November, 2009


29
Nov 09

Irmãs – Cap. I

eu-matei-lucio-flavio02Por Mariana Clark

MÔNICA

Valentina me pediu que fosse até sua casa imediatamente e assim o fiz sem nenhum momento de dúvida ou horas a mais para quem que fosse. Foi tudo assim em tanta pressa que permaneci calada ao lado de Valentina, sentada e calada e feliz por estar assim. Entretanto, muitos minutos viraram horas e tantas vezes vi os ponteiros e fumei tantos cigarros, eu, que nem fumo, que resolvi me arriscar a perguntar porquê estava ali, o que significava tanta tristeza e lenços espalhados por todos os cantos. Me olhou de relance como se não quisesse olhar e nem ali me senti, pertencente a lugar nenhum para ser sincera. Ela se derramou em lágrimas, abracei-a, acendi mais um cigarro mesmo que os odiasse: os cigarros e os momentos infelizes e era só isso que pensava e isso só me consumia. Odeio os cigarros e os momentos infelizes.
Porque crescemos e assim fizeram nossos defeitos é o que volta sempre em qualquer irritação porque o que fica é sempre aquele dia em que observou-se um olhar de não se sabe o que. Foi assim quando me acordou no melhor de meu sono, jurando por Deus e por todos os relógios da cidade que já eram as 11 horas que eu acreditava impossíveis. Caiu em um choro que não parava como agora em minha frente e suspirou e eu calada. Família que é assunto difícil para quem quer que seja.
As mágoas se acumulam, não se esgotam em si mesmas como provavelmente deveriam em nome do amor, do perdão ou de qualquer coisa que o valha. Por qualquer bobagem, tenho vontade de perguntar o porquê de tanta coisa. Por qualquer preocupação, tenho vontade de lhe dizer que não a vejo com esse direito. Por qualquer sopro, quero o avesso. Quero magoá-la. E sinto que só quero isso porque a amo. Como entender? Antes que eu culpasse a cerveja da noite anterior por tudo isso ou que resolvesse lhe dizer, finalmente lhe dizer, resolvi o contrário. Acendi mais um cigarro. Foi quando Valentina quis ser gentil e cessou o choro para me lembrar de que não fumo.
Ela se calou, e eu me calei. E assim ficamos, em silêncio, de mãos dadas, por várias horas, mais do que eu pudesse contar. Me doía sua tristeza, eu amava Valentina. Mas a hora sempre chega. A hora em que a vida se apresenta e nunca é um momento alegre. Ela resolveu então falar. E disse:
-Não é tristíssimo que não haja mais dinossauros no mundo?
Achei melhor tomar um copo de vodka. Isso. Um copo de vodka. Com bastante gelo. Não. Pura. Um copo de vodka pura.

Originally posted 2009-08-25 02:25:52. Republished by Blog Post Promoter


27
Nov 09

Ironias do desgosto

music_smashing_pumpkinsPor Cesário Verde

“Onde é que te nasceu” — dizia-me ela às vezes —
“O horror calado e triste às coisas sepulcrais?
“Porque é que não possuis a verve dos Franceses
“E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais?

“Porque é que tens no olhar, moroso e persistente
“As sombras dum jazigo e as fundas abstrações,
“E abrigas tanto fel no peito, que não sente
“O abalo feminil das minhas expansões?

“Há quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
“Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
“Que estão edificando um negro cadafalso
“É ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!

“Eu vim — não sabes tu? — para gozar em Maio,
“No campo, a quietação banhada de prazer!
“Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
“E os júbilos, que Abril acaba de fazer?

“Não vês como a campina é toda embalsamada
“E como nos alegra em cada nova flor?
“Então porque é que tens na fronte consternada
“Um não-sei quê tocante e enternecedor?”

E eu solho respondia: — “Escutam-me. Conforme
“Tu vibras os cristais da boca musical,
“Vai-nos minando o tempo, o tempo — o cancro enorme
“Que te há-de corromper o corpo de vestal.

“E eu calmante sei, na dor que me amortalha
“Que a tua cabecinha ornada à Rabagas,
“A pouco é pouco há-de ir tornando-se grisalha
“E em breve ao quente sol e ao gás alvejará!

