A primeira vez que te vi,
Era eu menino e tu menina,
Sorrias tanto… Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina…
Originally posted 2009-05-20 02:57:11. Republished by Blog Post Promoter
A primeira vez que te vi,
Era eu menino e tu menina,
Sorrias tanto… Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina…
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A Harpa
Prende, arrebata, enleva, atrai, consola
A harpa tangida por convulsos dedos,
Vivem nela mistérios e segredos,
É berceuse, é balada, é barcarola.
Harmonia nervosa que desola,
Vento noturno dentre os arvoredos
A erguer fantasmas e secretos medos,
Nas suas cordas um soluço rola…
Tu’alma é como esta harpa peregrina
Que tem sabor de música divina
E só pelos eleitos é tangida.
Harpa dos céus que pelos céus murmura
E que enche os céus da música mais pura,
como de uma saudade indefinida.
A cana cortada é uma foice.
Cortada num ângulo agudo,
ganha o gume afiado da foice, um dar-se
mútuo.
Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de
cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.
A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado
(então) é vírus ou vacina.
Medeiros e Albuquerque | Comentários por Laís azevedo
Noite. Estávamos ambos à varanda…
A doce voz de Rosa
num arrulho de amor, tremente e branda
murmurava uma súplica extremosa…
Beijamo-nos a medo,
furtivamente, como namorados.
Depois quase em segredo,
entre os protestos mais apaixonados,
Rosa, a sorrir, falou-me em casamento.
Fitei seus belos e gentis contornos,
tendo seu corpo do meu corpo junto,
Ia dizer-lhe: “sim”… Nesse momento,
erguendo os olhos para o firmamento,
vi da lua minguante os finos cornos…
Vi… tratei logo de mudar de assunto.
Comentários:
Interessante ver nesse poema de Medeiros e Albuquerque o tom cômico que o poeta emprega na construção dos versos. O uso desse humor difere-se totalmente da poesia, geralmente lúgubre, que marcou boa parte da obra desse autor que é considerado um pré-simbolista.
O primeiro verso, bastante sintético no que tange ao espaço, situa o casal que dará um beijo às escondidas. Essa primeira estrofe, que prepara um tom de mistério, salta aos olhos do leitor que pensará que os versos de “Presságio” falarão, unicamente, dum amor nos moldes românticos.
A segunda estrofe explicita que trata-se dum caso, de facto, bastante escondido que ainda não se tornou um namoro. Na estrofe subsequente, o eu-lírico seduzido pelas palavras e pelo belo corpo de Rosa (nome que coaduna bem com a sedução que é proposta no início dos versos) pensa em desposá-la. Porém, ao ver a lua que lhe serve de presságio, isto é, alerta-o para uma possível traição, ele desiste de contrair núpcias.
O verso final, um verso branco, dá todo o tom de comicidade ao poema.
Comentários:
Oswald de Andrade é, com certeza, um dos poetas mais brilhantes que já surgiram no panorama literário brasileiro. ícone do Modernismo que eclodiu na década de 1920, o poeta e prosador, alicerçado pela ideias do aludido movimento, rompeu com as tradições desenvolvidas nos oitocentos brasileiros. Assim, a poesia brasileira ganhou novas maneiras de ser produzida no tocante à forma e no que tange ao conteúdo. Logicamente, houve uma retomada de alguns elementos que foram importantes no Romantismo, tal como, por exemplo, a busca por uma produção literária que apresentasse características nacionais. No caso específico de Oswald de Andrade, o poeta não ignorava também as influências oriundas de fora; porém, essas deveriam ser utilizadas para romper com o que, como já dissemos, estava sendo produzido por aqui.
Os versos de “Vício da fala” são um bom exemplo disso. O eu-lírico traz à baila, de maneira sintética, valendo-se duma linguagem simples (sem os adornos, por exemplo, da poesia parnasiana), um poema que versa sobre as relações sociais que permeavam e até hoje ainda permeiam o Brasil.
Desse modo, nos cinco versos, o poeta elenca a forma popular e culta de vocábulos da língua portuguesa. Por meio da supressão dos verbos, ele vai aos poucos aproximando esses dois registros da língua, que de fato estão, no dia a dia, convivendo lado a lado. No terceiro verso, pior e pió estão colocados estrategicamente lado a lado. Em seguida, nos versos quatro e cinco, o poeta, valendo-se do verbo “dizer”, vai novamente afastando os dos modos de pronunciar as palavras. E, no findar do poema, ele quebra com a série de anáforas, e fecha com “E vão fazendo telhados”, que remete à classe de trabalhadores que laboram nos serviços ligados à construção civil. Afora isso, tem-se também nesse último verso a idéia da urbanização que já, nos novecentos, estava aos poucos consolidando-se.
Em seis versos ágeis, o poeta conseguiu falar das diferenças que se dão na língua portuguesa falada no Brasil, por meio de uso de vocábulos ignorados nos movimentos poéticos anteriores. Ademais, introjetou elementos do cotidiano em sua poesia e de maneira sucinta, soube mostrar as diferenças que se dão, pelo meio do idioma.
