovem sofre, entrega-se à leitura de vários romances românticos, sente na pele os infortunios das heroínas.

O tempo passa, Celeste interessa-se por Artur, um moço da Província de Pernambuco, que vai à capital fluminense estudar medicina. O rapaz apaixona-se pela protagonista, os dois noivam-se. Cândida é totalmente contra o casório, entretanto, a personagem-central não dá ouvidos à mãe.

O casamento de Celeste, como já dissemos, não dá certo. O ciúme do jovem médico e suas agressões contra a esposa desmacham o enlace matrimonial. E, é a partir desse ponto, que a narradora aduz a trajectória de Celeste como uma mulher separada do marido.

A protagonista desiludida com o amor decide ter vários amantes, quer usar os homens, tal como esses, segundo ela, usam as mulheres tratando-as como meros objectos de prazer. Assim sendo, seduz diferentes tipos de homens. Cândida, desgostosa das atitudades da filha, a expulsa de casa. Porém, Celeste atribui a sua sensualidade exacerbada à mãe, que também era acometida pelo mesmo vício, haja vista que possuiu um amante durante vários anos. Percebe-se aí o atavismo, fator esse extremamente comum nas obras naturalistas.

Outra característica, também bastante exaltada pelos escritores que escreviam seus romances seguindo a escola naturalista, era o determinismo a que todas as personagens da obra estavam subjugadas. Cândida sofre dos mesmos males de celeste e da mesma patologia do pai, isto é, a líbido em excesso. Males esses que conduzem todos à ruina.

Celeste é uma boa obra, a leitura flui rápido, graças as descrições objetivas de Adélia. É interessante ver a figura feminina na óptica duma autora. Celeste é uma mulher que contrasta com o ideal de mulher da sociedade brasileira da década de 1890; com certeza é esse um dos méritos da escritora. A acertada construção duma personagem que bate de frente com rígidos padrões de conduta que eram impostos as mulheres de seu tempo.

Leitura indispensável para àqueles que querem conhecer a prosa duma das primeiras escritoras brasileiras.

Originally posted 2009-10-14 05:32:32. Republished by Blog Post Promoter


5
Jul 10

Algumas considerações sobre o escritor Coelho Neto

Nas aulas de literatura brasileira do Ensino Médio, os únicos autores representativos das primeiras décadas do século 20 são Machado de Assis, Lima Barreto, Graça Aranha, Monteiro Lobato… Machado encerrava o realismo, enquanto os outros três eram expoentes do pré-modernismo.

Eu sempre tive a certeza de que o Brasil não teve, naqueles anos, apenas estes quatro autores. De fato, houve muitos outros, alguns deles considerados hoje importantes. E mais: houve gente muito mais popular do que estes citados, como Coelho Neto, também autor, segundo Roberto de Sousa Causo, que é formado em letras pela USP, o principal livro de ficção científica escrito no Brasil: “Esfinge”, de 1906.

A discussão sobre os critérios que levam os professores de português a considerar uns e não outros como os mais importantes até poderia gerar polêmica, mas a questão é que todo autor brasileiro respeitado pelos meios acadêmicos tem como foco os problemas sociais. Para os professores de literatura brasileira, escritor brasileiro que não fala sobre as mazelas dos pobres coitados brasileiros não pode ser considerado escritor. Também foi notável a crítica voraz que os modernistas faziam a Coelho Neto. No entanto, em seu tempo, foi um respeitadíssimo autor que chegou à presidência da Academia Brasileira de Letras e foi parte indispensável da cultura e história do Brasil. Foi ele quem deu ao Rio de Janeiro o apelido de “Cidade Maravilhosa”.

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19
Oct 09

A Família Agulha

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Por Gabriel Diniz

O lado b da nossa literatura, até agora, trouxe obras do século XIX e do início do século XX que estavam esquecidas. Todos os livros, apresentados nesta coluna do site, enquadram-se no rol de obras pertencentes à escola naturalista. Para variar um pouco resolvi trazer uma obra pautada num viés diferente.

