Literatura Brasileira: do Romantismo ao Modernismo

Literatura Brasileira: do Romantismo ao Modernismo

O conceito de Literatura Brasileira segundo Ferdinand Denis, Sílvio Romero e Machado de Assis, associado ao poema “Não” de Augusto de Campos

Por Danielle Marinho

A preocupação em se conceituar identidade nacional é recorrente entre os intelectuais brasileiros desde o Romantismo. Foi nesse período que a ideia do que seria a literatura nacional se aliou às perguntas sobre o caráter do brasileiro. Esses questionamentos se deram (e se dão) pela necessidade de elaboração de uma consciência nacional capaz de despertar no povo brasileiro um processo de auto-afirmação. Entre os principais intelectuais que responderam a tais questionamentos estão Ferdinand Denis (de nacionalidade francesa), Machado de Assis e Sílvio Romero.

Em Resumo da História Literária do Brasil (1826), Ferdinand Denis afirma que a literatura brasileira tem origem nos relatos históricos do século XVI: com os historiadores dessa época, apareceram os poetas, os quais eram os primeiros exploradores da terra e que, entusiasmados pela região que contemplavam, iriam exaltá-la em poemas. Porém, ele verificou que essa marca de inspiração na natureza não se fez presente constantemente na literatura brasileira. Antes da independência, os escritores brasileiros pareciam esquecer-se de sua pátria para receber influências da Europa.

O Brasil sentia, pois, necessidade de adquirir inspirações poéticas de uma fonte que realmente o pertencesse, e não mais a partir da Europa. De acordo com Denis, para que pudesse fundar a sua literatura, o brasileiro deveria fazer uma obra de caráter original. No começo do século XIX, o Brasil ainda absorvia ideias da literatura de Portugal, e “os êxitos que os brasileiros houvessem adquirido contavam pouco” (DENIS, 1826, p. 35). Entretanto, no decorrer do tempo, ao conhecerem melhor a terra em que viviam, os brasileiros certamente se encantariam com ela e, segundo o estudioso, passariam a cantar o poder e a beleza dessa natureza. O pensamento do brasileiro deveria se alargar, assim como as paisagens de sua terra eram grandiosas; deveria, pois, ser um pensamento independente, e não procurar outra referência que não a própria “natureza americana”.

Para uma literatura fundamentalmente brasileira, Denis (1826, p. 47) defendia, então, ser necessária a observação da cor local, isto é, os “influxos da natureza” que inspirassem a criação literária. Fazia-se necessário um estudo dos vestígios dos aborígines em três séculos de destruição para que se achassem “todos os pensamentos primitivos que excitam fortemente a imaginação” (DENIS, 1826, p.37). Os motivos poéticos válidos estavam no interior das florestas, dando vida aos campos. Os poetas precisavam, pois, contemplar essa natureza rica, penetrar em sua grandiosidade. Por ter tamanha beleza, defendia Denis, essa natureza espalhava seus encantos por toda parte, pelo campo e pela cidade e, por isso, facilitava-se o desenvolvimento de um olhar poético. Denis afirma que esses poetas brasileiros, se fossem observadores (exploradores) da natureza deles, poderiam igualar-se aos próprios mestres franceses.

Como consequência dessa concepção de cor local, tem-se o desprezo pelas ideias mitológicas devidas às fábulas da Grécia. Uma característica comum à produção literária da época era o emprego de metáforas sugeridas pela mitologia grega, característica observada e criticada por Denis em Tomás Antonio Gonzaga. Denis afirmava ser inconveniente ao poeta brasileiro o uso desses artifícios, porque não havia harmonia entre esses mitos e o clima, a natureza ou a tradição americana. Quando influências literárias vinham da Europa para a América, elas deveriam ser enfraquecidas e se apagadas diante de inspirações poéticas primitivas da nova nação brasileira.

Era fundamental ao Novo Mundo, portanto, pensamentos novos concordantes com sua natureza, sua “cor local”. O poeta brasileiro precisava adotar sua nova pátria e cantá-la ele mesmo, por meio de relatos da história local e da descrição do meio ambiente circundante a ele. Dessa forma, ele criaria assuntos a partir de uma natureza que não lhe era desconhecida. Para Denis os relatos de viagem, por exemplo, enriqueciam a literatura.