“E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
“Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,
“Eu morro de pesar, talvez, porque prefiro
“O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!”


26
Nov 09

Sempre um Papo lança “Cabeza de Vaca”, de Paulo Markun

GSand_delacroixPaulo Markun lança, pelo Sempre um Papo, o livro “Cabeza de Vaca”, que relata as incríveis peripécias do conquistador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca. Sobrevivente de três naufrágios na América do Norte, a história do aventureiro conta ainda com dez anos de vivência entre índios, milhares de quilômetros percorridos a pé e a sua consagração como um mítico curandeiro. O lançamento acontece dia 1º de dezembro, terça-feira, às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes.

O Sempre Um Papo é uma realização conjunta do Jornal Estado de Minas, com o apoio cultural da Rádio Guarani.

Álvar Núñez Cabeza de Vaca foi tão ousado e persistente quanto seus contemporâneos Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Hernán Cortés e Francisco Pizarro. Pode ter tido menos fortuna e reconhecimento, se comparado a esses homens que mudaram o mapa do mundo, mas não lhe faltou sorte. Seu jogo de cintura, aliado a sinais da cruz, um grilo e um temporal, lhe permitiu escapar da morte diversas vezes, vivendo o suficiente para eternizar sua história singular.

Neto de um grande guerreiro, o fidalgo espanhol deixou sua casa em Jerez de la Frontera quando adolescente, para se tornar soldado profissional. Lutou na Itália e foi gravemente ferido. Recuperado, serviu como camareiro de um duque e envolveu-se em incidentes picantes. Depois de combater um movimento rebelde, embarcou rumo à Flórida, na condição de tesoureiro real. Foi o início de uma odisseia.

A história é mesmo surpreendente: Cabeza de Vaca sobreviveu a três naufrágios, curou centenas de índios, atravessou, nu e descalço, parte dos atuais Estados Unidos e México, voltou à Espanha e obteve um cargo como recompensa por suas desditas. Depois de nova viagem, tomou posse de Santa Catarina, na condição de seu primeiro governador. Mas não sossegou: atravessou a pé o território brasileiro, chegando a Assunção. Dali, partiu novamente em busca de uma serra misteriosa, feita de prata, até ser imobilizado pela malária num pequeno forte no meio do nada. Ao retornar à cidade, foi deposto por seus opositores. Passou quase um ano numa cela úmida e voltou para casa como traidor e prisioneiro, quando um terrível temporal mudou sua sorte mais uma vez.

Para reconstituir essa história fantástica, Paulo Markun cotejou a obra autobiográfica de Cabeza de Vaca com os depoimentos de mais de uma centena de testemunhas ouvidas em vários processos judiciais na Espanha. Confirmando ou desmentindo as afirmações do protagonista e de seu secretário particular nos Naufrágios e Comentários — obras pioneiras da literatura de viagens —, o autor recupera a saga desse conquistador cuja vida atribulada e cercada pelo mito é ainda larga e injustamente ignorada.

Paulo Markun nasceu em São Paulo, em 1952. Finalista do prêmio Jabuti por duas vezes, trabalhou nos principais jornais e emissoras de tv do país. Apresentou durante

mais de dez anos o programa Roda Viva, até 2007, quando assumiu a presidência da Fundação Padre Anchieta, mantenedora das rádios e da TV Cultura. Cabeza de Vaca é seu 12º livro e o primeiro pela Companhia das Letras.

Título: “Cabeza de Vaca”
Autor: Paulo Markun
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288
Preço: R$ 42,00
Formato: 14 x 21 cm
Capa: João Baptista Costa Aquiar

Serviço:
Sempre um Papo com Paulo Markun
Dia 1° de dezembro, terça-feira, às 19h30
Local: Palácio das Artes – Sala Juvenal Dias (Av. Afonso Pena, 1537, centro)
Entrada Gratuita
Informações: (31) 3261-1501 ou www.sempreumpapo.com.br


26
Nov 09

A literatura brasileira é a personagem do Conexões Itaú Cultural e dos Encontros de Interrogação, no Rio de Janeiro

Ic_pretologo forum de ciencia

Por Luiz Pedreira Júnior


A literatura brasileira é a personagem do Conexões Itaú Cultural e dos Encontros de Interrogação, no Rio de Janeiro

Data: 01 e 02 dezembro, terça e quarta-feira

Local: UFRJ – Fórum de Ciência e Cultura – Av. Pasteur, 250, 2º andar, Praia Vermelha – Rio de Janeiro – RJ
(entrada também pela Av. Venceslau Brás, 71 ao lado do Hospital Pinel).


