January, 2010


31
Jan 10

O caminho para a redenção

Por Jeferson Jacques

“No one knows what is like to feel this feelings

Like I do, and I blame you

No one bites as a hard on their anger

None of my pain or woe can show through”

(Pete Townshend)

O frio insuportável da noite retrasada, as luzes dos postes apagadas, a lua cheia e o canto lírico e depressivo dos cachorros da vizinhança (e de muitos outros) foram o pano de fundo para o primeiro grito.

- Dona Ângela!!!

Nenhuma resposta. O vento congelante e a pressa fizeram aquela voz rouca gritar novamente.

- Dona Ângela!!!

Ela acordou e chamou seu marido. Ele lhe disse para virar e voltar a dormir, mas ela conhecia aquela voz há muito tempo, bem antes de ser rouca e desgastada (ela e a voz). Talvez uns catorze anos, quando o rapaz tinha dezesseis, e ela quarenta e seis. Ele costumava cortar a grama, varrer o pátio e lavar o carro em troca de algum dinheiro para comprar leite para seus irmãos menores ou, sem que o casal soubesse, algumas coisas ilícitas. Não havia pessoa alguma que lhe depositasse confiança. Todos o temiam sem o conhecer, mas conheciam de longe todos com os quais ele andava. Eram perigosos. Mas a Dona Ângela e o Sr. Alceu sabiam como tinha sido a infância do rapaz. Às vezes, os dois lhe davam de comer, às vezes lhe davam apenas os ouvidos quando ele precisava muito falar e chorar, às vezes lhe davam as duas coisas. Nem sempre o casal percebia, porém, de alguma forma, o garoto sempre saia saciado daquela casa. O inverno de sua infância fora mais rigoroso do que o que se faz agora. Os -2 graus e o vento gelado daquela noite contra o velho moletom surrado eram nada se comparados às pauladas na cabeça, os gritos e a falta de comida que ele conhecia bem demais. Essa noite chamada infância e adolescência foi mais longa do que a de anteontem, quando ele estava à frente da minha ex-casa chamando pela minha até então mãe.

Ela recém tinha aquecido seus pés e mãos com a bolsa de água quente, e suas fortes dores na coluna não haviam passado. Mas ela insistiu em levantar-se, colocar um casaquinho fino por cima do pijama e ver o que aquele desgraçado queria àquela hora da noite, depois de tanto tempo sem ir visitá-la. Abriu uma fresta na janela e viu-o olhando para os lados, apavorado, batendo o queixo de frio. Conhecendo Dona Ângela, imagino como tenha sido a conversa:

- Jonas?! O que tu ta fazendo nesse frio, guri?

- Dona Ângela, pode vir aqui um pouco? Preciso falar com a senhora!

- O que tu quer?

- Vem aqui, é rápido, preciso falar com a senhora!

Ela abriu a porta e foi até o portão.

- Dona Ângela, preciso de cinco pila, pelo amor de Deus!

- Jonas… Olha pra mim.

- Não, não é pra isso, eu juro! Minha mulher está mal no hospital, e eu preciso comprar algo pro meu gurizinho comer!

- Jonas, eu não tenho dinheiro em casa…

Antes que ela continuasse, a ansiedade do rapaz aumentou, e sua voz apresentou algo de desespero e leve tendência à violência.

- Tem sim! Eu sei que tem! Eu preciso! Dê-me o que tiver, por favor!

Ele já estava ajoelhado, olhos arregalados e brilhantes e segurava-se firmemente nas grades do portão. Dona Ângela nunca o vira daquela forma. Ele estava com os cabelos bagunçados, um rosto com muitas rugas, dentes bem amarelos, barba por fazer, e um cheiro forte que ela não sentia nele desde a primeira vez que o vira na vida, jovem e dormindo atirado na calçada. Na época disso, eu estava decidindo se saia ou não de casa para dividir um apartamento com meus amigos mais velhos. Naquele ano, meus ideais de liberdade não coincidiam com a vontade de Dona Ângela e Sr. Alceu de me dar oportunidades. O clima entre eu e eles não estava dos melhores. Eu não cheguei a ver o garoto muitas vezes lá em casa durante esse período no qual ele roubava da vizinhança e meu pai tentava convencê-lo a não fazer mais isso.

Há duas noites atrás, nessa visita noturna inesperada, ele fez seu último roubo, talvez o mais valioso de todos. Não pôde correr carregando-o embaixo do braço, pois não se tratava de um objeto alheio de valor. Era alheio e de valor, mas não um objeto. Foi um roubo que não lhe trouxe lucro algum, mas um prejuízo sem tamanho.

E aqui estou eu. Escrevendo e confidenciando pra ninguém. Fiz o que deveria ter feito quando descobri o que tinha acontecido com o anjo Dona Ângela há duas noites, quando ela, da forma preocupada de sempre, atendia ao outro filho pródigo que voltara ao lar e, cujas alterações comportamentais momentâneas não permitiram ter compreensão alguma perante a resposta negativa para o pedido de dinheiro àquela hora da noite. Foi rápido e indolor, como o fora para ele, espero. No momento pensei que por cometer tal ato de vingança eu estaria me redimindo pelos anos de ausência e indiferença com os meus pais. Estou aqui, escondido, apavorado a olhar para os lados, em plena luz do dia.  Apesar te tantos agasalhos bons a me aquecer, sinto um frio imenso, tremo muito e não tenho a quem clamar por ajuda. Nem o canto lírico e depressivo dos cachorros me faz companhia.