A Família Agulha, escrito por Luís Guimarães Júnior, foi publicado em em forma de folhetim no Diário do Rio de Janeiro. Essa forma de publicação de romances foi muito utilizada no século XIX . Esse modelo, importado da França, consistia em publicar os capítulos duma determinada obra em uma sessão específica do jornal. A prática ajudava a aumentar a venda dos periódicos. José de Alencar, Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, dentre outros, também utilizaram as gazetas da época para levarem ao público os seus trabalhos literários.

Mas no que consiste a obra de Guimarães? O romance humorístico traz à tona a história da família Agulha que é composta por Anastácio — o pai —, Eufrásia — a mãe — e Bernardino — o único filho do casal. Além dessa tríade, o leitor conhece vários tipos da sociedade oitocentista do Rio de Janeiro, tais como: mulheres fofoqueiras, políticos corruptos, jovens interesseiras et cetera. Parece que estou, até mesmo, a falar de nossa sociedade actual. De facto, quiçá esteja, dado que ainda convivemos com figuras desse tipo, sendo nós, também uma delas.

Retornemos ao enredo. Nos primeiros capítulos do livro, Anastácio casa-se com Eufrásia, o mancebo apaixona-se pela moça, graças ao tamanho do pé da jovem. E, é a partir disso, que as aventuras do casal iniciam-se. O senhor Agulha, desde o início, mostra-se totalmente descontrolado. Numa das primeiras confusões que arruma, ele briga com uma de suas vizinhas — uma senhora, cujo hobbie favorito é o de ocupar-se da vida doutros. A contenda com a fofoqueira, põe a família Agulha em maus lençóis, visto que Anastácio pede seu emprego público, pois a mexeriqueira possuía um parente numa posição hierárquica maior que o marido de Eufrásia.

Assim sendo, sem o labor,  a família cai na Miséria. Porém, a roda da fortuna gira; Eufrásia recebe uma carta duma de suas amigas, Joaninha Sacramento, cujo  marido rico tem verdadeiro amor pela política. Astutamente Anastácio decide tirar provar da situação, e promete fazer com que Leocádio da Boa-Morte — o candidato do senhor Sacramento — consiga eleger-se como um deputado. Para isso, o Agulha angaria uma boa soma de dinheiro para conseguir o maior número de eleitores possíveis. Essa passagem, considero uma das mais interessantes da obra, pois o narrador descreve com maestria a corrupção que acometia as eleições no tocante aos cargos legislativos. A ideia, como bem mostra as cenas da eleição, é a de conseguir fraudar de todos os modos possíveis a disputa eleitoral. Deste modo, grande parte dos que concorriam à “democrática” luta para alçar o cargo de deputado, valiam-se dos meios mais sujos, no intuito de conseguirem a tal almejada cadeira na assembleia. Entretanto, Anastácio decide fugir com o dinheiro que lhe fora confiado, e, desta maneira, parte para a cidade de Macaé junto com a esposa. Por lá fica alguns anos, depois regressa à Corte e apronta outras loucuras, que ganham força com o nascimento de Bernardino.

Após o parto do infante, Anastácio sonha com todos aqueles que ele prejudicara durante a vida, e em seu sonho um sujeito vaticina-lhe que era necessário arrumar um padrinho raro para o garoto; caso isso não fosse feito, a desgraça iria acompanhar a trajectória do menino durante toda a vida. Preocupado com a profecia, o homem parte em busca do padrinho. Acha, por meio de Felisberto — um procurador —, Bernardo, um louco, que já estivera várias vezes internado num hospital de alienados. Isso desencadeia mais problemas ainda, o batizado do infante, i.e, é uma verdadeira loucura.

A prosa de Guimarães, em A Família Agulha, não abre espaços para personagens com densa carga psicológica. Esse aspecto, numa obra em que o autor propõem uma veia humorística não acarreta problemas. Há figuras óptimas como uma mulher que fala todas as vezes sobre seu falecido, outra senhora, Leonarda, sempre está a fazer charadas. Tem também uma cozinheira, que não consegue parar de falar em suas receitas.