Entrada franca – não há necessidade de inscrição antecipada (180 lugares).


Veja abaixo os horários e temas de cada mesa de debate.
Confira a programação também no www.itaucultural.org.br e www.forum.ufrj.br

O Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e o Itaú Cultural convidam todos os interessados a comparecerem em dois eventos literários: Conexões: II Encontro Internacional de Literatura Brasileira e V Encontros de Interrogação – Formas de Fingir: A Criação do Escritor Brasileiro Contemporâneo.

Heloisa Buarque de Holanda, Silvano Santiago, Ferréz, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Milton Hatoun, Moacyr Scliar, Cristovão Tezza, Manoel da Costa Pinto, entre outros destacados escritores, críticos literários, pesquisadores, professores e jornalistas especializados em literatura estarão presentes no Conexões e no Encontros de Interrogação. Os convidados estrangeiros virão da França, Portugal, Espanha, EUA, Itália, Hungria, Alemanha, Portugal, México.

- sobre o Conexões Itaú Cultural
Trata do mapeamento e da presença da literatura brasileira no exterior. Conexões reúne um banco de dados que procura quantificar e qualificar de que modo a nossa produção no segmento é trabalhada, vista e entendida no exterior. Saiba mais acessando http://www.conexoesitaucultural.org.br/.

- sobre o Encontros de Interrogação – Formas de fingir: A Criação do Escritor Brasileiro Contemporâneo
Discute e analisa a criação literária brasileira contemporânea em vários aspectos. O debate gira em torno do o horizonte da criação no contexto atual, que transformou o escritor em personagem. Festas literárias, bienais, programas de TV, encontros com o autor, prêmio literários, blogs e twitters deslocaram o foco da invenção ficcional para a persona do autor que expõe seu processo de produção de enredos, protagonistas e versos de feição muitas vezes confessional.

Os dois eventos (Conexões e Encontros de Interrogação) acontecem nas mesmas datas, 1 e 2 dez, no mesmo local, somente em horários diferentes para permitir a participação do público em ambas atividades. Todas as mesas serão transmitidas ao vivo pelo http://www.forum.ufrj.br e no www.itaucultural.org.br e pela

Programação

Data: 1 e 2 de dezembro, terça e quarta-feira
Local: UFRJ – Fórum de Ciência e Cultura / Av. Pasteur, 250 – 2º andar – Praia Vermelha (entrada também pela Av. Venceslau Brás, 71 ao lado do Hospital Pinel)

Horários: atividades do II Conexões: 9h30 e 11h30 /  atividades do V Encontro de Interrogações: 15h30, 17h30 e 19h30.
Entrada franca. Não há necessidade de inscrição antecipada. Lotação por ordem de chegada. Capacidade: 180 lugares. Ingressos distribuídos 30 minutos antes do início da atividade.

Evento: Conexões Itaú Cultural – Encontro Internacional de Literatura Brasileira
1 de dezembro, terça-feira
9h30

Pesquisar a Literatura Brasileira Contemporânea – Padecer no Paraíso?
O mapeamento da literatura brasileira no exterior revela que a maioria dos entrevistados trabalha com literatura brasileira contemporânea, especialmente a publicada a partir dos anos 80.  Esta mesa discute as dificuldades práticas – e teóricas – enfrentadas pelos estudiosos da produção literária brasileira recente.
Com
. Horst Nitschack (Alemanha) pesquisador do Centro de Estudos Culturais Latino-Americanos;
. Leonardo Tonus (Brasil), professor do Institut d’Études Hispaniques da Université de Paris-Sorbonne
. Milton Hatoum (Brasil), escritor
. Pedro Meira Monteiro (Brasil), professor do Departamento de Espanhol e Português da Princeton University
Mediação:
Beatriz Resende (Brasil), professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do CNPq

