Crônica


8
Aug 10

Não as matem

Lima Barreto –  Comentários de Laís Azevedo

A literatura, de fato, atravessa, por meio da pena dum bom escritor, a barreira do tempo. Um exemplo de autor, que possuiu esse talento, é Lima Barreto.

Na crônica “Não as matem”, escrita em 1915, o autor aborda, de maneira clara e o objetiva, a violência cometida contra as mulheres, que, infelizmente, ainda ocorre nos dias de hoje. Se não fosse por certos detalhes concernentes à epoca (afinal, todo homem é fruto de seu tempo), poder-se-ia dizer que Lima teria escrito seu texto hoje. Os jornais não me deixam mentir.

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

Continue reading →


3
Aug 10

O Estado quer te ensinar a foder!

Lauro Drummond

O Estado brasileiro, cada dia que passa, torna a democracia, estampada na Constituição Federal de 1988, pior.

No Brasil, atualmente, legisla-se para tudo, sim para tudo. O Estado brasileiro, ama retirar de seus cidadãos, decisões que só devem ser preocupação dos mesmos.

A polêmica lei da palmada é, ao meu ver, o maior exemplo disso. Querem ensinar como você deve educar seu filho. O problema é que: o mesmo Estado que deseja usurpar o pátrio poder conferido aos pais, não arranjar-lhe-ás nenhuma solução, quando os filhos, os quais como uma simples denúncia colocarão os pais atrás das grades, cometerem delitos e foderem, com comportamentos inadequados, as coisas que, realmente, importam para uma vida em sociedade. Ora, muito bonito, senhores legisladores, criarem projetos de leis que não atendem o que a maioria da representação pensa! Não me surpreenderei quando acordei um dia e ver o presidente sancionar quais as posições que os casais devem usar para fazer sexo! Parabéns, Legislativo! Enquanto isso, vocês seguem, neste sistema bicameral de merda adotado no Brasil, deixando projetos bons engavetados.

Continue reading →


18
Jul 10

Vamos aos fatos

Lauro Drummond

VAMOS AOS FATOS

Politicamente conscientes: com o advento das redes sociais, a classe média brasileira pode mostrar, de forma mais acentuada, seu modo de agir, pensar, etc. Uma das coisas mais comuns no Twitter e outrora no Orkut é, a todo momento, mostrar que é uma pessoa politizada. Criam-se campanha contra candidatos, demonizam os amantes do futebol, pedem a saída de políticos, tentam salvar a natureza; enfim, sentem-se os “pica-grossas” da vez. Assim sendo, recorrem aos clichês de clássicos que nunca leram, tal como O príncipe de Maquiavel. Falam do pão e circo, pensam que assim são superiores aos indivíduos que não externam essa indignação. Meus caros amigos “do bem”, “pica-grossas”, vamos aos fatos: você escrever #fora Sarney no Twitter, pedir o salvamento das baleias no Japão, xingar a Rede Globo, dizer que o povo se ilude no período de futebol, não muda porra nenhuma. Você está sendo, somente, um chato, um filho-da-puta, e só. O José  Sarney continua lá e que se foda. As baleias também que vão para a puta-que-pariu. A Globo não está nem fodendo para ti. Tanto não se fode que continua sendo líder em audiência e você, provavelmente, assiste a algum programa exibido pela emissora; O fato é: vá à merda.

Ser do bem: Criou-se nesta década o rótulo: “sou do bem”. Quem são as pessoas do bem? São pessoas que precisam a todo momento ver a desgraça alheia, fazer uma caridade para que encham seus egos. São pessoas que lutam: contra as sacolas de plástico, compram camisetas para ajudar as pessoas que tem câncer no cu, vestem-se de palhaços e vão aos hospitais tentar alegrar doentes terminais, pessoas que se preocupam com o aquecimento global, que choram quando alguém morre na favela etc. Ora, qual a consideração que eu tenho e você deve ter, meu caro leitor, por pessoas assim? Nenhuma. São chatos, são um bando de bexigas cheias de ego, somente isso. Chorar por um cara que você não conhece e que morreu na favela não faz você melhor que o seu vizinho que não está nem fodendo para isso. Da mesma maneira, usar sacolas e plásticos não afetará sua vida, pode afetar a dos seus bisnetos, mas e daí? Você vai estar vivo? Então que  se foda. Doentes terminais não gostam de palhaços, aliás, ninguém gosta de palhaços, o que os doentes querem é saúde; logicamente, sua fantasia de palhaço não irá trazer saúde para ninguém, pensando assim, enfie o nariz e o jaleco de palhaço no cu, simples. Não seja “do bem”, seja comum, viva a sua vida como um bom animal: coma, trepe e durma, a natureza agradecer-te-á.

