September, 2009


29
Sep 09

Um fazedor de mão cheia

nightmoonPor Sueli Aduan

Entro no beco como todos os dias, no finalzinho do dia ao entardecer, o sol se
pondo e uma leve brisa pairando no ar.

Entro no beco como quem caminha por uma imensa avenida e, perplexo
depara-se com um girassol.

Não há girassóis nas avenidas, não há becos sem melancolia.

Há um marasmo, uma lentidão nos movimentos, uma falta de energia, uma
desocupação tardia.

Há homens parados nas portas dos bares, há crianças descalças pelas ruelas
com suas bolinhas de vidro, sonhos quebrados. Mulheres com suas panelas.
Algumas vazias.

Um aroma de tabaco, fumaça e comida.
Longe do beco há movimento, ocupação.

Um homem sem trabalho é como uma árvore sem fruto, um corpo sem alma.
Um dia vou ter uma profissão.

É um sonho que acalento desde menino, quando via meu avô com suas
ferramentas, seu sorriso largo, a inventar coisas. Vô era homem sábio, quieto,
não conversava muito.

Gostava mesmo era de contar causos, histórias. Algumas vezes cheguei a
sentir medo das suas crenças, suas rezas. Coisas de menino da cidade.
Ele percebia e me acalmava. É só uma história, DãoDão, falava com seu jeito
carinhoso, e mudando de assunto dizia:
_ ocê sabe, minino, qui gente tem qui gostá du qui faiz, anssim trabaia cum
gostu.

Eu sorria.  E ele pegava o serrote delicadamente. Encostava-se à madeira e
começava a trabalhar. Quase um ritual. Parecia até que ia tocar um
instrumento, assim como um violino. Sabe que o som parecia mesmo uma
melodia.

Eu fechava meus olhos e, ali sentado no banquinho ficava a me embalar com o
ritmo do serrote na madeira. Imaginando o dia em que eu, com minha oficina
faria muitos, muitos, muitos trabalhos.
No meu sonho de menino via meu nome em letras bem grandes:
Marcenaria do Dão
Marcenaria do Dão
Marcenaria do Dão
Marcenaria do DãoDão
Dão
Dão
Dão

Como diziam os vizinhos, meu avô era um artesão de mão cheia. Ele era um
criador, dizia minha mãe.

E eu no meu entendimento de criança, pensava, meu avô é Deus. Esse
pensamento deixava-me feliz, alegre mesmo, saber que a gente pode trabalhar
e criar coisas. Ser Deus.

O tempo passou, meu avô morreu e, a marcenaria foi só um sonho. Não
aprendi a ser um criador, um fazedor como ele falava.
Entro no beco como todos os dias, no finalzinho da tarde o sol…
Volto da cidade. Trago comigo a alegria contagiante da ocupação, do vai -e -
vêm das pessoas, das lojas, das oficinas, do burburinho dos cafés, dos homens
engravatados, das mulheres elegantes, dos restaurantes com seus aromas.
Tabaco, fumaça e comida.
Trago comigo o sonho de menino de ser um criador, um fazedor de mão cheia.


28
Sep 09

“Soneto”, de Álvares de Azevedo

zoom_salemdesign2

Já da morte o palor me cobre o rosto
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meuser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto
Tento o o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repousou esquece…
Eis o estado em que mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!


27
Sep 09

Virgens mortas – Olavo Bilac

tree_of_the_dead_by_silverwolf4000Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,
Nova, no velho engaste azul do firmamento:
E a alma da que morreu, de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.

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Originally posted 2009-07-14 06:07:27. Republished by Blog Post Promoter


27
Sep 09

Pensionato Souza Cruz – Cap. X e XI

GervaiseCAPÍTULO X

Y… está deitado na cama. Y… pesa 215 quilos. Seu dente roto está a doer. Ele se sente impaciente, por isso grita e bate numa das paredes que lhe cercam.

“CHINA, CHINA! TRAGA-MA A NOVALGINA, CHINA! TRAGA-MA, PEDERASTA BANDIDO!”

