December, 2009


29
Dec 09

As duas Terezas! – Azevedo e Alves – breve análise

O Adeus de Tereza – Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Tereza,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus…
E amamos juntos… E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala…

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite… entreabriu-se um reposteiro…
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus…
Era eu… Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa…

E ela entre beijos murmurou-me “adeus!”

Passaram tempos… sec’los de delírio
Prazeres divinais… gozos do Empíreo…
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — “Voltarei!… descansa!…”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei… era o palácio em festa!…
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!… Ela me olhou branca… surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!…

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Teresa- Álvares de Azevedo

Je lsayme tant que je nsose lsaymer.
Clément Marot

Quando junto de mim Teresa dorme,
Escuto o seio dela docemente:
Exalam-se dali notas aéreas,
Não sei quê de amoroso e de inocente!

Coração virginal é um alaúde
Que dorme no silêncio e no retiro…
Basta o roçar das mãos do terno amante,
Para exalar suavíssimo suspiro!

Nas almas em botão, nesse crepúsculo
Que da infante e da flor abre a corola,
Murmuram leve os trêmulos sentidos,
Como ao sopro do vento uma viola.

Diz  amor!  essa voz da lira interna,
É suspiro de flor que o vento aagita,
Vagos desejos, ânsia de ternura,
Uma brisa de aurora que palpita.
Como dorme inocente esta criança!

Qual flor que abriu de noite o níveo seio,
E se entrega da aragem aos amores,
Nos meus braços dormita sem receio.
O que eu adoro em ti é no teu rosto
O angélico perfume da pureza;

São teus quinze anos numa fronte santa
O que eu adoro em ti, minha Teresa!
São os louros anéis de teus cabelos,
O esmero da cintura pequenina,

Da face a rosa viva, e de teus olhos
A safira que a alma te ilumina!
É tua forma aérea e duvidosa
- Pudor d’infante e virginal enleio;

Corpo suave que nas roupas brancas
Revela apenas que desponta o seio.
Eu seii, mimosa, que tu és um anjo
E vives de sonhar, como as Ondinas,

E és triste como a rola, e quando dormes
Do peito exalas músicas divina!
Ah! perdoa este beijo! eu te amo tanto!
Eu vivo de tua alma na fragrância…
Deixa abrir-te num beijo as flores d’alma,

Deixa-me respirar na tua infância!
Não acordes tão cedo! enquanto dormes
Eu posso dar-te beijos em segredo…
Mas, quando nos teus olhos raia a vida,

Não ouso te fitar… eu tenho medo!
Enquanto dormes, eu te sonho amante,
Irmã de serafins, doce donzela;
Sou teu noivo… respiro em teus cabelos

E teu seio venturas me revela…
Deliro… junto a mim eu creio ouvir-te
O seio a suspirar, teu ai mais brando,
Pouso os lábios nos teus; no teu alento

Volta minha pureza suspirando!
Teu amor como o sol apura e nutre;
Exala fresquidão e doce brisa;
É uma gota do céu que aroma os lábios

E o peito regenera e suaviza.
Quanta inocência dorme ali com ela!
Anjo desta criança, me perdoa!
Estende em minha amante as asas brancas,
A infância no meu beijo abandonou-a!

Comentários:

Teresa

Primeiramente, falemos dos poemas.

O primeiro deles, intitulado de “Teresa”, foi escrito por Álvares de Azevedo, o escritor ultra-romântico que, segundo os historiadores da Literatura, pertenceu a segunda geração de poetas do Romantismo Brasileiro. A aludida geração de poetas ficou marcada mormente pela influência de românticos europeus, tais como: Lord Byron, Musset, dentre outros. Eles receberam também a alcunha de satânicos, graças aos temas macabros que eram abordados em seus versos. Ademais, ficaram marcados pelo pessimismo exarcebado e por um  grande apego à morbidez. E, de mais a mais, incorporavam em suas obras a figura da mulher idealizada que consistia, basilarmente, numa moça virgem, pálida pura de sentimentos e que, na maioria das vezes, assemelhava-se a um anjo.