Mini-bio:

Jeferson Jacques é um escrevedor indisciplinado formado à base de literatura, rock e bossa nova. Meio que desenha, arranha o violão, é colorado, joga futebol (como comentarista), eletrotécnico formado (porém, já deformado), trabalha com colorimetria, está no sétimo semestre do curso de Letras na PUCRS e anda com uma caneta e um bloquinho. Publica seus contos e crônicas quase que regularmente no espaço http://domontag.blogspot.com


31
Jan 10

“O Cabeleira” – Romance de Franklin Távora em quadrinhos

Por Laís Azevedo

Sempre gostei de ver romances, contos ou poemas adaptados para outra linguagem. No Brasil, a adaptação de clássicos da literatura, principalmente a do século XIX, já havia ocorrido em décadas passadas. Neste decênio, a ideia foi retomada, sendo assim, temos, hoje, um alguns títulos dos romances oitocentistas em HQ. Um deles é O Cabeleira, que foi inspirado no romance homônimo de Franklin Távora.

Távora, escritor nascido no Rio de Janeiro, mudou-se ainda criança para Pernambuco. Ele integra a geração de autores românticos brasileiros. Contista, dramaturgo e romancista, o autor de O Cabeleira ficou famoso também pela contenda que teve com José de Alencar. Távora, em uma de suas críticas, dizia que a literatura produzida no sul do Brasil divergia-se daquela elaborada no Norte. O ataque era direcionado ao autor de Iracema. Basta lembrar que Alencar escreveu romances que procuravam abarcar todas as regiões do Brasil. Franklin Távora acusava-o de não conhecer tais regiões para situar suas obras.

Deixando de lados as brigas entre os dois autores, falemos do romance O Cabeleira. Esse traz a história de dum bandido que apavorava a região de Pernambuco durante século XVIII. José Gomes, o Cabeleira, de fato, existiu, e o enredo do romance de Távora foi inspirada na história desse criminoso. Poder-se-ia dizer que Cabeleira foi o Lampião do setecentos. Seus feitos eram cantados em versos por toda a região. O romancista, inclusive, utilizou esses poemas como base na feitura de sua obra.

Mas falemos, agora, especificamente da HQ, que foi elaborada por três pessoas: Allan Alex, Leandro Assis e Hiroshi Maeda. O primeiro ficou responsável pela arte, Assis e Maeda escreveram o roteiro. Antes de tornar-se um quadrinho,  o trabalho foi redigido, inicialmente, como um roteiro de cinema. A dupla de autores elaborou-o com o intuito de  participar do 8° Laboratório de Roteiros de Cinema do Sesc. O roteiro foi aprovado, os escritores receberam boas críticas para melhorar alguns pontos. Nesse tempo, Porém, eles receberam uma proposta da editora Desiderata para a adaptação dos escritos para o formato de HQ.

O Cabeleira foi uma boa supresa para mim. A arte de Allan Alex, realizada em preto e branco, é bastante competente. Deu para sentir que houve uma boa comunicação entre o trio de autores. Os desenhos coadunam bem com o roteiro que contém os bons momentos da obra de Távora.

Com diálogos interessantes, O Cabeleira, em quadrinhos, é uma boa opção para os que querem conhecer um pouco do romance de Franklin Távora e para os que desejam saber mais sobre a história de José Gomes e seu bando.

Abaixo você confere um poema do século XVIII que inspiraram tanto a criação do quadrinho, bem como a criação do romance.

Fecha a porta, gente
Cabeleira aí vem
Matando mulheres
Meninos também

Fecha pora, gente
Cabeleira aí vem
Fum todos dele
Que alma não tem

Corra, minha gente
Cabeleira aí vem
Ele não vem só
Vem seu pai também

***

Eu matei um,
Meu pai não gostou;
Eu matei dois
Meu pai me ajudou

Lá na minha terra
Lá em Santo Antão
Encontrei um homem
Feito um guaribão
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.


25
Jan 10

Lenine, “Magra”

Por Laís Azevedo

Excelente música, excelente letra e excelente clipe. Não poderia deixar de postar aqui essa música de Lenine. Amanhã, caros leitores, vocês irão conferir uma análise da letra de “Magra”. Enquanto isso, vale a pena curtir o clipe.


21
Jan 10

Pensamentos soltos numa madrugada fria

blue_star_sky1Por Flávio Gustavo

Eu queria acreditar naquele monte merda que os pastores, padres, espiritas falam na televisão. Eu pedia apenas para ganhar dinheiro, coisa simples: dinheiro. Levei cabeça, pé, mão e até mesmo um cu de cera em Aparecida do Norte. Não, ninguém da minha família tinha câncer, AIDS, hemorróidas, nada disso;  o motivo? Simples, ganhar dinheiro.
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21
Jan 10

Um cravo!

one_night

Por Letícia Nogueira

Olha, vou ser directo. A primeira pessoa que eu odiei no mundo foi Deus, depois minha mãe. Me pai, bom, não sei, nunca o vi, dizem que era dado a soltar a rabiosa. Deve ser mentira, não sei. Não vem ao caso.

[Quarto: paredes verdes, foto de Jesus Cristo loirão com os olhos azuis, chinelas de couro, um puta maconheiro, um puta hippie maconheiro.]

