October, 2009


31
Oct 09

A valsa do vinho

autumn_friedrich_moon_lgPor Madame Cabaret

A valsa de um copo de vinho inundando num guardanapo de bordel enobrece a alma do flâneur, perdido a sondar a noite, que deixa o álcool derramar as lágrimas de seu coração esgrimista.

Seus versos, sua prosa, sua boca, nada tem a dizer.

O tempo inebriante cessou a viagem de si a si mesmo, e seu coração, irradiante, guardou seus contos apenas para usufruí-lo sob o delírio do ópio.

Cada dia uma viagem cambaleante, um sonhador de Outono delirante, uma velhinha fúnebre num passeio à beira do Sena.

Acenda só mais um fósforo e jogue-o no copo e veraz a luz de uma alma pertinaz se apagar como os lampiões a gás vacilam mais um dia entediante.


30
Oct 09

O assassino – Gonçalves Dias

crimepunishmentEi-lo Seu rosto pálido se encova;
Incerto, mais que os voos dum morcego,
Seu andar, ora lento, ora apressado,
Profunda agitação revela aos olhos.

Continue reading →

Originally posted 2009-07-21 01:35:46. Republished by Blog Post Promoter


30
Oct 09

Père-Lachaise

sophialorenPor Letícia Nogueira

Você não beija aquela mulher, meu caro! Você joga saliva no orifício bocal dela, entendeu, entendeu?

E daí? Como, durmo e fodo! E tu, Ronnie Von? Tu só tem nome de cantor! Tu se fodis trabalhando o dia inteiro”

Ronnie Von desceu do ônibus, entrou no restaurante “Père-Lachaise”, cujo dono era um índio formado num curso técnico de informática.

Meu amigo, hoje aqui vai lotar, lotar! Brasil contra Argentina. Anota aí, ó! Campeões da Copa de 90!

Índio ria. Na verdade, ele  estava mais podido que todos, pois o restaurante estava quebrado. Só Dorival e a família, isto é, mais duas pessoas, iam assistir os famosos jogos do Brasil.

Ronnie Von passou pelos dois, trancou-se no banheiro.

“Descobri o sentido da vida.”

38 na mão esquerda. A contagem? Ei-la:

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9… [tomou fôlego]

Saiu do banheiro. índio estava lá no chão com um tiro no peito.

Dorival (gritando o mais alto possível): Deus do céu, Deus do céu! Ele até cagou verde! Deus do céu! Polícia! Deus…

Ajuda-me aqui! Ajuda-me aqui, Ronnie!

Polícia; investigaram; acharam apenas a arma na gaveta de Índio, com as impressões digitais do mesmo, as balas do mesmo revólver. Um suicídio! Como? Não resolveram.

Um mês depois.

Ronnie Von com telefone na mão, liga para Perneta:

Você ainda está com aquela vagabunda?

Sim.

Desliga. Vai até a cozinha. Faca na mão esquerda. Tenta a cortar, não consegue. Pega todos os objectos pontiagudos da cozinha, tenta estoca-los um por um em si mesmo.

Noutro dia.

Velório:

Perneta morto com mais de quarenta facadas. A senhora de 75 anos perdeu a saliva de Perneta, está presa.

Ronnie Von chora.

No apartamento, décimo andar, Ronnie pula.

Noutro día, noticia, a vela – brutal assassina, segundo os jornais – havia sido encontrada esmagada na prisão. Todos os jornais do país cobriram o caso.

Ronnie Von amarra a corda no pescoço! E agora?…


28
Oct 09

Luiz Ruffato lança “Estive em Lisboa e Lembrei de Você” pelo Sempre um Papo

luiz-rufattoLuiz Ruffato, que há alguns anos ocupa lugar de destaque na moderna narrativa brasileira, lança “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, pelo Sempre um Papo, no dia 4 de novembro, quarta-feira, às 19h30, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa -Anexo Professor Francisco Iglesias (Rua da Bahia, 1889, 2º piso, Funcionários). A obra é um pequeno milagre narrativo, que cria uma história ao mesmo tempo densa e veloz a partir das marcas linguísticas presentes na fala de seu personagem-narrador.

