
João Carlos Dias FURTADO (Mestrando – UEM)
Prof. Dra. Rosa Maria Graciotto SILVA (Orientadora)
1. INTRODUÇÃO
O mundo da literatura infantil é mágico, pois as palavras têm o poder de nos envolver e transportar para um lugar que não é só imaginário, mas também é real, porque se pode viver, imaginar, sentir, aprender, sonhar um momento ímpar.
Porém, nem sempre a literatura infantil foi encarada dessa forma. Quando ela surgiu junto à escola, a ideologia que ambas possuíam era didática e propunha uma manipulação das idéias, sentimentos e ações infantis.
Esse pensamento baseava-se na concepção de infância que estava em voga no final do século XVII e durante o século XVIII, época em que os escritores/professores escreveram os primeiros textos para crianças e eles possuíam um forte intuito educativo.
Em meio a Idade Média surgia um novo conceito de família, que consistia na idéia de família nuclear moderna, a qual valorizava o aspecto doméstico, o casamento, a educação de herdeiros, a privacidade. Ele construiu uma identidade através da intimidade, surgindo uma atenção especial à infância. Então, o modelo de família começa a ser voltado também a criança.
Assim apresentando uma concepção da criança que refletia os sonhos dos adultos, isto é, tudo o que era desejado e sonhado era projetado nas crianças. Estes sonhos refletiam na idéia de conservação da pureza das crianças durante a infância, estágio tão belo da vida, em que, não há preocupação com o sustendo da família e outras atribuições da vida adulta.
Nesse sentido, é possível compreender a concepção de literatura na escola. A escola teve o papel de introduzir a criança na vida adulta, reunindo-as em grupos com características semelhantes. Ela também teve de protegê-la das maldades do mundo, tendo o professor como uma autoridade. Essa educação normativa manifestava os ideais burgueses, ou seja, colocava as regras ditadas por aqueles que tinham o poder. Essa burguesia, que estava em ascensão nos séculos XVIII e XIX, estava também diretamente ligada à expansão e ao aperfeiçoamento do ensino escolar e também ao surgimento de uma pedagogia controladora.
Segundo Zilberman (1985), os textos produzidos para a escola se revelam como “um manual de instruções, tomando o lugar da emissão adulta, mas não ocultando o sentido pedagógico”.
Mas o caráter dado à literatura infantil, atualmente mudou. Hoje falamos de uma literatura infantil com suas especificidades que estão dirigidas a formação de um indivíduo. Nos dias atuais existe uma articulação entre escola e literatura, propondo transformações, revendo valores e padrões existentes em nossa sociedade, conseguindo, através de uma literatura de qualidade, formar leitores infanto-juvenis mais críticos e com opiniões próprias.
2. REVISÃO DA TEORIA
A poesia propõe para a criança uma oportunidade de trabalhar com as palavras, com ritmos, sons e se divertir com esse jogo literário. A palavra de um poema pode servir de motivação para a criança desenvolver o lúdico, pois o significado é trabalhado depois no universo infantil que ainda está em fase de alfabetização. A valorização do lúdico através da linguagem, segundo Zilberman (2005), é favorecida pela própria estrutura da língua que permite a utilização de recursos sonoros como a aliteração e a assonância, que contribuem para reforçar a mensagem poética através do som, causando efeitos sonoros agradáveis e atraentes ao leitor infantil.
Esse contato com a literatura deve-se antes ao universo de histórias contadas, encenadas e, posteriormente, lidas. O jogo que as palavras ocasionam em um poema cria um vínculo afetivo que se traduz em uma brincadeira de ouvir, repetir e significá-las. Isso acontece devido à linguagem poética não ser referencial, pois ela possibilita diversas interpretações, criando fantasia, modificando significados etc.
O texto poético dá livre acesso à fantasia e ao mundo maravilhoso que está presente no cotidiano da criança:
“Isso acontece pela alta carga de conotação do texto, toda leitura de poesia é um ato de recriação. Ler o poema é, necessariamente, buscar um (dos) sentido (s). Este exercício realizado em cada leitura, comporta a possibilidade de participação no texto do outro, pelo duplo jogo do receber e do refazer o texto, forma de ampliação de um universo”.(AVERBUCK, 1982, P. 68).
O despertar para uma sensibilidade e criatividade também são estimulados dentro do universo das palavras que fazem as crianças serem capazes de inferir, associar, imaginar significados de vocábulos, de situações e imagens. As sensações evocadas pela poesia são importantes para o despertar da sensibilidade infantil, pois podem mobilizar muitos dos seus sentidos.