Y… era policial civil, porém um dado dia começou a engordar; parecia que estavam a lhe colocar fermento no olho do cu. O delegado disse que ele estava a ganhar peso até mesmo nos miolos. Y… ficou puto, enfiou dois tiros no delegado. Isso foi há quinze anos.

“CHINA! CHINA! ONDE TU SE METEU, SEU VEADO!”

A alcova está quente, e Y… está a suar tal como uma chaleira. Ele pega a arma.

“CHINA! TRAGA-MA!”

….

CAPÍTULO XI

Pajé volta, chega até o umbral.

“Que porra é essa R…?”

“Fodeu! Escutou?”

“Escutei.”

Os dois sobem as escadas correndo.

Outros morados vão em direcção ao barulho do tiro.

Personagens: Pajé, Senhor R…, Vertebrado, Y…, outros moradores.

Abrem a porta. Y… Está com a arma na mão. No tecto percebe-se o furo causado pela bala. Y… está a tremer, tal como um doente que sofre de Parkinson.

Senhor R…: Que merda é essa Y…?!?!?! QUE MERDA É ESSA?!?! Querendo explodir o miolos, gordo fela-da-puta?!?! Tu esqueceu que me deve 80.000 cruzados novos de aluguel, seu bosta!

Pajé (ao pé do ouvido de senhor R… a sussurrar): Vai com calma, porra! E se tiver mais bala na merda do revólver?!, você vai tomar um pipoco no cara. Esqueceu que esse gordo já puxou cana, hein?!

Y… (apontando a arma na direcção de Pajé e Senhor R…): Agora eu vou foder geral, vai virar festa de São João! Vou sentar o dedo! sentar, Sentar, SENTAR O DEDO!

Seguintes personagens saem de cena: O rapaz, Vertebrado e demais moradores fogem pela escada!

[Som de tiros!]


25
Sep 09

Sermão da Sexagésima: um estudo esquematizado do capítulo I

15521Por Alfredo Lima

SERMÃO: discurso religioso pronunciado no púlpito por um predicador, esp. católico; prédica, predicação, pregação. discurso moralizador, ger. longo e enfadonho. qualquer fala com o objetivo de convencer alguém de algo.

Lugar de enunciação:

Padre Antônio Vieira

Local: Capela Real

Quando: no ano de 1655.

Traço: Semen est verbum Dei. Lucas 8,11

Primeiro par: a presença de dois semeadores:

A - uns que saem a semear: hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos.

B - os que semeiam sem sair: pagar-lhes-ão a semeadura; achar-vos-eis com mais paço.

OBSERVAÇÃO: Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta.

IDEIA: Os homens que professam pregar e propagar a Fé, é bem que saiam, mas não é bem que tornem. Citação bíblica:
Uma vez que iam, não tornavam
“porque sair para tornar melhor é não sair”

E se esse semeador evangélico, quando saiu, achasse o campo tomado; se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer? Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho.

1- Uma parte do trigo caiu entre espinhos, e afogaram-no os espinhos.

2- Outra parte caiu no caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves.

Ora vede como todas as criaturas do Mundo se armaram contra esta sementeira. Todas as criaturas quantas há no Mundo se reduzem a quatro gêneros:

Os quatro gêneros:

1- criaturas racionais, como os homens;
2- criaturas sensitivas, como os animais;
3- criaturas vegetativas, como as plantas;
4- criaturas insensíveis, como as pedras; e não há mais.

Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador? Nenhuma.

Término da Homilia?

A natureza insensível o perseguiu nas pedras, a vegetativa nos espinhos, a sensitiva nas aves, a racional nos homens. E notai a desgraça do trigo, que onde só podia esperar razão, ali achou maior agravo. As pedras secaram-no, os espinhos afogaram-no, as aves comeram-no; e os homens? Pisaram-no.

Ide e pregai a toda criatura:

Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras.

Vieira levanta mais uma questão:

Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho.

1. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado.

1.1 Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte.

Vieira exemplifica:

Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários  mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas.

Desconfiar do excerto:

E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens.