Poder-se-ia dizer que “Teresa” conta com alguns desses elementos. Vejamos como isso operar-se-ou no poema.

Porém, antes de elenca-los, vejamos alguns aspectos formais da supradita obra de Azevedo.
“Teresa” conta com 15 estrofes compostas por quatro versos cada. O poeta lançou mão de decassílabos. O padrão de rimas é variado, em algumas estrofes encontrar-se-á uma repetição, em outras ele inverte-se totalmente.
Partamos, agora, para a interpretação.

A epígrafe escrita em francês revela, logo de início, o tema que o poeta romântico buscou trazer à baila. Diz o escrito em francês que: seu amor por ela é grande, e devido a isso ele não pode amá-la. Eis que temos um pensamento assaz paradoxal. Contudo, no decorrer dos versos iremos entender o porquê.

Encontramos um sujeito-lírico que está deitado ao lado de sua amada. Nas estrofes vemos que ela é uma moça totalmente idealizada. Ele a compara os sentimentos dela a de uma criança, isto é, diz que a alma dela é pura. Ora, sendo pura, seu corpo é imaculado; deste modo, o sujeito-lírico está diante duma moça virgem, ou seja, uma donzela. A amada que dorme também é comparada à uma Santa, isso reforça ainda mais o grau de pureza, tanto de sua alma, bem como a de seu corpo. Além disso, a jovem que está a dormir é, outrossim, comparada a um anjo, um ser celestial que não conhece o pecado.

Diante de um ser tão perfeito, o eu-lírico azevediano não consegue expressar o amor por essa donzela quando a mesma está acordada. Sendo assim, ousa somente tocar os lábios dela, enquanto ela está sendo embalada por Morfeu. Porém, na última estrofe, o sujeiro-lírico, devido ao beijo que ele sorveu nos lábios da jovem celestial, retirou dela a inocência. Deste modo, ela a pede perdão, mostrando que, dum certo modo, sentiu-se arrependido por beijá-la.

Gostaria, para findar esse breve comentário, falar das metáforas que praticamente estão presentes em todas as estrofes. Grande parte delas são usadas principalmente para ressaltar o caráter de pureza de sua amada. Na estrofe cinco, encontramos no segundo verso um bom exemplo de utilização desse tropo.


O adeus de tereza

“O ‘Adeus’ de Teresa” foi escrito por Castro Alves, que é considerado pela crítica outro grande poeta dos oitocentos. Os historiadores literários costumam a situar a obra de Alves na chamada terceira geração do romantismo, cujo nome é Condoreira.

Vamos direto ao ponto que nos interessa: a análise do poema.

Nesse poema de Alves encontramos versos de 11 e dez silabas em algumas estrofes. O padrão de rimas da primeira estrofe se dá da seguinte maneira: AABAA; na segunda: B; na terceira: CCBAA; na quarta: B; na quinta: DDBAA, na sexta: B; na sétima encontra-se o mesmo esquema da primeira estrofe; na última o padrão é B.

Faz-se interessante mencionar o padrão das estrofes compostas somente com um verso, há o uso da repetição do substantivo abstrato “adeus” a todo momento; eis aí o uso da anáfora, posto que o mencionado substantivo está presente sempre no final dos versos. Ainda sobre esse recurso que o poeta lançou mão, poder-se-ia afirmar que ele ilustra uma dimensão comunicativa da poesia de Alves, pois o tema narrativa nunca se deixa perder para os ouvidos; em outras palavras, o poeta não abandona a sonoridade que sempre foi um ponto alto em seus versos.

O uso da metáfora também está presente, o leitor poderá notar, por exemplo, o emprego deste tropo na primeira estrofe, o eu-lírico compara a valsa que ele dançou com a moça como as plantas que são levadas pela correnteza.

Deixando, agora, os elementos formais à parte, vejamos como o poeta trabalhou o tema do amor.