Acendo um cigarro. Faz mal, não é? Pois é, trabalhar também faz mal, deixa-te careca, brocha e com o cu alargado.

Pego o pote de banha, passo no cano do 38. O pote banha? É pra quando um folgado vier, sempre tem um folgado. Bom, é para quando ele vier, a banha desliza, gordura pura! Se ele tentar por a mão no revólver, vai escorregar, entendeu?

Deixa eu te contar. Quando eu era moleque, minha mãe me levava para uns retiros. Eu ficava lá, com um bando de crente levanto a mão pro alto. Num dia lá, eu disse que vi o pastor soltando a rabiosa pro Pereira. O boato cresceu feito um câncer no cu de velho, o pastor suicidou-se. Eu nem sabia se era verdade, devia ser, se ele suicidou-se. Foi meu primeiro assassínio.

Olha, você tem que matar por prazer, sabe? Num da para matar porque alguém te pagou. É meio que isso.

Eu fiz uma lista de pessoas que se morressem não iriam fazer nenhuma falta para o mundo. O foda é que eu teria que matar quase 100% do mundo; aí, num teve jeito, tive que maneirar. Pois bem, eu pensei assim: deve morrer os velhos, em primeiro lugar. Por quê? Explico, os velhos não fazem porra nenhuma, sugam do Estado, reclamam, fedem a mijo e são pelancudos. Outra coisa, os velhos não conseguem foder, e quando conseguem sofrem um derrame; o resultado é: velhos mais fedorentos e mijões no mundo.

[Cozinha: um fogão, macarrão instantâneo, imagem de Jesus loirão abrindo o coração. No coração do Jesus blondie, tem um uma porra de velas, também uns espinhos]

[Senta-se à mesa]

Ainda não pensei nos outros da lista. Mas num tem problema.

[Ônibus. Um cara com uma camisa, nela estampada a foto de um Jesus loiro subindo ao céu]

Anuncio o assalto: “Assalto, motorista! Assalto! Toca para fora da cidade!”

Olho para o ônibus. Não tem nenhum velho. Já que não tem, imagino que tudo mundo está velho, e não é que está mesmo? No primeiro banco, por exemplo, tem uma mulher decompondo-se, é a velhice. Chego perto dela, ela oferece os pertences.

O cara com a camisa do Jesus alemão, vem na minha direcção. “Segura a bala, Jesus”. Ele cai, Jesus não segurou porra nenhuma.

Executo todos os passageiros. Eram poucos, uns quatro. A gente tem começar debaixo, sabe? O cobrador?, bom ele eu deixo vivo, falo pra ele tomar uma cerveja com a grana do pessoal. E digo assim: “muda de emprego cara, você está ficando careca, um passo a mais e seu pau num sobe mais.”

[Quarto:  A foto do Jesus oxigenado, em baixo dela: uma jarra com água onde jaz um cravo]

Olha, vou ser directo. A primeira pessoa que eu odiei no mundo foi Deus, depois minha mãe. Me pai, bom, não sei, nunca o vi, dizem que era dado a soltar a rabiosa. Deve ser mentira, não sei. Não vem ao caso.

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21
Jan 10

Análise do livro “O barqueiro e o canoeiro”, de Fernando Vilela

João Carlos Dias FURTADO (Mestrando – UEM)

Prof. Dra. Rosa Maria Graciotto SILVA (Orientadora)

1. INTRODUÇÃO

O mundo da literatura infantil é mágico, pois as palavras têm o poder de nos envolver e transportar para um lugar que não é só imaginário, mas também é real, porque se pode viver, imaginar, sentir, aprender, sonhar um momento ímpar.

Porém, nem sempre a literatura infantil foi encarada dessa forma. Quando ela surgiu junto à escola, a ideologia que ambas possuíam era didática e propunha uma manipulação das idéias, sentimentos e ações infantis.

Esse pensamento baseava-se na concepção de infância que estava em voga no final do século XVII e durante o século XVIII, época em que os escritores/professores escreveram os primeiros textos para crianças e eles possuíam um forte intuito educativo.

Em meio a Idade Média surgia um novo conceito de família, que consistia na idéia de família nuclear moderna, a qual valorizava o aspecto doméstico, o casamento, a educação de herdeiros, a privacidade. Ele construiu uma identidade através da intimidade, surgindo uma atenção especial à infância. Então, o modelo de família começa a ser voltado também a criança.

Assim apresentando uma concepção da criança que refletia os sonhos dos adultos, isto é, tudo o que era desejado e sonhado era projetado nas crianças. Estes sonhos refletiam na idéia de conservação da pureza das crianças durante a infância, estágio tão belo da vida, em que, não há preocupação com o sustendo da família e outras atribuições da vida adulta.

Nesse sentido, é possível compreender a concepção de literatura na escola. A escola teve o papel de introduzir a criança na vida adulta, reunindo-as em grupos com características semelhantes. Ela também teve de protegê-la das maldades do mundo, tendo o professor como uma autoridade.  Essa educação normativa manifestava os ideais burgueses, ou seja, colocava as regras ditadas por aqueles que tinham o poder. Essa burguesia, que estava em ascensão nos séculos XVIII e XIX, estava também diretamente ligada à expansão e ao aperfeiçoamento do ensino escolar e também ao surgimento de uma pedagogia controladora.