O ritmo de uma poesia é um elemento importantíssimo no desenvolvimento infantil por promover atividades corporais, entendimento de estruturas de acentuação, controle da respiração, aprimoramento lingüístico e outras atividades que contribuem para um aprendizado corporal e mental do indivíduo. O ritmo pode ser dado pelos olhos, que vão seguindo as linhas, pela voz, ao falar, ou pelo corpo, que se movimenta seguindo a cadência dos versos. Uma brincadeira que é trabalhada na poesia dentro do ritmo são os trava-línguas que produzem uma sonoridade com consoantes oclusivas deixando o poema cheio de pontos nos quais há dificuldades de se pronunciar as palavras.
As rimas são recursos que se relacionam à música. Construindo junto ao ritmo uma sonoridade, uma melodia que pode incentivar a leitura de poesia por associar sons e ritmos a canções já conhecidas, a palavras conhecidas a momentos prazerosos.
O sonho é um aspecto fundamental da poesia infantil, pois existe uma identificação da criança com o texto ao ver seus anseios expressos dentro do poema, reforçando o jogo lúdico dentro do universo da criança, assim destacando principalmente as emoções e os sentimentos que a criança já viveu ou deseja viver. A emoção presente no texto poético desperta-lhe sensações e a faz refletir sobre sonhos adormecidos.
Zilberman (2005), afirma que a presença de personagens infantis na poesia é um fator relevante e cumpre o papel destinado ao texto literário a que Candido (1972) chama de função humanizadora da literatura, pois, ao se ver retratada, a criança passa a compreender e analisar situações de sua vivência, e o texto literário apontam-lhe novas maneiras de perceber e resolver seus dilemas.
Também compõem a poética infantil temas abstratos e de teor filosófico, como a morte, a transitoriedade das coisas e do tempo, o questionamento da identidade e valores.
Segundo Bordini (1986), a criança percebe, de sua maneira, que o seu modo de pensar também se relaciona com o mundo da poesia. Por isso, não existem temas filosóficos, de morte, da efemeridade do tempo, de questionamentos que devem ser deixados de lado para essa faixa etária. É nesse sentido que a Literatura Infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta. O maniqueísmo que divide as personagens em boas e más, belas ou feias, poderosas ou fracas, etc. facilita à criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social. Tal dicotomia, se transmitida através de uma linguagem simbólica, e durante a infância, não será prejudicial à formação de sua consciência ética. O que as crianças encontram nos contos de fadas são, na verdade, categorias de valor que são perenes.
Assim notamos que a área do maravilhoso, da fábula, dos mitos e das lendas tem linguagem metafórica que se comunica facilmente com o pensamento mágico, natural das crianças. E as formas populares como as quadrinhas, cantigas de roda são, também, um fenômeno literário que traz o mundo infantil com uma linguagem simples para dentro do universo poético, sendo assim, uma maneira de iniciar a criança ao universo literário.
3. ANÁLISE DO LIVRO
3.1 ENREDO
O livro conta à história do encontro de um barqueiro chamado João com um índio chamado Toró no meio do rio amazonas. O encontro se dá porque a canoa do índio afunda e logo que ele se joga no rio aparece uma enorme embarcação, de João, que lhe estende uma corda para subir no barco.
No primeiro contato Toró conta à história de como havia chegado ali. Narra em versos a aventura de seu povo desde o primeiro encontro com o povo branco há 500 anos atrás e todos os conflitos que vieram dos interesses divergentes do povo indígena e do povo branco. Pelas guerras entre os povos que Toró foi obrigado a deixar sua aldeia e viver sozinho com medo na floresta, certo dia fugindo de jacarés pelo rio ele tem um probleminha com sua canoa, mas é resgatado por João.
Logo após Toró, João começa a narrar em versos a sua história de vida. Diz que nasceu em uma vila pequena na beira do rio amazonas e que seu sonho era se tornar um barqueiro, pois o uso de barcos era comum, ia de barca a escola, a cidade a outras vilas etc. Quando decidiu ir embora de casa buscar sua vida, ele se torna mecânico de um grande barco que viajava toda a região, depois de muito tempo vira auxiliar do convés e quando o dono do barco morre ele assume o controle total dessa embarcação. Como comandante ele relata algumas histórias interessantes que retratam a cultura da região até o momento em que ele e a tripulação precisavam descansar depois te tanto tempo trabalhando. Ao deixar toda tripulação em terra e sair de barco para ir para a sua casa descansar na primeira curva do rio dá de cara com um índio no rio.
Nesse momento da conversa, os dois percebem que algo está errado com o grande barco, ele está afundando. A situação fica desesperadora, mas Toró invoca Tupã para ajudá-los e no mesmo instante aparecem 18 canoas de índios da tribo de Toró que salvam os dois do problema.