Percebe-se que diferentemente da poema “Teresa” de Álvares de Azevedo, o eu-lírico de Castro Alves concretiza seu amor. Um amor imoral para os padrões do século XIX. Como? Explicar-vos-ei! Os versos trazem à tona uma franca propaganda de uma vida amorosa diversificada e plena antes do casamento.

Pontos convergentes e divergentes

Certo. Já que falamos desses dois poemas românticos, quais seriam as convergências e divergências encontradas em ambos? Apresentar-vos-ei essas fatores que se coadunam ou não, por tópicos. Vamos lá!

Os poemas são românticos, todavia pertencem a momentos, pelo menos segundo aos historiadores da Literatura, a momentos distintos.

O amor do eu-lírico de Azevedo não se concretiza. Esse sentimento no de Alves é consumado, visto que o eu-lírico visitou a alcova da amada e lá amou-a.

Não uma idealização da mulher amada na obra e Alves. Na de Azevedo, a idealização é presente e assaz explorada pelo poeta.



29
Dec 09

Che Guevara

Cuba Che Guevara e um Havana IIPor Letíca Nogueira

Eu também pintei a cara para derrubar o presidente na época. Fiz isto por fazer, minha intenção era apenas a de foder a Letícia. Ela era engajada politicamente, pelo menos falava que era, e eu como não queria ficar tocando punheta o dia inteiro fui atrás. Lembro-me de ter visto uma monte de gente, tinha até uns veados, uns travecos com a cara pintada. Era realmente a democracia. Porém, enquanto o presidente fodia-se, na época eu pensava que sim, eu não fodia a Lê, e nunca fodi. Bom, não fiz merda nenhuma, mas quem faz alguma bosta neste país? Eu pelo menos deixei minha cara estampada pintada com as cores da bandeira nacional na Folha de São Paulo. Ironicamente, após alguns anos de rebeldia —  chamavam-me até mesmo de punk —,  virei funcionário do Estado. Sendo assim, sou mesário de dois em dois anos. Posso dizer-lhe que é um bom serviço, cansativo, admito. Porém, para uma pessoa que teve uma passado insurgente, creio que meu ofício é por demais justo.

Levanto-me da cama, olho para o relógio. Vou até a cozinha, vejo papai sentado à mesa. De soslaio lança-me um olhar, tenta esboçar um sorriso, não consegue, o derrame fodeu com ele.

Preciso de dinheiro!, grito-lhe ao pé do ouvido.

Ele pisca, uma vez, sinaliza que sim. Duas vezes quer dizer um não. Esse foi o jeito que arrumei para comunicar com o velho.

Papai aponta para a gaveta da estante. Corro, abro, lá está o salário. Pego os cobres boto na algibeira e parto.

Subo no ônibus, vejo várias cadeiras vazias. As pessoas no lotação preferem ficar sozinhas. Os seres humanos se odeiam. Fico imaginando, caso ao entrarem no veículo, em vez de cidadãos, estivessem lá vários poodles, aqueles brancos que lembram os franceses, que por sua vez me lembram pessoas filhos-da-puta; creio que todos iriam abraçar os cães, diferentemente do que ocorre quando vemos velhas, gordas, calvos, altos, gente com marmita, essas merdas todas. Esse tipo de gente não temos vontade de abraçar. Na realidade, temos vontade de sair metendo tiro em todos, metendo chumbo e gritando: morram, veados! morram, veados!

Desço do ônibus, vejo a casa. Entro, subo com passos rápido a escada.

Tem coisa nova!, ela fala.

Mesmo?

Sim!, responde.

Acendo um cigarro! Ela entra. É Letícia! Sem as cores da pátria no rosto. Quando me vê, tenta esconder a face com as mãos. Está diferente, mais gorda, bunda caída, peitos flácidos, aquela merda que só a velhice pode fazer. Não há beleza sem juventude, falo em voz baixa meu axioma preferido. Ela deita na cama. Fodo. Depois, igual nos filmes e nas novelas, acendo um cigarro.

Parou com a rebeldia, Letícia?