11h30
Traduzindo o Brasil – Limites e Possibilidades

Os tradutores desempenham um papel essencial na difusão da literatura brasileira no exterior: autêntica ponte entre o que se produz em português e os mais variados idiomas. Sem as traduções, os estudos de literatura brasileira seriam ainda mais limitados. O contraste entre a dinâmica do mercado editorial e as políticas públicas de apoio à tradução marcam a discussão sobre as dificuldades e o apoio que deveria ser prestado a esse trabalho.
Com
. Cliff Landers (EUA)
. Moacyr Scliar (Brasil), escritor
. Pal Ferénc (Hungria), tradutor e professor de literaturas de língua portuguesa na Universidade Eötvös Loránd de Budapeste.
. Rodolfo Mata (México), tradutor e professor de literatura latino-americana na Universidade Nacional Autônoma do México
Mediação:
Felipe Lindoso (Brasil), antropólogo, jornalista e editor

2 de dezembro, quarta-feira
9h30
Descobrindo o Brasil – Revistas

As revistas literárias têm um papel importante no estado da literatura brasileira. Não apenas são o veículo onde os estudiosos apresentam em primeira mão seus trabalhos, como também publicam traduções e promovem o intercâmbio entre os próprios pesquisadores.
Com
. Carlos Paulo Martinez Pereiro (Espanha), professor e pesquisadora da Universidad de Compostela.
. Darlene Sadlier (EUA), professora do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Indiana, onde coordena o programa de português.
. Leila Lehnen (França), professora do Department of Spanish & Portuguese na University of New Mexico, nos Estados Unidos.
. Pedro Serra (Portugal), professor da Faculdade de Filologia na Universidade de Salamanca, na Espanha; editor da revista Estudios Portugueses
Mediação:
Claudiney Ferreira (Brasil), gerente do Núcleo de Diálogos do Itaú Cultural

11h30
As Leituras da Literatura Brasileira no Exterior
A publicação da literatura brasileira no exterior envolve um conjunto de atores. Em primeiro lugar, os autores. Mas sem os agentes literários e os editores o trabalho não chega às mãos dos seus destinatários finais, os leitores.  Como se percebe, se lê e se vende literatura brasileira no exterior?

Com
. Carmen Corral (Espanha), editora e professora, trabalha na Tusquets Editores, onde é responsável pela aquisição de direitos estrangeiros
. Lúcia Riff (Brasil), psicóloga de formação, trabalha no mercado editorial e atua desde 1990 na Agência Riff
. Luiz Ruffato (Brasil), jornalista e escritor
. Roberto Vecchi (Itália), professor de literatura brasileira e portuguesa na Universidade de Bolonha, onde coordena o Centro de Estudos Pós-Coloniais
Mediação:
João Almino, membro da Embaixada do Brasil em Chicago (EUA)

Evento: Encontros de Interrogação – Formas de Fingir: A Criação do Escritor Brasileiro Contemporâneo
1 de dezembro, terça-feira
15h30

Criação Poética e Ficção da Inspiração ou O poeta fingidor de Fernando Pessoa é um artífice que, como queria Valéry, transforma o leitor em inspirado?
Que resposta se pode dar hoje à antiga e, por sua recorrência, sempre atual questão sobre a gênese do trabalho poético? Valores antagônicos como inspiração e labor textual podem ser estratégias que atendem às expectativas da crítica e dos leitores? Ao se expor em saraus e festas literárias, o poeta busca adicionar um valor testemunhal ao seu trabalho?
Com
. Frederico Barbosa (Brasil), poeta e escritor
. Marco Lucchesi (Brasil), professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Colégio Brasil, poeta, tradutor
. Micheliny Verunshk (Brasil), poeta e escritora
Mediação:
Wilberth Salgueiro (Brasil), mestre e doutor em Letras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras na Universidade Federal do Espírito Santo

17h30
Criação e Crítica Literária ou Existe literatura sem reflexão sobre os processos criativos consagrados pela tradição e pela tradição da ruptura?