“Estive em Lisboa e lembrei de você” é o terceiro volume da coleção Amores Expressos, da editora Companhia das Letras, e revela a mão segura e inventiva do autor ao narrar a história de Serginho: um mineiro desiludido com o casamento e a falta de emprego que decide se aventurar em Portugal, em busca de redenção financeira e, quiçá, amorosa.

Na primeira parte da história, transcorrida no Brasil, vemos Serginho chafurdando nas pequenezas da vida interiorana mineira, entre as quais se inclui um malfadado casamento com uma moça de “ideia fraca” na sequência de uma gravidez indesejada. A partir daí a vida de Serginho desanda sem apelação: casamento, emprego e a própria vontade de viver entram em perigoso colapso.

Até que alguém saca a panacéia redentora: Portugal. Lá, corre a lenda, é possível um trabalhador denodado recompor a vida e fazer um belo pé de meia antes de retornar à terra natal. É hora, pois, de Serginho dar as costas à sua Cataguases, cortada pelo rio Pomba, em cujas águas o autor parece ter se inspirado para construir uma prosa de fluxo forte intercalado por rápidos e iluminadores flashbacks.

Em Portugal, o passar dos anos será demarcado com extrema sutileza pelo afloramento de uma plêiade de idiomatismos lusos na prosa interiorana de Serginho, revelando a mão segura e inventiva de um dos mais bem-sucedidos autores brasileiros contemporâneos.

O Sempre Um Papo é uma realização conjunta do Jornal Estado de Minas e Cemig com o apoio cultural da Rádio Guarani.

Sobre o autor
Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. Formado em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a série “Inferno Provisório” e o aclamado “Eles Eram Muitos Cavalos”, que recebeu o prêmio APCA e o Machado de Assis, da Biblioteca Nacional.

Título: “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”
Autor: Luiz Ruffato
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 88
ISBN: 978-85-359-1525-9
Preço: R$ 29,50
Formato:14 x 21 cm

Serviço:
Sempre um Papo com Luiz Ruffato
Dia 4 de novembro, quarta-feira, às 19h30
Local: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa – Anexo Professor Francisco Iglesias (Rua da Bahia, 1889, 2º piso, Funcionários).
Entrada gratuita
Informações: (31) 3261-1501 / www.sempreumpapo.com.br

Informações para a imprensa:
Coordenadora de comunicação: Jozane Faleiro – (31) 3261-1501 / 9204.6367 / jozane@sempreumpapo.com.br
Jornalismo: Maísa Gontijo – (31) 3261-1501/9347-6582 / maisa@sempreumpapo.com.br
Maísa Gontijo
(31) 3261 1501 / 8455-1501
maisa@semprumpapo.com.br
www.sempreumpapo.com.br


28
Oct 09

Garibaldi Otávio lança livro de poemas O Girassol

Por Executiva Press

O escritor e jornalista Garibaldi Otávio lança, nesta quinta-feira (29), seu primeiro livro: O Girassol. O lançamento acontece às 19 horas, no Instituto Cultural Banco Real, no Bairro do Recife. O livro é uma coletânea de textos iniciada quanto Garibaldi tinha 16 anos. Aborda temas ambientados no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, em várias épocas, e só agora está sendo publicado.

O escritor interpreta a poesia como uma forma de aperfeiçoamento verbal. “O escritor, poeta, tem o poder de ir além, sendo muito preciso na descrição das coisas e fatos. É a descrição que dá força à imagem”, diz Garibaldi. O livro recebeu uma cuidadosa edição da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e a capa foi criada pela pintora pernambucana Teresa Costa Rêgo, que fez uma releitura do quadro Girassóis, do pintor Vicent Van Gogh.

