Análise de poemas


2
Aug 10

Análise de poema: Três idades – Manuel Bandeira – Por Paulo Filipe

20080408manuelbandeirajpg1A primeira vez que te vi,
Era eu menino e tu menina,
Sorrias tanto… Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina…

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22
Jul 10

A Harpa – Análise dum poema de Cruz e Souza

Laís Azevedo

A Harpa

Prende, arrebata, enleva, atrai, consola

A harpa tangida por convulsos dedos,

Vivem nela mistérios e segredos,

É berceuse, é balada, é barcarola.

Harmonia nervosa que desola,

Vento noturno dentre os arvoredos

A erguer fantasmas e secretos medos,

Nas suas cordas um soluço rola…

Tu’alma é como esta harpa peregrina

Que tem sabor de música divina

E só pelos eleitos é tangida.

Harpa dos céus que pelos céus murmura

E que enche os céus da música mais pura,

como de uma saudade indefinida.

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25
Jun 10

Menino de engenho

Laís Azevedo

A cana cortada é uma foice.
Cortada num ângulo agudo,
ganha o gume afiado da foice, um dar-se
mútuo.

Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de
cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.

A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado
(então) é vírus ou vacina.

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10
Jun 10

Presságio

Medeiros e Albuquerque | Comentários por Laís azevedo

Noite. Estávamos ambos à varanda…
A doce voz de Rosa
num arrulho de amor, tremente e branda
murmurava uma súplica extremosa…

Beijamo-nos a medo,
furtivamente, como namorados.
Depois quase em segredo,
entre os protestos mais apaixonados,
Rosa, a sorrir, falou-me em casamento.

Fitei seus belos e gentis contornos,
tendo seu corpo do meu corpo junto,
Ia dizer-lhe: “sim”… Nesse momento,
erguendo os olhos para o firmamento,
vi da lua minguante os finos cornos…

Vi… tratei logo de mudar de assunto.

Comentários:

Interessante ver nesse poema de Medeiros e Albuquerque o tom cômico que o poeta emprega na construção dos versos. O uso desse humor difere-se totalmente da poesia, geralmente lúgubre, que marcou boa parte da obra desse autor que é considerado um pré-simbolista.

O primeiro verso, bastante sintético no que tange ao espaço, situa o casal que dará um beijo às escondidas. Essa primeira estrofe, que prepara um tom de mistério, salta aos olhos do leitor que pensará que os versos de “Presságio” falarão, unicamente, dum amor nos moldes românticos.

A segunda estrofe explicita que trata-se dum caso, de facto, bastante escondido que ainda não se tornou um namoro. Na estrofe subsequente, o eu-lírico seduzido pelas palavras e pelo belo corpo de Rosa (nome que coaduna bem com a sedução que é proposta no início dos versos) pensa em desposá-la. Porém, ao ver a lua que lhe serve de presságio, isto é, alerta-o para uma possível traição, ele desiste de contrair núpcias.

O verso final, um verso branco, dá todo o tom de comicidade ao poema.


25
May 10

Vício da fala – Oswald de Andrade – Uma breve análise

Laís Azevedo

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

Comentários:

Oswald de Andrade é, com certeza, um dos poetas mais brilhantes que já surgiram no panorama literário brasileiro. ícone do Modernismo que eclodiu na década de 1920, o poeta e prosador, alicerçado pela ideias do aludido movimento, rompeu com as tradições desenvolvidas nos oitocentos brasileiros. Assim, a poesia brasileira ganhou novas maneiras de ser produzida no tocante à forma e no que tange ao conteúdo. Logicamente, houve uma retomada de alguns elementos que foram importantes no Romantismo, tal como, por exemplo, a busca por uma produção literária que apresentasse características nacionais. No caso específico de Oswald de Andrade, o poeta não ignorava também as influências oriundas de fora; porém, essas deveriam ser utilizadas para romper com o que, como já dissemos, estava sendo produzido por aqui.

Os versos de “Vício da fala” são um bom exemplo disso. O eu-lírico traz à baila, de maneira sintética, valendo-se duma linguagem simples (sem os adornos, por exemplo, da poesia parnasiana), um poema que versa sobre as relações sociais que permeavam e até hoje ainda permeiam o Brasil.