Um cara do outro lado porta pergunta se meu pau é de ouro? Diz que estou fodendo há muito tempo. Respondo-lhe que minha pica não é de ouro. Ele não fica satisfeito, mete o pé na porta. Olha para mim e pergunta se eu liberaria o cu para ele por dez reais. Penso na possibilidade. Letícia continua calada. Saio de lá, penso que é melhor continuar como mesário.

Volto para a casa, eu não iria mais trabalhar, ser mesário cansava-me. Só no outro mês poderia voltar à casa. Letícia estaria lá?

Originally posted 2009-10-12 02:25:53. Republished by Blog Post Promoter


29
Dec 09

“Sombras do poder”, dos Illuminati à maçonaria e Rosacruzes

(…)Tudo estava correr conforme o planeado. Agora sim, todos os “filhos da luz” encontravam-se verdadeiramente unidos. Pelos Illuminatis, os Alumbrados de Espanha, os Illuminés de França, os Aquisitores do Brasil, os descendentes dos Illuminati da Baviera na Alemanha, e agora a “AMORC”, juntavam-se todos numa única causa ao “Skull and Bones”. Também não deveria esquecer a geral adesão da Maçonaria, particularmente a brasileira, com especial destaque para o Grande Oriente do Brasil, a Confederação da Maçonaria Simbólica Brasileira e a Confederação Maçónica do Brasil. Na Austrália, a Ordo Militiae Cruciferae Evangelicae tinha também aderido. Quanto à Maçonaria e Carbonária portuguesa, o “grande pai” disso se encarregaria.” (…), in SOMBRAS DO PODER.
Da Germanenorden  e Sociedade Thule alemã, passando pelos Skinhead Nazistas, S.S.C. (Sociedade Secreta Cristã),por elementos da Opus Dei e do renovado Priorado do Sião até ao Ku Klux Klan (KKK) e Stormfront americanos e Primeiro Comando da Capital (PCC) Brasileiro, tudo é retratado nesta obra de ficção, muito próxima da realidade. O que nos aguarda o futuro?

Do autor português Medina da Silva foi recentemente lançada no Brasil a sua mais recente obra “SOMBRAS DO PODER” que tem vindo a receber excelentes críticas literárias:

“Não é cansativa de ler, apela à curiosidade, envolve o leitor com um estilo muito directo, sem rodeios, que nos faz encadear muito bem a acção. ”

JOÃO PAULO MEDINA DA SILVA nasceu em Portugal, na Figueira da Foz, a 20 de Novembro de 1964. Dos seus 3 aos 10 anos residiu em Moçambique. Presentemente encontra-se a viver de novo na cidade que o viu nascer.”SOMBRAS DO PODER” é o seu quarto livro a ser editado e o primeiro fora de terras Lusas.
Nas suas palavras: Sou isto tudo e muito mais. Mas, acima de tudo sou um Ser que tenta com a escrita e através dela, fugir à “quadratura do momento”.

SOMBRAS DO PODER (sinopse):

A “Congregação” organizada em dois grandes grupos há muito que se vêm a preparar para dominar o mundo a bem de toda a humanidade. Para isso, os “filhos da luz ” ou “pensadores” e a “sagrada irmandade da cruz ” ou “executores” pretendem implementar a “Novus Ordo Seclorum”, justificando as suas acções com as Sagradas Escrituras, profecias de Nostradamus e primeira profecia Maia. Julgam ter descoberto os dois demónios previstos nas Santas Escrituras agora encarnados para destruir o mundo.
Em oposição à “Congregação”, a Mossad, o Vaticano, a NSA e aparentemente também a CIA, tentam descobrir quem na verdade é essa organização mundial, recorrendo aos Sagrados textos Sânscritos, interpretando a profecia de Kali, e ao terceiro segredo de Fátima.
A grande questão mantém-se. No conjunto das profecias, quem será verdadeiramente o Anticristo encarnado, o destruidor de toda a humanidade? Osama Bin Laden, Barack Hussein Obama, ou um outro qualquer ser?

Editado pela Biblioteca24x7
www.biblioteca24x7.com.br na Área de Ficção.