Até semana que vem!


22
Apr 10

Crónica Literária – Jovens Escritores Portugueses

Pedro Silva

Ao longo da minha vida aprendi a apreciar a literatura. Sem sucesso procurei, nos últimos anos, concretizar um projecto de revista literária e cultural, em formato impresso. Deste modo, resta-me a interessante alternativa da crónica literária. Assim nasce, portanto, a presente iniciativa que pretende manter a relevância e qualidade pretendida, no que diz respeito à divulgação da literatura de Portugal.

Sucinto, fluido e aberto a todos os que estejam interessados na literatura de qualidade, este espaço é, portanto, de todos nós.

Tal como o próprio título indica, este é o local para discorrer sobre jovens escritores portugueses. Portanto, de forma automática, isso significa que aqui estarão presentes as obras e os autores de que realmente gosto, após efectivo conhecimento, por intermédio da leitura, de algumas das suas obras.

Infelizmente, para muitos a palavra “ler” acarreta uma ideia de algo “maçador”. Porém, é nossa função, enquanto promotores da cultura, demonstrar o contrário. Daí a lista de títulos abaixo ser uma referência lógica para autores de qualidade e obras que despertam o interesse pela leitura.

Centenas, se não mesmo milhares, de obras já nos passaram pelas mãos, tendo lido a sua grande maioria. Até hoje ainda não houve um só título que não nos tivesse ensinado algo. E isso é outro dos grandes trunfos da literatura.

Bendita cultura e benditos momentos de ócio que nos permitem ter acesso a livros tão belos quanto aqueles referidos na presente crónica.

A cultura não é apenas motivo de divulgação intelectual. Da nossa parte, acreditamos que serve também para um intercâmbio entre pessoas do mundo inteiro. E foi com esse intuito que tomámos contacto com escritores de diversas nacionalidades, versando sobre temas diversos. Aqui iremos conhecer vários autores que permite uma maior amplitude no mundo das letras.

Se é verdade que, até por defeito profissional, apreciamos sobretudo os livros de cariz ensaístico, também não é menos real afirmar que, entretanto, após termos tido a oportunidade de contactar com tantos e tão bons autores, renasceu em nós um carinho especial pela boa ficção.

Conforme tem sido possível perceber, podemos viajar imenso, sem sair do lugar, apenas com a magia da literatura. Voemos alto, com os pés bem assentes na terra, pois então…

Desta feita, a nossa opção passar por três escritoras portuguesas, jovens e a criar o seu próprio currículo literário e, quem sabe, o seu próprio lugar ao Sol dentro de uma perspectiva de actividade no campo da escrita.

Em primeiro lugar, deslocamo-nos para o Oceano Atlântico, para visitamos a bela ilha de Angra do Heroísmo, onde conhecemos a autora Sónia Bettencourt Vieira, autora de “Pena e pluma” (2003, 31 pp.) que a coloca como um jovem valor português no campo literário. Com um estilo de escrita bastante moderno, Sónia Bettencourt não se coíbe de aventurar-se por vários estilos literários, como crónicas. Porém, é na poesia que mais se distingue, tendo, recentemente, tido a felicidade de publicar alguns dos seus trabalhos no Brasil, nomeadamente na editora independente Demónio Negro.

