Eletricidade

 

Mikhail Mikhaillovich Zoshchenko | Traduzido por Alice Dias | Comentários de Laís Azevedo

Qual é, irmãos, hoje, a palavra da moda no mundo?

Hoje a palavra da moda de todo o mundo é “eletricidade”, claro. Acender a União Soviética com luz é, sem dúvidas, matéria de grande importância. Ninguém pode discutir o quão relevante é isso. Mas esse aspecto tem, neste momento, seu lado negativo. Eu não estou dizendo, camaradas, que a eletricidade custa muito. Custa dinheiro — e isso é tudo. Não, eu estou dizendo algo diferente.

O que eu estou dizendo é isto:

Eu vivia, camaradas, num enorme prédio. Toda a construção era iluminada com parafina. Alguns de  nós possuíam lâmpadas, outros — latas de óleo com pavio. Os mais pobres tinham que se contentar com velas apanhadas na igreja. A vida não era fácil.

E, então, eles começaram a instalar a luz.

O primeiro a recebê-la foi o síndico. Iluminou seu apartamento — e foi aquilo. Ele é um camarada calado, não falou o que pensava. Embora ele tenha agido de maneira um pouco estranha, estava preocupado e a todo tempo assoava o nariz.

Mas ele não deixava-nos saber o que estava pensando.

Veio minha querida esposa, Yelizaveta Ignatyevna Prokhorova. Ela disse que nós deveríamos iluminar nosso apartamento.

“Todos”, ela disse, “estão instalando a luz. O próprio diretor instalou a luz”.

Então — é claro — nós fizemos o mesmo.

Luz instalada, apartamento iluminado — que coisa. Que podridão e sujeira!

Até então, a gente ia para o trabalho pela manhã, voltava à noite, tomava seu chá e ia para a cama. Com a parafina, você nunca via nada. Mas agora, com a eletricidade — você enxerga o papel de parede batendo de encontro à parede e o chinelo de alguém no chão. Vê um percevejo caminhando, tentando se afastar da luz. Um trapo ali, um escarro acolá, um cigarro, uma pulga pulando sobre…

Céus! É o suficiente para fazer você chamar o guarda. Tal visão é triste de se ver.

No nosso quarto, por exemplo; nós temos um sofá. Eu sempre pensei que não era um sofá ruim — bom até demais para um sofá! Durante as noites, eu me sentava nele. Mas agora com esta eletricidade — céus! Um caco de sofá! Partes soltando-se, balançando em direção ao chão, algumas caindo. Como eu podia me sentar num sofá desses? Minha alma protestava.

Não, eu pensava, eu não vivia luxuosamente. Tudo era revoltante de se ver. E tudo estava errado.

Então, vi Yelizaveta Ignatyevna. Ela parecia triste, resmungava para si mesma, enquanto limpava as coisas na cozinha.

“Po quê”, eu perguntei, “você está tão triste, meu bem?”

Ela encolheu os ombros.

“Eu não tenho ideia, meu querido”, ela disse, “que vida pobre eu tenho vivido”.

Eu olho para nossos pedaços e destroços. Nada demais, eu pensei. Podridão e sujeira. Trapos de um tipo e trapos doutro tipo. Todos iluminados com luz, observando a gente nos olhos.

Ficava triste, quando voltava para casa à noite.

Entrava. Acendia a luz. Admirava as lâmpadas e enterrava meu nariz no travesseiro.

Eu pensava, novamente. Peguei meu pagamento. Comprei cal, misturei tudo e mãos à obra. Rasguei o papel de parede, pisei nos percevejos, tirei as teias de aranha, limpei o sofá, pintei e adornei — minha alma cantou e rejuvenesceu.

Eu fui bem. Mas não tão bem. Foi tudo em vão, meus caros irmãos. Gastei dinheiro à-toa. Minha mulher acabou com minha alegria.

“Luz”, minha esposa disse, “faz com que a vida pareça, horrivelmente, pobre. Por quê iluminar nossa pobreza? Os percevejos vão morrer de rir.”

Eu supliquei-a. Eu discuti, mostrei meus argumentos. Não teve jeito.

“Você pode se mudar”, ela disse, “para outro apartamento, pois eu não quero viver com a luz. Não tenho dinheiro para renovar isso tudo”.

Mas como eu poderia me mudar, camaradas, após gastar uma fortuna com o cal? Eu desisti.