Excelente poema!
CAMÕES
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma.
Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
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Originally posted 2009-07-10 02:55:45. Republished by Blog Post Promoter
Florbela Espanca | Comentários de Laís Azevedo
Luar! lírio branco que se esfolha…
Neve, que do céu anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida…
Comentários:
Florbela Espanca, poetisa que suicidou-se aos 36 anos, deixou belos poemas; esses foram durante um bom tempo ignorados pelos leitores e pela crítica. Todavia, como se sabe, o talento de Espanca não passou despercebido. E, é por isso que selecionei esse pequeno poema.
“Num postal” traz a lume quatro versos em que o sujeito lírico nos passa, por meio de metáforas, decassílabos e eneassílabos, a imagem duma noite de luar. O uso duma quadra dá a sensação ao leitor de estar vendo uma fotografia. Poder-se-ia dizer que graças a essa quantidade reduzida de versos, a poeta conseguiu captar a lua como se estivesse valendo-se de uma máquina fotográfica. Assim, não seria exagero aduzir que esse poema de Florbela Espanca lembra-nos um snapshot.
Destaco, agora, como a imagem da lua ganha vida no versos. Em todos esses há o uso de metáforas que reforçam a palidez, a brancura da lua (versos 1 e 2). No terceiro verso, a candidez também é trazida à tona, porém a metáfora serve para mostrar outrossim que a lua tem a leveza duma asa de anjo, isso que deixa-a suspensa no ar. O último verso exalta a noite e atribui vida à lua, uma vez que a mesma reza para quem dorme na terra.
Por fim, a síntese e a força da imagem contida em “Num postal” lembra bastante a forma poética do haikai.
De Olavo Bilac | Análise por Laís Azevedo
Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!
Comentários:
Para entender esse poema de Olavo Bilac, faz-se necessário compreender algumas ideias acerca do Parnasianismo, uma vez que o poeta em questão adequou-se aos preceitos estéticos desse movimento literário.
Em suma, pode-se dizer que o parnasianismo caracterizou-se pelos seguintes aspectos:
- Exclusão da sentimentalidade romântica. Porém, como frisa Afrânio Coutinho (1986, p. 145), isso não impediu que os poetas parnasianos se reportassem a sentimentos e estados subjetivos.
- Uso do verso alexandrino do tipo francês, isto é, um versos compostos por doze sílabas poéticas.
- Abandono, quase que por completo, do verso branco, ou seja, versos que não rimam.
- Preocupação com a rima rica, isto é, os parnasianos buscavam rimar palavras com classes gramaticais distintas como, por exemplo, verbo com substantivo, adjetivo com advérbio etc.
- Busca por ideais poéticos desenvolvidos na poesia greco-romana clássica.
- Apego as formas fixas, grande parte dessas oriundas da antiguidade. Poder-se-ia dizer que o soneto foi uma das formas mais utilizadas.
Com esses conceitos em mente, falemos, agora, do soneto de Bilac. Considero esse um dos melhores poemas do poeta parnasiano. Nele é possível vermos o conflito que se dá num sujeito-lírico que buscava, de todas as maneiras, adequar seus versos a uma forma perfeita.
O título do poema, cujo idioma é o latim, significa “palavras inúteis”, já nos fornece uma boa pista do que será tratado ao longo dos 14 versos.
No primeiro quarteto, o eu-lírico dirige-se à sua própria alma como uma entidade impotente e escrava das formas que não conseguem traduzir o seus sentimentos. Isso gera para ele uma sensação de dor que é equiparada à mesma que Cristo sofreu quando foi pregado na cruz (vide o verso 3 do primeiro quarteto). O último verso da primeira quadra complementa o pensamento de impotência, visto que o ideal do sujeito-lírico transforma-se em lodo, isto é, as ideias do movimento Parnasianista que tanto o deslumbravam, agora, estão degradados.
O segundo quarteto segue no mesmo pensamento; vejamos o primeiro verso. Nesse o autor, valendo-se de uma metáfora, diz que seus pensamentos, suas ideias são muitas e fervilham em sua mente tal como a larva dum vulcão. Entretanto, como vemos no segundo verso, essas ideias do eu-lírico são ceifadas, posto que elas devem ser colocados numa forma de neve tão fria como uma sepultura. Interessante o contraponto que o poeta faz nesses dois versos, ele vale-se do fogo e da água, essa última em seu estado sólido enterra a capacidade criativa do poeta. Prosseguindo na mesma toada, o poeta, no terceiro verso da aludida quadra, fala da impossibilidade da palavra traduzir as ideias, a primeira é pesada e a segunda é leve. Isso evidencia, por exemplo, a incapacidade de traduzir, com perfeição, os pensamentos em palavras. Isso não ocorre somente na poesia, ocorre em quaisquer tipos de textos, linguagens etc.