As atitudes de Anástácio suscitam o riso a todo momento. Há cenas engraçadíssimas, onde ele faz discursos malucos, tenta abraçar Felisberto a todo momento para demonstrar sua alegria. Com certeza, não podia deixar de ressaltar também os diálogos non sense e hilários que permeiam a obra.

Outra característica que não pode ser deixada de lado aqui, é a crítica mordaz ao Judiciário, e principalmente aos operadores do Direito. Todos os bacharéis no estudo das leis, possuem uma péssima ortografia, não sabem o que fazem. Estão nos cargos da justiça unicamente por indicações.

Destaque também para os nomes. Felisberto, i.e, de feliz não possui nada, na verdade, sua vida torna-se um tormento, graças a Anastácio. Joaninha Sacramento, por exemplo, nada condiz com o seu nome, haja vista que ela leva vários personagens a ruína ao invés da salvação; Bernardino é um desses, que cai nas garras da esperta meretriz.

O narrador, muito bem construído, tal como o que aparece em Memórias de um Sargento de Milícias, é verdadeiro fuxiqueiro. Emite comentários carregados de ironia, e dirige-se em grande parte do livro às leituras. Elemento esse que comprova, como já tem demonstrado diversos estudos dos romances dessa época, que os textos literários eram lidos mormente pelas mulheres.

Para findar, poder-se-ia dizer que relegar a obra de Guimarães é um grande erro. Graças o a trabalho da editora Presença no final da década de 80, a obra pode ser encontrada em alguns sebos. Espero que uma nova reedição seja feita o mais rápido possível. Leitura obrigatória!


12
Oct 09

A Capital

index-beloPor Gabriel Diniz

Para prosseguir com nossa série de resenhas “lado B da literatura brasileira”, escolhemos o romance “A capital”, do mineiro Avelino Fóscolo, escritor nascido no século XIX em Sabará.

Escrito no período de 1902 a 1903, essa obra pauta-se nos ditames escola naturalista que invadiu o Brasil na década de 1870. O livro, apesar de ser pouco conhecido, é importante, principalmente nas Letras mineiras, haja vista que foi o primeiro romance a ter como palco Belo Horizonte.

Sendo assim, o enredo traz à tona a história de Lená, Cunha e Sérgio. Os dois primeiros são casados; Sérgio, por seu turno, é irmão de Cunha. A trama inicia-se com a viagem dos três que partem do Rio de Janeiro rumo a Belo Horizonte. Quando as personagens chegam à capital mineira, o narrador leva o leitor há alguns atrás e demonstra como a construção da cidade interferiu na vida das mesmas. E, é, deste modo, que o leitor acompanha a destruição do pequeno Curral Del Rey — pequena cidade que é destruída para dar lugar ao símbolo do progresso republicano, Belo Horizonte.

Lená, que aparece noutro romance de Fóscolo, deseja avidamente o surgimento e a construção da nova cidade. Já Cunha, um antigo feitor, que no Curral estabelece-se como comerciante, é, tal como sua tríade de amigos, contra a construção da futura metrópole. Os companheiros do comerciante lutam ferozmente para que a construção da capital não dê certo. Após a Debalde  peleja, os amigos mudam-se para Venda Nova. Cunha, no entanto, por pressões de Lená, é obrigado a ficar na cidade que enterra seus ideais e sua concepção de mundo e que o faz ficar doente. Nesse ínterim, Sérgio muda-se para a emergente cidade, e torna-se sócio do irmão.

Lená apaixona-se pelo cunhado, e esse, por sua vez, tenta conquistar Rosinha, a irmã da mulher de seu irmão, que vai para a capital por uns tempos. Sérgio, aproveitando-se da doença de Cunha, e auxiliado por Lená, faz com que o irmão assine alguns papeis, no intuito de construir edifícios para alugar. A ideia, inicialmente, dá certo, os alugueis funcionam bem. Porém, uma crise atinge a cidade e Cunha (que assinara os papéis) fica endividado sem saber. Nesse período, o comerciante morre envenenado, devido a uma confusão de Lená com os remédios. O médico, nas palavras do narrador: um pedante, atribui a morte à uma apoplexia. Deste modo, Lená, apesar da culpa que assola a sua alma, sente que poderá finalmente ficar com Sérgio. Contudo, o rapaz pede Rosinha em casamento. Frustrada, Lená vê que seus sonhos, tal como Belo Horizonte, fracassam.

