Análise de romances


28
Jul 10

Dom Casmurro – Breves comentários!

Laís Azevedo

Findei hoje a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Como boa fã da literatura naturalista, digo-lhes que relutei em ler o escritor fluminense, posto que ele não poupava críticas aos discípulos de Émile Zola. Minha atitude foi simplesmente: estúpida. Dom Casmurro, com certeza, merece estar na lista dos melhores romances do século XIX, quiçá  na lista dos melhores romances de  todos os tempos.

Não me deterei a Machado de Assis, especificamente; prefiro, lado outro, concentrar-me, mormente, na história de Bento. Porém, aconselho aos visitantes, como um complemento, se acharem necessário, os outros textos, postados aqui no site site, que trabalham melhor as escolhas estéticas do autor, bem como às influências literárias e não-literárias do mesmo. Dito isso, vamos a Dom Casmurro.

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27
Jul 10

Características anti-narrativas em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Leonardo C.

Este texto busca explicitar algumas informações sobre as caractéristicas anti-narrativas no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. A bibliografia baseia-se, mormente, no livro de história literária de Afrânio Coutinho e em outros textos, esses reunidos no primeiro volume das obras completas de Machado de Assis publicado pela editora Nova Aguilar.

O texto? Ei-lo:

O período oitocentista brasileiro foi palco de várias transformações concernentes à politica, à economia e à estética. No início do aludido século, em 1808, devido a chegada da família real, o país, que na época era somente mais uma das várias colônias lusas, sofreu diversas modificações para abrigar a refugiada corte de Dom João VI. Além das modificações estruturais que ocorreram, basilarmente, na cidade do Rio de Janeiro e da elevação politica do Brasil a Reino Unido de Portugal, o príncipe regente criou a Impressão Régia, essa foi responsável pela produção de jornais e uma quantidade maior de livros no pais. Todavia, vale lembrar que obras literárias e doutros gêneros já circulavam no Brasil, porém devido as restrições da metrópole, a produção das mesmas era proibida.

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27
Jul 10

Esaú e Jacó – Algumas considerações

Laís Azevedo

Joaquim Maria Machado de Assis é, sem dúvida, um dos literatos brasileiros mais celebrados de todos os tempos. O autor que se aventurou em diversos gêneros literários é, atualmente, um dos escritores mais estudados pela crítica nacional.

Exímio contista, Machado de Assis deixou também romances de bastante qualidade e sucesso: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba. Essa tríade de obras é, com certeza, a mais conhecida do escritor fluminense. Todavia, como se sabe, o autor de Helena produziu romances toques românticos e outros em sua fase dita mais madura, tais como: Esaú e Jacó e Memorial de Aires; sendo esse último, o último livro publicado pelo escritor

Um escritor realista?

Boa parte dos historiadores literários buscaram encaixar Machado de Assis no movimento Realista brasileiro, uma vez que Memórias Póstumas de Brás Cubas juntamente com O mulato de Aluísio Azevedo inauguraram, em 1881, o movimento duma literatura “real” nas terras brasileiras. O problema nessa história toda é que a obra de Machado difere-se muito do realismo-naturalismo praticado tanto em França (terra de origem dos romances de tese) como no Brasil. Pode-se afirmar isso, logicamente, lendo as obras de Machado. Não há uma preocupação do escritor carioca em nortear seus narradores, personagens, a estrutura de seus romances tendo como base as teorias cientificistas, tais como: o evolucionismo social, o determinismo, o positivismo, etc. Pelo contrário, o autor de Quincas Borba beberá em outras fontes. Suas influências literárias e filosóficas, que ele não faz questão de esconder, concentram-se mormente nas obras escritas por autores ingleses como: Shakespeare, Sterne. O primeiro, com Otelo talvez tenha sido uma boa inspiração para a composição de Dom Casmurro. De Sterne, Machado de Assis aproveitou a composição tipográfica e o maneira de estruturar os romances, com o uso, por exemplo, de capítulos curtos e bastante ironia. Elementos esses que seriam utilizado pelos modernistas somente após 1922. De fato, Machado era um escritor de vanguarda.

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13
Jul 10

Celeste

imagePor Gabriel Diniz

Infelizmente há obras que foram injustamente esquecidas por grande parte dos estudiosos da literatura brasileira. Uma dessas é Celeste, da escritora Délia (pseudônimo de Maria Benedita Bormann). A autora, nascida no século XIX, foi responsável por escrever seis romances. Todos pautados pela estética naturalista que estava em voga nos últimos decênios do período oitocentista.

Celeste traz para o leitor a história da protagonista de nome homônimo. Seguindo os ditames da escola zolista, Délia busca fazer uma trajetória dos progenitores da moça. Entretanto, o romance abre-se justamente com o término do matrimônio de Celeste com Artur. A jovem decide abandonar a casa do marido e parte rumo ao domicílio da mãe.

Como já foi frisado anteriormente, no segundo capítulo, a narradora conta a história de Cândida e Venâncio Lima, os pais de Celeste. O casamento é um fracasso. Cândida, do mesmo modo que a filha fará anos depois, contrai núpcias a contragosto de seu pai. Todavia, ela não chega a separar-se do marido.

Nos capítulos subsequentes, acompanhamos a trajectória de Celeste desde sua infância. A esperta infanta, que nutre uma admiração especial por sua ama — uma escrava — mostra-se bastante inteligente. Ela ingressa no colégio e após findar os estudos, começa a frequentar os bailes e os demais eventos da corte. Por ser muito bela, desperta logo a atenção de vários mancebos que não perdem a oportunidade de corteja-la Porém, apenas um o interessa; contudo, esse primeiro amor, inicialmente, não é correspondido.  A jovem sofre, entrega-se à leitura de vários romances românticos, sente na pele os infortunios das heroínas.

