Lauro Drummond
alarmes de carros, grilos artificiais
esperança artificial,
dum
dia
melhor
que
virá
virá?
virá
virá?
Lauro Drummond
alarmes de carros, grilos artificiais
esperança artificial,
dum
dia
melhor
que
virá
virá?
virá
virá?
Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mão sacerdotais.
Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhe a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.
Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, p’ra dar fé.
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.
Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de Verão.
Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.
Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida; o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.
E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,
Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.
Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.
E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.
Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tura sorte,
Eu nunca poderei!
Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à Igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!
Originally posted 2009-11-23 23:11:37. Republished by Blog Post Promoter
Aleksandr Púchkin – Trad. Boris Schnaiderman
Dom inútil, dom fortuito,
por que a vida me foi dada?
E o destino, com que intuito
a condena a um fim: o nada?
Que poder hostil, do pó,
suscitou minha alma ardente
e lhe deu paixão, mas só
duvidas à minha mente?
Sigo a esmo de ermo peito,
mente ociosa e, sem saída,
pesaroso, eu me sujeito
ao maçante som da vida.
Que a morte me traga consigo no seu bolso
e que no avesso do meu osso
eu descubra que nada da vida foi em vão
E que a trilha se perpetue no caminho
de um andarilho bem mesquinho
que só pensa em juntar pão
E que da silepse que me busco
do contorno que ilustro
da sina que jaz no chão
da fonte que não se mantém
do intruso que vem do além
do pó, das cinzas e do caixão
— Morte, que traz consigo para dar a mim?
— Nada que você deva temer
— Algo que eu deva agradecer?
— Só se isso te machucar.
E do prisma que atinjo
que de vermelho me pinto
Em cristais de sofreguidão
E do aparelho bucal
aparência mais frugal
Do mais veloz alazão
— Morte, por que ainda não me levou?
— Você não merece morrer. Minha lança é um prêmio só para aqueles que descobrem sentido de viver.
— Mas, Morte, se eu descobrir não vou querer mais morrer.
— Eu sei.
– Posso argumentar?
– Você pode tentar
– Talvez eu possa… *choro*
Da música que não escutei
Do cálice que eu quebrei
Do café moído no pilão
Do poço em que me afundo
de morrer faço meu submundo
E de viver meu cão
Originally posted 2009-09-05 07:26:36. Republished by Blog Post Promoter
Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.
O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota Pereira.
Murilo Mendes
O coração uma bomba-relógio.
Contagem regressiva.
Quanto tempo ainda me resta, quem pode saber…
Viajo sem rumo na abstração irreal ilusória e dolorosa do pensamento pesado.
Todo mal se repete. Tudo o que não satisfaz, que é monótono, que já cansou, se repete…
Todos os dias… Por várias e várias e várias vezes ao dia.
Minha vida, de uma insignificância sem igual.
Cansada da piedade e da ajuda “incondicional”.
Cansada dum Universo que não desperta meu interesse… Tédio… Sufocamento…
Acordar do pesadelo que se tornou a minha realidade cotidiana.
Cigarros, barbitúricos, benzodiazepínicos. Quero meu álcool forte, meu pão de farinha pura branca e leve, minha felicidade induzida. Não sei, não sei. Igualmente cansada de falsas sensações. Não as dispenso por completo, vezenquando são inevitáveis.
O ideal é difícil de ser alcançado. Não posso ser feliz apenas por instantes e a cada trinta dias, que sequer são escolhidos por mim, ainda que seja felicidade in natura.
Como fugir da vida temporariamente? Fugir, mas não para o inexplicado, para o reino absoluto do mistério. Fugir do próprio pensar e sentir, simplesmente. Pausar para não absurdar de vez.
Não sei o quero além do amor. Não sei o que quero e não quero saber o quero, além do amor. Aí reside um princípio de insanidade (?).
Sem palavras, Fernando Pessoa, por meio do heterônimo Álvaro de Campos, simplesmente genial. Os versos recitados estão com o sotaque do português luso, talvez soe estranho aos ouvidos de nós, brasileiros.
Minh’alma é mundo virge’ – ilha perdida -
Em lagos de cristais;
Vem, Pepita, – Colombo dos amores, -
Vem descobri-lo, no país das flores
Sultana reinarás!
Eu serei teu vassalo e teu cativo
Nas terras onde és rei
A sombra dos bambus vem tu ser minha
Teu reinado de amor, doce rainha,
Na lira cantarei.
Minh’alma é como o pombo inda sem penas
Sozinho a pipilar;
- Vem tu, Pepita, visitá-lo ao ninho;
As asas a bater, o passarinho
Contigo irá voar.
Minh’alma é como a rocha toda estéril
Nos plainos do Sarah;
Vem tu – fada de amor – dar-lhe co’a vara…
- Qual do penedo que Moisés tocara
O jorro saltará.
Minh’alma é um livro lindo, encadernado,
Co’as folhas em cetim;
- Vem tu, Pepita, soletrá-lo um dia…
Tem poemas de amor, tem melodia
Em cânticos sem fim!
Minh’alma é o batel prendido à margem
Sem leme, em ócio vil
- Vem soltá-lo, Pepita, e correremos
- Soltas as velas – desprezando remos,
Que o mar é todo anil.
Minh’alma é um jardim oculto em sombras
Co’as flores em botão;
- Vem ser da primavera o sopro louco,
Vem tu, Pepita, bafejar-me um pouco
Que as rosas abrirão.
O mundo em que eu habito tem mais sonhos,
A vida mais prazer;
- Vem, Pepita, das tardes no remanso,
Da rede dos amores no balanço
Comigo adormecer.
Oh! vem! eu sou a flor aberta à noite
Pendida no arrebol!
Dá-me um carinho dessa voz lasciva,
E a flor pendida s’erguerá mais viva
Aos raios desse sol!
Bem vês, sou como a planta que definha
Torrada do calor.
- Dá-me o riso feliz em vez da mágoa…
O lírio morto quer a gota d’água,
- Eu quero o teu amor!
Das digitalis rubras no teu lábio
há talvez mais do que a vermelha cor,
deve haver dos teus beijos no ressábio
um veneno letífero e traidor.
Como o da flor de cálix purpurino,
igual na forte e venenosa ação,
da tua boca o vírus assassino
deve atacar o nosso coração…
Originally posted 2009-07-19 05:25:17. Republished by Blog Post Promoter