Os textos de Garibaldi já eram conhecidos e enaltecidos por grandes nomes da literatura brasileira, admiradores declarados, como Mauro Mota, João Alexandre Barbosa, Tomás Seixas, Renato Carneiro Campos, Gilberto Freyre.

O escritor, que também é bacharel em direito pela Faculdade de Direito do Recife, escolheu se profissionalizar no jornalismo e já passou por grandes veículos como Folha de São Paulo, Gazeta Mercantil, Jornal do Commercio, Última Hora, A Notícia, entre outros. Atualmente, trabalha como assessor especial do Governo do Estado de Pernambuco.

Serviço:
Lançamento do livro O Girassol, do jornalista Garibaldi Otávio
Dia: Quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Hora: 19 horas
Local: Instituto Cultural Banco Real – Avenida Rio Branco, 23 – 1º andar – Bairro do Recife, Recife (PE)


28
Oct 09

Comentários sobre “O Uraguai”, de Basílio da Gama

jacques-louis-david-the_death_of_socrates-1787Por Léo Andrade

SOBRE OS CANTOS I, II e III

CANTO PRIMEIRO

RESUMO: Neste, o poema inicia-se a reunião das tropas portuguesas e espanholas sob o comando de Gomes Freire de Andrade, que, primeiramente em longa fala, descreve a guerra informando sobre os motivos históricos da obra.

TRECHOS:

Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura ainda nos vales
O rouco som da irada artilharia.

Avanço cronológico: o eu-lírico abre o poema descrevendo o final da batalha que será narrada ao longo dos versos. Acerca do que foi aludido anteriormente, assinala José Veríssimo (1954, p. 128) que:

[…] Não se parece o Uruguai com qualquer outro poema do tempo. Desvia-se do trilho costumeiro da poética em vigor. Não começa pela invocação, antes entra ex-abrupto na matéria do poema, o que era absolutamente novo.”

Diferentemente do que ocorre nas epopéias tradicionais, a invocação e a proposição (assunto do poema) eclodir-se-ão somente à partir do sexto verso.

MUSA, honremos o Herói que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou afronta.
..…….…..…..……………………..…………..
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa
Entanto acostumar ao voo novas asas
Em que um dia vos leve[…]

Ligação com a Arcádia Romana, as musas estão apenas na Europa. O sujeito-lírico pede para que elas voltem seus olhares para os seus versos que falam sobre a guerra que ocorreu na distante América.

Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra
E vai ver de mais perto no ar vazio.
O espaço azul onde não chega o raio.

Alfredo Bosi (2006, p. 66) destaca como as imagens da natureza apresentam-se de maneira lesta e densa. Para o historiador da literatura, esse elemento já não é um mero arcadismo, mas sim o caminho para o paisagismo romântico, relação mais direta dos sentidos com o mundo.

O versos outrossim dão início à dedicatória. O poema é dedicado a Mendonça Furtado, o irmão do Marques de Pombal, que na época era ministro da Marinha.

Dos versos 21 ao 139 encontramos a narração.

No canto primeiro há também uma crítica à cegueira da guerra. O sujeito-lírico rejeita o belicismo fácil com que os nobres serviam-se dos camponeses (BOSI, 2006, p. 67). Vejamos os versos abaixo:

Vinha logo de guardas rodeado,
Fonte de crimes, militar tesouro,
Por quem deixa no rego o curvo arado
O lavrador, que não conhece a glória;
E vendendo a vil preço o sangue e a vida
Move e nem sabe por que move a guerra.

Vemos nesses versos valores pré-liberais que prenunciavam a Revolução e que mantiveram-se no idealismo romântico. Gonzaga, Santa Rita Durão cantam também esse herói pacífico (BOSI, 2006, p. 67)

Faz-se mister destacar o antijesuitismo:

Não sofrem tanto os índios atrevidos:
Juntos um nosso forte entanto assaltam.
E os padres os incitam e acompanham.