(Padre Vieira atuava como missionário no Maranhão desde 1652. Nesse primeiro capítulo, além de explicar o Evangelho, ele se encontra em Portugal para lutar por leis que impedissem a escravização dos índios. Para isso, contou com a sensibilidade do rei D. João IV. Ele sabia que era odiado por muitos membros da Corte.)

Tudo pela pregação:

Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Mais questões:

E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não.

A carta na manga:

No mesmo texto de Ezequiel com que argüistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, quando iam não tornavam.

Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco.

Desenvolvendo o raciocínio:

Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento.

Ilustrando o raciocínio:

As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras levam o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo.

Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

O porquê da sexagésima:

Após a apresentação da primeira parte do sermão, o exórdio, tem-se o significado do título e contextualização da Sexagésima: segundo o calendário litúrgico católico em vigor até o Concílio Vaticano II, o penúltimo domingo antes da quaresma ou, aproximadamente, o sexagésimo dia antes da Páscoa.

PROPOSIÇÃO: A semente é a palavra
CITAÇÃO: Diz Cristo que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina. de Deus.
ANÁLISE DA PROPOSIÇÃO: Cristo não faz menção apenas ao semear, mas ao sair. Vieira destaca os dois verbos da proposição.
ARGUMENTAÇÃO
EXEMPLOS POSITIVOS: Sair para semear: pregadores que foram para a Índia, China e Japão – Serão pagos pela semeadura e pela contagem dos passos.
EXEMPLOS NEGATIVOS:
Semear sem sair: Pregadores que se contentam em ficar em casa (Portugal) semeiam sem sair – Serão pagos apenas pela semeadura.
CONCLUSÃO: “Os (pregadores) de cá (Portugal), achar-vos-ei com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare”. Os pregadores que saem para pregar cumprem integralmente a máxima evangélica.

O Sermão da Sexagésima e o processo argumentativo: estratégias de trabalho em classe – Manoel Francisco Guaranha


24
Sep 09

“O menino Inerme”, conto minimalista, Bertolt Brecht

m20robert20bresson20pickpocket20dvd20review1O senhor K., falando do péssimo hábito de deixar passar em silêncio as injustiças, contou esta pequena história. Um transeunte quis saber de um rapazinho em lágrimas a razão de suas penas.
— Eu tinha nas mãos dois marcos para pagar uma entrada de cinema — disse o menino —, quando chegou um garoto mais forte do que eu me arrancou um deles das mãos.

E apontou um jovem, que ainda podia ser visto a uma certa distância.
— E você não pediu socorro? — perguntou o passante.
— Claro — respondeu o menino, soluçando ainda mais forte.
— E ninguém o ouvi? — indagou ainda o estranho, acariciando-o amavelmente.
— Não… — soluçou o garoto.
— Quer dizer que você não tem capacidade vocal, que o habilite a gritar com mais força? — interrogou o homem. — Nesse caso, passe já pra cá esse outro marco!

Tomando-o, meteu-o no bolso e continuou tranquilamente o seu caminho.

Originally posted 2009-07-15 07:33:15. Republished by Blog Post Promoter


23
Sep 09

Pensionato Souza Cruz – Cap – VIII e IX

GervaiseCAPÍTULO VIII

Na alcova sem janelas iluminada por apenas duas velas, Vertebrado e o rapaz conversam. O primeiro está em pé a dar socos no ar, tal como um boxer. O rapaz está sentado olhando para as chamas produzidas pelas velas pretas.

“Ô cara, esse senhor R… tá fodidaço da cabeça. Porra!, um 38 e cacete? O quê? Cê acha que ele não atira em ninguém?

Vertebrado ensaia agora alguns jabs.

“Tá!, e você veio pra cá pra quê? Foi por causa de mulher? Padre, pera aí, cê ia ser padre e se enfia numa merda dessa aqui? Só pode ter se apaixonado por uma piranha, não foi?, aí você largou a batina e a piranha já tava mamando leite noutro cacete, num foi? Não? Ah, tá! Um padre te enrabou lá na escola de padre, né?

A parede do quarto, um compensado, sofre batidas fortes. O som das pancadas é alto.

