Por Léo Andrade
SOBRE OS CANTOS I, II e III
CANTO PRIMEIRO
RESUMO: Neste, o poema inicia-se a reunião das tropas portuguesas e espanholas sob o comando de Gomes Freire de Andrade, que, primeiramente em longa fala, descreve a guerra informando sobre os motivos históricos da obra.
TRECHOS:
Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura ainda nos vales
O rouco som da irada artilharia.
Avanço cronológico: o eu-lírico abre o poema descrevendo o final da batalha que será narrada ao longo dos versos. Acerca do que foi aludido anteriormente, assinala José Veríssimo (1954, p. 128) que:
“[…] Não se parece o Uruguai com qualquer outro poema do tempo. Desvia-se do trilho costumeiro da poética em vigor. Não começa pela invocação, antes entra ex-abrupto na matéria do poema, o que era absolutamente novo.”
Diferentemente do que ocorre nas epopéias tradicionais, a invocação e a proposição (assunto do poema) eclodir-se-ão somente à partir do sexto verso.
MUSA, honremos o Herói que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou afronta.
..…….…..…..……………………..…………..
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa
Entanto acostumar ao voo novas asas
Em que um dia vos leve[…]
Ligação com a Arcádia Romana, as musas estão apenas na Europa. O sujeito-lírico pede para que elas voltem seus olhares para os seus versos que falam sobre a guerra que ocorreu na distante América.
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra
E vai ver de mais perto no ar vazio.
O espaço azul onde não chega o raio.
Alfredo Bosi (2006, p. 66) destaca como as imagens da natureza apresentam-se de maneira lesta e densa. Para o historiador da literatura, esse elemento já não é um mero arcadismo, mas sim o caminho para o paisagismo romântico, relação mais direta dos sentidos com o mundo.
O versos outrossim dão início à dedicatória. O poema é dedicado a Mendonça Furtado, o irmão do Marques de Pombal, que na época era ministro da Marinha.
Dos versos 21 ao 139 encontramos a narração.
No canto primeiro há também uma crítica à cegueira da guerra. O sujeito-lírico rejeita o belicismo fácil com que os nobres serviam-se dos camponeses (BOSI, 2006, p. 67). Vejamos os versos abaixo:
Vinha logo de guardas rodeado,
Fonte de crimes, militar tesouro,
Por quem deixa no rego o curvo arado
O lavrador, que não conhece a glória;
E vendendo a vil preço o sangue e a vida
Move e nem sabe por que move a guerra.
Vemos nesses versos valores pré-liberais que prenunciavam a Revolução e que mantiveram-se no idealismo romântico. Gonzaga, Santa Rita Durão cantam também esse herói pacífico (BOSI, 2006, p. 67)
Faz-se mister destacar o antijesuitismo:
Não sofrem tanto os índios atrevidos:
Juntos um nosso forte entanto assaltam.
E os padres os incitam e acompanham.
CANTO SEGUNDO
RESUMO: Traz à baila a narrativa da batalha travada entre índios e conquistadores brancos, cabendo a vitória aos portugueses e espanhóis.
TRECHOS:
O canto é marcado pelos diálogos entre os brancos e os índios.
No confronto entre Cacambo e o general português, vemos as teses divergentes.
O cacique propõe, com discurso estadista, a retirada dos portugueses, que nada ganhariam com a posse da região, carente de riquezas, desinteressante, pois, para a Metrópole lusa. (ZILBERMAN, 1995, p.139)
[…] Aqui não temos
Nem altas minas, nem caudalosos
Rios de areias e ouro
..………………………………………………
[…] A nós somente
Nos toca arar e cultivar a terra,
Sem outra paga mais que o repartido
Por mãos escassas mísero sustento.
Cacambo não deixa de confessar a dependência aos religiosos
Nós os índios / não temos outro rei mais do que os padres
A réplica de Andrade diz que o rei não os escravizará, pelo contrário, o monarca oferecer-lhes-á a liberdade, a mesma que os portugueses desfrutam. (ZILBERMAN, 1995, p. 139)
O rei é vosso pai: quer-vos felizes.
