August, 2009


31
Aug 09

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leRideauPor Letícia Nogueira

Ele entrou no ônibus, sentou, piscou e de repente todos morreram, tal como o ônibus que parou de movimentar-se; o veículo ficou estacado no alto da avenida Afonso Pena.

Ele desceu do lotação; várias pessoas estavam caídas, encostou em algumas, estavam frias. Pegou o celular; desligado. Passou pelo centro; todos ali mortos. Correu para casa, durante o trajecto viu mais pessoas caídas. Silêncio sepulcral, rua sepulcral.

A televisão desligada, ceifada. O cheiro também tornou-se sepulcral. Um ano depois encontrava apenas esqueletos no meio da rua, esqueletos com roupas e cabelos desgrenhados, o nada. Um ano antes resolvera congelar alguns corpos no frigorífico, ideia imbecil, os frigoríficos; defuntos.

Agora está sentado no meio-fio, olha para a rua; ele começa a pensar que quiçá seja Deus.


31
Aug 09

24 horas

19946_La-Bete-Humaine-1

Por Flávio Gustavo

Você acorda e pensa e se todo mundo morresse amanhã? Todos com apenas vinte e quatro horas de vida e com plena saúde. Eu ficava imaginando; se isso acontecesse, as pessoas iriam ficar com medo ou iriam mandar os valores morais e as leis para a puta que pariu, talvez os dois ao mesmo tempo. Seria uma zona total. O cara te mandou tomar no cu? Tiro nele. O cidadão te entrega papel de macumbeiro na Praça Sete? Tiro nele. Veados enrustidos não existiriam mais, ia ter um monte dando o rabo em pleno centro. E os casamentos, iam todos para merda, todo mundo ia foder com todo mundo.

Desliguei a televisão, eu só tinha vinte quatro horas. Minha esposa, ainda deitada na cama me perguntou, onde você vai?

Foder com minha amante, só tenho vinte quatro horas, eu respondi.

Tá louco, Fonseca? Ela olhou assustada.

Puf! O lençol ficou empapado de sangue.

Desci pelo o elevador. No térreo, como sempre encontrei com o senhor Osvaldo. Coloquei arma na cabeça do pederasta.

Por obséquio, senhor Osvaldo, encoste-se ali na parede.

Ele seguiu as ordens e ficou olhando para mim. Peguei o batom da minha mulher, o mais vermelho de todos, passei na boca dele.

Pronto, senhor Osvaldo! Aproveite sua vida de veado. Chame o Zelador, o Renildo e dê bastante o rabo para ele. Só temos vinte quatro horas.

Ele ficou perplexo olhando para mim, sem esboçar reação, depois colocou a mão no peito, ficou lá tentando puxar ar. Seria de emoção por poder dar o rabo em pleno térreo? Os moradores se aproximariam dele e o elogiariam falando, parabéns senhor Osvaldo, dê mesmo a bunda, o batom ficou ótimo.

Saí na rua. Peguei o celular, liguei para o escritório.

Alô! Tudo bom, Geraldo?

Que merda é essa, Fonseca? Tem muito serviço aqui hoje!

Ô, Geraldo! Por obséquio, quero todos vocês aí do escritório tomem em vossos cus.

Tá louco, Fonseca?

Ô Geraldo, por obséquio, avisa para o Claudemir que eu fodi a esposa dele na virada do ano.

Desliguei o telefone e entrei no primeiro ônibus que passou. Sentei naquelas cadeiras reservadas para velhos. Um idoso entrou, olhou para mim.

Esse lugar é meu! Ele falou.

Tá escrito seu nome aqui? Perguntei.

É meu, é direito, Estatuto do idoso, Estatuto do idoso! Ele gritava.

Tá certo, eu disse. Em seguida, levantei, ele sentou. Saquei a arma dei dois tiros. Fique aí para sempre, filho-da-puta. O motorista assustou, quase bateu o ônibus. Apontei a arma para ele e gritei, abre a porta!

Desci do ônibus, o dia estava apenas começando! Eu ainda teria mais horas pela frente. Escutei uma buzina. Paf!

Acordei no hospital, tetraplégico. Fui cana também. Que merda, eu ainda tinha mais um tanto de horas pela frente.