Os critérios para qualificar um autor como sendo nacional eram, pois, muito mais ligados à temática, ao que o autor diz em seu texto, do que à preocupação linguística, à forma com que o autor elabora no texto o seu dizer. Segundo Denis, na caracterização de um autor nacional analisava-se o local do nascimento do poeta, o tema abordado por ele na criação literária e a presença de uma dicção própria, que abandonasse a tradição europeia.

Já nos estudos de Machado de Assis acerca da literatura brasileira, ocorre uma mudança no conceito de nacionalidade: se, anteriormente, o nacional estava ligado à cor local e a características particularizantes, a partir de Machado tem-se a ideia de instinto de nacionalidade. Instinto, para ele, é o que há de mais profundo no homem, é a sua formação cultural; ao longo de sua existência, o homem absorve signos, alguns dos quais que sempre o acompanharão. É, pois, a cultura à qual ele pertence. Como exemplificação de tal pensamento, o Brasil está em Machado porque ele é um escritor de seu tempo; o Brasil está, portanto, em sua bagagem intelectual, em sua linguagem.

Também denominado “sentimento íntimo” por Machado, o instinto de nacionalidade não é aparente, mas se dá na essência da escrita literária. De tal fato decorre, como caracterização de um escritor nacional, o valor dado à linguagem própria de tal escritor utilizada no texto e o desapego ao tema escolhido. Segundo Machado, os temas se repetiam na literatura e, por isso, não eram caracterizadores de uma literatura nacional/particular. Os clássicos literários não forneciam apenas histórias, as quais se construíam sobre um tema repetível, mas também, e principalmente, diferentes maneiras de contá-las, diferentes forma de como elas podem ocorrer, isto é, os clássicos ofereciam o funcionamento das diversas linguagens neles utilizadas. Devido a esse esgotamento temático, portanto, todos os temas, desde que trouxessem em si o belo, seriam matéria de poesia; logo, todos eles seriam literários e válidos para a literatura brasileira, uma vez que não caberia ao tema revelar a nacionalidade, mas ao instinto.

É importante destacar, então, que Machado discorda da ideia comum à época de só se verificar espírito nacional nas obras que tematizassem o assunto local. Se tal ideia fosse verdadeira, o acervo literário brasileiro estaria reduzido. Ele defende, então, que o escritor de uma literatura nascente deve tratar principalmente de assuntos oferecidos por sua região. Não se pode, porém, fazer disso uma doutrina absoluta, sob risco de empobrecer a própria literatura. O brilhantismo de Machado se dá nesse ponto: para ele, antes de tudo, é fundamental a esse novo escritor um sentimento íntimo, um instinto de nacionalidade “que o torne homem de seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço” (ASSIS, p. 135). A cor local seria apenas uma nacionalidade de vocabulário (uma “funesta ilusão”), uma particularidade, enquanto esse instinto seria nacional por sua linguagem, uma individualidade.

A cor local seria algo apreciável, mas era fundamental que a imaginação interferisse na composição, para que esta fosse de traços naturais, espontâneos, e não automatizados por regras de criação. A vida brasileira e a natureza americana trariam um rico acervo de inspiração poética. As tradições indígenas deixaram um legado de elementos verdadeiramente poéticos às gerações contemporâneos a Machado, e os costumes civilizados também ofereciam criatividade à imaginação dos escritores. Contudo, a “nova geração” não deveria ater-se apenas a essas fontes de inspiração, por se tratarem de um legado tão brasileiro como universal. No fundo de cada história, há a tematização de uma emoção humana. Se essas histórias variam, as emoções humanas são limitadas. O que precisa ser observado, então, é a linguagem que traduz essas emoções em cada uma dessas histórias. Os novos escritores, para fundar uma literatura brasileira, deveriam olhar para os modelos de criação literária deixados pelos grandes escritores, os quais serviriam de estímulo e exemplo simultaneamente. Um bom escritor seria, antes de tudo, um bom leitor. A “cor local”, leia-se o traço nacional, deveria ocorrer, segundo Machado, essencialmente na linguagem, fato que individualiza mas não particulariza o pensamento literário nacional.