Também disponível no maior site de livros do mundo:
http://www.amazon.com/


28
Dec 09

Rock + Poesia: Álvares de Azevedo ao som de Placebo!

Por Laís Azevedo

Com este post, inauguramos o primeiro vídeo produzido pelo literatura em foco! Trata-se depois poema de Álvares de Azevedo, que você irá ler ao som da banda Placebo. Espero que vocês gostem.

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28
Dec 09

O canto do guerreiro

Gonçalves Dias – Comentários de Laís Azevedo

Os poemas indianistas de Gonçalves Dias, ao meu ver, são incomparáveis a quaisquer outras produções que versam sobre a figura do índio como um herói romântico. Logicamente, tivemos José de Alencar na prosa, porém quando o assunto é poesia indianista, remetemo-nos prontamente a Gonçalves Dias.

Uma das características que mais me chama a atenção nesses versos do aludido poeta romântico é o ritmo. Esse é obtido pelo sábio uso da métrica. Gonçalves Dias geralmente emprega de quatro a seis sílabas em seus versos. Vemos isso claramente no poema a seguir. Leia em voz alta para sentir, de fato, o poema!

O canto do guerreiro

I

Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estime a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros.
— Ouvi meu cantar.

II

Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há, como eu sou?

III

Quem guia nos ares
A flecha implumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada,
Onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meu cantar.

IV

Quem tanto imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como dou?
— Guerreiros, ouvi-me.
— Quem há, como eu sou?

V

Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
— Quem há mais valente,
— Mais destro do que eu?

VI

Se as matas estrujo
Co’ os osons do Boré.
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?

VII

Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar
São eles — guerreiros,
Que faço avançar.

VIII

E ao Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram
Mil homens são lá.

IX

E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré,
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?

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27
Dec 09

Velha anedota

Por Mário Sá Carneiro

Passando pelo Chiado
Uma senhora horrorosa
Um estudante delicado
Disse-lhe: “É uma rosa

Freca, pura, inebriante
Mui viçosa e perfumada;
Vossa Excelência é estonteante!”
Ela toda espevitada

Respondeu ao galanteador;
“O mesmo não lhe dizer
Penaliza-me, senhor;
Mas não posso. Que fazer?”

O nosso herói, o estudante,
Que pra respostas se pinta,
Retorquiu no mesmo instante:
“Oh! minha senhora minta

Como a Vossa Excelência eu fiz
“Inda não há bocadinho!…”
Ela ouvir-lhe mais não quis
E seguiu seu caminho

1905


24
Dec 09

Inércia – Resenha

inerciaPor Milena Pereira Silva, bolsista CNPq – UESB

A temática conflituosa que envolve a travessia da adolescência para a idade adulta é recorrente na literatura. O que não é recorrente é o fato deste tema geralmente não ser abordado do ponto de vista masculino. E este é o diferencial do romance Inércia, do jovem escritor mineiro Marcos Vinícius Almeida. Através do olhar do narrador-personagem Juan, jovem estudante de filosofia de vinte e poucos anos, somos convidados a re-vivenciar experiências de uma adolescência nostálgica, que provoca, seduz, convida e, paralelamente, desafia a um embate, um conflito. Juan recorre insistentemente ao passado, como forma de escapar à engrenagem circular que o prende à carroceis vivenciais subterrâneos. Cada ato, gesto, pensamento parece contido numa trama que ultrapassa o indivíduo singular. Dessa forma, implicitamente, o romance realiza um flerte sutil diante da antinomia determinismo x liberdade, aqui encarnado, em sua totalidade na vida medíocre desse sujeito comum, provinciano, pequeno burguês. Acorrentado em amarras surdas: o presente imóvel, o passado sedutor e um futuro sem perspectiva, o jovem encontra refúgio na perfeição de uma paixão idealizada, na projeção de uma figura ideal e abstrata que não pode realizar-se no cotidiano prático.