CANTO SEGUNDO

RESUMO: Traz à baila a narrativa da batalha travada entre índios e conquistadores brancos, cabendo a vitória aos portugueses e espanhóis.

TRECHOS:

O canto é marcado pelos diálogos entre os brancos e os índios.

No confronto entre Cacambo e o general português, vemos as teses divergentes.

O cacique propõe, com discurso estadista, a retirada dos portugueses, que nada ganhariam com a posse da região, carente de riquezas, desinteressante, pois, para a Metrópole lusa. (ZILBERMAN, 1995, p.139)

[…] Aqui não temos
Nem altas minas, nem caudalosos
Rios de areias e ouro
..………………………………………………
[…] A nós somente
Nos toca arar e cultivar a terra,
Sem outra paga mais que o repartido
Por mãos escassas mísero sustento.

Cacambo não deixa de confessar a dependência aos religiosos

Nós os índios / não temos outro rei mais do que os padres

A réplica de Andrade diz que o rei não os escravizará, pelo contrário, o monarca oferecer-lhes-á a liberdade, a mesma que os portugueses desfrutam. (ZILBERMAN, 1995, p. 139)

O rei é vosso pai: quer-vos felizes.
Sois livres, como eu sou; e sereis livres,
não sendo aqui, em outra parte.

Vemos nos versos acima que a palavras de Gomes Freire estão imbuídas dum pensamento calcado na filosofia setecentista. O bem privado, o dos Jesuítas, que não constituíam um Estado, deveria ceder ao bem público, no caso o das nações européias. Andrade conclui dizendo:

O sossego da Europa assim o pede.
..…..………………………………………..
Pensa e resolve.

Sepé, comandante dos Guaranis que acompanha Cacambo, interfere recusando a oferta de paz.

Desconhecemos, detestamos jugo
Que não seja o do céu, por mão dos padres.

Na fala de Cacambo, se reconhecem argumentos racionais, dignos do estadista que ele é, levando-o ao mesmo patamar de seu adversário europeu e dignificando a figura do índio; conforme o projeto de Basílio, na fala de Andrade estão presentes as razões do Estado português. (1995, p. 140)

O diálogo está carregado com o pensamento iluminista e moderno do século XVIII, até na valorização da racionalidade do homem selvagem. Mas a razão maior pende para o lado português, que, por intermédio da ação de Pombal, tentava igualmente se modernizar, anulando as formas conservadoras, de procedência feudal, como era a dos jesuítas, aliados da nobreza tradicional. (1995, p. 140)

Zilberman afirma que Cacambo está em vias de admitir as razões de Andrade porque ele também é um homem racional. Porém, o intempestivo Sepé interrompe-o e precipita a luta.

Dados históricos:

A liberdade dos índios foi promovida pela própria igreja em 1741 através duma Bula concedida por Benedito XIV.

Em 1755 no dia 6 de junho uma lei restituiu aos índios do Grão-Pará e Maranhão a liberdade de suas pessoas.

Interessante a descrição do início da batalha nos versos:

O som da caixa portuguesa; e viram
Pela primeira vez aqueles ares
Desenroladas as reais bandeiras.


CANTO TERCEIRO

RESUMO: Surge a sombra dum chefe indígena (Sepé), desaparecido em combate, que aconselha Cacambo a incendiar o acampamento dos brancos e a fugir. O cacique acata o conselho e depois de voltar a sua aldeia encontra o jesuíta Balda que manda prende-lo e envenena-lo. Paralelamente, a feiticeira Tanajura faz Lindóia, mulher de Cacambo, ter visões.

TRECHOS:

Lá, como é uso do país, roçando
Dois lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto e foge a tempo

No trecho acima, encontramos o uso dos versos brancos, isto é versos que obedecem às regras métricas de versificação ou acentuação, mas não apresentam rimas. (GOLDSTEIN, 2006, p. 45). Há decassílabos sáficos e heróicos, esse último segue o esquema: 6-10; o sáfico, por sua vez, pauta-se no: 4-810.