Ao tratar da situação do romance brasileiro, Machado de Assis afirma que há “toques de sentimento, quadros da natureza e de costumes, e certa viveza de estilo mui adequada ao espírito do nosso povo” (ASSIS, p. 138). Porém, faz retificações acerca do recurso da descrição, que julga ser de efeito mediano nos autores em que não estão presentes outras qualidades essenciais. Essas qualidades culminariam no elogiado romance psicológico, com “dotes não vulgares de observação” do escritor e a análise de caracteres e paixões.

Ao abordar a poesia, Machado afirma que, de modo geral, os poetas diversificam suas temáticas. Atenta para a importância da oportunidade e da simplicidade na composição literária, pois elas são aspectos fundamentais para se reproduzir uma imagem tão majestosa quanto o era a natureza americana. O espetáculo da natureza deveria ser retratado apenas quando fosse pertinente ao assunto e era preciso cuidado para que a imaginação não tornasse a linguagem “obscura”. Afirma, ainda, que “a poesia dorme, e é mister acordá-la” (ASSIS, p 153); para tanto, era necessário utilizar elementos próprios da linguagem essencialmente brasileira, suas “flores rústicas e próprias”; seguir, pois, exemplos dos grandes escritores nacionais, como Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Fagundes Varela.

Machado de Assis realiza, ainda, importante percepção acerca da função da crítica literária em momentos de formação de uma literatura. A crítica, “doutrinária, ampla, elevada”, com influência cotidiana e profunda, consertaria ou estimularia a invenção artística (ASSIS, p. 136). Ele defende a necessidade de se aperfeiçoar o gosto estético, a fim de que a literatura se revigore e se desenvolva plenamente.

Já nos estudos de Sílvio Romero, tem-se um entendimento do Brasil à luz das teorias cientificistas vigentes na segunda metade do século XIX (Positivismo, Determinismo e Evolucionismo Social). Ele estudou o pensamento literário brasileiro como sendo um produto do meio; a literatura era, pois, condicionada por fatores externos, os quais se dividiam em naturais, étnicos e morais: os naturais estavam relacionados a aspectos da natureza e do clima; os fatores étnicos, à raça; os morais, a elementos históricos, como a política, os usos, o costume.

A partir dessa maneira cientificista de estudo literário, considera-se a literatura como uma representação fiel e condicionada de uma realidade maior: a nação. O seu critério de julgamento para a literatura brasileira era, então, o nacionalista. Tal fato explica a orientação de suas análises, as quais se desprendem do aspecto formal e se dedicam aos temas e às descrições, os quais deveriam se relacionar com o panorama social próprio do país. Desliga-se, pois, da obra em si, de sua linguagem (ponto-chave nos estudos machadianos), e se atém aos elementos externos a ela, os quais a condicionam, e à sua função social.

A ação do meio externo na literatura, fenômeno constatado em sua obra História da Literatura Brasileira, podia acontecer pelo clima, pelo aspecto geológico e topográfico do país e pela alimentação do povo (ROMERO, 1888, p. 102). O clima predominante no país era quente e úmido, fato que, segundo ele, sujeitava a população a febres e ao impaludismo. Como consequência disso, ocorria o que ele chama de “um certo abatimento intelectual, uma superficialidade inquieta, uma irritabilidade, um nervosismo, um hepatismo que se revela nas letras” (ROMERO, 1888, p 99). Outro importante aspecto causador do “enfraquecimento geral” da população era, segundo ele, o deficiente regime alimentar. Sílvio Romero afirma que a dieta do brasileiro é pouco nutritiva e é quase incapaz de avigorar um povo sadio (ROMERO, 1888, p. 102).

Concluía, a partir desses fatos, que o povo brasileiro tinha uma vida curta e, assim, seus escritores talentosos afloraram precocemente, debilitados e superficiais em relação à sua invenção literária. Esses escritores “mórbidos” produziam pouco, cansavam-se rapidamente, envelheciam e morriam logo. Defende, então, ser um martírio o trabalho intelectual no Brasil (ROMERO, 1888, p 101).