Tem gente fodendo no quarto, é assim. Antigamente era uma porra duma parede de isopor, o treco num aguentou, aí apareceu o cara e tudo com a pica na mão. E, olha que o cara tava gozando, gozou na boca do Estilete, que Deus o tenha. Mas voltando à sua história…  o quê? Porra, ah não!, aí num dá pra acreditar nem fodendo, nem fodendo, que mentira!, nem fodendo, nem fodendo mesmo!

CAPÍTULO IX

Osvaldo Pajé, dono do boteco situado defronte ao Pensionato Souza Cruz, esta na sala, sentado a fumar. Senhor R… faz o mesmo. No ecrã uma propaganda anuncia o carnaval.

“Putaria dos infernos esse carnaval, Pajé!”

“É.”

“Antigamente, Pajé, pra comer uma mulher, você tinha que ir lá na casa do pai, namorar e casar. Hoje, Pajé, é só mostrar a pica, se ela for grossa…

“É.”

“Eu te contei da CARTINHA, né? Olha, Pajé, esses putos me devem aluguel, um tanto deles aí. Só o China, que não. Mas eu já sei quem é, e é bom ele comprar graxa pra passar no olho do cu, pois a trolha que vai entrar vai ser grande.

Um morador na escada (à parte): lógico, né, chupa a pistola do traveco e agora fica aí elogiando…

O morador sai.

“É.”

“Porra, Pajé, vá para a puta que vos paristes. É, é, é, é,  mas que diabo, você só fala é, é. Pajé, eu acho que a vida é igual um imã, sabe (dá uma tragada e depois continua), você atraí as coisas boas, as ruins…

Pajé interrompe, apaga o cigarro e diz: “R… soca o imã no cu e atraia um monte de caralho pra sua bunda, você acha que eu sou psicólogo, porra. Dá-me as cadeiras, vou-me embora.”

“Até tu, Pajé?!, até tu? Beleza, beleza, tomara que você se foda com aquela baiuca de merda.

Pajé sai da residência carregando as cadeiras.

Ouve-se um tiro no andar de cima!


22
Sep 09

Soneto XIV de Cláudio Manuel da Costa – Comentários por Laís!

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Comentários por Laís Azevedo

Quem deixa o trato pastoril, amado,
Pela ingrata, civil correspondência
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado

Que bem é ver nos campos, trasladado
No gênio do Pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortesão dissimulado

Ali respira Amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um so trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna que soçobre;
Aqui quanto se observa é variedade:
Oh! ventura do rico! Oh! bem do pobre!

Comentários:

Eis aqui outro belo soneto árcade do poeta Cláudio Manuel da Costa. Construído com decassílabos — versos compostos por dez sílabas — e com um padrão de rimas calcado na seguinte forma: ABBA, ABBA, nos quartetos (as duas primeiras estrofes que são compostas por quatro versos cada) e CCC nos dois tercetos (estrofes compostas por três versos).

Na primeira estrofe o poeta já deixa claro qual é o tema de seu soneto: a tranqulidade do campo e a corrupção da vida urbana. Sendo assim, nos primeiros versos o eu-lírico, por meio duma metáfora, “o rosto da violência”, sintetiza o quão desastroso pode ser deixar o campo.E, é essa a situação do sujeito-lírico, ele adverte àqueles que planejam deixar o trato pastoril que na cidade os desgostos e as desilusões são inevitáveis.

Ora, percebe-se que estamos diante dum tema comum dos poetas neoclássicos (conhecidos também como arcadistas),  que consiste basilarmente a valorização do campo, tal como fez Virgílio em Bucólicas, e no uso dos mitos greco-romanos. Assim sendo, o leitor percebe que a imagem do campo é idealizada, um local puro, inocente, onde as pertubações que acometem o viver não conseguem adentrar. Se o Amor pode respirar apenas no campo, logo pode-se dizer que ele é sufocado na cidade, devido a mentira e a hipocrisia.

Por fim, é interessante pensar como em pleno século XVIII, num ambiente colonial, as questões relativas à cidade, dum certo modo, já preocupavam eu-lírico. Ainda hoje a ideia do campo ser um local perfeito persiste em nossa cidade, ainda mais se levarmos em consideração às condições, muitas vezes ruins, que as metrópoles e mesmo outras cidades menores propiciam aos seus habitantes.