Um bom auspício para uma jovem nascida em 1977 que, de forma paralela, se vem destacando profissionalmente no campo do jornalismo. Publicou, igualmente, a obra “As três faces de Eva”, pela portuguesa Corpos Editora e vai paulatinamente criando o seu próprio espaço na literatura nacional. Poderá conhecer melhor o seu trabalho através do seguinte website: http://www.soniabettencourt.com/

Igualmente nascida no ano de 1977, oportunidade agora para conhecer a jovem Cláudia Sousa Mira que, a partir de Lisboa, nos apresenta três obras de cariz vincadamente literário, a saber: “Dançando à margem do infinito” (Carlos Monteiro Editores, 1999, 75 pp.), “Às 24 badaladas do sul ausente” (Ed. Minerva, 2006, 55 pp.) e “Na incógnita de ser quem sou” (Ed. Minerva, 1997, 53 pp.). Particularmente a obra “Dançando à margem do infinito”, em estilo poético, revela-nos a força de uma jovem escritora que, em 65 poemas, aborda ideias e vivências. Para além destes três importantes títulos, Cláudia publicou ainda “Laivos, simplesmente laivos – raiando a terra para além do mar” um livro que a própria autora define como «belo, provocador, irreverente, transfigurador, inquietante».

Natural da cidade de Setúbal, à beira-mar plantada, Cláudia – que, diga-se desde já, é licenciada em Psicologia – mostra-se uma profunda conhecedora dos sentimentos humanos, dominando as palavras como poucos e prometendo novos títulos de qualidade, aguardando pela sua merecida oportunidade de publicação no estrangeiro. Mais sobre a autora em: http://claudiamira.no.sapo.pt/

A mais jovem deste trio de escritoras portuguesas é Ana Macedo que, natural da cidade de Vila Nova de Gaia (1985), em “Sem pecados na culpa” (Gailivro, 2005, 212 pp.) demonstra toda a sua vitalidade literária. Da mesma editora é também a obra “Lágrimas coloridas” (2005), escrita ainda na adolescência e que se tornou o ponto de partida de uma carreira que, actualmente, vai caminhando a passos largos para um justo estatuto de romancista de qualidade. Para além do mais, a sua juventude permite-lhe uma maior proximidade com os jovens leitores.

Deste modo, Ana Macedo vem desenvolvendo importante divulgação da literatura, em escolas, demonstrando que compete a todos os escritores uma parte activa na promoção dos livros, do saber e da cultura. O espaço da autora na Internet encontra-se em: http://anamacedoescritora.blogs.sapo.pt/

Com alguma nostalgia à mistura, mas com a sensação de dever cumprido, chegamos ao fim desta crónica literária. Não apreciamos despedidas, até porque, também no campo das letras, os textos escritos podem ser lidos até ao infinito, desde que permaneça um registo do que escrevemos. Aos autores que destacámos, o nosso agradecimento e, naturalmente, fortes encómios pela qualidade da escrita, pela amabilidade na troca de contactos e votos de sucesso para o futuro.

É com todos eles que nós, leitores, iremos formar – segundo creio – uma “aliança” cultural, que promova a literatura e que dê espaço para novos escritores.


9
Apr 10

Hiper

Flávio Gustavo

Fala, Rogério! Fala!

Obrigado, Jordão! Obrigado. Aqui quem fala é Rogério. Estamos aqui com Jorginho Pé de Fogo acusado de enfiar um punhal no ânus da namorada. Vamos falar como acusado. Jorginho é verdade que você cometeu esse crime cruel?

Antes dele responder, Rogério, antes dele responder, vamos com outra notícia, outra notícia. Tudo pronto aí, Pôleta?

Tudo pronto, Jordão. Tudo pronto. Estamos aqui na região noroeste de Belo Horizonte, e sabe o que encontramos, Rogério?

Não faço, mínima idéia, Pôleta!

Um bebê jogado no pântano negro!

E ele estava nadando, Pôleta?

Tava nadando crawl, Jordão.

Mas que irreverência desse povo mineiro, mas que maravilha, um bebê nadando crawl! Dá para ele ir para o Rio 2016, Pôleta?

Só se você for Jesus para ressuscitá-lo, Jordão!

Mas que maravilha, mas que maravilha, é isso que eu chamo de espirito esportivo. Vamos para o  link da região sul? É isso produção? Ok, Vamos Lá. Fala, Juruna!