O tempo passa, Celeste interessa-se por Artur, um moço da Província de Pernambuco, que vai à capital fluminense estudar medicina. O rapaz apaixona-se pela protagonista, os dois noivam-se. Cândida é totalmente contra o casório, entretanto, a personagem-central não dá ouvidos à mãe.

O casamento de Celeste, como já dissemos, não dá certo. O ciúme do jovem médico e suas agressões contra a esposa desmacham o enlace matrimonial. E, é a partir desse ponto, que a narradora aduz a trajectória de Celeste como uma mulher separada do marido.

A protagonista desiludida com o amor decide ter vários amantes, quer usar os homens, tal como esses, segundo ela, usam as mulheres tratando-as como meros objectos de prazer. Assim sendo, seduz diferentes tipos de homens. Cândida, desgostosa das atitudades da filha, a expulsa de casa. Porém, Celeste atribui a sua sensualidade exacerbada à mãe, que também era acometida pelo mesmo vício, haja vista que possuiu um amante durante vários anos. Percebe-se aí o atavismo, fator esse extremamente comum nas obras naturalistas.

Outra característica, também bastante exaltada pelos escritores que escreviam seus romances seguindo a escola naturalista, era o determinismo a que todas as personagens da obra estavam subjugadas. Cândida sofre dos mesmos males de celeste e da mesma patologia do pai, isto é, a líbido em excesso. Males esses que conduzem todos à ruina.

Celeste é uma boa obra, a leitura flui rápido, graças as descrições objetivas de Adélia. É interessante ver a figura feminina na óptica duma autora. Celeste é uma mulher que contrasta com o ideal de mulher da sociedade brasileira da década de 1890; com certeza é esse um dos méritos da escritora. A acertada construção duma personagem que bate de frente com rígidos padrões de conduta que eram impostos as mulheres de seu tempo.

Leitura indispensável para àqueles que querem conhecer a prosa duma das primeiras escritoras brasileiras.

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29
Jun 10

São Bernardo – Graciliano Ramos – Breves comentários

Laís Azevedo

São Bernardo, publicado em 1934, é o segundo romance do escritor alagoano, Graciliano Ramos. O livro faz parte do chamado romance de 30, que ficou conhecido pelo regionalismo e por trazer, em grande parte, ideais marxistas. Entretanto, vale ressaltar que os romance feito na década de 1930, aproveitaram as inovações feitas a partir da década anterior, isto é, os escritores valeram-se dos avanços modernistas. Ademais, em 1928, A Bagaceira, de José Américo de Almeida, romance considerado o inaugurador do regionalismo com características realistas, foi publicado. Ora, desse modo, a nomenclatura “romance de 30″ parece ser, de fato, pouco adequada à essa produção a qual me referi no início deste texto, uma vez que seria ela, pois, a continuação com alguns matizes diferentes do movimento modernista iniciado na segunda década do século passado. Deixarei, agora, de lado, esses rótulos e ater-me-ei à obra.

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16
May 10

“O Bom-Crioulo” – Uma breve análise

Laís Azevedo

Escrita por Adolfo Caminha, a obra “Bom-Crioulo” teve sua primeira edição lançada em 1895. O livro faz parte do movimento naturalista francês que influenciou os escritores brasileiros no início da década de 1880. Os naturalistas procuravam incorporar em suas obras as teorias cientificistas que eclodiram durante os oitocentos. Assim, o evolucionismo social de Spencer, o determinismo de Taine dentre outras teorias eram responsáveis por explicar o comportamento das personagens nesses chamados romances de tese.

“O Bom-Crioulo” foi a primeira obra brasileira a abordar o homossexualismo masculino. Vale lembrar que a premissa basilar do movimento Naturalista, tanto na França, quanto no Brasil, era a de educar a sociedade apontando o que os escritores da época consideravam doenças sociais. O termo “doenças” adequa-se bem à visão da época, haja vista que a sociedade, no século XIX, era vista pelos naturalistas como um corpo social, isto é, tal como corpo humano que também podia sofrer com enfermidades. Desse modo, uma parte doente poderia, por exemplo, levar as outras a adoecerem. Mas quem eram considerados doentes no século XIX?

Antes de mais nada, é preciso lembrar que desde o século XVIII, na Europa, uma ideia de higienização do corpo social começava a dar os seus primeiros passos. O Brasil no início do período oitocentista também foi alvo de mudanças radicais. Basta lembrar que a família real brasileira, ao chegar aqui em 1808, desencadeou uma série de mudanças na cidade do Rio de Janeiro que acabaram, dum certo modo, refletindo-se também nas outras partes do país. Sendo assim, um padrão para levar a sociedade a um status de “civilização desenvolvida” foi traçado. Além das mudanças estruturais, buscou-se também definir um padrão de família. A mulher que no período colonial desempenhava poucas funções, aliás basicamente uma: a de reprodução, no século XIX passou a influenciar a educação dos filhos. Ademais, com a reformulação da cidade, as mulheres passaram a se exibir mais, pois era muito comum outrora (durante o período colonial) o uso de mantilhas para cobrir o rosto (herança moura, talvez); afora isso, as mulheres saíam basicamente para irem à igreja. No século XIX essa situação mudou, graças a isso as mulheres ganharam um pouco mais de liberdade; sim, uma liberdade assaz limitada pelo modelo patriarcal, mas que, porém, abriu mais espaço para a mulher no modelo familiar burguês. Esse consistia, mormente, em enquadrar as famílias num modelo heterossexual, calcado num casamento, onde o pai era o cabeça e a mulher, além de zelar por alguma parte da educação dos filhos e do ambiente doméstico, deveria reproduzir a prole o máximo possível.

