Presságio

Medeiros e Albuquerque | Comentários por Laís azevedo

Noite. Estávamos ambos à varanda…
A doce voz de Rosa
num arrulho de amor, tremente e branda
murmurava uma súplica extremosa…

Beijamo-nos a medo,
furtivamente, como namorados.
Depois quase em segredo,
entre os protestos mais apaixonados,
Rosa, a sorrir, falou-me em casamento.

Fitei seus belos e gentis contornos,
tendo seu corpo do meu corpo junto,
Ia dizer-lhe: “sim”… Nesse momento,
erguendo os olhos para o firmamento,
vi da lua minguante os finos cornos…

Vi… tratei logo de mudar de assunto.

Comentários:

Interessante ver nesse poema de Medeiros e Albuquerque o tom cômico que o poeta emprega na construção dos versos. O uso desse humor difere-se totalmente da poesia, geralmente lúgubre, que marcou boa parte da obra desse autor que é considerado um pré-simbolista.

O primeiro verso, bastante sintético no que tange ao espaço, situa o casal que dará um beijo às escondidas. Essa primeira estrofe, que prepara um tom de mistério, salta aos olhos do leitor que pensará que os versos de “Presságio” falarão, unicamente, dum amor nos moldes românticos.

A segunda estrofe explicita que trata-se dum caso, de facto, bastante escondido que ainda não se tornou um namoro. Na estrofe subsequente, o eu-lírico seduzido pelas palavras e pelo belo corpo de Rosa (nome que coaduna bem com a sedução que é proposta no início dos versos) pensa em desposá-la. Porém, ao ver a lua que lhe serve de presságio, isto é, alerta-o para uma possível traição, ele desiste de contrair núpcias.

O verso final, um verso branco, dá todo o tom de comicidade ao poema.

Análise do poema – “A Virgem Maria”, de Manuel Bandeira

berggy-oga-2Por Laís Azevedo

Nascido em 1886 no Rio de Janeiro, Manuel Bandeira é considerado pelos estudiosos da Literatura Brasileira, um dos maiores expoentes do Movimento Modernista de 1922. O supracitado movimento, no tocante a poesia, foi responsável por romper com os padrões de rimas e métrica que pautaram diversos movimentos poéticos ao longo da história. Em 1930, Bandeira, publicou Libertinagem. Com maestria o poeta incorporou nos poemas que compõem a obra os ideais modernistas. No livro, a versificação tradicional cede espaço ao verso livre, e o cotidiano é trazido à tona de forma brilhante com bastante ironia.

O poema escolhido para a realização deste trabalho faz parte de Libertinagem. A Virgem Maria foi escrito em 1926, seus versos elaborados de maneira livre, exprimem a proximidade do poeta com a morte. A morbidez pode ser considerada um dos temas basilares da poesia bandeiriana, e sua presença possuí relação intrínseca com a tuberculose que o acometeu em 1904. Durante vários anos, Bandeira, foi desenganado por uma miriade de médicos. Devido a essa enfermidade ele chegou a viajar para outros locais em busca de climas mais propícios para curar a doença.

Virgem Maria, escrito em primeira pessoa, traz em seu primeiro verso, “O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de S. João Batista.” Como é possível notar, o poeta cita vários profissionais, que ao longo do poema, estão ligados ao sepultamento do narrador. Primeiramente, temos a figura do oficial de registro civil, a este o enterro de alguém é, de certo modo, algo inerente à sua profissão, haja vista que, a ele é incumbido o ato de registrar quem nasce e quem morre. Ao administrador do cemitério, o falecimento de alguém possuí relevância inegável, não apenas pelo fato de ter que administrar o local de enterro. Sua importância pode ser evidenciada em um sentido oneroso, uma vez que, existem taxas que são cobradas para sepultar as pessoas. Ao citar o coletor de impostos e o mordomo da Santa Casa, é possível notar que o poeta utilizou-se da ironia, isso se evidencia fortemente nos versos subseqüentes. A explicação do uso desse tropo é facilmente entendida se pensarmos que o coletor de impostos só cobra tributos de alguém ao vivo, mesmo assim ele é uma das figuras que enterram o narrador. Já o Mordomo, nomenclatura antiga que era utilizada para designar os diretores responsáveis pelo serviços de todo o hospital, auxilia os outros no enterro. Ora, se analisarmos bem, era dever deste profissional tentar organizar sua equipe da melhor maneira possível para salvar a vida dos pacientes.