Segundo Zilberman (1985), os textos produzidos para a escola se revelam como “um manual de instruções, tomando o lugar da emissão adulta, mas não ocultando o sentido pedagógico”.

Mas o caráter dado à literatura infantil, atualmente mudou. Hoje falamos de uma literatura infantil com suas especificidades que estão dirigidas a formação de um indivíduo. Nos dias atuais existe uma articulação entre escola e literatura, propondo transformações, revendo valores e padrões existentes em nossa sociedade, conseguindo, através de uma literatura de qualidade, formar leitores infanto-juvenis mais críticos e com opiniões próprias.

2. REVISÃO DA TEORIA

A poesia propõe para a criança uma oportunidade de trabalhar com as palavras, com ritmos, sons e se divertir com esse jogo literário. A palavra de um poema pode servir de motivação para a criança desenvolver o lúdico, pois o significado é trabalhado depois no universo infantil que ainda está em fase de alfabetização. A valorização do lúdico através da linguagem, segundo Zilberman (2005), é favorecida pela própria estrutura da língua que permite a utilização de recursos sonoros como a aliteração e a assonância, que contribuem para reforçar a mensagem poética através do som, causando efeitos sonoros agradáveis e atraentes ao leitor infantil.

Esse contato com a literatura deve-se antes ao universo de histórias contadas, encenadas e, posteriormente, lidas. O jogo que as palavras ocasionam em um poema cria um vínculo afetivo que se traduz em uma brincadeira de ouvir, repetir e significá-las. Isso acontece devido à linguagem poética não ser referencial, pois ela possibilita diversas interpretações, criando fantasia, modificando significados etc.

O texto poético dá livre acesso à fantasia e ao mundo maravilhoso que está presente no cotidiano da criança:

“Isso acontece pela alta carga de conotação do texto, toda leitura de poesia é um ato de recriação. Ler o poema é, necessariamente, buscar um (dos) sentido (s). Este exercício realizado em cada leitura, comporta a possibilidade de participação no texto do outro, pelo duplo jogo do receber e do refazer o texto, forma de ampliação de um universo”.(AVERBUCK, 1982, P. 68).

O despertar para uma sensibilidade e criatividade também são estimulados dentro do universo das palavras que fazem as crianças serem capazes de inferir, associar, imaginar significados de vocábulos, de situações e imagens. As sensações evocadas pela poesia são importantes para o despertar da sensibilidade infantil, pois podem mobilizar muitos dos seus sentidos.

O ritmo de uma poesia é um elemento importantíssimo no desenvolvimento infantil por promover atividades corporais, entendimento de estruturas de acentuação, controle da respiração, aprimoramento lingüístico e outras atividades que contribuem para um aprendizado corporal e mental do indivíduo. O ritmo pode ser dado pelos olhos, que vão seguindo as linhas, pela voz, ao falar, ou pelo corpo, que se movimenta seguindo a cadência dos versos. Uma brincadeira que é trabalhada na poesia dentro do ritmo são os trava-línguas que produzem uma sonoridade com consoantes oclusivas deixando o poema cheio de pontos nos quais há dificuldades de se pronunciar as palavras.

As rimas são recursos que se relacionam à música. Construindo junto ao ritmo uma sonoridade, uma melodia que pode incentivar a leitura de poesia por associar sons e ritmos a canções já conhecidas, a palavras conhecidas a momentos prazerosos.

O sonho é um aspecto fundamental da poesia infantil, pois existe uma identificação da criança com o texto ao ver seus anseios expressos dentro do poema, reforçando o jogo lúdico dentro do universo da criança, assim destacando principalmente as emoções e os sentimentos que a criança já viveu ou deseja viver. A emoção presente no texto poético desperta-lhe sensações e a faz refletir sobre sonhos adormecidos.

Zilberman (2005), afirma que a presença de personagens infantis na poesia é um fator relevante e cumpre o papel destinado ao texto literário a que Candido (1972) chama de função humanizadora da literatura, pois, ao se ver retratada, a criança passa a compreender e analisar situações de sua vivência, e o texto literário apontam-lhe novas maneiras de perceber e resolver seus dilemas.

Também compõem a poética infantil temas abstratos e de teor filosófico, como a morte, a transitoriedade das coisas e do tempo, o questionamento da identidade e valores.

Segundo Bordini (1986), a criança percebe, de sua maneira, que o seu modo de pensar também se relaciona com o mundo da poesia. Por isso, não existem temas filosóficos, de morte, da efemeridade do tempo, de questionamentos que devem ser deixados de lado para essa faixa etária. É nesse sentido que a Literatura Infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta. O maniqueísmo que divide as personagens em boas e más, belas ou feias, poderosas ou fracas, etc. facilita à criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social. Tal dicotomia, se transmitida através de uma linguagem simbólica, e durante a infância, não será prejudicial à formação de sua consciência ética. O que as crianças encontram nos contos de fadas são, na verdade, categorias de valor que são perenes.

Assim notamos que a área do maravilhoso, da fábula, dos mitos e das lendas tem linguagem metafórica que se comunica facilmente com o pensamento mágico, natural das crianças. E as formas populares como as quadrinhas, cantigas de roda são, também, um fenômeno literário que traz o mundo infantil com uma linguagem simples para dentro do universo poético, sendo assim, uma maneira de iniciar a criança ao universo literário.