Baseando-se no que foi dito, aqueles considerados doentes e desviados nessa sociedade eram, pois, os homossexuais, os libertinos, as prostitutas, as solteironas etc; em suma, eram todos aqueles que não se adequavam ao modelo heterossexista. Sendo a atitude deles consideradas doenças, cabia aos naturalistas, em seu papel moralizador educador, descreve-los, ou seja, acusava-se para regenerar. Desse modo, vários romances abordando esses comportamentos eram trazidos à bailia. Sobre a histeria, por exemplo, que era responsável por acometer aquelas que não se casassem, isto é, que não faziam uso do útero e, portanto, não se reproduziam. Nesse viés, algumas obras foram escritas; “O Homem”, de Aluísio Azevedo e “A Carne” de Júlio Ribeiro são bons exemplos dessa busca por descrever o que acontecia com as solteironas.

Isso posto, podemos agora entender melhor “O Bom-Crioulo” e analisar algumas das características desse romance.

O enredo dessa obra de Caminha centra-se na figura de três personagens, Amaro, conhecido com Bom-Crioulo, ex-escravo que possui 30 anos de idade; Aleixo, um jovem loiro e belo, cuja idade não passa dos quinze anos, e  D. Carolina, uma quarentona que aluga quartos na Rua da Misericórdia. A história inicia-se com a personagem Amaro numa corveta (uma espécie de embarcação) que descrita de modo bastante lúgubre. Nesse cenário, o narrador apresenta-nos, além do Bom-Crioulo, Aleixo, rapaz esse que manterá até no meio da narração uma relação homoerótica com Amaro. O Bom-Crioulo nesse capítulo inicial está sendo castigado, juntamente com ele dois jovens, um deles que fora pego masturbando-se; atitude essa que, segundo o narrador, é um dos maiores crimes da natureza, uma vez que o sêmen é jogado ao chão e, por isso, não pode cumprir sua função primordial que é a de fecundar. Eis aí a ideia da qual falamos anteriormente, o prazer que não visava a reprodução deveria ser, pois, ignorado. Em um outro capítulo, ainda no início da obra, o narrador realiza uma digressão para explicar o passado de Amaro. Assim, descobrimos que a personagem é um escravo fugido que entrou na marinha para se ver livre do cativeiro. Além dessa informação, o narrador aduz também, desde já, as preferências sexuais de Bom-Crioulo, que tenta manter relações sexuais com duas prostitutas, ambas as tentativas frustradas. É mostrado, dessa maneira, a falta de desejo que Bom-Crioulo sente pelo sexo oposto, que Amaro considera inferior, pois, para ele, as mulheres ocupam-se somente de mentiras.

Na corveta Amaro apaixona-se por Aleixo, o ex-escravo garante ao efebo proteção e esse, por sua vez, garante-lhe o prazer sexual, que é consumado pela primeira vez na embarcação. Amaro, no auge de sua paixão pelo jovem, aluga um dos quartos de D. Carolina. Essa senhora, que no início apóia a relação dos dois, passa a gostar também do jovem, quando Amaro é designado para trabalhar noutra embarcação.

Abro um parênteses aqui para abordar o processo de zoomorfização que marca as cenas em que Amaro e Aleixo entregam-se aos prazeres da carne. O Bom-Crioulo é descrito como um touro; Aleixo, por seu turno, é visto pelo ex-escravo sempre como uma mulher, nas palavras do narrador, uma rapariga (referimo-nos não ao significado pejorativo que o termo ganhou depois). Fica claro, logicamente que de modo implícito, que Amaro desempenha o papel ativo na relação, e Aleixo o passivo.

Voltando ao enredo, Amaro é mudado de navio, suas visitas ao jovem tornam-se mais raras. Devido a isso, o jovem marinheiro fica, em grande parte, sozinho no quartinho alugado pelos dois, haja vista que os horários do casal não se coincidem. Ementes, Aleixo começa a travar uma relação com D. Carolina, que usa-o para sentir-se mais jovem. Nesse meio tempo, Bom-Crioulo desesperado para ver sua paixão arruma desculpa para sair do navio, durante o passeio bebe bastante, assim é preso, devido a desordem que apronta e, devido a isso, no navio onde labuta, recebe castigos corporais que o fazem ir para o hospital. Lá o ex-escravo fica trancafiado por mais de um mês, seus ímpetos libidinosos aumentam a cada dia nesse “cárcere”. Uma noite, então, Amaro escapa e toma conhecimento, logo pela manhã numa padaria, que o jovem Aleixo estava amigado com D. Carolina. Ao sair do estabelecimento, Bom-Crioulo depara-se com efebo e, valendo-se duma navalha, lho ceifa a vida.

Nesse romance curto, que pode ser visto, ao nosso ver, como uma novela, a mensagem é bem clara: o homossexualismo e o amasiamento com uma mulher que é sustentada por um açougueiro, somada às condições favoráveis à pratica homossexual desenvolvida no interior da embarcação, são determinantes para o futuro trágico de Aleixo. Desse modo, a ideia moralizante e pedagógica fica nítida para o leitor: “torne-se homossexual e sofra uma tragédia tal como a do jovem marinheiro”. A relação matrimonial que Amaro tenta estabelecer com Aleixo, como fica bem frisado no decorrer da obra, sempre será fatal. De mais a mais, o autor claramente chama a atenção para as condições desses navios, que se não forem bem vigiadas, constituar-se-á  um local propício as práticas, valendo-me aqui das palavras do narrador, pederastas.

Há mais outros pontos que podem ser destacados. Procurarei, nos próximos textos concernentes a essa obra de Adolfo Caminho destacar outros pontos interessantes.

Para findar, gostaria de dizer que “O Bom-Crioulo” possuí, sem dúvidas, o mérito por ter abordado a questão no final do século XIX. Entretanto, penso que “A Normalista”, obra de vertente naturalista do mesmo autor em questão, é um trabalho mais bem apurado, conta com uma trama melhor e com personagens mais densos.