Iluminar tudo é muito bom, irmãos, mas não é fácil conviver com isso

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O segredo de Augusta – Machado de Assis – Análise de contos

 

machassis1Machado de Assis, considerado um dos expoentes do realismo brasileiro no século XIX, também produziu obras que tinham fortes traços do Romantismo. Contos fluminenses, lançado em 1869 trouxe à tona sete contos do escritor. A obra é na verdade uma compilação desses escritos do autor carioca, que foram publicados em forma de folhetim nos jornais oitocentistas. Maria Marta de Senna (2006) aponta que o livro não era de um novato no mundo das letras, entretanto, foi a partir desse que Machado aventurou-se pela primeira vez na prosa de ficção. Por ser uma obra de estréia, o leitor não encontrará em Contos Fluminenses a força e a complexidade psicológica das personagens e narradores dos contos reunidos na obra Histórias sem data, publicada quinze anos depois. Todavia, nesse seu primeiro trabalho em prosa Machado já começava a delinear seu estilo. Sendo assim, no conto O segredo de Augusta, notamos algumas passagens recheadas de ironias e críticas à sociedade fluminense, que são desferidas tanto pelo narrador como pelas personagens.
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Análise de conto: “O caso da vara”, de Machado de Assis.

 

morte_cansada_01Por Laís Azevedo

“O caso da vara”, conto de Machado de Assis, publicado no jornal Gazeta de Notícias em 1891, reeditado em 1899 no livro Páginas recolhidas, traz à tona a história da personagem protagonista Damião, um mancebo, que devido a falta de vocação para o clero, foge do seminário, e, deste modo, abriga-se na casa da viúva Sinhá Rita.

Como sugere o narrador e os diálogos que se dão entre as personagens, Rita possuí uma estreita ligação, isto é, um namoro às escondidas com João Carneiro, o padrinho do jovem. Sendo assim, ela pede para que o namorado convença o compadre a aceitar o filho em casa. Neste ínterim, temos outra personagem crucial na narrativa, Lucrécia, uma franzina escrava de onze anos, que juntamente como outras moças, toma aulas de renda com a senhora, que é outrossim sua dona. Durante a estadia na casa, o rapaz, depois de contar algumas anedotas para a Sinhá e para as díscípulas, notou que a menina, ao escutar uma das piadas, deixou a tarefa de lado e começou a rir. A viúva, com uma vara, ameaçou a pequena que tinha descuidado do bilro. A compleição física da jovem, a tosse para dentro, bem como a advertência de Rita, fizeram com que Damião sentisse pena de Lucrécia, assim sendo, ele decidiu apadrinhá-la. Num outro dia, o moço, a pedido da senhora, contou outra piada. Neste viés, o mancebou, após de atender a solitação, observou se a pequena escrava havia rido, notou que não, viu que a garotinha quedou-se calada, ela estava concentrada em seu afazer. Destarte, imaginou que se ela tivesse dado uma alguma gargalhada, teria feito isso para dentro, tal como procedia quando tossia. Depois desse acontecimento, durante a noite, ele recebeu a notícia de que o pai não lhe aceitaria em casa. Porém, a viúva decidida ajudá-lo, tomando o negócio como dela, ordenou que João Carneiro retornasse a casa do pai do rapaz para tentar mais uma vez fazer com que a situação fosse resolvida. Em seguida, notou que Lucrécia não havia terminado o trabalho. Isso fez com que a Sinhá ralhasse com a menina, que após suplicar para não ser castigada, fugiu pela outros cômodos. Porém, a senhora agarrou-a, e puxando a orelha escrava, levou-a até até sala. Não querendo soltar a menina, pediu para que Damião pegasse a vara. Ele numa grande indecisão, ouvindo pedido de ajuda da jovem, agarrou o instrumento e entregou nas mãos de Rita.

Com base na breve descrição do enredo que foi explicitada acima, podemos realizar uma análise mais elaborada acerca do conto.