3.2 PERSONAGENS
No livro aparecem nominalmente dois personagens que são: Toró, o índio; e João, o barqueiro. São citados os índios da aldeia, o povo branco que invade a terra dos índios, dá parte de João são citados os pais dele, o comandante do barco e a tripulação que compõem o cenário da história.
Os dois personagens centrais têm uma história de vida humilde e de vivência de muitas dificuldades que são superadas de alguma forma. Um traço interessante é que os dois simbolizam os povos da região amazônica, o nativo indígena e o nativo branco que colonizou e ficou por lá.
Toró aparenta ser um jovem que diz ter já se tornado um adulto por saber caçar: “Eu tomei jeito de adulto/ quando aprendi a caçar”; mas que apresenta traços de um adolescente indo pra juventude: “Meus pais tinham morrido/ na guerra, ao anoitecer/ Eu chorava, sem parar/ e também queria morrer”. Ele apresenta uma personalidade forte de quem não parou de lutar por sua vida apesar das dificuldades encontradas: “Navegava e navegava/ sem nunca poder parar/ A ameaça era constante/ vinha de qualquer lugar./ Ao ouvir tiros ou vozes/ tratava de me cuidar”.
João demonstra ser um adulto maduro que quando criança tinha um sonho: “Eu ficava imaginando/ sonha em ser barqueiro”. Lutou muito para realizar o seu sonho e nunca desistiu dele: “Como rato de porão/ enfrentei muita marola”; “Chegou a hora, meu filho,/ de estimado contento./ Aprecio o seu trabalho/ tem meu reconhecimento”. Ele se apresenta como um personagem de boa coração ao ajudar o índio e sem preconceitos por não fazer juízo de valor ao ver um índio precisando de ajuda, indicando que ele seguiu os conselhos de seu pai: “Siga sua vida direito/ seja sempre respeitado/ e evite o preconceito”.
3.3 CENÁRIO E ILUSTRAÇÃO
A história acontece na região amazônica, principalmente no rio amazonas. Por isso o cenário que é apresentado são florestas: “No coração da floresta/ cercado de denso mato”; rios: “Pela forte correnteza/ a canoa era levada/ e a força do Amazonas/ das margens a afastava”, “Tapajós e Amazonas/ nessas águas não me molho”; cidades: “Um dia estava em Belém/ no Mercado Ver-o-Peso”, “Levamos para Marajó/ que é bem ali ao lado”, “O destino: Parintins/ a viagem demorada”, “Já perto de Santarém”; vilas na beira dos rios: “Banhava meu povoado/ que só tinha oito casas/ uma capela, uma venda/ os bichos e a molecada”; aldeias: “Ser criança numa aldeia/ é fazer o que se quer”; animais selvagens e plantações: “Floresta não mais havia/ só soja tinham plantado”.
A ilustração do livro é feitas pelo próprio autor. O livro apresenta basicamente quatro cores: verde, preto, alaranjado e branco. São cores fortes que vão povoando de forma chamativa toda a história narrada, são desenhos simples que abusa de traços grossos e mistura de cores, sombras e exageros e uma angulação diferente dos desenhos, pois sempre temos a impressão de estarmos olhando do lado errado a ilustração. Fernando Vilela continua a fórmula que foi premiada em seu livro anterior Lampião e Lancelot.
3.4 LINGUAGEM LITERÁRIA
O livro cria uma situação interessante pelo narrador que conta à história, pois logo no começo ele se utiliza da metalinguagem para interagir com o leitor: “Leitores, peço desculpas/ e também vossa atenção”, e ele a história em terceira pessoa, narrando os fatos dos personagens Toró e João, mas o que gera uma certe estranheza é que nesse livro ele propõe, imagino que de forma intencional, uma confusão entre escritor, Fernando Vilela, e narrador pois este também se chama Fernando e só descobrimos isso ao final do texto quando é revelado uma carta de João, apelidado de Papa Vento, que se dirige a Fernando narrador: “Prezado amigo Fernando/ aqui passo muito bem/”.
Essa mistura traz uma sensação do narrador ser a mesma pessoa que o escritor, até porque na parte final do livro o próprio escritor Fernando Vilela narra algumas de suas experiências pessoais na floresta amazônica, então há claramente uma tentativa de confundir ou eliminar essa dicotomia autor/narrador. O que para o universo infanto-juvenil é mais conveniente por sempre trazer confusão o diferenciação do que é o narrador e do que é o autor do livro.