18
Apr 10

Peter Pan na obra original e nas versões: Uma análise comparativa

Por Jeferson Jacques
Danusa Piovesan
Greice Rabaiolli
Rosangela Cabral

Jeferson.theseeker@gmail.com
http://domontag.blogspot.com

INTRODUÇÃO

Peter Pan foi criado em 1904, como uma peça teatral para adultos. Somente em 1911, surge a adaptação para a versão infantil da obra (Barrie, 1911, Peter Pan), que se transformou em um grande clássico da literatura infantil e infanto-juvenil.
Peter Pan já tem um século de existência e até hoje desperta o interesse dos leitores. O clássico teve tanto sucesso, cativando o publico em geral, que acabou passando da literatura para as telas do cinema.
Várias versões já foram publicadas, e foram adaptadas de acordo com a moral e os costumes da sociedade, fazendo com que a obra original sofresse alterações no enredo e nos personagens. Veremos aqui, a modificação (adaptação) dos personagens (e da história) criados no início do século passado. Será que as continuam fiéis à obra original?

Esse será o objeto da pesquisa, considerando três obras que serão comparadas: Peter Pan (de James Barrie, a obra original), Peter Pan (adaptado por Monteiro Lobato, no qual os episódios são discutidos pelos personagens do sítio do pica-pau amarelo), e a adaptação cinematográfica dos estúdios Disney.

OBJETIVO GERAL

Identificar as mudanças estéticas e psicológicas do personagem Peter Pan, considerando a obra original; a versão de Monteiro Lobato e a versão da Disney.


OBJETIVO ESPECÍFICO

Analisar cada obra dentro do contexto histórico em que foi criada.
- Destacar e caracterizar o personagem dentro das obras;
- Estabelecer semelhanças e diferenças entre os textos;
- Apresentar o significado de cada uma dessas produções considerando o período histórico;

HIPÓTESE

Por meio deste estudo, levantamos a hipótese de que o personagem Peter Pan, de James Barrie, sofreu modificações estéticas e comportamentais com as diferentes adaptações, tanto nas reescritas quanto no formato cinematográfico em função do momento.

METODOLOGIA

Para a verificação desta hipótese, através de uma pesquisa bibliográfica, foi feito uma análise comparativa entre três obras: o livro original “Peter Pan”, de James Barrie, a reescrita brasileira “Peter Pan”, de Monteiro Lobato, e a adaptação cinematográfica “Peter Pan”, dos estúdios Disney.

INSTRUMENTOS

As três obras estudadas: o livro original “Peter Pan”, de James Barrie, a reescrita brasileira “Peter Pan”, de Monteiro Lobato, e uma análise acadêmica que fala sobre a adaptação cinematográfica “Peter Pan”, dos estúdios Disney. Além disso, o grupo teve encontros semanais no laboratório de Informática, e pesquisa e locação de livros na Biblioteca central da PUCRS.

PETER PAN NA OBRA ORIGINAL E NAS VERSÕES: UMA ANÁLISE COMPARATIVA

A literatura infanto-juvenil, que tem uma tradição que vêm desde o século XVIII, é um gênero literário que é proveniente dos contos de fadas, que eram estórias que, por meio da tradição oral, eram contadas nos meios europeus e orientais, nas quais os valores e tabus de determinadas sociedades eram trabalhados alegoricamente. Dois princípios norteadores podem ter a literatura infanto-juvenil: podem ser moralizantes, como eram os tais contos de fadas, e literários, que devem, antes de ser pedagógico-utilitários, ser artísticos e estimular a construção de sentidos.

No começo, a literatura infanto-juvenil tinha características moralizantes, porque estavam intimamente ligadas às necessidades burguesas do século XVIII. Ela era escrita com a intenção de sedimentar valores através dos quais a sociedade se constituía, daí, conseqüentemente, a sua natural relação com instituições como a escola e a família. O modo de vida instaurado, tanto na parte comportamental como no próprio molde de instituição familiar, aparecia visivelmente nas estórias, e os personagens não eram construídos como seres humanos, inteiros, capazes de ter dúvidas e conflitos próprios no seu plano de existência. De acordo com Carlos Reis (2003), “a narrativa tem vários elementos, e o mais significativo é o personagem”. Nos contos de fadas e nos contos tradicionais, que nem sempre eram escritos para leitores mirins, a personagem criança, quando aparecia, estava sempre ligada à inocência e à fragilidade. Eles eram feitos como estereótipos de pessoas que deveriam ser tomadas como exemplo pelas crianças, daí o seu caráter pragmaticamente utilitário, que foi criticado pela escritora brasileira Ana Maria Machado (KHÉDE, 1983), quando ela diz que “não há compatibilidade entre a literatura e a educação”.

Sendo assim, os personagens da literatura infanto-juvenil podem, com o tempo e através de reescritas, pode sofrer modificações, que podem vir tanto conforme os valores que estão em evidência no tempo e no país onde são reescritas, como para atender às exigências de um mercado de bens culturais, pois o livro passou a integrar a sociedade industrial e de consumo.

Dentre os principais personagens, do grupo que detêm o maior sucesso, o escolhido pare o presente estudo é Peter Pan, do escritor inglês James Barrie. A obra surgiu após o grande sucesso de Barrie com a peça para adultos “Peter Pan, The Boy That Wouldn´t Grow Up”, de 1904, e o conto “Peter Pan In Kensington Gardens”, de 1906. Em 1911, surge a versão infantil, com o título de “Peter And Wendy”, que daria origem ao longa-metragem da Disney, produzido em 1993.