O primeiro terceto abre-se com uma indagação: “Quem o molde achará para a expressão de tudo?” E no seguinte, há um lamento, dado que é achar uma expressão para tudo é impossível. Esse aspecto ganha força no decorrer do primeiro e do segundo terceto. De facto, há ideias, amores, dentre outras coisas, que nunca serão expressadas.
Para findar, ressaltamos, novamente, que o poema não deixa de ser uma crítica à rigidez do apego à forma e à fôrma que tanto eram exaltadas pelos poetas parnasianos.
De Álvares de Azevedo – Breve análise feita por Laís Azevedo
Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio enconsto
Tento o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já na vive!
Comentários:
Álvares de Azevedo, romântico brasileiro influenciado por Byron, Musset e outros que sofriam do chamado “mal do século”, talvez, pode ser considerado um dos poetas mais notáveis da história da literatura brasileira. O mancebo, que faleceu jovem, deixou obras de grande valor. É por isso que trazemos aqui este Soneto que integra a obra Lira dos Vinte Anos.
Antes de mais nada, eu gostaria de discorrer um pouco sobre os aspectos formais do poema. Assim, o primeiro ponto que tocarei é a forma do soneto. Não custa nada repetir que esse é formado por dois quartetos e dois tercetos, ou duas quadras e dois tercetos, enfim, dá no mesmo. Pois bem, esse tipo de soneto foi criado por Petrarca, poeta classicista do século XVI. Essa disposição de versos ficou tão famosa, que foi adotada até mesmo pelos românticos. Digo “até mesmo”, pois como se sabe, o movimento Romântico buscou romper com a tradição clássica de poética. No entanto, como se pode ver essa quebra com as regras greco-romanas não foi total; o uso da forma fixa, o soneto, é um bom exemplo disso.
Todos os versos são compostos por 10 sílabas poéticas, ou seja, são decassílabos. O uso desse tipo de metro foi comum na poesia romântica brasileira; padrão que posteriormente foi quebrado pelos poetas parnasianistas, esses criaram, mormente, sonetos utilizando versos alexandrinos, isto é, os versos de doze sílabas. O uso de 10 sílabas é interessante, pois não é um aspecto que está apenas enfeitando o poema. Um leitor astuto notará que os decassílabos encaixam-se bem na proposta do tema abordado pelo sujeito-lírico.
Falando em sujeito-lírico, faz-se importante ressaltar que ele nos fala em primeira pessoa. A utilização do “eu” é importante para um poema, cujo tema é o sofrimento pela perda do amor duma mulher. A primeira pessoa permite, ao meu ver, uma confissão maior e mais apurada do estado da alma do eu-lírico. Nesse caso, como já disse, ela se adequa bem ao soneto.
Você deve estar se perguntando sobre o uso do decassílabo e sua ligação com tema. Versos com um número de sílabas maiores permitem um andamento mais lento. Ora, veja bem, a ideia central do poema é a de expressar, pois, o estado deplorável físico, bem como psicológico em que o eu-lírico encontra-se. No terceiro verso da segunda estrofe, o sujeito-lírico diz: “O corpo exausto que o repouse esquece…”. Os versos de 10 sílabas, devido ao seu andamento mais vagaroso, expressam bem a fadiga que acomete o mancebo apaixonado.
Outro ponto que não deve ser ignorado é o de como o poeta trabalha esse amor perdido. Freud, em seu texto “Luto e Melancolia”, expõe que a perda de um amor iguala-se, dum certo modo, à morte física duma pessoa. O estado de luto, onde a tristeza prevalece, difere-se do estado melancólico, uma vez que esse último é encarado pelo psicanalista como uma patologia. Pelo discurso do eu-lírico no decorrer dos versos, percebe-se que o abandono de sua amada, leva-o para um estado que beira a morte, visto que sua pele torna-se pálida (primeiro verso da quadra inicial), descorada tal como a dum cadáver.
O estado de espírito do eu-lírico está mais do que explicito; basta você ler, por exemplo, os versos finais dos dois quartetos. Entretanto, ele tenta abandonar a tamanha tristeza que transborda em sua alma; como? Dê uma olhada no último terceto. Num tom imperativo vemos que o poeta pede esperança, para isso ele lança mão do modo imperativo do verbo “dar”. A ordem continua também no segundo verso da estrofe final, dado que há a presença do verbo “volver” no modo imperativo. Saliento também o uso das exclamações, essas reforçam o tom de comando e o desespero pela volta da amada.
Não poderia de deixar de falar, antes de findar meu comentário, sobre o uso da metáfora que está presente no verso “Surdo agonia o coração fenece” e “E tenha os olhos meus na escuridade”. O tropo, que foi bem empregado por Azevedo, tem como função basilar neste soneto, reforçar a ideia de morte e de desespero do sujeito-lírico.
Por fim, digo que este soneto traz à tona a ideia do amor frustrado, um amor que quando não se realiza sempre deixa o poeta a sofrer, a querer a morte, ou a deixar a sua alma ser apoderada por um estado semelhante ao perecer.
Belo poema, belo poema.