O escritor contemporâneo cria pensando em sua inserção nos recortes desenhados pela crítica? Organizar antologias, escrever atendendo a parâmetros acadêmicos e publicar originais em revistas de criação e crítica seria uma forma de controle da recepção – e, no caso de escritores-críticos, de reivindicar modos de leitura de sua própria produção?
Com
. Heloisa Buarque de Holanda (Brasil), professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e escritora
. Ítalo Moriconi (Brasil), poeta, contista, ensaísta, doutor em letras e professor de literatura brasileira e comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Mediação:
Claudia Nina (Brasil), professora, escritora e jornalista

19h30
Criação e Confissão ou Como a ficção transtorna a noção de documento, de registro biográfico e da própria história da literatura?

Em que momento o caráter memorialístico de contos e romances se transforma em imaginação? Existe ficção pura, sem enraizamento na história pessoal? E como esse enraizamento coincide com o enraizamento na história literária e suas rubricas (literatura gay, ficção pós-moderna, regionalismo, memorialismo)?
Com
. Ronaldo Correia de Brito (Brasil), médico, escritor e dramaturgo
. Silviano Santiago (Brasil), escritor e critico literário.
Mediação:
Beatriz Resende (Brasil), professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do CNPq

2 de dezembro, quarta-feira
15h30
Criação e Narrativa ou Como o enredo ficcional parte da experiência pessoal sem deixar de se afirmar como ficção?

O escritor decanta sua experiência na literatura ou escreve contra ela, num esforço de esquecimento que faz o triunfo da ficção? A vida dos outros e as vivências individuais determinam a invenção? O escritor “escolhe” acasos e percalços (pessoais, profissionais) que dêem lastro à ficção, que confiram ao texto a autoridade do vivido?
Com
. Adriana Lisboa (Brasil), escritora
. Michel Laub (Brasil), escritor e jornalista
Mediação:
Flávio Carneiro (Brasil), escritor, roteirista, crítico literário, professor de literatura da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

17h30
Criação e Edição ou A intervenção do editor sobre o manuscrito altera o estatuto do autor?

Como o editor edita? Os escritores modificam seus originais a partir do olhar crítico de seus editores? Que critérios (literários, mercadológicos) determinam tais intervenções? Existe paralelo entre o editor de livros e a figura, cada vez mais influente (e midiática), do curador de artes visuais?
Com
. Paulo Roberto Pires (Brasil), editor, escritor, jornalista e professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Mediação:
Nelson de Oliveira (Brasil), escritor e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo

19h30
Criação, Leitura e Autoria ou Como o escritor identifica tendências e problemas com as quais sintoniza sua literatura?

O escritor leva em conta a existência de questões e gêneros que estão na ordem do dia? Ao flertar com a literatura confessional ou com a literatura policial, o escritor aceita as regras do jogo ou as usa para burlar a expectativa do leitor? A opção por um gênero dilui a responsabilidade autoral ou desafia sua singularidade?
Com
. Cristovão Tezza (Brasil), escritor e professor da Universidade Federal do Paraná
. Ana Paula Maia (Brasil), escritora
Mediação:
Manuel da Costa Pinto (Brasil), é jornalista, editor dos programas Entrelinhas e Letra Livre ( TV Cultura), editor do Guia da Folha – Livros, Discos, Filmes e colunista da Folha de S.Paulo

contato: itaucultural@comunicacaodirigida.com.br / Tel (11) 8405-4664


26
Nov 09

A noiva morta

Rosemary's_BabyPor Rosa Cardoso

Atravessou a sala ciente dos olhares, indiferente aos comentários murmurados. Viu alguém rindo e pensou que era realmente engraçado. A idéia do que ele queria fazer rondando sua cabeça.

“Ela era tão jovem… Vai direto pro céu…”

“Eles tinham um namoro-padrão, padrão 1911 e iam casar em uma semana. Mãos dadas, beijos castos. “

“Coisa sem sentido…”

O burburinho das pessoas atravessava seu torpor e o deixava vagamente irritado. Iria pro inferno sem escalas só pelas coisas que aconteceram ontem. O bispo lhe acena um chamado que ele finge não ver.