A estória fala sobre um menino que vive em um lugar chamado “Terra do Nunca”, que fica fora do plano humano de existência, e que, como espaço de fantasia e utopia, possibilita a realização de uma combinação: Peter e a natureza. O menino é apresentado de forma a idealizar a eterna infância, pois ele decidiu não crescer, e de tal contato com o natural, é capaz de voar como um pássaro. A estória começa a partir do seu primeiro contato com pessoas reais, que se dá quando em certa ocasião, ao visitar a família com a finalidade de ouvir as histórias que a Sra. Darling conta à seus filhos, ele perde a cabeça de sua sombra, dependendo da menina  Wendy para achá-la e prendê-la ao seu corpo novamente. O confronto entre a vida selvagem e instintiva de Peter com a rotina urbana e comportamentalista da família Darling é o fio condutor da história.

Para o início da análise comparativa das mudanças estéticas e comportamentais do personagem Peter Pan, é importante enumerar algumas características que ele tem, de acordo com a obra original “Peter e Wendy”, de James Barrie:

“Acompanhava-o uma estranha luz, que teria no máximo o tamanho do punho de uma criança e corria pelo quarto como uma coisa viva. Acho que foi essa luz que acordou a Sra. Darling. Soltando um grito de susto, ela pulou da poltrona, viu o menino e não teve dúvida de que se tratava de Peter Pan. Se você, eu ou Wendy estivéssemos lá, veríamos que ele se parecia muito com o beijo da Sra. Darling. Um amor de menino, vestido de folhas e coberto da seiva que brota das árvores. Porém, o que tinha de mais fascinante eram os dentes: todos de leite. Quando percebeu que estava diante de uma mulher adulta, mostrou-lhe os dentes, quer dizer, as pequeninas pérolas de sua boca.” (BARRIE, 1939, p.10).

“Peter também conseguia ser muito educado, já que aprendera boas maneiras nas cerimônias das fadas. Assim, levantou-se e fez uma bela reverência. Contente com os modos dele, Wendy também lhe fez uma reverência, sem sair da cama.” (BARRIE, 1939, p.21).

— “Acho que teria sido melhor passá-la a ferro — disse Wendy pensativa, mas Peter, como todo menino, não se importava nem um pouco com a aparência e agora dava pulos de alegria. Esquecendo-se de que devia tanta felicidade a Wendy, pensava que ele próprio havia costurado a sombra.
— Ah, como eu sou esperto! — gritou, encantado consigo mesmo.
É uma vergonha ter de confessar que esse convencimento era uma das qualidades mais fascinantes de Peter. Para falar com toda a franqueza, nunca existiu um menino mais convencido. Naquele momento, porém, Wendy estava chocada.
— Mas é muita pretensão! — exclamou terrivelmente sarcástica. — E eu não fiz nada, não é?
— Você fez um pouquinho — o garoto respondeu com indiferença, e continuou dançando. “(BARRIE, 1939, p.23).

— “E agora é a minha vez de lhe dar um beijo?
— perguntou Peter.
Se você quiser… — ela disse com ligeira afetação, oferecendo-lhe a face de um jeito que chegava a ser um pouco vulgar. Peter, no entanto, colocou na mão dela uma bolota de carvalho que usava como botão.” (BARRIE, 1939, p.25).

“Peter conseguia dormir durante o vôo simplesmente deitando de costas e flutuando no ar. Devia isso, ao menos em parte, ao fato de ser tão leve que, se você ficasse atrás dele e soprasse, iria fazê-lo voar mais rápido.” (BARRIE, 1939, p.36).

Características de Peter Pan na obra de Monteiro Lobato:

“Em vez de responder, o menino enxugou depressa os olhos com as costas das mãos e fez um bonito cumprimento com o gorro vermelho.” (LOBATO, 1995, p.12)

A obra de Monteiro Lobato difere do original por ser mais compacta. A original de Barrie é contada em terceira pessoa, e o narrador parece ter proximidade com o leitor, pois usa falas como “…se eu e você estivéssemos lá, veríamos…”(BARRIE, c1939, p.10). Lobato, ao contar a estória em forma de um diálogo entre Dona Benta e os demais personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, quis dar um tom de oralidade no texto, mas uma oralidade diferente da original, que centrada entre narrador-leitor. Por isso, algumas alterações foram feitas, como por exemplo: não consta o encontro de Peter Pan com a Sra. Darling. Mas tais mudanças não alteram Peter Pan significativamente, pois, quanto à caracterização estética e comportamental, o personagem permanece o mesmo, fiel ao original, com a diferença do “gorro vermelho”.

Características de Peter Pan, Filme da Disney, de 1953.

“Peter Pan, filme de 1953, adaptado da obra homônima de J.M Barrie, Trata de Um garoto órfão, que não queria crescer, líder de uma trupe de garotos, “os meninos perdidos”, que mora num lugar de fantasia povoado por piratas, índios, sereias e fadas. Peter viaja até Londres para ouvir as histórias de Wendy, a qual ele leva para a Terra do Nunca (juntamente com os irmãos dela) e a intitula mãe dos meninos perdidos. Juntos, eles enfrentam grandes aventuras e o terrível Capitão Gancho. Nesta pequena sinopse do filme, a qual talvez não faça jus ao seu enredo, podemos perceber a busca por familiares e um mundo no qual qualquer criança gostaria de viver, que se assemelha muito com a Disneylândia criada por Disney para reviver os momentos felizes da infância. Esta história foi escolhida para ser o segundo longa metragem de animação, mas o estúdio, naquele momento, não tinha todos os recursos necessários para criar os personagens e ambientes, tais como imaginados pelo diretor da Disney.
A adaptação não é o mais fiel a obra original, uma vez que sofrera alterações para receber o selo Disney de produção. A diferença mais relevante é a exclusão da tensão sexual entre Peter Pan e Wendy. Se no livro de Barrie, podemos perceber um envolvimento mais emocional dos dois personagens, culminando com o beijo que a menina da em Peter, no Filme Vemos apenas um esboço de uma tentativa de beijo, prontamente interrompida pela fada Sininho. Essa fada carrega graciosos e sensuais traços femininos além de um caráter forte, chegando a forjar até mesmo uma tentativa de assassinato à Wendy, contrariando a personalidade comum às fadas e até mesmo de outros filmes da Disney.