Desse modo, nos cinco versos, o poeta elenca a forma popular e culta de vocábulos da língua portuguesa. Por meio da supressão dos verbos, ele vai aos poucos aproximando esses dois registros da língua, que de fato estão, no dia a dia, convivendo lado a lado. No terceiro verso, pior e pió estão colocados estrategicamente lado a lado. Em seguida, nos versos quatro e cinco, o poeta, valendo-se do verbo “dizer”, vai novamente afastando os dos modos de pronunciar as palavras. E, no findar do poema, ele quebra com a série de anáforas, e fecha com “E vão fazendo telhados”, que remete à classe de trabalhadores que laboram nos serviços ligados à construção civil. Afora isso, tem-se também nesse último verso a idéia da urbanização que já, nos novecentos, estava aos poucos consolidando-se.

Em seis versos ágeis, o poeta conseguiu falar das diferenças que se dão na língua portuguesa falada no Brasil, por meio de uso de vocábulos ignorados nos movimentos poéticos anteriores. Ademais, introjetou elementos do cotidiano em sua poesia e de maneira sucinta, soube mostrar as diferenças que se dão, pelo meio do idioma.

Excelente poema!

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19
May 10

Análise de três poemas atribuídos a Gregorio de Matos

Laís Azevedo

À CIDADE DA BAHIA – POEMA 8

Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente,
Pelas drogas inúteis, que abelhuda,
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus, que de repente,
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote.
AOS VÍCIOS – POEMA 11

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto que me inflama e que me inspira
Tália, que anjo é da minha guarda
Des que Apolo mandou que se assistira.
Arda Baiona, e todo o mundo arda,
Que, a quem de profissão falta à verdade,
Nunca a dominga das verdades tarda.
Nenhum tempo excetua a cristandade
Ao pobre pegureiro de Parnaso
Para falar em sua liberdade.
A narração há de igualar ao caso,
E, se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por poeta o que é Pegaso.
De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?
Sempre se há de sentir o que se fala.
Qual homem pode haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um e outra desconcerto,
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.
o néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrada e incerto.
E, quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz facinho, e nada aprova.
Diz lago, prudentaço e repousada:
—Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoca?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas
E se foras poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras,
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não – por não ter dentes.
Quantos há que as telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos?
Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.
Todos somas ruins, todas perversos,
Só nos “distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse’só me censure, esse me note,
Calem-se as mais, chitão e haja saúde!
AOS PRINCIPAIS DA BAHIA CHAMADOS OS CARAMURUS – POEMA 16
Há cousa como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.
A linha feminina é carimá
Moqueca, pititinga caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piraguá.
A masculina é um Aricobé
Cuja filha Cobé um branco Paí
Dormiu no promontório de Passé.
O Branco era um marau, que veio aqui,
Ela era uma Índia de Maré
Cobé pá, Aricobé, Cobé Paí.
COMENTÁRIOS:

Antes de realizarmos a análise dos três poemas, faz-se mister aduzir que nos referiremos a eles de acordo com a organização elencada na obra Poemas de Gregório de Matos, que consiste numa antologia d’alguns dos poemas pertencentes à escola Barroca, atribuídos ao poeta baiano.

Isto posto, falaremos, primeiramente, do poema onze, cujo tema é a corrupção que assola à Bahia. Nesse, o eu-satírico tece críticas mordazes ao povo baiano. Para isso, lança mão de vinte tercetos, isto é, estrofes compostas por versos, onde “o primeiro e o terceiro verso rimam entre si com o segundo da estrofe anterior” (Malard, 1997, p. 51). Ademais, ele adotou, outrossim, versos de onze silabas, o chamado hendecassílabo. Além disso, o escritor recorreu a vários tropos, destacamos a metáfora e a ironia. No tocante ao primeiro, podemos encontra-lo em diversas partes do verso. A metáfora, por sua vez, fica evidente, por exemplo, no décimo sétimo soneto.

Calcando-se no que foi aludido acima, vejamos como o poeta trabalha com a sátira e a cidade.