Destarte, como vemos nos versos que vão do dois até o oito, todos os sujeitos mencionados anteriormente empreendem um esforço hercúleo para sepultar o eu-lírico, dado que, recorrem não apenas a enxada e a pá, utilizam-se também dos dentes e das unhas para cavar uma cova, como nos diz o verso seis, “mais funda que o meu suspiro de renúncia.” Logicamente percebemos que Bandeira recorreu a metáfora para elaborar esses versos, uma vez que, os atos empenhados pelos profissionais citados não necessariamente se dão na abertura real da sepultura, ou de um buraco propriamente dito, mas sim na maneira que todos estas pessoas desenganaram o narrador através de outro atos que são inerentes a profissão que cada um desempenha. Analisando por este viés, fica fácil compreendermos que a sepultura não precisa ser interpretada como sendo necessariamente física. Mas esta pode estar no íntimo do narrador, ou seja, o sepulcro na verdade estaria calcado no fato da solidão e angústia que ele sente por estar sendo “enterrado” por estes profissionais.

Nos versos seguintes ele é finalmente sepultado. Para cobrir o sepulcro são utilizadas as Tábuas da Lei. Eis que nos surge a seguinte indagação: teria o indivíduo transgredido algum dos princípios estabelecidos no decálogo? Talvez sim, se pensarmos que em uma das Tábuas que é dedicadas ao amor a Deus, ele no momento de sua doença, poderia ter negado a existência do ser supremo. Já na segunda Tábua dedicada ao amor ao próximo, não fica explicito no poema, se o sepultado violou ou não uma das normas.

Depois de se ser sepultado, como poder-se-á notar no poema, ainda vivo, ele escuta a vozinha da Virgem Maria. A mesma, em forma de imagem, é comumente colocada em cima de sepulturas. A santa viola o silêncio do túmulo e diz com sua vozinha que “fazia sol lá fora.” Em seguida, fala “i n s i s t e n t e m e n te”, repetindo que havia sol lá fora. Analisando os versos, perceber-se-á que o uso do diminutivo empregado no substantivo “voz” denota certa brandura. Já o soletramento da palavra “insistentemente”, ajuda a frisar para o leitor a idéia de que o sol estava presente lá fora. Como vemos, o poeta utilizou de uma metáfora bem construída, pois a frase “fazia sol lá fora”, na verdade indica que ainda existia vida.

Analisando todos os versos de A Virgem Maria, concluímos que, Bandeira, consegue transmitir de maneira surrealista, por meio de metáforas bem elaboradas, como é o sentimento de ser desenganado e enterrado. Enfim, ele transmite qual é a sensação de sentir-se sem esperanças em relação a vida. Os versos finais do poema, apesar de nos trazerem que ainda havia uma chance de vida para o indivíduo, essa já não é eficaz, pois a Virgem Maria diz no pretérito imperfeito do indicativo que “fazia sol lá fora.” As palavras da santa ajudam a reforçar também que mesmo com chances de viver ele se deixou vencer, ou seja, o cidadão realmente não estava interessado em viver pois ficou inerte enquanto todas as pessoas que ele cita o “sepultavam.”

O poema conta com quatorze versos. Além disso, poder-se-á observar que, em A Virgem Maria, não existe nenhum tipo de pontuação a partir do segundo verso até o restante do poema, a ausência desta é totalmente proposital. O poeta utilizou sabiamente o recurso, pois ao lermos o texto, ficamos com falta de ar. Além disso, somos invadidos por um grande desespero. Estas duas emoções, causadas graças a falta de pontuação, conseguem transmitir de maneira magistral os sentimentos de ser enclausurado vivo em uma sepultura.

No tocante às figuras de linguagem, Bandeira recorre a anáfora. Nos versos três, quatro e cinco, ela é usada através da preposição “com”, que enfatiza o ato de sepultar o indivíduo, e não apenas faz isso, pois este recurso também ajuda a criar uma sonoridade que se encaixa perfeitamente ao ritmo do poema .

Dos tropos mais marcantes que se engendram nos versos, podemos citar a metáfora – que como vimos anteriormente é amplamente utilizada – e a ironia que se dá principalmente no primeiro verso.

Mesmo tendo sido construído com base nos pilares da versificação livre, Bandeira não abandona em certas partes do poema a rima, que em A Virgem Maria adicionam uma sonoridade especial ao ritmo. Os versos livres não necessariamente rompem com as rimas, como elucida de maneira brilhante, Antonio Candido, em sua obra Estudo analítico do poema, ele diz que “no modernismo a rima nunca foi abandonada. Mas os poetas adquiriram grande liberdade no seu tratamento.”

Para findar esta análise. é de suma importância ressaltar que Virgem Maria tem como características precípuas, as metáforas acerca da morte, ironia, versos livres e. por fim, a desesperança em relação à vida. Estes são os fatores cruciais que nos levam um entendimento maior da obra. Porém, apenas estes, como foi demonstrado, não seriam suficientes caso não tivéssemos recorrido ao contexto de como e quando o poema foi produzido.