O brasileiro estaria condicionado a observar e indignar-se mais do que para inventar e refletir; seria mais lírico que científico, e isso era para ele um aspecto negativo. Para ele, a nação não amava a natureza, e não se unia a ela nem pela ciência, nem pela arte; se assim o fizessem, se seguissem o cientificismo (o “regime saudável da ciência”, p.102) corrigiriam a fraqueza original do espírito. Os literatos viviam nas cidades e para ela, desconheciam o Brasil e o brasileiro e ainda se mantinham apegados às influências europeias; eram velhos de corpo e de espírito. Isso, na concepção de Romero, era um grande erro. Esses jovens escritores era um mau exemplo para a geração dele e, por isso, faziam-se necessários outros tipos intelectuais “mais varonis” (ROMERO, 1888, p.102), que estariam incluídos nos mestiços, verdadeiros transformadores da literatura brasileira.

Segundo ele, o português, aliado às raças tropicais, como a tupi e a africana, não produzira apenas tipos humanos debilitados, mas também homens válidos. Estes precisariam neutralizar o que a natureza brasileira tivesse de mau e contemplar, desenvolver e justificar o que ela tivesse de bom. ROMERO (1888, p. 103) diz que a literatura da época não era feita apenas de queixas, mas que às vezes “também se tem ouvido o riso franco da jovialidade e a alegria entusiástica das crenças firmes e expansivas”.

Em seus estudos, Sílvio Romero afirma que o Brasil não deve continuar a ser uma cópia da antiga metrópole; era necessário realizar uma independência intelectual. O clima seria, segundo ele, importante agente de diferenciação, pois ele contribuía para a integração nacional e, na literatura, facilitava uma maior liberação de sentimentos líricos. Como consequência, nossa linguagem teria uma maior musicalidade e eloquência, enquanto a nossa imaginação seria mais rica e grandiosa.

Assim, por ter uma visão cientificista da sociedade e, portanto, da literatura, Sílvio Romero considerava que os aspectos naturais e raciais distintos entre Brasil e Portugal eram capazes de determinar a qualidade da produção intelectual de um país em relação a outro. Sendo esses aspectos favoráveis ao Brasil, era possível, então, o desenvolvimento de uma literatura autônoma e até superior. Diz: “temos elementos que Portugal não possui: um país vasto e rico, de um clima mais variado do que o do reino, uma população mais abundante e composta de raças que lá não existem” (ROMERO, 1888, p. 104). A população brasileira já havia se apropriado do solo, havia desenvolvido algumas tradições, hábitos e interesses nacionais; esse povo possuía, portanto, “um molde particular seu, mais ou menos caracterizado”. Faltava, então, ter a literatura uma expressão nacional (nacionalista).

O mestiço desempenharia papel fundamental nessa expressão, uma vez que ele era, para Sílvio Romero, o brasileiro genuíno. O mestiço resultava de cinco fatores: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira; não se tratava, pois, de um ser com características apenas fisiológicas, já que era considerado também o sentido “moral” do termo, ampliando o sentido a todos os “filhos da colônia”. Esse mestiço era, pois, produto fisiológico, étnico e histórico do Brasil; havia um “congraçamento” de raças e ele não se confundia mais com o português. Sua função, por ele ter tamanha relação com o Brasil, seria realizar a diferenciação nacional; sobre o mestiço repousava o futuro da nação (ROMERO, 1888, p. 132). Era o mestiço, portanto, o elemento indispensável para o Brasil obter uma face étnica e uma maior coesão histórica.

Quanto à poesia popular, Sílvio Romero delimita as influências de cada raça, afirmando: os negros e índios contribuíram com canções primitivas, tendo a influência daqueles sido estudada insuficientemente, mas não possuíam uma “verdadeira poesia” porque não haviam “chegado a tal grau de cultura” (ROMERO, 1888, p. 141); os caboclos compuseram os romances de vaqueiro; os portugueses trouxeram como legado várias cantigas e os romances marítimos e cavalheirescos; ao mestiço cabiam as transformações desses tipos poéticos. Posteriormente, Sílvio Romero divide a poesia popular brasileira em quatro categorias, que são 1) romances e xácaras, 2) reisados e chaganças, 3) orações e parlendas, 4) versos gerais ou quadrinhas; divide os contos populares em portugueses, americanos, africanos e de origem mestiça.