Nas três primeiras estrofes, o sujeito-satírico mostra que com sua lira já cantou os diversos males do Brasil, e os cantará outra vez, porém, desta vez por meio dum plecto diferente, isto é, lançará mão da Terça Rima. Interessante notar a referência à lira, que era um instrumento usado pelos gregos para acompanhar os poemas líricos. Entretanto, se a lira dos antigos era usada para cantar, na maioria das vezes, os amores, na mão da persona satírica gregoriana suas cordas acompanharão versos ácidos contra a sociedade baiana. Na terceira estrofe, ainda sobre a relação com a poesia produzida na antiguidade clássica, que foi posteriormente retomada pelos classicistas nos quinhentos, vemos o sujeito-satírico declarar que está sendo amparado também por Apolo — que é o deus da luz, das artes e da beleza — e por Talia — musa da comédia e das idilias. Essa última de fundamental importância, mesmo levando em consideração que a sátira distingue-se em alguns pontos da comédia, todavia uma possui elementos da outra.

Nos versos sete e oito, o eu-satírico diz que não pode ficar calado, pois ele está a ver o lamentável estado de sua cidade. Sendo assim, chama a atenção dos ignorantes, que por hipocrisia, falta de conhecimento e medo de falar preferem ficar calados. Partindo disso, poder-se-ia afirmar, então, que a persona satírica coloca-se no papel daquele que sabe a verdade e não tem medo de expô-la.

Para findar a análise deste poema, retomemos, agora, a invocação da musa Talia feita no sétimo verso do poema. Na mitologia grega, Talia era, como já dissemos, musa da idília, que consiste numa forma de poema curto que visava descrever a vida rústica, pintava o pastor, o animal e o ambiente. Ora, sendo assim, podemos ver que os animais no poema atribuído a Gregório de Matos, são os néscios, “as bestas feras” tal como ele canta na estrofe quinze. Já o pastor é o sujeito-satírico, isto é , pegureiro do Parnaso. Contudo, se nos idílios o tema era o de falar, mormente, da felicidade da vida, no poema onze essa ideia é descartada, haja vista que a persona satírica quer tocar nas chagas da cidade.

Doravante, ater-no-emos à analise de dois sonetos: oito e dezesseis.

No soneto oito — forma de disposição dos versos criada pelo italiano Petrarca, que consiste em duas estrofes formadas por quatro versos e duas estrofes finais de três versos — o tema é a decadência financeira da Bahia, que por sua vez, está ligado ao anticolonialismo. Acreditamos que este poema possui um gênero híbrido, ou seja, imiscuí a sátira e a lírica. É importante ressaltar que segundo Teixeira Gomes (1985 apud Malard, 1997, p. 44), o autor do poema recorreu a um discurso lírico atribuído a Franscisco Rodrigues  — poeta português que viveu no século XVI e XVII —, que angariou bastante sucesso na época.

No tocante às rimas, elas são distribuídas da seguinte forma: ABBA nos quartetos e CDE nos tercetos. De mais a mais, vale salientar que os versos são decassílabos à Os Lusiadas, do poeta luso Luís de Camões.

Com os elementos formais supracitados, partamos agora para a interpretação.

No poema, nos deparamos com um sujeito-lírico que lamenta a situação da Bahia em seu tempo. Destarte, ele identifica-se com a cidade, que nesse caso é personificada — eis aí uma figura de linguagem: a prosopéia —, haja vista que ambos compartilham os mesmos sentimentos de angústia que outrora não eram possíveis, posto que a Baia vivia momentos melhores. A segunda estrofe, por sua vez, coloca no cerne o comércio, que é responsável pela eclosão da bancarrota financeira tanto da cidade, como do sujeito-satírico. O do primeiro origina-se no comércio com os ingleses, a Bahia cede o valioso açúcar (cabe ressaltar que nesse período o produto de maior valia na colônia era o açúcar) e recebe as inúteis drogas. A do sujeito-lírico está calcada, por sua vez, as trocas que fazem sobre sua pessoa; isso pode ser lido como uma denúncia acerca das relações de negócio que se davam entre os cidadão baianos.