[…] Ou foi que Balda,
Engenhoso e sutil, quis desfazer-se
Da presença importuna e perigosa
Do índio generoso;
..…..………………………………………………….
[…] Não consente
O cauteloso Balda que Lindóia
Chegue a falar ao seu esposo; e manda
Que uma escura prisão o esconda e aparte
Da luz do sol […]

O envenenamento:

Por meio de um licor desconhecido,
Que lhe deu compassivo o santo padre,
Jaz o ilustre Cacambo — entre os gentios

Nota-se nesses versos uma das vilanices do jesuíta. Há outrossim o uso dum tropo: a ironia.

Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa
Entre despedazados edificios,
..………………………………………..…..……..
Nasce Lisboa de entre as cinzas — glória
Do grande conde, que co’a mão robusta
Lhe firmou na alta testa os vacilantes
Mal seguros castelos […]

Referência a um grande terremoto que destruiu a capital portuguesa. O poeta insere esses versos em seu poema para louvar o Marquês de Pombal. Uso do maravilhoso por meio do índio. Há uma nota que aduz o desprezo do poeta pelo feitiço.

O URAGUAI EM QUATRO MANUAIS DE HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

José Veríssimo: História da Literatura Brasileira

Pouco adequado a um poema épico segundo os moldes clássicos

O poema daria apenas o episódio dum poema mais vulto.

Faltava-lhe o recuo do tempo para uma possível idealização do conhecimento, cujos autores ainda viviam. Devido a isso, a imaginação do poeta ficava limitada.

Assim sendo, o poema ficou despido das feições propriamente épicas.

Esses fatores acabaram, por sua vez, contribuindo para uma certa singularidade em comparação aos últimos poema camonianos.

Não começa pela invocação, entra ex-abrupto na matéria do poema.

Não obedece a indefectível prática da oitava endecassilaba.

Não recorre ao maravilhoso pagão ou outro, não se encontra mácula do gongorismo.

Língua clara, estilo natural e simples.

José Veríssimo considera o Uraguai um poema romântico devido a outros sinais intrínsecos a metrificação, linguagem e estilo e mais pela liberdade espiritual e sentimentos liberais e humanos.

Considera-no o iniciador do indianismo que permeou a primeira fase dos oitocentos.

Revela o seu gosto por Voltaire; traduziu Mahomet.

O primeiro a cantar as cousas americanas e pátrias.


Antônio Cândido – A formação da literatura brasileira: momentos decisivos

Oposição entre rusticidade e civilização presente no Arcadismo, não poderia deixar de favorecer no Brasil o advento do índio como tema literário.

Aos olhos do homem culto, era por excelência o rústico; e quando tais olhos buscavam a natureza, nada melhor que o índio para representa-la, já que a complicação da sua ordenação social escapavam na maior ao observador de cultura europeia.

Substituiu os pastores de Virgílio pelos índios.

O poema marca Uraguai marca um ponto decisivo, talvez o mais importante para a nossa literatura.

Erro considerá-la uma epopéia.

É lírica, heróica e, por fim, didática.

Panfleto antijesuítico para conciliar as graças de Pombal.

Uma analise revela que outros intuitos animavam o poeta: o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio.

Não esconde simpatia pelo vencido. A sensibilidade em certas partes supera o racional.

Poema desenvolvido em dois planos complementares: o dos versos e das notas. Essas últimas verdadeiro suplemento em prosa, correndo paralelo ao verso, chamando a si a tarefa proposta de combater o jesuíta e exaltar Pombal.

Poema com variedade, fluidez, colorido, movimento e sinteses admiráveis  caracterizam esse decassílabo transfundido de melodia, onde o verso branco encontra a mais brilhante expressão.