Em suma, os princípios acerca da verdadeira literatura brasileira podem ser assim classificados: visão romântica de Ferdinand Denis, concepção cientificista de Sílvio Romero e, com Machado de Assis, uma análise profunda da linguagem literária. Denis defendia que o Brasil precisava de uma literatura independente; esta literatura era condicionada pelo meio, pelas raças e pelos costumes próprios do país; os índios eram os brasileiros legítimos, e por isso deveriam ser estudados e tomados como tema; além do índio, a descrição da natureza e dos costumes eram critérios de identificação nacional. Para Sílvio Romero, identificava-se o Brasil na literatura a partir da temática e da descrição da natureza, ambas regidas pelas teorias cientificistas. Já Machado de Assis faz uso de uma análise mais profunda e consciente do “instinto de nacionalidade”, afirmando que o Brasil encontra-se na carga cultural do escritor e que esse fato transparece na sua linguagem. Apesar de divergirem no ideário em que alicerçam seus princípios, os três afirmam ser necessário o estabelecimento de uma literatura brasileira. Com uma produção literária própria, o sentimento nacional seria, então, revigorado.

A preocupação em se conceituar a literatura e seus elementos também se realiza comumente nos questionamentos acerca das formas literárias e, a partir daí, sobre o que seria poesia. Augusto de Campos em seu poema “não” conceitua o que é poesia a partir da negação. Através do que “ainda não é poesia”, o poeta vai criando um efeito estético por meio da estruturação que dá ao poema: são páginas de arranjos de palavras e seleção lexical precisa, traços concretos que intensificam o discurso poético. Sem escrever explicitamente um conceito de poesia, mas escrevendo apenas o que (ainda) não o é, Augusto de Campos finda por apresentar uma poesia por meio de uma experiência concreta. O poeta faz, pois, a sua poesia a partir de seu discurso, o qual é causador de um efeito estético.

Temática, descrição, experiência pessoal, sentimento subjetivo, isso “ainda não é poesia”. Para Augusto de Campos, a poesia se faz na composição do discurso poético, faz-se por meio da linguagem. Desse modo, sua ideia diverge da concepção romântica de Denis e dos fundamentos cientificistas de Sílvio Romero acerca do que caracteriza um texto literário, e aproxima-se de Machado de Assis no que concerne à valorização da linguagem, à elaboração discursiva do escritor. Se há valor poético nas paisagens da natureza americana, como afirmavam Denis e Silvio Romero, a poesia não se encontra lá finalizada, pronta para ser apenas transcrita pelo escritor (“ali onde há poesia ainda não é poesia”); a poesia surge de uma composição do poema pelo autor, uma elaboração discursiva, que envolve recursos linguísticos, semânticos.

O último quadro do poema de Augusto de Campos é bastante significativo: vê-se, em vertical, a expressão “o e s i a”. Ele conclui, portanto, deixando o conceito de poesia incompleto, indeterminado, como se ele estivesse afirmando, por meio da negação (“oesia” não é poesia), o verdadeiro sentido de poesia: algo que não é determinável, limitado, que não impõe uma mensagem, mas que a provoca. O poeta proporciona, pois, a possibilidade de o leitor participar do poema, ser um co-autor, para que construam e completem juntos a “P oesia”, a qual se realiza, portanto, por meio da linguagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Machado. Crítica Literária. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1955. Col. Obras completas de Machado de Assis [31 v.] vol. 29 pp. 129-224.

CAMPOS, Augusto de. NÃO. Folha de São Paulo. São Paulo, 30/06/1990, C. LETRAS, P. F-7.

DENIS, Ferdinand. Resumo da História literária do Brasil. In: CÉSAR, Guilhermino (org.). Historiadores e Críticos do Romantismo – 1: a contribuição europeia, crítica e história literária. Rio de Janeiro: LTC, 1978. pp. 35-86.

ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira. 7º ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1980. pp. 77-151.

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