Sois livres, como eu sou; e sereis livres,
não sendo aqui, em outra parte.
Vemos nos versos acima que a palavras de Gomes Freire estão imbuídas dum pensamento calcado na filosofia setecentista. O bem privado, o dos Jesuítas, que não constituíam um Estado, deveria ceder ao bem público, no caso o das nações européias. Andrade conclui dizendo:
O sossego da Europa assim o pede.
..…..………………………………………..
Pensa e resolve.
Sepé, comandante dos Guaranis que acompanha Cacambo, interfere recusando a oferta de paz.
Desconhecemos, detestamos jugo
Que não seja o do céu, por mão dos padres.
Na fala de Cacambo, se reconhecem argumentos racionais, dignos do estadista que ele é, levando-o ao mesmo patamar de seu adversário europeu e dignificando a figura do índio; conforme o projeto de Basílio, na fala de Andrade estão presentes as razões do Estado português. (1995, p. 140)
O diálogo está carregado com o pensamento iluminista e moderno do século XVIII, até na valorização da racionalidade do homem selvagem. Mas a razão maior pende para o lado português, que, por intermédio da ação de Pombal, tentava igualmente se modernizar, anulando as formas conservadoras, de procedência feudal, como era a dos jesuítas, aliados da nobreza tradicional. (1995, p. 140)
Zilberman afirma que Cacambo está em vias de admitir as razões de Andrade porque ele também é um homem racional. Porém, o intempestivo Sepé interrompe-o e precipita a luta.
Dados históricos:
A liberdade dos índios foi promovida pela própria igreja em 1741 através duma Bula concedida por Benedito XIV.
Em 1755 no dia 6 de junho uma lei restituiu aos índios do Grão-Pará e Maranhão a liberdade de suas pessoas.
Interessante a descrição do início da batalha nos versos:
O som da caixa portuguesa; e viram
Pela primeira vez aqueles ares
Desenroladas as reais bandeiras.
CANTO TERCEIRO
RESUMO: Surge a sombra dum chefe indígena (Sepé), desaparecido em combate, que aconselha Cacambo a incendiar o acampamento dos brancos e a fugir. O cacique acata o conselho e depois de voltar a sua aldeia encontra o jesuíta Balda que manda prende-lo e envenena-lo. Paralelamente, a feiticeira Tanajura faz Lindóia, mulher de Cacambo, ter visões.
TRECHOS:
Lá, como é uso do país, roçando
Dois lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto e foge a tempo
No trecho acima, encontramos o uso dos versos brancos, isto é versos que obedecem às regras métricas de versificação ou acentuação, mas não apresentam rimas. (GOLDSTEIN, 2006, p. 45). Há decassílabos sáficos e heróicos, esse último segue o esquema: 6-10; o sáfico, por sua vez, pauta-se no: 4-810.
[…] Ou foi que Balda,
Engenhoso e sutil, quis desfazer-se
Da presença importuna e perigosa
Do índio generoso;
..…..………………………………………………….
[…] Não consente
O cauteloso Balda que Lindóia
Chegue a falar ao seu esposo; e manda
Que uma escura prisão o esconda e aparte
Da luz do sol […]
O envenenamento:
Por meio de um licor desconhecido,
Que lhe deu compassivo o santo padre,
Jaz o ilustre Cacambo — entre os gentios
Nota-se nesses versos uma das vilanices do jesuíta. Há outrossim o uso dum tropo: a ironia.
Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa
Entre despedazados edificios,
..………………………………………..…..……..
Nasce Lisboa de entre as cinzas — glória
Do grande conde, que co’a mão robusta
Lhe firmou na alta testa os vacilantes
Mal seguros castelos […]
Referência a um grande terremoto que destruiu a capital portuguesa. O poeta insere esses versos em seu poema para louvar o Marquês de Pombal. Uso do maravilhoso por meio do índio. Há uma nota que aduz o desprezo do poeta pelo feitiço.