Nelson Werneck Sodré: A História da Literatura Brasileira:

Épico Brasileiro onde os sinais do indianismo aparecem com clareza indiscutível.

Manteve-se fiel a Árcadia, pois lançou mão dos versos brancos.

Discorda de Veríssimo, dizendo que as reminiscências camonianas perpassam todo o poema de Basílio.

Alfredo Bosi: História Concisa da Literatura Brasileira

Poemeto épico que tenta conciliar a louvação de Pombal e o heroísmo indígena.

Verso branco e os decassílabos heróicos e sáficos aligeiram a estrutura do poema que melhor dir-se-ia lírico-narrativo do que épico.

Comenta também a ausência da invocação.

O não recuo do tempo deu-lhe a garra do moderno.

BIBLIOGRAFIA:

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 14 ed. São Paulo: Cultrix, 2006

CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. 5ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006.

______________. Formação da Literatura Brasileira: Momentos decisivos 175-1880. 11 ed. Rio de Janeiro:
Ouro Sobre Azul, 2007.

GAMA, Basílio. O Uraguai. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 14 ed. rev., São Paulo: Ática, 2006.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira.  8 ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1988.

TEIXEIRA. Ivan. Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica. São Paulo: Edusp, 1999.

VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1954.

ZILBERMAN, Regina. O Uraguai: moderno e americano. in: MALLARD, L. et al. História da Literatura Ensaios. 2 ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 1995.


27
Oct 09

Macumba, Taine, Macumba!

lucio-flavio03

Letícia Nogueira

Num país tropical em pleno verão, ele entrou descalço pediu dinheiro para os outros. O dono da loja, era uma loja? Sim, era! Era um xerox que ficava ao lado duma faculdade de Direito. Fotocopiavam desde códigos penais à livros de auto-ajuda.

Ele, que trajava o melhor da moda “se fodeu na vida”, conhecida outrossim como “tomei na bunda sem vaselina”, pediu dinheiro. O dono da loja com o dedo erecto gritou: “Num fode! Sai daqui, sô! Ou, sai daqui, sô”

Ele: cê acha que sô bicho?
Dono da loja: Sai, sai, sai!
Ele: Fedaputa! Fedaputa! Fedaputa! Vou amarrar seu nome na boca do sapo, seu fedaputa. Cê vai acordá com a boca cheínha de furmiga cabiçuda. Vai brotá canci na bunda.

Eis a fórmula:
[Orgulho ferido = Bateu laje durante uma semana + orelha seca.
Resultado:
Dinheiro para o pai de santo. Sapo, pinga, preto mais o táxi para o pai de santo ir até o Cemitério do Bonfim.]

5 anos depois. O dono da loja ainda está vivo, alguns estudantes morreram; 2 para ser mais exacta.

“Até os santo mi fodi ! Mais até os santo mi fodi ? Vô amarrá o nome dele na boca? Só se fô na boca do cu, só se fô… talvez no meu cu!, é talvez, né?, talvez…”

Originally posted 2009-08-11 06:37:07. Republished by Blog Post Promoter


26
Oct 09

O caixão fantástico

sphoffPor Augusto dos Anjos

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio…

Era tarde! Fazia muito frio,
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando seu passeio!

Comentários – Por Laís Azevedo

Trazemos mais um poema de Augusto dos Anjos, um dos maiores expoentes da literatura brasileira.

Em “O caixão fantástico” o eu-lírico augustiano coloca-se como um espectador que vê um féretro a passar pela rua. O ataúde desperta no sujeito-lírico diversas visões fantásticas. Interessante ver como o poeta lança mão dum grande nome da literatura alemã, o escritor Hoffmann, que ficou conhecido por escrever narrativas fantásticas. Um dos contos desse autor germânico foi utilizado por Freud para explicar as questões inerentes ao “Estranho familiar”.