Ok, Jordão! Estamos aqui com  o delegado da décima quinta D.P, o doutor Neves. Doutor Nevers, quem é o meliante? É do Morro do Abacaxi?

Positivo, é do Morro do Abacaxi.

Qual o motivo da prisão, doutor?

É simples, Juruna, o cidadão baixou uma lei dizendo que vale, que vale tudo, mas só não vale sexo anal!

É a famosa lei que diz que, só não vale dar o cu?

É essa mesmo, Juruna. O meliante executava os praticantes de sexo anal sem dó nem piedade.

Mas que irreverência desse povo mineiro, Juruna! É povo criando seu congresso, é o povo fazendo lei, é a democracia, Minas Gerais! Que maravilha! Voltando aqui para o estúdio. Problema de hemorróidas? Abaculam vai no ponto certo! Estamos agora de volta com Rogério.

Ok, Jordão. O acusado não quis responder, mas qual é a lei mesmo?


13
Jan 10

Da série: “tenho um amigo que disse que eu”

grove_street_cemetery14Por Sueli Aduan

Não devia andar da maneira como ando na rua, que ontem ele me viu na avenida
próximo aos Bancos, mexeu comigo e eu nem olhei, mas como posso ouvir
alguém me chamar naquele inferno que é a avenida, ele é que não devia ficar
chamando as pessoas, vai que a pessoa se distraia ouvindo o próprio nome,
pronto, pode até acontecer um acidente.

Tenho um outro amigo que disse que eu sou assim mesmo, parece que vivo no
mundo da lua. Ele disse que é louco pra saber o que eu penso quando estou
andando pelas avenidas.

Não sei, respondi. Depende muito, mas acredito que é o que todo mundo pensa
enquanto caminha na avenida, com todos esses carros pra lá e pra cá, sempre um
prédio em construção, a gente sendo obrigado a desviar o tempo todo, quase
andar na rua mesmo, tamanha confusão de cimento, pedras e pás.

Mas ele insistiu: Como assim o que todo mundo pensa? Nos depósitos a fazer,
nos saques, nas contas a pagar ou nos carros bonitos que passam?
Claro que não, respondi:
— O obvio, não é?

E se um carro nos atropela, ou ainda se lá do alto daquele prédio caí uma pedra
na nossa cabeça. Pronto.

Tudo que sonhamos acaba numa fração de segundos, as discussões que tivemos
no dia anterior, a festa que programamos ir ao fim de semana, o abraço que
recusamos, só pra darmos uma de durão… Ele arregalou uns olhos que eu nunca
tinha visto, e gaguejando disse:

Você não é normal. O que será que ele quis dizer com: Você não é normal? Eu
acho que ele não conhece o prazer que dá pensar, nessas coisas simples. Ele é
uma máquina e, com esses olhos arregalados então, parece mesmo uma máquina.
Vou desligar esse cara.

Mas, é claro, que todas as pessoas pensam sobre isso, não necessariamente na
avenida, indo de um Banco a outro, mas em algum momento da vida todo mundo
já pensou:

E se eu morro agora?

Tenho uma amiga, que disse que eu sou luz, que todos somos luz, espíritos em
evolução, e que não devemos ficar pensando nessas bobagens, que faz muito mal
pra saúde.

O que será que ela quis dizer com:  Faz muito mal à saúde?

Coitado do Platão, e daqueles caras que pensaram….pensaram, claro que não em
pedras caindo, ainda que se tratasse de caverna, mas na escuridão do não pensar,
da sombra da casa, da luz que ofusca, na ignorância de se tentar ser igual.
Tenho um amigo, grande amigo, desses que falam com a delicadeza do muito
pensar, ele disse que devemos, sim, andar nas avenidas como quem enxerga
girassóis, como quem vive no mundo da lua, mesmo que um carro…uma
pedra…tudo é mesmo numa fração de segundos…um pensar.

Originally posted 2009-10-12 02:18:50. Republished by Blog Post Promoter


1
Dec 09

Não nos damos conta, Quitéria

legend_of_hell_house21Por Sueli Aduan

Às vezes sente uma tristeza, dessas que não se consegue chorar, por maior que seja nosso esforço, por mais que se tente. Secamos. Nem uma lágrima brota dos nossos olhos. Parece que qualquer movimento, um único virar de rosto, ou piscar de olhos, vai doer, mais.