No remate do soneto há uma mudança de posição do sujeito-lírico. Se nos outros versos ele coloca a Bahia como uma vítima dos mercantes, no último terceto a persona lírica, valendo-se dum tropo — a metáfora — clama a Deus para que ele puna a cidade fazendo com que ela vista uma simples roupa de algodão, em outras palavras, uma indumentária trajada pelas pessoas de baixa condição social e pelos escravos. Contudo, ele não deseja para si as mesmas pragas que rogou à Bahia.

O soneto dezesseis, composto em versos decassílabos que seguem o padrão de rimas ABBA nos quartetos e CDC, DCD nos tercetos, traz à tona o tema das posições sociais na cidade. Utilizando a sátira, o eu-satírico vai apontar  um dos elementos que lhe desagrada fortemente, a ocupação de cargos de relevância por homens, Caramurus, que possuem algum parentesco indígena. Desta maneira, usando versos que têm diversas palavras indígenas, ele ridiculariza esses homens de alto cargo. Num viés romântico, isto é, calcado no projeto de literatura iniciado no século XIX, quiçá, afirmar-se-ia que o poeta, pelo fato de utilizar palavras indígenas, não estaria ridicularizando o índio, visto que ele fala de algo ligado aos autóctones brasileiros. Entretanto, como estamos diante duma sátira, percebe-se claramente que os vocábulos indígenas corroboram para depreciar ainda mais estes homens. Baseando-se no que foi explicitado anteriormente, vemos que o sujeito-satírico mostra-se insatisfeito com o modo de como a hierarquia, no que tange ao poder, se dá na Bahia.

Por último, não poderíamos deixar de ressaltar que a tríade de poemas atribuídos a Gregório de Matos — objeto de análise neste breve trabalho — continuam, dum certo modo, assaz atuais. As mazelas da colônia denunciadas nas sátiras gregorianas, principalmente as concernentes aos assuntos políticos, ainda, nos dias de hoje, em pleno final da década de 2000, continuam bastante pertinentes à sociedade brasileira. Infelizmente, o Brasil ainda sofre com a corrupção desenfreada que assola os três poderes.


REFERÊNCIAS:

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

____________.História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix 2006.

____________.Sobre alguns modos de ler poesia: memórias e reflexões. In: Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 1996.

CANDIDO, Antonio. Na sala de aula.  São Paulo, Ática, 1998.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 14 ed. rev. e atualizada. São Paulo: Ática, 2006.

MATOS, Gregório de. Poemas de Gregório de Matos: por Letícia Malard. Belo Horizonte: Autêntica Ed., 1998.


4
May 10

Cláudio M. da Costa e Camões – análise- Por Paulo Filipe

autumn

CAMÕES

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma.

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
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31
Mar 10

Num postal

Florbela Espanca | Comentários de Laís Azevedo

Luar! lírio branco que se esfolha…
Neve, que do céu anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida…

Comentários:

Florbela Espanca, poetisa que suicidou-se aos 36 anos, deixou belos poemas; esses foram durante um bom tempo ignorados pelos leitores e pela crítica. Todavia, como se sabe, o talento de Espanca não passou despercebido. E, é por isso que selecionei esse pequeno poema.

“Num postal” traz a lume quatro versos em que o sujeito lírico nos passa, por meio de metáforas, decassílabos e eneassílabos, a imagem duma noite de luar. O uso duma quadra dá a sensação ao leitor de estar vendo uma fotografia. Poder-se-ia dizer que graças a essa quantidade reduzida de versos, a poeta conseguiu captar a lua como se estivesse valendo-se de uma máquina fotográfica. Assim, não seria exagero aduzir que esse poema de Florbela Espanca lembra-nos um snapshot.

Destaco, agora, como a imagem da lua ganha vida no versos. Em todos esses há o uso de metáforas que reforçam a palidez, a brancura da lua (versos 1 e 2). No terceiro verso, a candidez também é trazida à tona, porém a metáfora serve para mostrar outrossim que a lua tem a leveza duma asa de anjo, isso que deixa-a suspensa no ar. O último verso exalta a noite e atribui vida à lua, uma vez que a mesma reza para quem dorme na terra.

Por fim, a síntese e a força da imagem contida em “Num postal” lembra bastante a forma poética do haikai.