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22
Sep 09

“Ode à melancolia”, por Keats

tears_of_sadnessComentários de Lauro Drummond

É com imenso prazer que trago para este sítio um belo poema do inglês John Keats. Nascido em Londres em 1795, o poeta, que integra a segunda geração romântica inglesa, morreu quando possuia apenas 25 anos, dum mal que ceifou diversos gênios da literatura, a tuberculose.

Eis, então, a “Ode à melancolia”!

Não, não te aproximes das águas do Letes, nem queiras recolher o vinho venenoso do acónito, cujas raízes estão entrelaçadas;
evita que tua fronte pálida se deixe beijar
pela beladona, as vermelhas bagas de Prosérpina;
não teças o teu rosário com as sementes dos ciprestes,
nem deixes que o escaravelho ou a borboleta nocturna
sejam a tua fúnebre Psique, ou que torne o mocho,
de penugem tão macia, o confidente da tua dor misteriosa
— porque, unida às outras sombras, uma sombra virá
cheia de torpor
e há-de extiguir, dentro da tua alma, uma angústia vigilante

Mas se, inesperado, o acesso da melancolia descer
do céu, como se fosse as lágrimas duma nuvem
que reanima as flores, cujas hastes tristemente pendiam,
e as verdes colinas oculta sob um véu primaveril,
então, deixa que se tranquilize a tua dor sobre uma rosa
matinal.
sobre o arco-íris que surge junto às vagas e à areia salgada
ou sobre o esplendor esférico das peónias;
ou se, cheia de delícia, aquela que tua amas se exalta<
pega na sua mão delicada, deixa que ela delire
e bebe nos seus incomparáveis olhos, longamente.

Com ela vive a beleza — que deve morrer,
e a alegria cuja mão se leva aos lábios
para dizer adeus; e, próximo, fica o doloroso prazer
que se transforma em veneno quando as abelhas dos lábios o
aspiram.
Sim, no interior do próprio templo da alegria
está o altar soberano da melancolia, coberta de véus,
apenas visível para aquele que consegue provar
as uvas da alegria, com um impetuoso e puro desejo;
mas o seu espírito depous há-de sentir amargamente
o poder que ela tem ao ficar entre seus troféus
nebulosos…


22
Sep 09

A bebedeira do coveiro

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Por Lauro Drummond

Pois é! Esses dias ao adquirir um dos volumes da obra completa do escritor lusitano Eça de Queiroz, surpreendi-me ao encontrar uma série de microcontos, os quais fazem parte de uma obra, cujo nome é “Farsas”. Trago-vos aqui um deles, “A bebedeira do coveiro”. Ei-lo:

A bebedeira do coveiro

UM COVEIRO tinha amigos a cear. Cearam. Beberam. Havia um vinho mordente e duro da taberna.

As estrelas estavam frias. Saíram para o cemitério inconsolável. Cambaleavam ferozes. Amontoaram a ramaria de um cipreste e acenderam uma fogueira. Cantavam à viola e dançavam como saltimbancos.

Um deles gritou:
— Mulheres! Venham mulheres!
— Há de as haver por aí — disse com largos risos o coveiro.

E todos começaram procurando uma cova onde estivesse fresco e são um corpo de mulher: tinha sido enterrada uma rapariga naquela madrugada. Vinha atrás do caixão um rapaz todo amarelo, com grandes cabelos caídos. Tiraram a terra. Apareceu o caixão. Ela tinha o vestido despregado, no seio e via-se a carne branca.
— Archotes! Archotes!

Trouxeram ramos acesos.
— Quem há de ser o primeiro? que ela está a preceito!

Desceu um, bêbedo, despertado, galhofeiro e obsceno. Estendeu a mão dura e meteu-a pela abertura despregada do vestido entre os seios da morta.

Deu um grito. Tinha sido mordido. Era um bicho das covas. O bicho era o último amante daquele corpo branco; o bicho das covas tinha ciúmes.