Como todos os filmes são adaptações e o próprio termo implica isso as mudanças são necessárias e se fazem evidentes. Como diz Mainguenau (1998), são duas cenas englobantes diferentes: A literária e a Cinematográfica. E cada uma tem sua linguagem própria. O Comprometimento dos livros é com os leitores, e o comprometimento dos filmes são com os espectadores. São dois Tipos de Públicos Diferentes, portanto são linguagens diferentes que suscitam acontecimentos diferentes, por isso as mudanças nas adaptações.
As características distintas dos personagens são moldadas num mesmo padrão de produção, o padrão Disney, caracterizado pela apresentação dos personagens (todos muito cativantes ao público), introdução da trama, desenrolar desta e resolução de todos os problemas para que no final a frase “…E viveram felizes para sempre” seja a síntese da obra. Dessa forma, características próprias dos contos de fadas (que por incrível que pareça têm, geralmente, finais tristes) e dos romances (que tendem a um final trágico também, com a morte de vários personagens) são alteradas para atingir um público próprio, o infantil, com objetivos próprios, o entretenimento, a diversão. A narrativa fantástica, no caso, de Peter Pan, é a que sofre menos mudanças,mas existe um motivo para isso: O autor a havia escrito sob a forma de peça teatral,e,em seguida, adaptando-a em uma narrativa. (Barrie era um célebre escritor de peças teatrais, atingindo o auge de sua carreira com Peter Pan). Portanto, sua escrita é muito mais visual, sendo mais facilmente transposta para a linguagem cinematográfica, ou seja, a linguagem a partir das imagens.” (apud PARMA, 2008)

A partir das leituras e comparações entre as obras, à luz das idéias de alguns teóricos da literatura, observa-se que a transformação de personagens originários de obras literatura para outros formatos (cinema) e reescritas, acarreta mudanças naturais, tanto na parte estética e comportamental deles quanto no roteiro em si. É um campo amplo, e a presente análise surge não como algo absoluto, mas como uma idéia para um estudo mais aprofundado e abrangente de Peter Pan e suas mudanças.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARRIE, James (c1939). Peter Pan. Tradução: Maria Antonia Van Acker. Hemus, São Paulo.

BARRIE, James (2006). Peter Pan. Tradução: Ana Maria Machado. Salamandra, São Paulo.

BERNADET, J.C (1994). O autor no cinema. Brasiliense, São Paulo.

BRAIT, Beth (1985). A Personagem. Ática: São Paulo.

BOLOGNINI, C.Z (2007) Discurso e ensino: O cinema na escola. Mercado de Letras, Campinas.

ELIOT, M. (1993) WALT DISNEY – O príncipe sombrio de Hollywood. Marco Zero.

FOUCALT, M (1969) O que é um autor? Veja, Passagens, 1997.

KHÉDE, SÔNIA (1986) Personagens Da Literatura Infanto-Juvenil. Ed. Ática, São Paulo.

KHÈDE, SÔNIA (1983) Literatura Infanto-Juvenil Um Gênero Polêmico, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ.

LOBATO, Monteiro (1995). Peter Pan. Brasiliense, São Paulo.

MAINGUENEAU, D (1998) Análise de Textos de comunicação. Cortez, 4ª edição, São Paulo, 2005.
PARMA, Alan F (2008). Monografia – Walt Disney: Um Homem, uma Empresa que (re)Contam Histórias. IEL – UNICAMP.

REIS, Carlos (2003). O Conhecimento da Literatura: Introdução aos Estudos Literários. EDIPUCRS, Porto Alegre.

Filmografia:

Peter Pan, 1953.Produção: Walt Disney Pictures.

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7
Feb 10

Análise de A viuvinha – José de Alencar

a-viuvinha-img4-blogjpgPublicado em 1860, A Viuvinha é uma novela de José de Alencar, ilustre escritor romântico brasileiro, autor da trilogia indianista composta por O Guarani, Iracema e Ubirajara.

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Originally posted 2009-05-20 02:26:20. Republished by Blog Post Promoter


18
Jan 10

“O mulato”, de Aluísio Azevedo – Análise de obra

mournful_moonPor Gabriel Diniz

O Mulato, eis o nome do romance que, segundo alguns críticos, inaugurou o naturalismo em nosso país. O advento dessa escola em nosso país ainda é controverso, haja vista que outros estudiosos consideram a obra O Coronel Sangrado de Inglês de Sousa a primeira desse estilo literário. Os que defendem essa ideia dizem que a obra de Azevedo ainda contava com muitos cacoetes românticos; a de Sousa, por sua vez, lançada quatro anos antes de O Mulato, possuía mais elementos da escola criada pelo francês Émile Zola.

Controvérsias à parte, ater-no-emos agora ao supracitado romance de Azevedo.

O escritor, nascido na Província do Maranhão, debutou na cena literária oitocentista com a obra Uma lagrima de mulher, essa totalmente calcada nos preceitos românticos. Todavia, uma transformação ocorreu em seu segundo romance, O Mulato. Conta-se que o autor teve vários problemas com a Igreja no Maranhão, justamente por ter publicado diversos artigos em jornais atacando o clero. Dum certo modo, isso acabou reflectindo-se em O Mulato. Como? Vejamos!