24
Mar 10

Inania verba: uma análise dum poema de Olavo Bilac

De Olavo Bilac | Análise por Laís Azevedo

Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!

Comentários:

Para entender esse poema de Olavo Bilac, faz-se necessário compreender algumas ideias acerca do Parnasianismo, uma vez que o poeta em questão adequou-se aos preceitos estéticos desse movimento literário.
Em suma, pode-se dizer que o parnasianismo caracterizou-se pelos seguintes aspectos:

- Exclusão da sentimentalidade romântica. Porém, como frisa Afrânio Coutinho (1986, p. 145), isso não impediu que os poetas parnasianos se reportassem a sentimentos e estados subjetivos.

- Uso do verso alexandrino do tipo francês, isto é, um versos compostos por doze sílabas poéticas.

- Abandono, quase que por completo, do verso branco, ou seja, versos que não rimam.

- Preocupação com a rima rica, isto é, os parnasianos buscavam rimar palavras com classes gramaticais distintas como, por exemplo, verbo com substantivo, adjetivo com advérbio etc.

- Busca por ideais poéticos desenvolvidos na poesia greco-romana clássica.

- Apego as formas fixas, grande parte dessas oriundas da antiguidade. Poder-se-ia dizer que o soneto foi uma das formas mais utilizadas.

Com esses conceitos em mente, falemos, agora, do soneto de Bilac. Considero esse um dos melhores poemas do poeta parnasiano. Nele é possível vermos o conflito que se dá num sujeito-lírico que buscava, de todas as maneiras, adequar seus versos a uma forma perfeita.

O título do poema, cujo idioma é o latim, significa “palavras inúteis”, já nos fornece uma boa pista do que será tratado ao longo dos 14 versos.

No primeiro quarteto, o eu-lírico dirige-se à sua própria alma como uma entidade impotente e escrava das formas que não conseguem traduzir o seus sentimentos. Isso gera para ele uma sensação de dor que é equiparada à mesma que Cristo sofreu quando foi pregado na cruz (vide o verso 3 do primeiro quarteto). O último verso da primeira quadra complementa o pensamento de impotência, visto que o ideal do sujeito-lírico transforma-se em lodo, isto é, as ideias do movimento Parnasianista que tanto o deslumbravam, agora, estão degradados.

O segundo quarteto segue no mesmo pensamento; vejamos o primeiro verso. Nesse o autor, valendo-se de uma metáfora, diz que seus pensamentos, suas ideias são muitas e fervilham em sua mente tal como a larva dum vulcão. Entretanto, como vemos no segundo verso, essas ideias do eu-lírico são ceifadas, posto que elas devem ser colocados numa forma de neve tão fria como uma sepultura. Interessante o contraponto que o poeta faz nesses dois versos, ele vale-se do fogo e da água, essa última em seu estado sólido enterra a capacidade criativa do poeta. Prosseguindo na mesma toada, o poeta, no terceiro verso da aludida quadra, fala da impossibilidade da palavra traduzir as ideias, a primeira é pesada e a segunda é leve. Isso evidencia, por exemplo, a incapacidade de traduzir, com perfeição, os pensamentos em palavras. Isso não ocorre somente na poesia, ocorre em quaisquer tipos de textos, linguagens etc.

O primeiro terceto abre-se com uma indagação: “Quem o molde achará para a expressão de tudo?” E no seguinte, há um lamento, dado que é achar uma expressão para tudo é impossível. Esse aspecto ganha força no decorrer do primeiro e do segundo terceto. De facto, há ideias, amores, dentre outras coisas, que nunca serão expressadas.

Para findar, ressaltamos, novamente, que o poema não deixa de ser uma crítica à  rigidez do apego à forma e à fôrma que tanto eram exaltadas pelos poetas parnasianos.

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8
Mar 10

Análise dum soneto de Álvares de Azevedo

De Álvares de Azevedo – Breve análise feita por Laís Azevedo

Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio enconsto
Tento o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!

Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já na vive!

Comentários:

Álvares de Azevedo, romântico brasileiro influenciado por Byron, Musset e outros que sofriam do chamado “mal do século”, talvez, pode ser considerado um dos poetas mais notáveis da história da literatura brasileira. O mancebo, que faleceu jovem, deixou obras de grande valor. É por isso que trazemos aqui este Soneto que integra a obra Lira dos Vinte Anos.