3. ANÁLISE DO LIVRO

3.1 ENREDO

O livro conta à história do encontro de um barqueiro chamado João com um índio chamado Toró no meio do rio amazonas. O encontro se dá porque a canoa do índio afunda e logo que ele se joga no rio aparece uma enorme embarcação, de João, que lhe estende uma corda para subir no barco.

No primeiro contato Toró conta à história de como havia chegado ali. Narra em versos a aventura de seu povo desde o primeiro encontro com o povo branco há 500 anos atrás e todos os conflitos que vieram dos interesses divergentes do povo indígena e do povo branco. Pelas guerras entre os povos que Toró foi obrigado a deixar sua aldeia e viver sozinho com medo na floresta, certo dia fugindo de jacarés pelo rio ele tem um probleminha com sua canoa, mas é resgatado por João.

Logo após Toró, João começa a narrar em versos a sua história de vida. Diz que nasceu em uma vila pequena na beira do rio amazonas e que seu sonho era se tornar um barqueiro, pois o uso de barcos era comum, ia de barca a escola, a cidade a outras vilas etc. Quando decidiu ir embora de casa buscar sua vida, ele se torna mecânico de um grande barco que viajava toda a região, depois de muito tempo vira auxiliar do convés e quando o dono do barco morre ele assume o controle total dessa embarcação. Como comandante ele relata algumas histórias interessantes que retratam a cultura da região até o momento em que ele e a tripulação precisavam descansar depois te tanto tempo trabalhando. Ao deixar toda tripulação em terra e sair de barco para ir para a sua casa descansar na primeira curva do rio dá de cara com um índio no rio.

Nesse momento da conversa, os dois percebem que algo está errado com o grande barco, ele está afundando. A situação fica desesperadora, mas Toró invoca Tupã para ajudá-los e no mesmo instante aparecem 18 canoas de índios da tribo de Toró que salvam os dois do problema.

3.2 PERSONAGENS

No livro aparecem nominalmente dois personagens que são: Toró, o índio; e João, o barqueiro. São citados os índios da aldeia, o povo branco que invade a terra dos índios, dá parte de João são citados os pais dele, o comandante do barco e a tripulação que compõem o cenário da história.

Os dois personagens centrais têm uma história de vida humilde e de vivência de muitas dificuldades que são superadas de alguma forma. Um traço interessante é que os dois simbolizam os povos da região amazônica, o nativo indígena e o nativo branco que colonizou e ficou por lá.

Toró aparenta ser um jovem que diz ter já se tornado um adulto por saber caçar: “Eu tomei jeito de adulto/ quando aprendi a caçar”; mas que apresenta traços de um adolescente indo pra juventude: “Meus pais tinham morrido/ na guerra, ao anoitecer/ Eu chorava, sem parar/ e também queria morrer”. Ele apresenta uma personalidade forte de quem não parou de lutar por sua vida apesar das dificuldades encontradas: “Navegava e navegava/ sem nunca poder parar/ A ameaça era constante/ vinha de qualquer lugar./ Ao ouvir tiros ou vozes/ tratava de me cuidar”.

João demonstra ser um adulto maduro que quando criança tinha um sonho: “Eu ficava imaginando/ sonha em ser barqueiro”. Lutou muito para realizar o seu sonho e nunca desistiu dele: “Como rato de porão/ enfrentei muita marola”; “Chegou a hora, meu filho,/ de estimado contento./ Aprecio o seu trabalho/ tem meu reconhecimento”. Ele se apresenta como um personagem de boa coração ao ajudar o índio e sem preconceitos por não fazer juízo de valor ao ver um índio precisando de ajuda, indicando que ele seguiu os conselhos de seu pai: “Siga sua vida direito/ seja sempre respeitado/ e evite o preconceito”.

3.3 CENÁRIO E ILUSTRAÇÃO

A história acontece na região amazônica, principalmente no rio amazonas. Por isso o cenário que é apresentado são florestas: “No coração da floresta/ cercado de denso mato”; rios: “Pela forte correnteza/ a canoa era levada/ e a força do Amazonas/ das margens a afastava”, “Tapajós e Amazonas/ nessas águas não me molho”; cidades: “Um dia estava em Belém/ no Mercado Ver-o-Peso”, “Levamos para Marajó/ que é bem ali ao lado”, “O destino: Parintins/ a viagem demorada”, “Já perto de Santarém”; vilas na beira dos rios: “Banhava meu povoado/ que só tinha oito casas/ uma capela, uma venda/ os bichos e a molecada”; aldeias: “Ser criança numa aldeia/ é fazer o que se quer”; animais selvagens e plantações: “Floresta não mais havia/ só soja tinham plantado”.

A ilustração do livro é feitas pelo próprio autor. O livro apresenta basicamente quatro cores: verde, preto, alaranjado e branco. São cores fortes que vão povoando de forma chamativa toda a história narrada, são desenhos simples que abusa de traços grossos e mistura de cores, sombras e exageros e uma angulação diferente dos desenhos, pois sempre temos a impressão de estarmos olhando do lado errado a ilustração. Fernando Vilela continua a fórmula que foi premiada em seu livro anterior Lampião e Lancelot.