O enredo centra-se na história de dois protagonistas Ana Rosa e Raimundo. Os dois primos apaixonam-se, porém encontrão enormes dificuldades para concretizar o amor. O mancebo,filho de José da Silva, é fruto dum caso de seu pai com a escrava Domingas. A donzela, por sua vez, é filha de Manuel Pedro da Silva, o Manuel Pescada, comerciante na cidade de São Luís. O encontro do casal se dá quando José da Silva contrai núpcias com Quitéria, a mesma não aceita a ideia do marido ter tido um filho com uma escrava. Sendo assim, o infante vai morar com o tio Manuel. Lá recebe o carinho de Mariana, esposa de Pescada. Nesse mesmo tempo, Quitéria é pega  por José da Silva com o cônego Diogo. Enfurecido com a traição, Silva esgana a esposa.  O clérigo, espertamente, faz um tracto com o marido traído, que consiste em não delatá-lo. Porém, José da Silva não poderá também falar nada sobre o adultério da esposa. Deste modo, a causa mortis de Quitéria é atribuída um problema natural e também à feitiçaria.

O padre Diogo, entretanto, não decide correr nenhum risco, temendo que Silva dê com a língua nos dentes, mata-o numa estrada que é conhecida pelo comentimento  vários crimes atribuídos a escravos fugidos. Devido a isso, o clérigo fica isento de ter cometido quaisquer delitos.

O tempo passa, e Raimundo viaja para a Corte e depois para Europa. No velho continente torna-se doutor em Direito e conhece vários países e depois retorna para o Brasil. Ele fica alguns tempos na capital fluminense, e decide ir para o Maranhão para resolver seus negócios.

Na província, o mancebo é recebido com grande alegria e hospeda-se na casa do tia. Porém, aos poucos ele vai despertando a inveja da população. As coisas pioram, quando o rapaz demonstra, devido aos seus estudos, grande fé ciência em detrimento dos dogmas católicos. A  sociedade da capital da província acusa-o de ser um

E a situação fica mais complicada quando Raimundo decide pedir a Manuel a mão de Ana Rosa em casamento. O tio nega o pedido veementemente. O mancebo insiste em saber o porquê. Manuel reluta em dizê-lo, porém cede as pressões do sobrinho e diz que não permite o casamento, pois ele é um mulato. Deste modo, revela quem a mãe do jovem.

Raimundo, entristecido, decide partir o mais rápido possível para à Corte. Entretanto, o amor por Ana Rosa é maior. A jovem engravida, o casal decide, então, fugir. Porém, o plano é frustrado, dado que o cônego Diogo juntamente com Dias — um português caixeiro que trabalha para Manuel e anseia em casar com Ana Rosa — conseguem impedir a fuga.

Raimundo desesperado com a falha do plano, começa a deambular pela cidade e decide lançar mão da justiça para casar-se com a amada. Porém, o clérigo incita Dias a dar cabo na vida do mancebo.

Os anos passam, no final o leitor é supreendido com Ana Rosa e Dias casados, os dois muito felizes e com três filhos. Um desfecho no mínimo desapontador para aqueles que almejam um final típico das novelas românticas.

Penso, que esse é sem dúvidas um dos melhores romances do século XIX. Mesmo com esse hibridismo romantismo mais naturalismo — fato esse que muitos apontam como um fator negativo —,  Azevedo foi o primeiro escritor a tocar fortemente no assunto da escravidão brasileira. É importante lembrar que nesse período, teorias europeias condenavam fortemente a junção de diferentes etnias, que na época recebiam o nome de raças. Destarte, a ideia da miscigenação era vista negativamente pela ciência do século XIX. Essas ideias foram fortemente propagadas em nosso país. O próprio termo “mulato” já é pejorativo, uma vez que calca-se na ideia de mula.

De mais a mais, o autor também desnuda como ninguém a hipocrísia da sociedade da provincia do Maranhão. E, além disso, O mulato  traz à tona o anticlericalismo — um dos preceitos básicos da escola naturalista — e a visão acerca da mulher, que era vista como uma simples procriadora, que se não sujeitasse ao casamento e consequentemente ao sexo, estaria fadada a sofrer crises de nervo, histerismo. Enfermidade essa que foi amplamente discutida em vários romances naturalistas brasileiros; o tema perpassou praticamente por todas as obras de cunho zolista do escritor.

É válido destacar também as outras personagens do romance. Temos a figura duma velha mexiriqueira, do poeta fracassado, da viúva louca por se casar. da donzelas desprovida de beleza que estão atrás dum marido.

Há descrição das cenas é também bastante impactante. Logo no início da obra o autor é levado pelo narrador a conhecer as ruas de São Luís. Sendo assim, depara-se com um leilão de escravos que é descrito duma maneira bastante detalhista. Os diálogos também são óptimos, principalmente alguns acerca da política brasileira.

O valor da obra de Azevedo é indiscutível, todavia muitos críticos consideram a produção do naturalista assaz inferior quando comparada a de Machado de Assis. A meu ver um erro crasso, visto que as obras de ambos escritores podem ser colocadas no mesmo patamar.

Por fim, faz-se mister dizer que O Mulato possui duas versões. Na primeira, lançada na década de 1870, Raimundo não é o protagonista da obra, quem ganha esse papel é cônego Diogo. Os estudiosos também apontam que o autor, nessa segunda versão, inseriu mais elementos naturalistas no livro.

A dica é: leiam O Mulato! A obra é com certeza um dos maiores clássicos de nossa literatura.

Originally posted 2009-09-29 18:24:40. Republished by Blog Post Promoter


19
Oct 09

A Família Agulha

livros5

Por Gabriel Diniz

O lado b da nossa literatura, até agora, trouxe obras do século XIX e do início do século XX que estavam esquecidas. Todos os livros, apresentados nesta coluna do site, enquadram-se no rol de obras pertencentes à escola naturalista. Para variar um pouco resolvi trazer uma obra pautada num viés diferente.