31
Aug 09

O JOVEM TÖRLESS, de Robert Musil

morte-cansada-31Por Jefferson Luiz Maleski

O Jovem Törless foi o primeiro livro escrito pelo austríaco Robert Musil, mais conhecido pela enorme e inacabada obra O Homem sem Qualidades. Escrito em 1906, o livro faz parte dos romances classificados como “De Formação”, em que o personagem principal passa por uma transformação interior durante a história. Assim como em Um Retrato do Artista Quando Jovem de James Joyce e Sidarta de Hermann Hesse, traz referências à juventude e ao aprendizado de uma maneira psicológica em que importam mais os pensamentos e sentimentos do protagonista do que aquilo que acontece ao seu redor.

Törless é um jovem austríaco que, mandado para um internato no interior, descobre um mundo em que as aparências não revelam a verdade, antes ocultam a real personalidade das pessoas. Colegas considerados por seus pais como de boas famílias são cruéis, mesquinhos e vingativos longe dos adultos. Törless observa aos atos vis de seus colegas tentando descobrir seus próprios sentimentos, as respostas às suas dúvidas interiores e conhecer um pouco mais dos assuntos ainda desconhecidos na adolescência. Sexualidade, homosexualidade, Complexo de Édipo e jogos pelo controle dos mais fracos são alguns dos temas levantados na estadia de Törless no internato. A tortura e humilhação são as principais formas de se manter a dominação dos alunos mais velhos sobre os mais novos.

Há uma discussão interessante (a partir da página 81) que inicialmente parece inocentemente ser sobre matemática e filosofia, mas que depois revela ser sobre a própria crença naquilo que os homens não podem comprovar, como Deus ou o destino, por exemplo.

“- Escute, você entendeu aquilo há pouco?
- O quê?
- Esse negócio de números imaginários?
- Sim. Não é tão difícil. A gente apenas tem de lembrar que a raiz quadrada de um negativo é a unidade básica com que se trabalha.
- Pois é isso. Esse número nem existe. Qualquer cifra, algarismo, seja negativo ou positivo, tem como resultdado algo positivo quando elevado ao quadrado. Por isso não pode existir um algarismo cuja raiz quadrada fosse negativa.
- Muito bem. Mas por que, ainda assim, não se poderia tentar aplicar a raiz quadrada num número negativo? Naturalmente, não pode dar nenhum valor real, por isso dizemos que o resultado é imaginário. É como se a gente dissesse: aqui sempre se sentou alguém, então vamos imaginá-lo hoje na sua cadeira; e mesmo que esse alguém tenha morrido, vamos fingir que está aqui.
- Mas como se pode fazer isso, sabendo com certeza, com certeza matemática, que é impossível?
- Mas a gente faz de conta que não é assim. Algum resultado vai aparecer. Afinal, não é o mesmo com os números irracionais? Uma divisão que nunca chega ao fim, uma fração cujo valor jamais aparece, por mais tempo que se calcule? E o que imaginar de duas paralelas que devem se cruzar no infinito? Acho que se a gente tivesse muito escrúpulo, não haveria matemática.
- Você tem razão. Imaginando assim, é muito esquisito. Mas o singular é exatamente que, apesar de tudo, se pode calcular direitinho com esses valores impossíveis e no fim obter resultdados palpáveis.
- Bem, os fatores imagináveis têm de se anular mutuamente durante o cálculo.
- Sim, sim; sei tudo isso que você está dizendo. Mas não permanece algo muito estranho? Como poderei me expressar? Pense bem: numa dessas contas aparecem no começo cifras bem sólidas, que podem representar metros, ou pesos, ou qualquer outra coisa concreta, ou que pelo menos são números reais. O mesmo existe no fim da conta. Mas as duas extremidades estão ligadas por alguma coisa que sequer existe. Não é como uma ponte da qual só existem começo e fim, e que ainda assim ultrapassamos, como se ela estivesse ali, inteira? Um cálculo assim me deixa meio tonto; como se um pedaço do caminho levasse Deus sabe onde… Mas o mais sinistro é a força que existe num cálculo desses, e que nos prende tanto, que acabamos afinal chegando ao outro lado.”

A maioria dos críticos literários é unânime ao declarar que o livro critica as instituições (escola, governo, etc.) que aparentam uma imagem de ordem e boas motivações, contudo em seu interior é repleta de imundície e devassidão humana. Esta conclusão poderia perfeitamente se encaixar também em relação à nossa personalidade, pois mesmo querendo ser (ou parecer) bons, tramitam em nosso interior desejos e emoções desumanos. Tentando se localizar no meio desses opostos fundidos está Törless, que apesar de não concordar com as atitudes de seus colegas, nada faz para impedí-los. A sua opinião diferente é anulada pela maioria, mesmo estando certo. A individualidade é tolhida pela democracia.