É como se a gente quisesse parar tudo em volta, paralisar o tempo. Talvez seja assim mesmo e nós que não nos damos conta. Tudo pára dentro da gente. Lá no fundo do nosso ser só um vazio, um nada, um não querer.

Foi assim que vi Quitéria naquela tarde, naquela hora da tarde mais precisamente, com o rosto fechado e o olhar parado.
Com passos lentos veio em minha direção. Tinha os cabelos escorridos, os lábios entreabertos parecendo que queria dizer algo, um andar bambeante, quase um arrasto, uma dor sem fim.

E eu fiquei ali olhando para ela, olhando através dela sem fazer nada imóvel, por uns momentos tive a sensação que não existia, eu não estava vivendo. Não podia mesmo falar nada, não havia nada a ser falado. Minhas dores eram outras, talvez não tão cruas, tão puras como as dela.

Havia um silêncio pairando no ar, as poucas lojinhas da pacata cidade já estavam começando a fechar-se. O relógio da matriz marcava 17h45min, aquele finalzinho de tarde, igual a tantas outras tarde tornou-se a mais diferente de todas as tardes de minha vida.

E ainda, hoje, passado tanto tempo, quando me recordo daquela tarde, vejo que ela foi a mais marcante, a mais dolorosa de todas já vividas. E já vivi muito. Mas por mais que viva nenhum outro olhar será como o de Quitéria, nenhuma outra dor se igualará a dela, nada nunca.

Só seu olhar continua cravado fundo em mim, doendo em mim. No fundo também acho que somos nós que não nos damos conta. Tudo é sempre muito igual, os dias, o ir e vir, as horas passando, o trabalho feito. O que tem valia mesmo é a nossa emoção, é o cheirinho do café passado na hora, o cãozinho latindo ao longe, um brisa suave a nos refrescar, tardes à conversar, ouvir a chuva batendo assim nos telhados, escutar criança chorar.

Acho que é só isso mesmo o que conta, o resto é enfado, canseira, obra do tinhoso, como diz o povo daqui, como disse Quitéria. E pensando bem acho que a gente é que não se dá conta de tudo isso, mesmo, e o abraço morre antes da junção dos corpos, e sobram palavras, palavras, palavras.

Hoje me pergunto por que não abracei Quitéria, não a acolhi em meu braços, acarinhei seus cabelos, tudo tão simples, acho que somos nós que não nos damos conta da simplicidade do gesto modificando a vida.
Na minha memória as palavras pausadas de Quitéria quase sussurrada, um sopro, um quase gemido, um pedido de socorro:
-“quem que ponho curagem pruma barbaridade dessa, uma farta di amor tão inorme, que homê ou muiê vive despois do acontecido” E eu ali, tentando entender, raciocinar, perplexa não derramei uma lágrima. Mas doeu, não sei o que mais me machucou o fato ou Quitéria. Acho que os dois, que tudo, a própria impotência nossa diante do imprevisto, diante da tragédia.

E foi uma tragédia. A poeira que levantou o barulho das patas no chão, o relincha, os berros das pessoas, a
agonia, o sangue no chão, o choro, tudo meio misturado assim mesmo. Não parecia real. Aquele cavalo, forte, desembestado, o menino pendurado, preso pelas amarras do arreio, se debatendo entre pedras e pedregulhos, os lábios já cortados, ensangüentados, a pele das pernas já corroídas… e nada parava aquele animal era obediente a ordem dada.

E ela foi dada, corre ,corre Untu., ele correu. Nada iria fazê-lo parar, conhecia a voz do
dono gritando: – corre, corre Untu. Vingança estranha essa, ferir o filho pra atingir a mãe. Quitéria chorou, chorou, chorou e de repente parou. Não quis mais saber do amante, tão louca era por ele. Tudo perdido, porque foi assim, que sentimento era esse. Quí homê ou muiê vive despois do acontecido. Essas palavras ainda fervilham em minha mente. Eu vivi. Vivi?