Antes de mais nada, eu gostaria de discorrer um pouco sobre os aspectos formais do poema. Assim, o primeiro ponto que tocarei é a forma do soneto. Não custa nada repetir que esse é formado por dois quartetos e dois tercetos, ou duas quadras e dois tercetos, enfim, dá no mesmo. Pois bem, esse tipo de soneto foi criado por Petrarca, poeta classicista do século XVI. Essa disposição de versos ficou tão famosa, que foi adotada até mesmo pelos românticos. Digo “até mesmo”, pois como se sabe, o movimento Romântico buscou romper com a tradição clássica de poética. No entanto, como se pode ver essa quebra com as regras greco-romanas não foi total; o uso da forma fixa, o soneto, é um bom exemplo disso.

Todos os versos são compostos por 10 sílabas poéticas, ou seja, são decassílabos. O uso desse tipo de metro foi comum na poesia romântica brasileira; padrão que posteriormente foi quebrado pelos poetas parnasianistas, esses criaram, mormente, sonetos utilizando versos alexandrinos, isto é, os versos de doze sílabas. O uso de 10 sílabas é interessante, pois não é um aspecto que está apenas enfeitando o poema. Um leitor astuto notará que os decassílabos encaixam-se bem na proposta do tema abordado pelo sujeito-lírico.

Falando em sujeito-lírico, faz-se importante ressaltar que ele nos fala em primeira pessoa. A utilização do “eu” é importante para um poema, cujo tema é o sofrimento pela perda do amor duma mulher. A primeira pessoa permite, ao meu ver, uma confissão maior e mais apurada do estado da alma do eu-lírico. Nesse caso, como já disse, ela se adequa bem ao soneto.

Você deve estar se perguntando sobre o uso do decassílabo e sua ligação com tema. Versos com um número de sílabas maiores permitem um andamento mais lento. Ora, veja bem, a ideia central do poema é  a de expressar, pois, o estado deplorável físico, bem como psicológico em que o eu-lírico encontra-se. No terceiro verso da segunda estrofe, o sujeito-lírico diz: “O corpo exausto que o repouse esquece…”. Os versos de 10 sílabas, devido ao seu andamento mais vagaroso, expressam bem a fadiga que acomete o mancebo apaixonado.

Outro ponto que não deve ser ignorado é o de como o poeta trabalha esse amor perdido. Freud, em seu texto “Luto e Melancolia”, expõe que a perda de um amor iguala-se, dum certo modo, à morte física duma pessoa. O estado de luto, onde a tristeza prevalece, difere-se do estado melancólico, uma vez que esse último é encarado pelo psicanalista como uma patologia. Pelo discurso do eu-lírico no decorrer dos versos, percebe-se que o abandono de sua amada, leva-o para um estado que beira a morte, visto que sua pele torna-se pálida (primeiro verso da quadra inicial), descorada tal como a dum cadáver.

O estado de espírito do eu-lírico está mais do que explicito; basta você ler, por exemplo, os versos finais dos dois quartetos. Entretanto, ele tenta abandonar a tamanha tristeza que transborda em sua alma; como? Dê uma olhada no último terceto. Num tom imperativo vemos que o poeta pede esperança, para isso ele lança mão do modo imperativo do verbo “dar”. A ordem continua também no segundo verso da estrofe final, dado que há a presença do verbo “volver” no modo imperativo. Saliento também o uso das exclamações, essas reforçam o tom de comando e o desespero pela volta da amada.

Não poderia de deixar de falar, antes de findar meu comentário, sobre o uso da metáfora que está presente no verso “Surdo agonia o coração fenece” e “E tenha os olhos meus na escuridade”. O tropo, que foi bem empregado por Azevedo, tem como função basilar neste soneto, reforçar a ideia de morte e de desespero do sujeito-lírico.

Por fim, digo que este soneto traz à tona a ideia do amor frustrado, um amor que quando não se realiza sempre deixa o poeta a sofrer, a querer a morte, ou a deixar a sua alma ser apoderada por um estado semelhante ao perecer.

Belo poema, belo poema.

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