Apesar do livro tratar da juventude de Törless, Robert Musil faz uma espécie de flashfoward (o oposto de flashback) em que mostra como tais experiências transformarão o jovem quando este ficar adulto. É um recurso literário interessante em se tratando de uma obra escrita a mais de 100 anos. Em 1966, foi produzido o filme alemão O Jovem Törless dirigido por Volker Schlondorff, que ganhou o Festival de Cannes e o Prêmio da Crítica Internacional. Apesar de retratar fielmente o livro e ter uma ótima fotografia, não chamaria a atenção do público hoje pois livros com apelo psicológico e interno não costumam se destacar nas telas.


31
Aug 09

“Como vem guerreira!”, de José de Anchieta

963595785_930aedd77c_oComentários de Laís Azevedo

Como vem guerreira
a morte espantosa!
Como vem guerreira
e temerosa!

Suas armas são doença,
com que a todos acomete,
Por qualquer lugar se mete,
sem nunca pedir licença,
Tanto que se dá sentença
da morte espantosa
Como vem guerreira
e temerosa!

Por muito poder que tenha,
ningué pode resistir.
Dá mil voltas, sem sentir,
mais ligeira que uma azenha.
Quando manda Deus que venha
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

A uns caça quando comem,
sem que engulam o bocado,
Outros mata no pecado,
sem que gosto nele tomem
Quando menos teme homem
a morte espantosa
como vem guerreira
e temerosa!

A ninguém quer dar aviso,
porque vem como ladrão.
Se não acha contrição,
então mata mais de liso.
Quando toma de improviso,
a morte espantosa
como vem guerreira
e temerosa!

Quando esperas de viver
longa vida, mui contente
ela entra, de repente,
sem deixar-te perceber.
Quando mostra seu poder,
a morte espantosa
como vem guerreira
e temerosa!

Tudo lhe serve de espada,
com tudo pode matar;
em todos acha lugar
para dar sua estocada
A terrível bombardada
da morte espantosa
como vem guerreira
e temerosa!

A primeira morte mata
o corpo, com quanto tem,
A segunda, quando vem,
a alma e o corpo rapa
Co’o inferno se contrata
a morte espantosa.
Como vem guerreira
e temerosa!

Comentários

Belo poema escrito pelo jesuíta José de Anchieta no século XVII. Mais uma vez trago para o site outros versos que contemplam a finitude humana. Em versos compostos por sete sílabas, isto é, redondilhas, o eu-lírico demonstra quão implacável é a morte. A ideia basilar dos cléricos, que vieram para a colônia, era a de ganhar almas para Igreja, em outras palavras, expandir a fé católica. Sendo assim, a literatura teve um papel de destaque, haja vista que era direcionada tanto para os indígenas, bem como para manter os colônos no caminho certo. Deste modo, através da poesia, do drama e dos sermões, os sacerdotes mostravam os benefícios ganhados por quem abraçava a fé, e os males obtidos por aqueles que desviavam-se do caminho de Deus. No poema “Como vem guerreira!” isso fica bem claro, pois o sujeito-lírico fala em duas mortes: a do corpo e a da alma; a morte física é inevitável, dao que todos os seres humanos terão que passar por ela, porém a d’alma pode ser evitada se os humanos buscarem a salvação em Deus e na religião católica!


28
Aug 09

Três vidas em três linhas – Por Letícia Nogueira

tinteiro2Ele nasceu, respirou; cinco segundos depois, recebeu três tiros na cabeça.

Maria casou-se com 22, aos 38 uma filha; uma 45 ceifou-lhe a vida.

Pulsos cortados; tiro no peito; 180 aspirinas. Ele completou hoje 105 anos.

Originally posted 2009-05-21 05:16:14. Republished by Blog Post Promoter


28
Aug 09

“Candido ou o Optimismo”, resenha!

Ingmar_Bergman_and_Ingrid_Thulin_-TystnadenPor Gabriel Diniz

Candido ou o Optimismo é com certeza uma das melhores obras de Voltaire. O filósofo francês do século XVIII escreveu romances, novelas, contos e outros livros de cunho filosófico quem angariam enorme importância no decorrer dos séculos. Poder-se-ia dizer que são obras obrigatórias para todos aqueles que desejam conhecer melhor a literatura e a filosofia setecentista.