Os restos mortais confusos dentro do esquife assemelham-se ao pensamento do eu-lírico, que como ele mesmo nos diz, está num estado de desordem. E, do mesmo modo que o caixão celeremente passava pela rua, as ideias do sujeito-lírico augustiano também transcorriam lestamente pelo cérebro.

Nos últimos versos, é trazido à baila a tarde fria que coaduna com o gélido estado que morte suscita nos corpos.


26
Oct 09

Os menores livros do mundo

iracema-alencarPor Laís Azevedo

Realizei ontem uma aquisição literária muito interessante. Comprei duas obras do romântico José de Alencar. Até aí nada demais, pois a obra alencariana pode ser encontrada em quaisquer lugares. Porém, nunca tinha visto seus livros no formato de mini-livros, cujo tamanho físico não chega a ser maior que uma caixa de fósforo. Apesar do preço — R$ 19,90 —, o livrinho é bem acabado, ele conta com capa-dura e um marcador de páginas feito de tecido. Como já era de se esperar numa obra deste tamanho, a letra é bastante pequena, porém não impossível de se ler.

A editora conta com alguns clássicos da literatura brasileira, tais como Memória póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Ademais, traz também clássicos da literatura mundial, Dom Quixote é um deles, o livro foi divido em dois volumes.

Vale a pena visitar o site da editora: http://www.osmenoreslivrosdomundo.com.br/


26
Oct 09

O sarcófago

2005_corpse_bride_063Augusto dos Anjos

Senhor da alta hermenêutica do Fado
Perlustro o atrium da Morte… É frio o ambiente
E a chuva corta inexoravelmente
O dorso de um sarcófago molhado!

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado
De dor profunda, acérrima e latente,
Que o sarcófago, ereto e imóvel, sente
Em sua própria sombra sepultado!

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível,
Que em toda a sua máscara se expande,
À humana comoção impondo-a, inteira…

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível
Essa fatalidade de ser grande
Para guardar unicamente poeira!

Comentários – Por Laís Azevedo:

Augusto dos Anjos pode ser considerado um dos poetas mais marcantes da nossa história literária. O autor, nascido no século XIX (Engenho Pau d’Arco, Paraíba), morreu em 1913 (Leopoldina, Minas Gerais). Uma grande perda, com certeza!, haja vista que ele deixou-nos apenas uma obra intitulada de Eu. Essa publicada em 1912 recebeu o acréscimo doutros poemas sete anos depois, sendo assim ganhou o nome de Eu e Outras poesias.

A poesia augustiana, na história da literatura organizada por Afrânio Coutinho, não encaixou-se em nenhum estilo literário. Sua poesia foi classificada como independente. Entretanto, na aludida obra, um dos autores ressalta que os termos científicos que permeavam os versos do poeta já vigoravam, mesmo que parcamente, na obra d’alguns parnasianistas.

No geral, os versos de Augusto dos Anjos são marcados pelo pessimismo, pelo desprezo do cotidiano, pela descrença amorosa, pela revolta contra o mundo, pela podridão moral e física que o assola; e, ademais, como já dissemos, pelo o uso recorrente de vocábulos calcados na ciência natural. Percebe-se claramente outrossim a influência de Baudelaire em sua obra.

Em “O sarcófago”, temos um eu-lírico que coloca-se como o maior intérprete Fado. Esse grafado com letra maiúscula, refere-se à morte, que é um destino cujo homem jamais poderá escapar. O sujeito-lírico personifica a figura do sarcófogo atribuindo-lhe sentimentos; aí vemos o recurso duma figura de linguagem: a personificação que tem um papel importante no poema. Deste modo, no decorrer dos versos, deparamo-nos com o eu-lírico indagando a todo momento como sentir-se-ia o sarcófago, uma vez que ele é a última morada de grande parte da humanidade. Com sua imponência restar-lhe-ia, somente, guardar a poeira dos insignificantes corpos humanos.