“É hoje de manhã, parece que foi um aneurisma…”

Alguém o abraça e ele se vê refletido no espelho grande da sala. Parece tão frio que se assusta. O primeiro abraço foi algum tipo de senha e uma multidão de braços o abraça. Vai se livrando como pode e continua avançando até a porta do quarto, que permanece fechada.

Tanta gente! Como souberam? Foi tudo tão inesperado. A mãe aperta suas bochechas numa tentativa esquisita de consolá-lo. A porta do quarto se abre e ele a vê imóvel sobre a cama.

“Na noite passada treze mortos foram encontrados na localidade de… Vítimas de mais um massacre comandado pelo… Desta vez não houve sobreviventes… A receita é simples tempere o frango com… questiona a eficiência das autoridades, totalmente incapazes de impedir esse crime hediondo… E atualmente se encontram ocupados com assuntos ultra-secretos de suma importância, segundo o novo…”

A sogra mudava de canal sem realmente ouvir ou ver coisa alguma, embalada pelas imagens, acalentada pelas vozes. Em algum lugar do quarto o celular tocava. Não pretendia atender. Pouco depois o outro tocou até cair na secretária eletrônica. Ouviu a voz da morta dizendo alegremente: “é óbvio que não estou ou não quero te atender, deixa recado depois do sinal…”

Era incrível o luar daquela noite. A lua estava cheia, seria melhor que não estivesse ela parecia dormir sob aquela luz. Uma lua imensa despejava enganos sobre idiotas apaixonados, idiotas como ele.

Pediu para ficar só com a noiva morta e foi atendido: “deixem o rapaz se despedir” Ouviu o bispo sussurrar. Fechou a porta.

Não teria problemas com o som, tudo estava sendo abafado pelo tagarelar das pessoas e pela porta de madeira grossa, que ele mesmo tinha comprado na demolição de um casarão. Ela tinha adorado o presente.

As luzes estavam sendo acesas, mas preferiu ficar com a lua e com os seus enganos. Abriu a blusa da moça expondo os seios brancos que nunca mais teria. Ela parecia dormir, ele retirava o resto das roupas e as dobrava cuidadosamente. Pensava vagamente na grande sacanagem que o destino tinha feito com ele enquanto beijava a pele fria e deslizava as mãos pelas ancas da moça.

Originally posted 2009-09-15 00:43:16. Republished by Blog Post Promoter


25
Nov 09

Amor ad infinitum

cusl01_hitchcock0803Camilo Cruz

Apaixonou-se pela moça da foto que estava pregada na sepultura. Era bela, descorada, mas bela. Ia todos os dias vê-la. Sonhava em um dia juntar-se à ela, unir-se por toda eternidade;. assim o fez.

Comprou uma arma, matou o coveiro, quebrou a sepultura e levou os ossos para casa.


24
Nov 09

A dama de espadas: prosa e poemas

morte-cansada-31Por Laís Azevedo

Já ressaltamos aqui no literaturaemfoco o excelente trabalho da editora 34, principalmente no que tange às obras do leste europeu. O livro da vez, no nosso espaço dedicado as resenhas, é A dama de espadas: prosa e poemas, uma coletânea com vários escritos do russo Aleksandr Púchkin. Esse poeta e prosador do século XIX, pode ser considerado um dos melhores escritores da Rússia. Púchkin influenciou Gogol, Dostoiévski e os demais célebres autores de seu país. Infelizmente Púchkin morreu muito novo, com 37 anos, num duelo.

A dama de espadas é uma fantasmagórica história de um homem obcecado com o jogo. Hermann, de origem alemã, é um militar russo de grande prestígio entre os soldados de São Petersburgo, que dizem que: “nunca viram o alemão com uma carta de baralho na mão; jamais viram-no participar dum duelo; e ainda por cima ele permanece até às cinco horas da manhã observando-nos jogar.” Porém, uma história deixa Hermman intrigado, pois um dos soldados conta que sua avó possuí um segredo; uma sequência de cartas que pode derrotar qualquer jogador. A partir disso, o exemplar militar germânico irá fazer de tudo para conseguir desvendar o segredo.