Mas do que se trata a novela Cândido ou o Optimismo? O leitor encontrará as aventuras do protagonista Cândido por várias regiões do mundo, que se principia num castelo localizado em Vestfalia. Neste sítio a personagem-central vive com um barão, uma baronesa, Cunegundes — filha do barão por quem Cândido apaixona-se — e Pangloss — um pensador que dizia para o protagonista que eles viviam no melhor possível dos mundos. Porém, Cândido é obrigado a abandonar o castelo, pois o barão o surpreende com Cunegundes. Assim sendo, o protagonista é obrigado a lançar-se no mundo, e devido a isso vai descobrindo aos poucos, juntamente com Pangloss que outrossim é expulso do castelo, que o melhor dos mundos não é tão bom quanto parece.

A concepção dum mundo ideal que Pangloss apresentou a Cândido no castelo vai desmoronando-se paulatinamente à medida que ambos vão encontrando personagens, que de maneira violenta e sarcástica, demonstram quão cruel é o mundo em qual vivemos. O narrador criado por Voltaire desnuda com maestria a hipocrisia da sociedade dos setecentos que vigoram, dum certo modo, até hoje no mundo.

Ora, é a partir do que foi acima, nota-se que o conhecimento gera angústia. Quando Cândido vivia no melhor dos mundos possíveis, em outras palavras, aprisionado pela sua ignorância, ele era feliz. A partir do momento que o protagonista trava um encontro com o conhecimento, esse sentimento angustiante invadi-lhe a alma de forma cruel. Teria sido melhor Cândido viver na ignorância? Aliás, será que é melhor viver na ignorância?

Recomendo a versão da L&PM pockets, e para aqueles que querem a obra completa do filósofo, uma boa é comprar uma edição lançada pela globo, que traz todos os contos e as novelas escritas por Voltaire.


25
Aug 09

Três poemas japoneses

tinteiro2O “literatura em foco” traz para os visitantes do site, três poemas japoneses.

O primeiro deles é do poeta Enamoto Kikaku (1661-1707). Poema onde o autor exalta a pobreza como uma “forma de comunhão como mundo natural”, como bem assinala Octávio Paz em Convergências: ensaios sobre a arte e literatura.

Ah, o mendigo!
A lua o veste
de terra e céu.

Outro poema que merece destaque é o de Sokan. É lindo como escritor tece uma bela imagem acerca da lua de verão.

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Originally posted 2009-05-21 02:15:36. Republished by Blog Post Promoter


25
Aug 09

Uma carta para vocês – Cap. II

matou_a_famlia&bressaneonsetPor Mariana Clark

Eu sei que existe uma em especial, Luiz. Porque sentir saudade de todas é não querer sentir saudade de uma. E mesmo assim sentir.
Quando te pedi para ir embora, que fosse sem olhar para trás. Me deixasse aqui com meu jeito tímido, atrapalhado de viver a vida. Queria tanta coisa, acredite, e me misturar com você foi o que fiz de melhor. Há anos que vivíamos assim e eu no seu colo como uma mulher inteira. E nos seus braços e pernas, roçando na sua barba mal feita. Há algo em mim, muito mais do que desejo, que diz onde isso tudo vai terminar. Mágoa. Raiva. Mistério. Só sei do que não quero, você me disse. E de querer tanto, foi-se o tempo em que me amava e eis aqui uma mulher que chora. E ela sou eu. Mais do que você ou qualquer outro homem, mais do que todos aqueles que me juraram a graça da vida. Porque sempre prometemos o que não podemos cumprir e já devíamos saber disso mas não. Um ou dois comprimidos para dor de cabeça, Luiz. E considere beber menos.

Um abraço,
Aquela.


25
Aug 09

Édipo Rei, de Sófocles

edipo-esfingePor Jefferson Luiz Maleski

Esta é certamente uma das melhores tragédias já escritas pelo homem. O grego Sófocles (495-406 a.C) sabia como expressar e provocar sentimentos levando o leitor à reflexão sobre algumas das questões universais. Ele escreveu 123 obras, mas somente 8 chegaram aos nossos dias: Os Sabujos, Ajax, Antígona, As Traquínias, Édipo Rei, Electra, Filoctetes e Édipo em Colono. Sófocles é considerado o sucessor de Ésquilo e o último dramaturgo do período áureo de Atenas. As suas obras foram escritas em forma de peças teatrais. As duas seqüências de Édipo Rei são Antígona e Édipo em Colono, que pretendo comentar em breve.