Como se pode notar neste breve resumo do enredo, percebe-se que a trama é bastante simples. Todavia, Fóscolo consegue descrever com maestria a construção da capital, que no início é aclamada por aqueles que amam o progresso, mas que depois fica às moscas, devido a crise que atinge a cidade.

Interessante perceber que já no início do livro, ao descrever a viagem de trem das personagens, o narrador já aponta os problemas do ideal de progresso que era e ainda é um dos lemas da República. O trem, que revolucionou as viagens no brasil oitocentista, é de péssima qualidade, o estado da ferrovia é deplorável. Desta maneira, tal como o transporte ferroviário, Belo Horizonte, símbolo do progresso, também soçobra-se.

A cidades também são bem representadas pelas personagens. Cunha e seus amigos, por exemplo, da mesma maneira que o Curral Del Rei, são enterrados. O comerciante morre e os outros outrossim encontram destino semelhante. Lená representa a planejada capital de Minas Gerais, que ergue-se tendo como força motriz o ideal positivista do progresso, que no período estava intrinsecamente  ligado à Republica. Nesse sentido, as personagens representam bem o embate entre o velho e o novo. Confronto esse que pode ser lido também como a luta daqueles que gostavam do Império contra os ideais aduzidos pela novo sistema de governo.

O narrador de Fóscolo é bastante pessimista no tocante ao rumo da capital. De facto, outros textos da época demonstram o quão desertas e silenciosas eram as ruas de Belo Horizonte. Aspecto bem diferente de hoje.

É uma boa obra, recomendo-a, mormente, para aqueles que moram em Belo Horizonte ou conhecem a cidade. Contudo, o livro faz-se interessante também para aqueles que gostam da prosa naturalista brasileira.

“A Capital”, pode ser encontrada somente nos sebos. Torcemos para uma nova edição do livro seja publicada.


21
Sep 09

“Mana Silvéria”, de Canto e Mello

ClarissaPor Laís Azevedo

Fico feliz em poder colocar mais uma resenha dum livro do “Lado B” da Literatura Brasileira aqui no site. A bola da vez é Mana Silvéria, romance escrito pelo naturalista Canto e Mello.

Publicada em 1912 a obra ainda seguia a tendência naturalista que tomou conta do Brasil após a segunda metade do século XIX. Sendo assim, o leitor encontra uma grande influência de Émile Zola e Eça de Queiroz, o primeiro o pai do Naturalismo, o segundo seguiu os ditames do estilo durante um bom tempo.

Mana Silvéria inicia-se com a história de um amor proibido que acontece no século XIX. Um padre, cujo nome é Valongo, apaixona-se pela prostituta Joaninha. Desse relacionamento proibido nascem dois rapazes: Júlio e Belisário. O ocorrido é mantido em segredo, pois o clérigo compra uma casa para a rameira para poder continuar com os encontros que a população nunca desconfiou, graças a boa conduta do padre perante a sociedade. Sendo assim, os garotos crescem e decidem, a bordo dum navio inglês, tentar a sorte no Brasil.

Ao chegarem na Corte, os dois mancebos rapidamente encontram empregos. Júlio com dinheiro compra uma fazenda no interior do Rio de Janeiro e se casa. Belisário, por sua vez, tenta a sorte na cidade, e se dá bem; é obrigado outrossim a contrair núpcias depois de ser pego com Joaquina — filha do seu patrão — aos beijos.

Desses matrimônios três crianças nascem. Joaquininha e Mana Silvéria, ambas donzelas filhas de Júlio; e Isidoro — filho de Belisário.