Primeiramente falaremos da personagens. A personagem central, como já fora dito, é Damião, ele está no cerne dos conflitos principais da narrativa. Já o pai do mancebo, poderia ser enquadrado como o antogonista da história. Apesar dele não contar nem ao menos com um nome, e nem com uma descrição física elaborada — o que se justifica, uma vez que o conto é um gênero onde a história deve ser célere —, nota-se facilmente que ele se opõe ao protagonista, uma vez que sua ação atrapalha o jovem a voltar para casa. Todavia, não poder-se-ia afirmar que ele seja o vilão da história. Como personagens secundárias, temos Sinhá Rita, João Carneiro e Lucrécia, essas, como bem frisa Cândida Vilares Gancho, na obra Como analisar narrativas, “são personagens menos importantes na história, isto é, que têm uma participação menor ou menos freqüente no enredo; podem desempenhar o papel de ajudantes do protagonista ou do antagonista, de confidentes, enfim, de figurantes.” . A discípulas da viúva devem ser compreendidas com personagens planas, mais especificamente de tipo, dado que são pouco complexas.

Cabe-nos agora tecer algumas considerações sobre esse narrador machadiano que trouxe à baila a história de Damião. Como poder-se-á notar, é um narrador em terceira pessoa onisciente e onipresente, haja vista que conhece tudo sobre a história, e que, além disso, está presente em todos os lugares da mesma.
No tocante ao tempo, o leitor percebe que Machado lançou mão basilarmente do cronológico. Os fatos que permeiam o enredo são narrados de maneira linear, em outras palavras, acontecem de maneira natural, partem do início para o final. Todavia, numa certa parte do conto, mais especificamente no início, Damião realiza uma digressão, onde ele se lembra de como foi levado ao seminário pelo padrinho. Calcando-se nisso, notar-se outrossim o tempo psicológico, que também está inserido na narrativa. Ademais, vale ressaltar que a história se passa no século XIX em 1850.

Isto posto, partiremos para as relações entre literatura e história que estão pautadas em “O caso da vara”.

O conto se passa no período imperial brasileiro, segundo reinado, onde a escravidão ainda estava em voga. Vale lembrar que o texto foi levado ao público em 1891, três anos após a abolição do regime escravocrata no Brasil. Porém, faz-se importante destacar também, que Machado vivenciou grande parte do período oitocentista, ele teve a oportunidade de acompanhar o longo processo, que se deu através de idéias, pressão estrangeira — da Inglaterra — e leis, que foram responsáveis pela derrocada do supracitado regime no Brasil. Baseando-se nisso, é inegável que o texto de Machado está ligado a história. e conseqüentemente a um tempo que ele viveu. Contudo, uma questão nos vem à mente: como o escritor conseguiu exprimir o universal no seu conto?, levando em consideração que ele trouxe para o leitor o tema da escravidão, que como se sabemos, no Brasil e em qualquer local do mundo, possuiu características bastante peculiares. Esse problema pode ser elucidado se utilizarmos como referência o excelente ensaio de Antonio Candido, Esquema de Machado de Assis. Como bem salienta o crítico, um dos temas recorrentes na obra machadiana é a transformação do homem em objeto do homem. Um ser que escraviza outrem, está justamente fazendo isso, utilizando o outro como um mero objeto. É essa a relação que se dá entre Rita e Lucrécia, e também entre Damião e Rita, uma vez que o moço utiliza-se da influência que a senhora tem mediante ao padrinho para conseguir seu objetivo que é o de voltar para casa; dessa maneira também acaba envolvendo Lucrécia. O mancebo que teve a oportunidade salvar a pequena escrava da punição, opta por não fazê-lo, visto que se ele intercedesse em prol da menina, com certeza ele seria o alvo da vara, que provavelmente o pai ou alguém do seminário, e que sabe até ambas as figuras, iriam desferir em seu corpo. Ora, sendo assim, vemos que este tema abordado pelo escritor fluminense é universal, ou seja, não está ligado a particularidade de um povo ou uma nação; é algo que não está preso às correntes de determinada época ou lugar.

“Toque bêbado o piano como um instrumento de percussão até os seus dedos começarem a sangrar” – Charles Bukowski

 

charles-bukowski“Toque bêbado o piano como um instrumento de percussão até os seus dedos começarem a sangrar” é uma compilação de poemas de Charles Bukowski. O escritor norte-americano lança mão dos versos livres para trazer para os leitores temas como: mulheres e sexo, aposta e jogos, álcool, cigarro, sua vida como poeta e a vida de outros escritores. Nesse livro o leitor encontrará drogados, bêbados e inúmeros personagens que estão situados na terceira margem do rio.

Bukowski pode ser considerado um tipo de autor filósofo-sátiro que frequentemente escreve sobre o lado cruel e sujo da vida.

Para os que conhecem apenas obra em prosa do velho Buk, vale a pena também dar uma conferida em seus poemas.