Camilo Pessanha – Dois poemas

 

Alfred_Hithcock-2Nascido em 1867 na cidade de Coimbra, Camilo Pessanha foi um dos grandes nomes do simbolismo português. O poeta faleceu em Macau na China em 1926, a cidade era uma província portuguesa.

Seus versos são marcados pela musicalidade, pelo poder de sugestão nas suas imagens. Pessanha publicou apenas um livro no ano de 1920, a obra foi intitulada de “Clepsidra” (Do grego Crepsibra).

Keepto: furto, roubo; hydor: água, relógio do tempo.

Soneto

Foi um dia de inúteis agonias…
Dia de sol, inundado de sol!…
Fulgiam nuas as espadas frias…
Dia de sol, inundado de sol!…
Fo um dia de falsas alegrias.
Dália a esfolhar-se, — o seu mole sorriso…
Voltavam os ranchos das romarias.
Dália a esfolhar-se, — o seu mole sorriso.

Dia impressível mais que os outros dias.
Tão lúcido… Tão Pálido… Tão lúcido!…
Difuso de teoremas, de teorias…

O dia fútil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias…
Tão lúcido… Tão pálido… Tão lúcido!…


Violoncelo

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo…

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos…
Por baixo passam,
Se despedaçam
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro
Que ruínas, (ouçam)!
Se debruçam,
Que sorvedouro!…

Trêmulos astros…
Soidões lacustres…
— Lemes e mastros.
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo…
— Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

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