Análise de três poemas sobre Ouro Preto

Aline Starling

 “Ouro Preto”, de Manuel Bandeira

Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto Del-Rei, para a gloria do imposto.

Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras… Templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agencia postal era a Casa de Entrada…
Este escombro foi um solar… Cinza e desgosto!

O bandeirante decaiu – é funcionário.
Ultimo sabedor da crônica estupenda,
Chico Diogo escarnece o ultimo visionário.

E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão, lavrada como renda,
- Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!

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É ela! É ela! É ela! É ela!

Álvares de AzevedoPicou,_Henri_Pierre_-_La_Muse_s'amuse_-_19th_century

Álvares de Azevedo, é, sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Na segunda parte de sua obra Lira dos vinte anos, ele ironiza todo o romantismo da segunda geração brasileira, valendo-se de ironia, sarcasmo e bastante deboche. O poema “É ela! É ela! É ela! É ela!” mostra bem essa faceta humorística do poeta.

É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi… minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas(1) onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

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Análise do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira

Hellen Freire Silva

No início da Semana da Arte Moderna, um grupo de artistas que sentiam a necessidade de abandonar os antigos valores clássicos, sobretudo, a estética antiga confrontaram os valores parnasianos que se fundamentavam na valorização da estética e da perfeição. A proposta deste grupo de artista era dar liberdade aos poetas, escultores, pintores e músicos, a fim de que arte brasileira não buscasse modelos estrangeiros, mas sim, valorizasse a própria cultura brasileira. Além disso, a Semana da Arte Moderna propunha o esclarecimento da identidade nacional, bem como, o reconhecimento da liberdade de expressão.

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A efemeridade da vida em Eugênio de Castro e Gregório de Matos

Lais Azevedo

“A sombra do quadrante”, de Eugênio de Castro.

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre.

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida
Tão doidas ambições, tanto ódio, tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa. Continue reading

Análise dum soneto de Álvares de Azevedo

De Álvares de Azevedo – Breve análise feita por Laís Azevedo

Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio enconsto
Tento o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!

Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já na vive!

Comentários:

Álvares de Azevedo, romântico brasileiro influenciado por Byron, Musset e outros que sofriam do chamado “mal do século”, talvez, pode ser considerado um dos poetas mais notáveis da história da literatura brasileira. O mancebo, que faleceu jovem, deixou obras de grande valor. É por isso que trazemos aqui este Soneto que integra a obra Lira dos Vinte Anos.

Antes de mais nada, eu gostaria de discorrer um pouco sobre os aspectos formais do poema. Assim, o primeiro ponto que tocarei é a forma do soneto. Não custa nada repetir que esse é formado por dois quartetos e dois tercetos, ou duas quadras e dois tercetos, enfim, dá no mesmo. Pois bem, esse tipo de soneto foi criado por Petrarca, poeta classicista do século XVI. Essa disposição de versos ficou tão famosa, que foi adotada até mesmo pelos românticos. Digo “até mesmo”, pois como se sabe, o movimento Romântico buscou romper com a tradição clássica de poética. No entanto, como se pode ver essa quebra com as regras greco-romanas não foi total; o uso da forma fixa, o soneto, é um bom exemplo disso.

Todos os versos são compostos por 10 sílabas poéticas, ou seja, são decassílabos. O uso desse tipo de metro foi comum na poesia romântica brasileira; padrão que posteriormente foi quebrado pelos poetas parnasianistas, esses criaram, mormente, sonetos utilizando versos alexandrinos, isto é, os versos de doze sílabas. O uso de 10 sílabas é interessante, pois não é um aspecto que está apenas enfeitando o poema. Um leitor astuto notará que os decassílabos encaixam-se bem na proposta do tema abordado pelo sujeito-lírico.

Falando em sujeito-lírico, faz-se importante ressaltar que ele nos fala em primeira pessoa. A utilização do “eu” é importante para um poema, cujo tema é o sofrimento pela perda do amor duma mulher. A primeira pessoa permite, ao meu ver, uma confissão maior e mais apurada do estado da alma do eu-lírico. Nesse caso, como já disse, ela se adequa bem ao soneto.

Você deve estar se perguntando sobre o uso do decassílabo e sua ligação com tema. Versos com um número de sílabas maiores permitem um andamento mais lento. Ora, veja bem, a ideia central do poema é  a de expressar, pois, o estado deplorável físico, bem como psicológico em que o eu-lírico encontra-se. No terceiro verso da segunda estrofe, o sujeito-lírico diz: “O corpo exausto que o repouse esquece…”. Os versos de 10 sílabas, devido ao seu andamento mais vagaroso, expressam bem a fadiga que acomete o mancebo apaixonado.