A Família Agulha, escrito por Luís Guimarães Júnior, foi publicado em em forma de folhetim no Diário do Rio de Janeiro. Essa forma de publicação de romances foi muito utilizada no século XIX . Esse modelo, importado da França, consistia em publicar os capítulos duma determinada obra em uma sessão específica do jornal. A prática ajudava a aumentar a venda dos periódicos. José de Alencar, Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, dentre outros, também utilizaram as gazetas da época para levarem ao público os seus trabalhos literários.

Mas no que consiste a obra de Guimarães? O romance humorístico traz à tona a história da família Agulha que é composta por Anastácio — o pai —, Eufrásia — a mãe — e Bernardino — o único filho do casal. Além dessa tríade, o leitor conhece vários tipos da sociedade oitocentista do Rio de Janeiro, tais como: mulheres fofoqueiras, políticos corruptos, jovens interesseiras et cetera. Parece que estou, até mesmo, a falar de nossa sociedade actual. De facto, quiçá esteja, dado que ainda convivemos com figuras desse tipo, sendo nós, também uma delas.

Retornemos ao enredo. Nos primeiros capítulos do livro, Anastácio casa-se com Eufrásia, o mancebo apaixona-se pela moça, graças ao tamanho do pé da jovem. E, é a partir disso, que as aventuras do casal iniciam-se. O senhor Agulha, desde o início, mostra-se totalmente descontrolado. Numa das primeiras confusões que arruma, ele briga com uma de suas vizinhas — uma senhora, cujo hobbie favorito é o de ocupar-se da vida doutros. A contenda com a fofoqueira, põe a família Agulha em maus lençóis, visto que Anastácio pede seu emprego público, pois a mexeriqueira possuía um parente numa posição hierárquica maior que o marido de Eufrásia.

Assim sendo, sem o labor,  a família cai na Miséria. Porém, a roda da fortuna gira; Eufrásia recebe uma carta duma de suas amigas, Joaninha Sacramento, cujo  marido rico tem verdadeiro amor pela política. Astutamente Anastácio decide tirar provar da situação, e promete fazer com que Leocádio da Boa-Morte — o candidato do senhor Sacramento — consiga eleger-se como um deputado. Para isso, o Agulha angaria uma boa soma de dinheiro para conseguir o maior número de eleitores possíveis. Essa passagem, considero uma das mais interessantes da obra, pois o narrador descreve com maestria a corrupção que acometia as eleições no tocante aos cargos legislativos. A ideia, como bem mostra as cenas da eleição, é a de conseguir fraudar de todos os modos possíveis a disputa eleitoral. Deste modo, grande parte dos que concorriam à “democrática” luta para alçar o cargo de deputado, valiam-se dos meios mais sujos, no intuito de conseguirem a tal almejada cadeira na assembleia. Entretanto, Anastácio decide fugir com o dinheiro que lhe fora confiado, e, desta maneira, parte para a cidade de Macaé junto com a esposa. Por lá fica alguns anos, depois regressa à Corte e apronta outras loucuras, que ganham força com o nascimento de Bernardino.

Após o parto do infante, Anastácio sonha com todos aqueles que ele prejudicara durante a vida, e em seu sonho um sujeito vaticina-lhe que era necessário arrumar um padrinho raro para o garoto; caso isso não fosse feito, a desgraça iria acompanhar a trajectória do menino durante toda a vida. Preocupado com a profecia, o homem parte em busca do padrinho. Acha, por meio de Felisberto — um procurador —, Bernardo, um louco, que já estivera várias vezes internado num hospital de alienados. Isso desencadeia mais problemas ainda, o batizado do infante, i.e, é uma verdadeira loucura.

A prosa de Guimarães, em A Família Agulha, não abre espaços para personagens com densa carga psicológica. Esse aspecto, numa obra em que o autor propõem uma veia humorística não acarreta problemas. Há figuras óptimas como uma mulher que fala todas as vezes sobre seu falecido, outra senhora, Leonarda, sempre está a fazer charadas. Tem também uma cozinheira, que não consegue parar de falar em suas receitas.

As atitudes de Anástácio suscitam o riso a todo momento. Há cenas engraçadíssimas, onde ele faz discursos malucos, tenta abraçar Felisberto a todo momento para demonstrar sua alegria. Com certeza, não podia deixar de ressaltar também os diálogos non sense e hilários que permeiam a obra.

Outra característica que não pode ser deixada de lado aqui, é a crítica mordaz ao Judiciário, e principalmente aos operadores do Direito. Todos os bacharéis no estudo das leis, possuem uma péssima ortografia, não sabem o que fazem. Estão nos cargos da justiça unicamente por indicações.

Destaque também para os nomes. Felisberto, i.e, de feliz não possui nada, na verdade, sua vida torna-se um tormento, graças a Anastácio. Joaninha Sacramento, por exemplo, nada condiz com o seu nome, haja vista que ela leva vários personagens a ruína ao invés da salvação; Bernardino é um desses, que cai nas garras da esperta meretriz.

O narrador, muito bem construído, tal como o que aparece em Memórias de um Sargento de Milícias, é verdadeiro fuxiqueiro. Emite comentários carregados de ironia, e dirige-se em grande parte do livro às leituras. Elemento esse que comprova, como já tem demonstrado diversos estudos dos romances dessa época, que os textos literários eram lidos mormente pelas mulheres.

Para findar, poder-se-ia dizer que relegar a obra de Guimarães é um grande erro. Graças o a trabalho da editora Presença no final da década de 80, a obra pode ser encontrada em alguns sebos. Espero que uma nova reedição seja feita o mais rápido possível. Leitura obrigatória!