O mito do filho amaldiçoado pelo destino a matar o pai e a casar com a mãe foi citado por Aristóteles, Foucault e é uma das histórias mais conhecidas atualmente graças ao seu uso pela psicanálise de Freud como fundamento da psique humana. Mas a história vai além, pois mexe com algo que existe nas profundezas de nosso ser. Provoca sentimentos e tabus, compaixão e revolta, e faz-nos repensar sobre a obstinação e o orgulho. Sófocles monta uma trama provocando as bases de duas crenças grandemente apregoadas hoje em dia.

Primeiro, enquanto a maioria acredita que pode decidir o seu próprio futuro, fica claro que para Édipo é impossível fugir do que fora traçado pelos deuses e pelo destino. Forçosamente somos levados a nos perguntar: Se tudo em nossa vida já esta pré-determinado, para que serve o livre-arbítrio? Independente de nossas escolhas, sempre acabaríamos no ponto destinado previamente para nós. Opções e destino são idéias incompatíveis. Apesar disto, o pensamento de sermos marionetes do destino foi usado, e muito, na humanidade para justificar o domínio de uns sobre outros, pois se você nasceu pobre, feio, doente, infeliz, é porque os deuses ou o destino assim o quiseram e nada que você faça mudará a sua situação. Eu sou contra essa idéia, acredito que nós fazemos o nosso destino. Eu pelo menos faço o meu. Chova ou faça sol, sou obstinado em meus alvos.

Em segundo lugar, enquanto é ensinado que a busca pela verdade e pelo conhecimento é o caminho certo para a felicidade, em Édipo Rei eles guiam somente à desgraça. Édipo e Jocasta viviam felizes em ignorância. Eram amaldiçoados, mas não sabiam disso. É o que hoje se discute muito, se o conhecimento nos torna mais felizes ou não. Eu sinceramente acredito que sim, assim como também acredito que devemos ser seletivos quanto ao tipo de conhecimento, visto que muito do que se divulga hoje é informação inútil ou prejudicial.

O desfecho da tragédia nos leva a uma moral atemporal: “Guardemo-nos de chamar um homem feliz, antes que ele tenha transposto o termo de sua vida sem ter conhecido a tristeza” (pg. 104).

Como comentei anteriormente na resenha de Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca, resolvi experimentar os títulos da Coleção L&PM Pocket, devido ao preço convidativo e a qualidade das obras. E o resultado é que continuo satisfeito com o que estou vendo. A excelente tradução desta obra é de Paulo Neves.

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25
Aug 09

O cortejo, de Henriqueta Lisboa

AmazMrX (10)

Comentários por Laís Azevedo

Para a passagem do cortejo da morte
é que se fez a noite
com suas tempestades lúridas
e seus cabelos desnastrados

Os cavalos da morte são negros,
poderosos e negros mais que a noite
de relâmpagos e ventos repleta.

Cristalizam-se as àguas
para a passagem do cortejo da morte.
Os rios transformam-se em pistas de gelo,
mares e lagos são tabalados de musgo e areia.
Os cavalos da morte são possantes,
pesados e claros
com a força das águas descendo a montanha.

Nivelam-se colinas e vales
à passagem do cortejo da morte.
Tudo são planícies abertas.
Deitam-se na relva as ás arvores
acariciando as patas que as flagelam

Os cavalos da morte são ágeis
e traiçoeiros como as serpentes do bosque.

Comentários:

Outro lindo poema de Henriqueta Lisboa que eu selecionei para meu post de hoje. Poder-se-ia considerar “O cortejo” um poema em prosa; a ausência de rimas é bastante acentuada, praticamente a poeta não lançou mão dos recursos. O eu-lírico cria belas imagens acerca dum ritual comum nas civilizações ocidentais, isto é, através de versos narra como o cortejo é permeado pela a escuridão.

O escuro é a imagem basilar do poema, a ausência da luz  elenca a obscuridade da morte, e a tempestade representa a ideia da repercurssão que o findar duma existência — as mais queridas — gera para os outros humanos. O frio que emana do corpo atingido pela foice da ceifadora é capaz de gelar rios, como bem mostra os dois versos da segunda estrofe. Os céleres e podersos cavalos da morte fazem com que todos dobrem à sua passagem, são traiçoeiros como uma cobra, pois o humano nunca possui — na maioria das vezes — a certeza de quando a morte o carregará com o seus corcéis.