Outro ponto que não deve ser ignorado é o de como o poeta trabalha esse amor perdido. Freud, em seu texto “Luto e Melancolia”, expõe que a perda de um amor iguala-se, dum certo modo, à morte física duma pessoa. O estado de luto, onde a tristeza prevalece, difere-se do estado melancólico, uma vez que esse último é encarado pelo psicanalista como uma patologia. Pelo discurso do eu-lírico no decorrer dos versos, percebe-se que o abandono de sua amada, leva-o para um estado que beira a morte, visto que sua pele torna-se pálida (primeiro verso da quadra inicial), descorada tal como a dum cadáver.

O estado de espírito do eu-lírico está mais do que explicito; basta você ler, por exemplo, os versos finais dos dois quartetos. Entretanto, ele tenta abandonar a tamanha tristeza que transborda em sua alma; como? Dê uma olhada no último terceto. Num tom imperativo vemos que o poeta pede esperança, para isso ele lança mão do modo imperativo do verbo “dar”. A ordem continua também no segundo verso da estrofe final, dado que há a presença do verbo “volver” no modo imperativo. Saliento também o uso das exclamações, essas reforçam o tom de comando e o desespero pela volta da amada.

Não poderia de deixar de falar, antes de findar meu comentário, sobre o uso da metáfora que está presente no verso “Surdo agonia o coração fenece” e “E tenha os olhos meus na escuridade”. O tropo, que foi bem empregado por Azevedo, tem como função basilar neste soneto, reforçar a ideia de morte e de desespero do sujeito-lírico.

Por fim, digo que este soneto traz à tona a ideia do amor frustrado, um amor que quando não se realiza sempre deixa o poeta a sofrer, a querer a morte, ou a deixar a sua alma ser apoderada por um estado semelhante ao perecer.

Belo poema, belo poema.

“O último poema” – uma análise de um poema de Manuel Bandeira

Laís Azevedo

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos in-
[tencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais
[límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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“Violeta”, de Casimiro de Abreu – Comentários por Laís

wiw06Comentários por Laís Azevedo

Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
— Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti — violeta!

Tu és formosa e modesta
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais que do que às rosas.

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores…
— Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar dos teus amores

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
— Dá-me o teu mel — violeta!

Comentários:

Trago-vos mais um belíssimo poema de Casimiro de Abreu. Composto utilizando em todos os versos seis sílabas, o eu-lírico traz à tona, como bem frisa o crítico Antonio Candido,  em Formação da Literatura Brasileira: Momentos decisivos, “a teoria burguesa do amor romântico”(p. 513). Essa concepção de amor possuia como característica basilar o uso de versos — no caso da poesia — que deixasse nas entrelinhas o amor carnal. Ora, sendo assim, o poeta recorria a imagens, palavras mais singelas para atenuar as características inerentes a sensualidade. Vejamos no poema:

“O nectar dos seus amores”; qual néctar? O beijo? Sim, pode ser. O fluído dos corpos que eclodem numa relação sexual, por que não?

Reforço minha ideia, explicitada anteriormente, lançando mão doutro verso. Ei-lo:

“Dá-me o teu mel — violeta!”; novamente a ideia do mel, suco saboroso e doce, que é pedida pelo sujeito-lírico usando o presente do imperativo, isto é, uma ordem! Acredito que o mel esteja relacionado outrossim a questões eróticas.

Para findar,  ressalto que como já fiz anteriormente, quando comentei outros poemas de Abreu, desejo mostrar que a “ingenuidade” que é atribuida ao poeta não está presente em todos os seus versos. Sendo assim, não podemos admitir as generalizações que são impostas a esse romântico.

O caixão fantástico

sphoffPor Augusto dos Anjos

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio…

Era tarde! Fazia muito frio,
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando seu passeio!

Comentários – Por Laís Azevedo

Trazemos mais um poema de Augusto dos Anjos, um dos maiores expoentes da literatura brasileira.

Em “O caixão fantástico” o eu-lírico augustiano coloca-se como um espectador que vê um féretro a passar pela rua. O ataúde desperta no sujeito-lírico diversas visões fantásticas. Interessante ver como o poeta lança mão dum grande nome da literatura alemã, o escritor Hoffmann, que ficou conhecido por escrever narrativas fantásticas. Um dos contos desse autor germânico foi utilizado por Freud para explicar as questões inerentes ao “Estranho familiar”.

Os restos mortais confusos dentro do esquife assemelham-se ao pensamento do eu-lírico, que como ele mesmo nos diz, está num estado de desordem. E, do mesmo modo que o caixão celeremente passava pela rua, as ideias do sujeito-lírico augustiano também transcorriam lestamente pelo cérebro.

Nos últimos versos, é trazido à baila a tarde fria que coaduna com o gélido estado que morte suscita nos corpos.