Outro ponto interessante do livro é a utilização predominantemente de sextilhas com rimas nos 2º, 4º e 6º verso e no 1º, 3º e 5º as rimas são variadas, essa é quase uma constante no livro todo com pequenas alterações. Ele usa uma linguagem simples e acessível a um público jovem e adolescente que se aproxima muito da linguagem da oralidade, com muito ritmo e sonoridade, usando redondilha maior na maioria dos versos, próprios de cantigas populares.
É bom notarmos que essa estrutura rítmica e sonora se aproxima muita da literatura de cordel que é bem difundida na região norte e nordeste do país, onde a história se passa. E que esse jogo do cordel, com sextilhas de redondilha maior com uma linguagem próxima da oralidade já foi utilizada por esse mesmo autor em seu livro premiado pela Câmara Brasileira de Letras “Lampião e Lancelot”. Isso evidencia que ele procura reutilizar a mesma fórmula já consagrada em outro livro seu um ano depois, com alterações substanciais do tema, do cenário e da fusão de narrador e escritor.
3.5 UNIVERSO INFANTO-JUVENIL
O universo da criança e do adolescente é bem representado nesse livro, pois mostra a diversidade cultural, um índio e um branco, seus ambientes de vida e familiares e o crescimento desses personagens, eles não são eternamente crianças no livro.
O mundo contemporâneo apresenta uma globalização e uma troca intensa entre as culturas que já não tem mais fronteiras, isso tudo é acompanhado pelas crianças e jovens de hoje em dia, o que fica bem retratado nesse livro. Primeiro mostra o encontro traumático do índio com o branco, a seguir mostra o difícil encontro do menino branco com a vida adulta e por fim o encontro amigável e pacifico do índio com o barqueiro.
Outro fator considerável é a apresentação das famílias, tanto do índio como do barqueiro, como algo confortável, mas que a qualquer hora pode sofrer duras alterações. Um perfil muito parecido com a realidade de hoje, que não tem somente um modelo familiar estável, mas sim uma diversidade imensa. Mas mesmo com as adversidades os personagens não desistem de suas vidas e objetivos.
E o desenvolvimento dos personagens também é muito interessante, por apresentarem personagens crianças, para haver a identificação do público, mas também mostrar esses personagens crescidos para atrair o público e também colocar esse desenvolvimento que é natural na vida de qualquer ser humano, propondo reflexões e idéias sobre algumas questões: como é crescer? É fácil virar adulto? Devo desistir dos sonhos ou da minha vida? Será que sou capaz de vencer na vida? Entre muitos outros.
4. CONCLUSÃO
O livro analisado apresenta uma adequação temática, lingüística e ilustrativa muito bem feita para o público infanto-juvenil. Demonstrando um trabalho realmente voltado as concepções literárias de boa qualidade. Explorando ritmos, sons, rimas, o lúdico, uma linguagem apropriada que auxilia na construção do universo da criança e do adolescente de forma física e mental.
Com isso, o autor, Fernando Vilela, propõe através da ficção criar uma história que contemple um ambiente atual e interessante, tratando sobre diversidade cultural, preconceito, histórias de vida, família, preservação da floresta etc, para uma situação vivenciada na atualidade. Conseguindo fazer com que a obra possibilite outras e maiores reflexões que podem ser retiradas do livro.
A única observação que deve ser feita é a repetição da fórmula, por ele criada, já utilizada no livro anterior que obteve sucesso, talvez pensando em uma tentativa de conseguir novamente o prêmio Jabuti, oferecido pela Câmara Brasileira de Letras.
O livro apresenta uma qualidade literária e ilustrativa que proporciona ao leitor uma prática prazerosa e produtiva.
5. BIOGRAFIA RESUMIDA DO AUTOR
Nasceu em São Paulo. É artista plástico, designer, educador, além de escrever e ilustrar livros. Por sua primeira obra para crianças, Ivan Filho-de-Boi (Cosac Naify, 2004), escrito por Marina Tenório, ganhou o prêmio Revelação Ilustrador 2004, da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Em 2005, participou da Bienal Internacional de Ilustração de Bratslava, na Eslováquia. Como artista plástico, já realizou diversas exposições no Brasil e no exterior.
5. BIBLIOGRAFIA
AVERBUCK, Lígia Morrone. A poesia e a escola. São Paulo: Ed. Ática, 1982.
BORDINI, Maria da Glória. Poesia Infantil. São Paulo: Ed. Ática, 1986.
VILELA, Fernando. O barqueiro e o canoeiro. São Paulo: Scipione, 2008.
ZILBERMAN, Regina. A Literatura Infantil na Escola. São Paulo: Global, 1985.
ZILBERMAN, Regina. E para a poesia não vai nada?. São Paulo: Ed. Ática, 2005.