3.4 LINGUAGEM LITERÁRIA

O livro cria uma situação interessante pelo narrador que conta à história, pois logo no começo ele se utiliza da metalinguagem para interagir com o leitor: “Leitores, peço desculpas/ e também vossa atenção”, e ele a história em terceira pessoa, narrando os fatos dos personagens Toró e João, mas o que gera uma certe estranheza é que nesse livro ele propõe, imagino que de forma intencional, uma confusão entre escritor, Fernando Vilela, e narrador pois este também se chama Fernando e só descobrimos isso ao final do texto quando é revelado uma carta de João, apelidado de Papa Vento, que se dirige a Fernando narrador: “Prezado amigo Fernando/ aqui passo muito bem/”.

Essa mistura traz uma sensação do narrador ser a mesma pessoa que o escritor, até porque na parte final do livro o próprio escritor Fernando Vilela narra algumas de suas experiências pessoais na floresta amazônica, então há claramente uma tentativa de confundir ou eliminar essa dicotomia autor/narrador. O que para o universo infanto-juvenil é mais conveniente por sempre trazer confusão o diferenciação do que é o narrador e do que é o autor do livro.

Outro ponto interessante do livro é a utilização predominantemente de sextilhas com rimas nos 2º, 4º e 6º verso e no 1º, 3º e 5º as rimas são variadas, essa é quase uma constante no livro todo com pequenas alterações. Ele usa uma linguagem simples e acessível a um público jovem e adolescente que se aproxima muito da linguagem da oralidade, com muito ritmo e sonoridade, usando redondilha maior na maioria dos versos, próprios de cantigas populares.

É bom notarmos que essa estrutura rítmica e sonora se aproxima muita da literatura de cordel que é bem difundida na região norte e nordeste do país, onde a história se passa. E que esse jogo do cordel, com sextilhas de redondilha maior com uma linguagem próxima da oralidade já foi utilizada por esse mesmo autor em seu livro premiado pela Câmara Brasileira de Letras “Lampião e Lancelot”. Isso evidencia que ele procura reutilizar a mesma fórmula já consagrada em outro livro seu um ano depois, com alterações substanciais do tema, do cenário e da fusão de narrador e escritor.

3.5 UNIVERSO INFANTO-JUVENIL

O universo da criança e do adolescente é bem representado nesse livro, pois mostra a diversidade cultural, um índio e um branco, seus ambientes de vida e familiares e o crescimento desses personagens, eles não são eternamente crianças no livro.

O mundo contemporâneo apresenta uma globalização e uma troca intensa entre as culturas que já não tem mais fronteiras, isso tudo é acompanhado pelas crianças e jovens de hoje em dia, o que fica bem retratado nesse livro. Primeiro mostra o encontro traumático do índio com o branco, a seguir mostra o difícil encontro do menino branco com a vida adulta e por fim o encontro amigável e pacifico do índio com o barqueiro.

Outro fator considerável é a apresentação das famílias, tanto do índio como do barqueiro, como algo confortável, mas que a qualquer hora pode sofrer duras alterações. Um perfil muito parecido com a realidade de hoje, que não tem somente um modelo familiar estável, mas sim uma diversidade imensa. Mas mesmo com as adversidades os personagens não desistem de suas vidas e objetivos.

E o desenvolvimento dos personagens também é muito interessante, por apresentarem personagens crianças, para haver a identificação do público, mas também mostrar esses personagens crescidos para atrair o público e também colocar esse desenvolvimento que é natural na vida de qualquer ser humano, propondo reflexões e idéias sobre algumas questões: como é crescer? É fácil virar adulto? Devo desistir dos sonhos ou da minha vida? Será que sou capaz de vencer na vida? Entre muitos outros.

4. CONCLUSÃO

O livro analisado apresenta uma adequação temática, lingüística e ilustrativa muito bem feita para o público infanto-juvenil. Demonstrando um trabalho realmente voltado as concepções literárias de boa qualidade. Explorando ritmos, sons, rimas, o lúdico, uma linguagem apropriada que auxilia na construção do universo da criança e do adolescente de forma física e mental.

Com isso, o autor, Fernando Vilela, propõe através da ficção criar uma história que contemple um ambiente atual e interessante, tratando sobre diversidade cultural, preconceito, histórias de vida, família, preservação da floresta etc, para uma situação vivenciada na atualidade. Conseguindo fazer com que a obra possibilite outras e maiores reflexões que podem ser retiradas do livro.

A única observação que deve ser feita é a repetição da fórmula, por ele criada, já utilizada no livro anterior que obteve sucesso, talvez pensando em uma tentativa de conseguir novamente o prêmio Jabuti, oferecido pela Câmara Brasileira de Letras.

O livro apresenta uma qualidade literária e ilustrativa que proporciona ao leitor uma prática prazerosa e produtiva.

5. BIOGRAFIA RESUMIDA DO AUTOR

Nasceu em São Paulo. É artista plástico, designer, educador, além de escrever e ilustrar livros. Por sua primeira obra para crianças, Ivan Filho-de-Boi (Cosac Naify, 2004), escrito por Marina Tenório, ganhou o prêmio Revelação Ilustrador 2004, da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Em 2005, participou da Bienal Internacional de Ilustração de Bratslava, na Eslováquia. Como artista plástico, já realizou diversas exposições no Brasil e no exterior.

5. BIBLIOGRAFIA

AVERBUCK, Lígia Morrone. A poesia e a escola. São Paulo: Ed. Ática, 1982.