O URAGUAI EM QUATRO MANUAIS DE HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
José Veríssimo: História da Literatura Brasileira
Pouco adequado a um poema épico segundo os moldes clássicos
O poema daria apenas o episódio dum poema mais vulto.
Faltava-lhe o recuo do tempo para uma possível idealização do conhecimento, cujos autores ainda viviam. Devido a isso, a imaginação do poeta ficava limitada.
Assim sendo, o poema ficou despido das feições propriamente épicas.
Esses fatores acabaram, por sua vez, contribuindo para uma certa singularidade em comparação aos últimos poema camonianos.
Não começa pela invocação, entra ex-abrupto na matéria do poema.
Não obedece a indefectível prática da oitava endecassilaba.
Não recorre ao maravilhoso pagão ou outro, não se encontra mácula do gongorismo.
Língua clara, estilo natural e simples.
José Veríssimo considera o Uraguai um poema romântico devido a outros sinais intrínsecos a metrificação, linguagem e estilo e mais pela liberdade espiritual e sentimentos liberais e humanos.
Considera-no o iniciador do indianismo que permeou a primeira fase dos oitocentos.
Revela o seu gosto por Voltaire; traduziu Mahomet.
O primeiro a cantar as cousas americanas e pátrias.
Antônio Cândido – A formação da literatura brasileira: momentos decisivos
Oposição entre rusticidade e civilização presente no Arcadismo, não poderia deixar de favorecer no Brasil o advento do índio como tema literário.
Aos olhos do homem culto, era por excelência o rústico; e quando tais olhos buscavam a natureza, nada melhor que o índio para representa-la, já que a complicação da sua ordenação social escapavam na maior ao observador de cultura europeia.
Substituiu os pastores de Virgílio pelos índios.
O poema marca Uraguai marca um ponto decisivo, talvez o mais importante para a nossa literatura.
Erro considerá-la uma epopéia.
É lírica, heróica e, por fim, didática.
Panfleto antijesuítico para conciliar as graças de Pombal.
Uma analise revela que outros intuitos animavam o poeta: o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio.
Não esconde simpatia pelo vencido. A sensibilidade em certas partes supera o racional.
Poema desenvolvido em dois planos complementares: o dos versos e das notas. Essas últimas verdadeiro suplemento em prosa, correndo paralelo ao verso, chamando a si a tarefa proposta de combater o jesuíta e exaltar Pombal.
Poema com variedade, fluidez, colorido, movimento e sinteses admiráveis caracterizam esse decassílabo transfundido de melodia, onde o verso branco encontra a mais brilhante expressão.
Nelson Werneck Sodré: A História da Literatura Brasileira:
Épico Brasileiro onde os sinais do indianismo aparecem com clareza indiscutível.
Manteve-se fiel a Árcadia, pois lançou mão dos versos brancos.
Discorda de Veríssimo, dizendo que as reminiscências camonianas perpassam todo o poema de Basílio.
Alfredo Bosi: História Concisa da Literatura Brasileira
Poemeto épico que tenta conciliar a louvação de Pombal e o heroísmo indígena.
Verso branco e os decassílabos heróicos e sáficos aligeiram a estrutura do poema que melhor dir-se-ia lírico-narrativo do que épico.
Comenta também a ausência da invocação.
O não recuo do tempo deu-lhe a garra do moderno.
BIBLIOGRAFIA:
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 14 ed. São Paulo: Cultrix, 2006
CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. 5ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006.
______________. Formação da Literatura Brasileira: Momentos decisivos 175-1880. 11 ed. Rio de Janeiro:
Ouro Sobre Azul, 2007.
GAMA, Basílio. O Uraguai. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 14 ed. rev., São Paulo: Ática, 2006.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira. 8 ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1988.
TEIXEIRA. Ivan. Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica. São Paulo: Edusp, 1999.
VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1954.
ZILBERMAN, Regina. O Uraguai: moderno e americano. in: MALLARD, L. et al. História da Literatura Ensaios. 2 ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 1995.