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24
Dec 09

“La Ventre de Paris”, Émile Zola

Por Laís Azevedo

Este romance, o terceiro da série que compõe a famosa trajetória da família Rougon-Macquart, é um grande exemplo do que Émile Zola faz de melhor. Através  duma minuciosa descrição de espaços e personagens, o escritor francês cria um cenário baseado em fatos históricos povoado por personas de características realistas, que nos deixam com a sensação que somos vizinhos daqueles que transitam pela obra. Nesse caso a vizinhança é Les Halles, o gigantesco mercado de Paris, e o elenco é composto por peixeiros, açougueiros, padeiros, vendedores de legumes e garotos de rua.

As duas personagens principais são Lisa Quenu (filha de Antoine Macquart) e seu cunhado Florent. Esse último, um republicano com problemas com a lei, parece ser uma corporificação dos sentimentos positivos e negativos de Zola no que toca ao movimento revolucionário de seu tempo.

Lisa, que comanda um açougue com seu marido, representa o cidadão francês moderado, cujos interesses estavam voltados em direção aos confortos e desafios do cotidiano em detrimento do que estava acontecendo no cenário político da França. Florent, por seu turno, tem como característica basilar a visão utópica duma França socialista; esse elemento é totalmente oposto a idéia de Lisa, que prefere manter a aparência duma relativa prosperidade no intuito de ganhar status social entre a vizinhança.

Poder-se-ia dizer que e um bom livro, logicamente não se iguala a “L’Assomoir” e “Germinal”, todavia, vale uma leitura. Aliás, toda a obra de Émile Zola é obrigatória para qualquer amante das belas-letras.


24
Dec 09

Quem me dera meu amor, Essa boca pequenina

Por Mário Sá Carneiro

MOTE

Quem me dera meu amor
Essa boca pequenina

GLOSA

Quem me dera, meu amor,
Contigo deixar a vida,
Que é tanta esperança perdida,
Que é tanta miséria e dor!
Deixar o mundo malvado
E repousar ao teu lado
— Oh! minha amante divina! —
Na mesma cova esquecida,
Tendo à minha boca unida
Essa boca pequenina!…


23
Dec 09

“Amor em segunda mão”, de Patrícia Reis

Por Laís Azevedo

Lobo Antunes, Saramago e Gonçalo Tavares podem ser considerados os principais escritores contemporâneos portugueses. Todavia, ater-se somente a esses não é uma boa, principalmente para aqueles que gostam de literatura contemporânea. É por isso que apresento aqui a obra “Amor em segunda mão”, da portuguesa Patrícia Reis.

A escritora de 39 anos, que vive em Lisboa, é autora também duma novela intitulada “Cruz das almas” e doutros trabalhos que não estão calcados somente na literatura.

Falemos, então, de “Amor em segunda mão”.

Polifônico, é essa uma das características principais da obra de Reis. São mais de dez personagens que a cada capítulo contam os acontecimentos do enredo. Logicamente, a vida deles estão interligadas. Sendo assim, temos a história de Júlia que é casada com Miguel, porém sente-se infeliz no casamento. Bia, por seu turno, filha do casal tenta entender a vida dos pais, o porquê da tristeza da mãe. Outras personagens, colegas ou não, do casal, também contam suas histórias.

Outro fator interessante é o uso do tempo, esse foi utilizado com maestria pela romancista. Conhecemos as personagens no tempo presente dos acontecimentos, depois retornamos à vida delas depois de seis meses; por fim, entramos numa máquina do tempo e vemos as personas dois anos antes de tudo ocorrer. Nessa parte, os narradores em primeira pessoa são deixados de lado, temos, pois, um narrador em terceira pessoa que amarra toda a história.

“Amor em segunda mão” trata de conflitos comuns aos seres humanos. Deste modo, o romance apresenta Indivíduos que vivenciam situações como: adultérios, separações, o enfrentamento de doenças graves, dúvidas acerca da opção sexual et cetera.

Há também uma indagação de todas as personagens que, tal como na música “Cajuína” de Caetano Veloso, indaga-se: “Existirmos a que será que se destina?”