
Por Flávio Gustavo
Você acorda e pensa e se todo mundo morresse amanhã? Todos com apenas vinte e quatro horas de vida e com plena saúde. Eu ficava imaginando; se isso acontecesse, as pessoas iriam ficar com medo ou iriam mandar os valores morais e as leis para a puta que pariu, talvez os dois ao mesmo tempo. Seria uma zona total. O cara te mandou tomar no cu? Tiro nele. O cidadão te entrega papel de macumbeiro na Praça Sete? Tiro nele. Veados enrustidos não existiriam mais, ia ter um monte dando o rabo em pleno centro. E os casamentos, iam todos para merda, todo mundo ia foder com todo mundo.
Desliguei a televisão, eu só tinha vinte quatro horas. Minha esposa, ainda deitada na cama me perguntou, onde você vai?
Foder com minha amante, só tenho vinte quatro horas, eu respondi.
Tá louco, Fonseca? Ela olhou assustada.
Puf! O lençol ficou empapado de sangue.
Desci pelo o elevador. No térreo, como sempre encontrei com o senhor Osvaldo. Coloquei arma na cabeça do pederasta.
Por obséquio, senhor Osvaldo, encoste-se ali na parede.
Ele seguiu as ordens e ficou olhando para mim. Peguei o batom da minha mulher, o mais vermelho de todos, passei na boca dele.
Pronto, senhor Osvaldo! Aproveite sua vida de veado. Chame o Zelador, o Renildo e dê bastante o rabo para ele. Só temos vinte quatro horas.
Ele ficou perplexo olhando para mim, sem esboçar reação, depois colocou a mão no peito, ficou lá tentando puxar ar. Seria de emoção por poder dar o rabo em pleno térreo? Os moradores se aproximariam dele e o elogiariam falando, parabéns senhor Osvaldo, dê mesmo a bunda, o batom ficou ótimo.
Saí na rua. Peguei o celular, liguei para o escritório.
Alô! Tudo bom, Geraldo?
Que merda é essa, Fonseca? Tem muito serviço aqui hoje!
Ô, Geraldo! Por obséquio, quero todos vocês aí do escritório tomem em vossos cus.
Tá louco, Fonseca?
Ô Geraldo, por obséquio, avisa para o Claudemir que eu fodi a esposa dele na virada do ano.
Desliguei o telefone e entrei no primeiro ônibus que passou. Sentei naquelas cadeiras reservadas para velhos. Um idoso entrou, olhou para mim.
Esse lugar é meu! Ele falou.
Tá escrito seu nome aqui? Perguntei.
É meu, é direito, Estatuto do idoso, Estatuto do idoso! Ele gritava.
Tá certo, eu disse. Em seguida, levantei, ele sentou. Saquei a arma dei dois tiros. Fique aí para sempre, filho-da-puta. O motorista assustou, quase bateu o ônibus. Apontei a arma para ele e gritei, abre a porta!
Desci do ônibus, o dia estava apenas começando! Eu ainda teria mais horas pela frente. Escutei uma buzina. Paf!
Acordei no hospital, tetraplégico. Fui cana também. Que merda, eu ainda tinha mais um tanto de horas pela frente.