BORDINI, Maria da Glória. Poesia Infantil. São Paulo: Ed. Ática, 1986.

VILELA, Fernando. O barqueiro e o canoeiro. São Paulo: Scipione, 2008.

ZILBERMAN, Regina. A Literatura Infantil na Escola. São Paulo: Global, 1985.

ZILBERMAN, Regina. E para a poesia não vai nada?. São Paulo: Ed. Ática, 2005.


18
Jan 10

Caridade

tinteiro2Lauro Drummond

No final do ano, todo rico gosta de fazer caridade, empresário, socialite, cantor e ator; todos  adoram encher a bunda de um pobre fodido como eu com comida e bastante farofa. Rico pensa que pobre é espirito que incorpora em pai de santo. Na verdade rico faz caridade para sentir aliviado, é como se eles fodessem seu cu a seco o ano inteiro, e no final dessem uma cuspida para o pau deles entrar melhor no seu rabo. Se rico fazia caridade, por que eu não poderia fazer também? Afinal eu era médico, mas não era rico, porém estava disposto a dar a minha cuspida.

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18
Jan 10

Enquanto houver domingos de sol

Por Sabrina Acquaviva

Enquanto houver domingos de sol

Haverá a alegria de poder desfrutar

O campo e suas delícias

O cheiro do mato, o fruto de um pomar

Um riacho de água doce pra se banhar

Um pôr-do-sol escandaloso pra tarde findar

Um amor pra se entregar

Debaixo de uma árvore…

E amar!

E quando a noite cai

Junto com as estrelas que mais brilham

Vem a tristeza da partida

Mas com a certeza de que ela voltará

E quando o sol não quiser brilhar

E a solidão do inverno ocupar o seu lugar

A lareira a aquecer…

Nos braços dela ele vai encontrar

O calor que precisam

Pra dessa forma, juntos

Aprenderem realmente o que é amar.


18
Jan 10

“O mulato”, de Aluísio Azevedo – Análise de obra

mournful_moonPor Gabriel Diniz

O Mulato, eis o nome do romance que, segundo alguns críticos, inaugurou o naturalismo em nosso país. O advento dessa escola em nosso país ainda é controverso, haja vista que outros estudiosos consideram a obra O Coronel Sangrado de Inglês de Sousa a primeira desse estilo literário. Os que defendem essa ideia dizem que a obra de Azevedo ainda contava com muitos cacoetes românticos; a de Sousa, por sua vez, lançada quatro anos antes de O Mulato, possuía mais elementos da escola criada pelo francês Émile Zola.

Controvérsias à parte, ater-no-emos agora ao supracitado romance de Azevedo.

O escritor, nascido na Província do Maranhão, debutou na cena literária oitocentista com a obra Uma lagrima de mulher, essa totalmente calcada nos preceitos românticos. Todavia, uma transformação ocorreu em seu segundo romance, O Mulato. Conta-se que o autor teve vários problemas com a Igreja no Maranhão, justamente por ter publicado diversos artigos em jornais atacando o clero. Dum certo modo, isso acabou reflectindo-se em O Mulato. Como? Vejamos!

O enredo centra-se na história de dois protagonistas Ana Rosa e Raimundo. Os dois primos apaixonam-se, porém encontrão enormes dificuldades para concretizar o amor. O mancebo,filho de José da Silva, é fruto dum caso de seu pai com a escrava Domingas. A donzela, por sua vez, é filha de Manuel Pedro da Silva, o Manuel Pescada, comerciante na cidade de São Luís. O encontro do casal se dá quando José da Silva contrai núpcias com Quitéria, a mesma não aceita a ideia do marido ter tido um filho com uma escrava. Sendo assim, o infante vai morar com o tio Manuel. Lá recebe o carinho de Mariana, esposa de Pescada. Nesse mesmo tempo, Quitéria é pega  por José da Silva com o cônego Diogo. Enfurecido com a traição, Silva esgana a esposa.  O clérigo, espertamente, faz um tracto com o marido traído, que consiste em não delatá-lo. Porém, José da Silva não poderá também falar nada sobre o adultério da esposa. Deste modo, a causa mortis de Quitéria é atribuída um problema natural e também à feitiçaria.

O padre Diogo, entretanto, não decide correr nenhum risco, temendo que Silva dê com a língua nos dentes, mata-o numa estrada que é conhecida pelo comentimento  vários crimes atribuídos a escravos fugidos. Devido a isso, o clérigo fica isento de ter cometido quaisquer delitos.

O tempo passa, e Raimundo viaja para a Corte e depois para Europa. No velho continente torna-se doutor em Direito e conhece vários países e depois retorna para o Brasil. Ele fica alguns tempos na capital fluminense, e decide ir para o Maranhão para resolver seus negócios.

Na província, o mancebo é recebido com grande alegria e hospeda-se na casa do tia. Porém, aos poucos ele vai despertando a inveja da população. As coisas pioram, quando o rapaz demonstra, devido aos seus estudos, grande fé ciência em detrimento dos dogmas católicos. A  sociedade da capital da província acusa-o de ser um

E a situação fica mais complicada quando Raimundo decide pedir a Manuel a mão de Ana Rosa em casamento. O tio nega o pedido veementemente. O mancebo insiste em saber o porquê. Manuel reluta em dizê-lo, porém cede as pressões do sobrinho e diz que não permite o casamento, pois ele é um mulato. Deste modo, revela quem a mãe do jovem.