Após alguns anos, Belisário, já comendador e dono do estabelecimento que fora de seu patrão, decide ir para a fazenda de Júlio, pois o irmão encontra-se muito doente. Sendo assim, leva a família e deixa o negócio aos cuidados dos funcionários.

Isidoro e Mana Silvéria apaixonam-se. Porém, os dois são impedidos, pelo menos aos olhos de todos, a prosseguirem com o romance, visto que Júlio e Belisário decidem casar Joaquininha — que não é tão bela quanto a irmão — com o rapaz. Porém, antes do matrimônio ocorrer, Mana Silvéria entrega-se a Belisário numa cabana abandona perto da fazenda.Deste modo, o casamento é feito às pressas, pois Júlio quer ver uma das filhas casadas antes de morrer.

O casamento ocorre, Belisário fica feliz, pois o irmão que morre alguns dias depois, deixa para Joaquininha a maior parte de sua herança. Entretanto, Mana Silvéria e Isidoro não param de se encontrar, os dois sempre saem às tardes para passear a cavalo. Nesse tempo, Joaquinha fica doente, tal como a mãe que perdeu os movimentos da perna. Algum tempo depois Mana Silvéria descobre que está gravida. Isidoro não deseja que ninguém descubra o fato. Desta maneira, a moça em desespero leva o mancebo até o alto de um penhasco e lá tenta convencê-lo a suicidar. O rapaz não aceita a ideia, e depois duma obriga os dois acabam sofrendo uma queda mortal.

O livro, repleto de personagens, que conta a história de uma família marcada por um erro que se origina em Portugal com o amor de padre Valongo e Joaninha. É uma ideia que nasce com Émile Zola, haja vista que o escritor francês  buscou trazer ao longo de vinte obras a história duma família francesa que é atingida pelas diversas patologias sociais. Porém, Canto e Mello, segue essa linha de raciocínio, tentando condensa-la em apenas um livro. E, é por isso que a personagem Mana Silvéria aparece somente quando o livro está a chegar na metade. A trajetória dos vários casais que se formam no decorrer do romance são importantes para que o autor consiga desenvolver os vários preceitos da escola naturalista que se pautava pelas ciências que eclodiram nos oitocentos. Dentre essas teorias, a deterministas foi uma das mais atuantes, e é ela que conduz as personagens à tragédia. É por isso que a paixão proibida que acomete o padre e a prostituta ocorrerá também com os seus netos, ambos não poderiam evitar, haja vista que tudo já estava determinado. Mana Silvéria, por exemplo, carrega no sangue a sensualidade da avó portuguesa. Isidoro herda a covardia do pai. O destino trágico de todos já estava traçado.

Quiçá para aqueles que conhecem bem as receitas da escola criada por Zola poderão adivinhar que o final trágico é inevitável. Porém, esse ponto negativo é minimizado por outros elementos interessantes do texto. As descrições são rápidas, os diálogos interessantes e a percepção acerca da sociedade da época é bastante detalhada. Canto e Mello, tal como fizeram os outros escritores naturalistas, traz à tona a hipocrisia que assola a sociedade e os demais, na óptica da escola zolista, males que acometem o corpo social. Está presente na obra também o sexo, que é descrito de maneira metaforizada. O final outrossim satisfaz os ditames do estilo literário, no qual escritor estava engajado, uma vez que diferente dum herói romântico, Isidoro não quer morrer pela paixão que sentia por Mana Silvéria.

Mana Silvéria é um bom romance que já está esgotado há um bom tempo. É possível conseguir uma cópia num bom sebo.


3
Jul 09

O lado B da Literatura Brasileira – A fome – Rodolfo Teófilo – Por Laís Azevedo

id_portinari_retirantesContinuando nossa série o “Lado B da Literatura Brasileira”, trazemos aqui a obra naturalista A fome, de Rodolfo Teófilo. O escritor, nascido na Bahia, é considerado um dos maiores representantes da literatura cearense. Todavia, seu nome não é muito comum nos manuais de História da Literatura Brasileira. Quando mencionado, na maioria das vezes, os estudiosos abordam apenas seus dados biográficos e explicitam os nomes de algumas obras.

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