Diferentemente da história que dá título ao livro, as outras que compõe A dama de espadas: prosa e poemas, são situadas no interior da Rússia, longe dos grandes centros. Púchkin originalmente publicou essas narrativas sob o pseudônimo de P. Belkin. Eis algumas delas, que considero as melhores do livro:

Na narrativa O duelo, somos apresentados às convenções formais do duelo russo, onde um dos oponentes — escolhido pela sorte — atira primeiro duma distância combinada entre os duelistas e seus padrinhos. Se o primeiro atirador errar – ou não acertar um tiro mortal -, o segundo pode disparar. Nesse conto, o segundo a tentar ceifar a vida do inimigo, um exímio atirador, decide não atirar; faz isso pois crê que num futuro não muito tardio, ele retornará para matar seu desafeto.

Na história “O fazedor de caixões”, um homem é atormentado por seus clientes do além, que retornam para uma grande festa prometida pelo fazedor de caixões.

Os poemas apresentados no livro são de grande qualidade. Apesar da poesia traduzida sempre perder algum elemento, como por exemplo: a sonoridade; a competente tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher minimiza esse problema.

Para conhecer a literatura russa é imprescindível ler a obra de Aleksandr Púchkin.


24
Nov 09

Novena

092707ropechairPor Letícia Nogueira

Achou que deveria rezar primeiro, assim o fez.
Rezou primeiro para o tio, um índio travesti que tinha o sonho de ir para o Suriname, ser artista de telenovelas, mercado, segundo indígena, pouco explorado no pequeno país. À noite ele cheirava cocaína, com a calça no joelho, sentado na privada, com a porta do banheiro entre-aberta. Ela sentia o cheiro de merda desembocando na cozinha, ao mesmo tempo que ele gritava: “Dar o cu, filha? Eu dou, até dou, mas só se for prum alemão, prum alemão”.

Depois rezou para o dono do bar. Nome: Jorge; Idade: 47; Estado civil: casado; Ator favorito: Tarcísio Meira; Escola de samba: Mangueira; Sonho: conhecer à Argentina; Signo: Libras; Marca de carro favorita: Ford; Dia mais feliz da vida: o dia do casamento. No dia cinco de março de 1986 tomou um tiro na testa. No interrogatório, os jurados riram quando ela, a esposa, disse que ele peidava demais.

Incluiu na oração o professor de matemática. Nome: Chânkio; Nacionalidade: chinesa. Usava uma bota vermelha, camisa amarela e cinto branco. Peso: 180 quilos. As costas suavam em abundância, era o rio amazonas que ditava vinte equações, e depois sentava-se na mesa e murmurava: “bosta de vida.”

Rezou pra filha que não nasceu, ele tirou o pau, antes de gozar dentro.

A tia-avó, Antônia, portuguesa de Portugal, como a própria tia-avó gostava de deixar bem claro, surgiu-lhe à mente, achou melhor incluí-la também. Surpreendeu-se quando ouviu a tia-avó dizer antes de morrer: “É, Deus! Por que tu me fodestes?!”

Rezou para o galã da novela, que tinha sido vítimas de boatos do vilão. Boatos cruéis diga-se de passagem, seria injusto mencioná-los aqui, aumentaria os boatos. Ela orou para ele, mesmo sabendo que no final a verdadeira história seria trazida à tona, ele casaria-se com a protagonista e teria dois filhos. O vilão iria pedir perdão. Mas para esse ela achou melhor dedicar uma extrema unção.

Orou para um morto sem saber que esse, em questão de segundos, estaria doutro lado. Era o tio Arlindo, que no final da oração da moça — um Credo —, dava a última cagada da sua vida, antes de descer à mansão dos mortos para não ressuscitar. O avião estava no exato momento colidindo com as torres gêmeas.

Pediu a Deus que olhasse para o cara da festa, que ao invés de inspecionar a corda do bungee jumping preferiu cheirar cocaína, atolar o dedo no cu e admirar a revista de homens nus, roubadas da gaveta esquerda da mesa do patrão. Naquele dia o pastor Valmiro, um amante dos esportes radicais, ficou parecendo molho de tomate.

Por fim, orou por você e para Nossa Senhora da Boa Morte, antes de enfiar um tiro no ouvido.