Raimundo, entristecido, decide partir o mais rápido possível para à Corte. Entretanto, o amor por Ana Rosa é maior. A jovem engravida, o casal decide, então, fugir. Porém, o plano é frustrado, dado que o cônego Diogo juntamente com Dias — um português caixeiro que trabalha para Manuel e anseia em casar com Ana Rosa — conseguem impedir a fuga.

Raimundo desesperado com a falha do plano, começa a deambular pela cidade e decide lançar mão da justiça para casar-se com a amada. Porém, o clérigo incita Dias a dar cabo na vida do mancebo.

Os anos passam, no final o leitor é supreendido com Ana Rosa e Dias casados, os dois muito felizes e com três filhos. Um desfecho no mínimo desapontador para aqueles que almejam um final típico das novelas românticas.

Penso, que esse é sem dúvidas um dos melhores romances do século XIX. Mesmo com esse hibridismo romantismo mais naturalismo — fato esse que muitos apontam como um fator negativo —,  Azevedo foi o primeiro escritor a tocar fortemente no assunto da escravidão brasileira. É importante lembrar que nesse período, teorias europeias condenavam fortemente a junção de diferentes etnias, que na época recebiam o nome de raças. Destarte, a ideia da miscigenação era vista negativamente pela ciência do século XIX. Essas ideias foram fortemente propagadas em nosso país. O próprio termo “mulato” já é pejorativo, uma vez que calca-se na ideia de mula.

De mais a mais, o autor também desnuda como ninguém a hipocrísia da sociedade da provincia do Maranhão. E, além disso, O mulato  traz à tona o anticlericalismo — um dos preceitos básicos da escola naturalista — e a visão acerca da mulher, que era vista como uma simples procriadora, que se não sujeitasse ao casamento e consequentemente ao sexo, estaria fadada a sofrer crises de nervo, histerismo. Enfermidade essa que foi amplamente discutida em vários romances naturalistas brasileiros; o tema perpassou praticamente por todas as obras de cunho zolista do escritor.

É válido destacar também as outras personagens do romance. Temos a figura duma velha mexiriqueira, do poeta fracassado, da viúva louca por se casar. da donzelas desprovida de beleza que estão atrás dum marido.

Há descrição das cenas é também bastante impactante. Logo no início da obra o autor é levado pelo narrador a conhecer as ruas de São Luís. Sendo assim, depara-se com um leilão de escravos que é descrito duma maneira bastante detalhista. Os diálogos também são óptimos, principalmente alguns acerca da política brasileira.

O valor da obra de Azevedo é indiscutível, todavia muitos críticos consideram a produção do naturalista assaz inferior quando comparada a de Machado de Assis. A meu ver um erro crasso, visto que as obras de ambos escritores podem ser colocadas no mesmo patamar.

Por fim, faz-se mister dizer que O Mulato possui duas versões. Na primeira, lançada na década de 1870, Raimundo não é o protagonista da obra, quem ganha esse papel é cônego Diogo. Os estudiosos também apontam que o autor, nessa segunda versão, inseriu mais elementos naturalistas no livro.

A dica é: leiam O Mulato! A obra é com certeza um dos maiores clássicos de nossa literatura.

Originally posted 2009-09-29 18:24:40. Republished by Blog Post Promoter


18
Jan 10

Bando de Pardais

Por Antônio Augusto Shaftiel

A primeira vez em que vi o romance Bando de Pardais na livraria, eu julguei o livro pelo título (sim… joguem as pedras, mas às vezes a gente faz essas burradas imperdoáveis!). Não me interessei nem um pouco pelo estranho nome Bando de Pardais. Felizmente, algumas semanas depois, uma amiga comprou o livro e me convenceu a ler. Bom, depois disso, tenho que reconhecer que foi um grande erro não ter comprado esse romance assim que o vi.

A história de Takashi Matsuoka é uma das melhores que já li. Ele cria uma trama que acaba nos levando aos conflitos culturais de quando o Japão estava abrindo as portas para o Ocidente. Os personagens principais são um grupo de samurais e um nobre que entra em contato direto com alguns missionários norte-americanos. Takashi usa os conflitos dos personagens e seus pensamentos para descrever perfeitamente a cultura japonesa e mostrar parte dos pensamentos e estranhezas que deveria haver entre grupos tão diferentes. Os personagens são carismáticos e os inimigos nunca parecem o que são, sempre contidos como convém à cultura japonesa. Não como não se apegar e ficar curioso com o que ocorrerá a partir da rede de conspiração formada, com seus assassinato,s lutas entre samurais batalhas que deixam o leitor estupefato. O mais impressionante é que o final é revelado ao longo do livro com as profecias do personagem principal, Genji e, no entanto, não há como não ficar boquiaberto com o que se lê nas últimas páginas, quando a inteligência de um inimigo secreto se revela.

Bando de Pardais é um livro bonito com informações sobre cultura, personagens cativantes e frases fluidas que impedem o leitor de fecha ro livro. É uma recomendação que agora está na minha estante e se tornou um dos meus livros prediletos. Às vezes até fico penando no título, que se refere ao símbolo do nobre Genji, mas esses pardais poderiam muito bem ser os inimigos, os estrangeiros ou qualquer outra coisa. Depende do ponto de vista e da interpretação. É bom lê-lo livro para saber mais.