24
Nov 09

Camilo Pessanha – Dois poemas

Alfred_Hithcock-2Nascido em 1867 na cidade de Coimbra, Camilo Pessanha foi um dos grandes nomes do simbolismo português. O poeta faleceu em Macau na China em 1926, a cidade era uma província portuguesa.

Seus versos são marcados pela musicalidade, pelo poder de sugestão nas suas imagens. Pessanha publicou apenas um livro no ano de 1920, a obra foi intitulada de “Clepsidra” (Do grego Crepsibra).

Keepto: furto, roubo; hydor: água, relógio do tempo.

Soneto

Foi um dia de inúteis agonias…
Dia de sol, inundado de sol!…
Fulgiam nuas as espadas frias…
Dia de sol, inundado de sol!…
Fo um dia de falsas alegrias.
Dália a esfolhar-se, — o seu mole sorriso…
Voltavam os ranchos das romarias.
Dália a esfolhar-se, — o seu mole sorriso.

Dia impressível mais que os outros dias.
Tão lúcido… Tão Pálido… Tão lúcido!…
Difuso de teoremas, de teorias…

O dia fútil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias…
Tão lúcido… Tão pálido… Tão lúcido!…


Violoncelo

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo…

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos…
Por baixo passam,
Se despedaçam
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro
Que ruínas, (ouçam)!
Se debruçam,
Que sorvedouro!…

Trêmulos astros…
Soidões lacustres…
— Lemes e mastros.
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo…
— Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.


24
Nov 09

O caso Morel

psycho_cashPor Danilo Nuha

Considerada uma das obras mais radicais de Rubem Fonseca , “O Caso Morel”, publicado no auge da ditadura militar, em 1973, foi o primeiro romance do escritor. Até então Fonseca só havia lançado livros de contos, “Os Prisioneiros” (1963), “A Coleira do Cão” (1965) e “Lúcia Mc cartney” (1969).
No centro da história está a figura de Paul Morel, um típico artista de vanguarda dos anos 1970, preso por um assassinato que nem ele mesmo sabe se cometeu. E de sua cela narra histórias que misturam sexo e violência. Nessa obra polêmica, Morel faz uma série de reflexões bombásticas sobre arte e literatura. “Em todo Louvre só escapa a batalha de Uccello. O resto é lixo”, dizia o artista.

Uma das características marcantes da narrativa de Rubem Fonseca é sua linguagem corrosiva, recheada de confissões perversas e obscenas. “Pela cara da ex-trapezista (hoje prostituta), percebi que ela estava tão na merda quanto eu”, escreveu Morel, em um diário onde havia decidido contar sua história. Para escrever suas experiências, ele teve a ajuda do ex-delegado e escritor em crise Vilela, que ia semanalmente na prisão buscar os manuscritos de Morel, para mandar datilografar.

Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1925, e vive no Rio de Janeiro desde os oito anos de idade, onde formou-se em direito pela antiga Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. Estudou Administração e Comunicação pelas universidades de Nova York e Boston, foi professor da Fundação Getúlio Vargas, crítico de cinema e comissário de polícia em São Cristovão (RJ), durante a maior parte do tempo em que trabalhou, até ser exonerado em 1958.

Foi nessa fase em que trabalhou na polícia, que Fonseca buscou inspiração para escrever a vida degradada dos marginais e o cotidiano entediado das elites, fielmente registrados com uma brutal riqueza de detalhes em “O Caso Morel”.

Maurício Santana Dias, jornalista, ressalta que Fonseca foi o primeiro escritor brasileiro “a encarar sem rodeios a violência urbana em todos os extratos sociais, do traficante ao empresário, da socialite à prostituta, do mendigo ao banqueiro. Sempre com um estilo direto, coloquial e cortante”.

Fonseca é um escritor que não gosta de badalações, nem de fotos e entrevistas. Dentre suas obras mais conhecidas estão, “Feliz Ano Novo” (1975), proibido pela censura durante a ditadura militar (1964-1984), “O Cobrador” (1979), “A Grande Arte” (1983), “Bufo e Spallanzani” (1986), “Vastas Emoções e Pensamentos Perfeitos” (1988), “Agosto” (1990), “O Buraco na Parede” (1995) e “Diário de um Fescenino” (2003).