O Brasil precisa de mais putaria, perversão e dum caralho arrombador de cu

Por Lauro Drummond

Lembra daquela febre brasileira de jogar bebês dentro da lagoa, dentro do bueiro, dentro da privada, dentro da fossa, dentro da usina hidroelétrica, dentro de qualquer coisa? Pois é, eu fui um desses bebês. Fui jogada lá dentro, dentro mesmo. Mas aí me acharam. Saí no jornal. Nome: Vitória. Todos os recém-nascidos jogados num buraco de bosta, chamavam-se, naquela época, Vitória. Fui mais uma.

Apesar de ter passado em cinco jornais diferentes da televisão, não fui adotada. Três anos depois, minha mãe, a Geralda, saiu da cadeia. Sabe-se lá por quê, o juiz, alegando que era função do Estado trazer o indivíduo para a sociedade, isto é, curando a gangrena social, deu-ma para ela novamente. Triste história. Vitória? Vitória dum caralho arrebentando o cu. Talvez.

Na infância ela dizia: “toma pinga, é bão prá alargá o rim”

Ela tinha uma cara de defunta, que dava dó, só vendo. Alargou tanto o rim, que o fígado não aguentou e saiu bem pelo cu. Vitória.

Mudei de casa. Meu pai, o Rarirama, um futebolista, que jogava num time da quarta divisão do Campeonato Brasileiro, passou a cuidar de mim. Rarirama. Para variar bebia, quando não tinha pinga, bebia perfume. Ficou conhecido como Cheiroso. Eu voltava da aula, diziam, melhor, gritavam: “OLHA A FILHA DO CHEIROSO!”

Meu pai, o Cheiroso, o Rarirama, dizia que meu nome dava sorte. Vitória. De fato, muita sorte. Um dia, voltando para casa, com o vidro de perfume na mão, um cachorro, que sofria de hidrofobia, atacou-o. Rarirama babou até morrer. No velório jogaram perfume em cima do caixão. A ideia do perfume adveio do Neca, meu Tio. Fui morar com ele. Vitória.

Neca gostava de criar cães, ele queria alugar cães. Era uma boa ideia, a do aluguel de cães, ele dizia. Sabe-se lá, por intervenção de Deus, ou de qualquer coisa, um cara, sem camisa, adentrou em nossa casa, esfaqueou os cachorros, depois meteu três tiros na testa do meu tio. Ninguém jogou perfume no velório. O cara, Riovaldo, tornou-se, depois, meu marido. Grande Vitória.

O Riovaldo, depois do enlace matrimonial, consertou-se. Tínhamos até um cachorro, o Blufi. Riovaldo trabalhava como garçom. Eu, por minha vez, tornei-me frentista. Num dia, sabe-se lá por que, Riovaldo resolveu assaltar o posto, meteu três tiros na minha perna, levou a grana. Não esqueço das palavras dele, quando o vi, com dinheiro dentro da bermuda, subindo na moto.

“O BRASIL PRECISA DE MAIS PUTARIA, PERVERSÃO E UM CARALHO ARROMBADOR DE CU”

Vitória. Gosto de ver os recortes dos jornais desbotados espalhados aqui no corredor do hospital.

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6 comments

  1. Esse conto que acabei de ler é de fundir a cuca, cara. No início fiquei assim meio chocada com os palavrões, mas depois de entender o drama da sofrida Vitória, ou devia dizer fudida, para ficar mais no clima? Pois é, depois de ler até o final, achei que palavrão foi pouco. Deve ter muita gente pelo Brasil à fora passando por situações iguais.

  2. Continuo achando o texto ruim, gratuito.
    Vou continuar lendo o que vc publica para nao dizer que nao lhe dei uma chance.hehehehe
    abs

  3. Rosana, fico grato por você continuar lendo. Hehehehehe.

    Abraços!

  4. O texto é muito bom. Digno de um Bukowski eu diria. Não aprovo a idéia de mais “caralhos arrombadores de cu, perversão e putaria” e creio que apesar de serem frequentes em tua obra tu também não os deve querer como prol para o país, não é? Acredito que o processo de bestialização é a mais eficaz das formas de educar alguém sobre um tema complexo. A pornografia funciona similar a um czar: só rindo dela deixamos de temê-la. Agora, respeitabilíssimo Lauro, o que dizer da música-pornográfica-brasileira como o funk, o forró (só os que merecerem o título de pornográficos) e outros tantos genêros que vêm sendo empesteados de putaria gratuita? Cuja eu mando aos Diabos pois não é a mesma coisa, nem mesmo parecida com a que vem sendo publicada aqui. A pobre da Vitória que o diga. Ô destinozinho desgraçado! Também digno de umas boas linhas do Bukowski. Ela me pareceu pura. Desgraçada, mas pura. Como uma Sófia Semeonóvna do Dostoiewski. Por isso eu digo que com toda a merda que já houvera na vida dela ela não devia estar ouvindo mais merda, sei lá, eu meio que viajei nesta tua personagem. Gostei dela, de verdade. Abraço!

  5. Vitória de cú é rola.Muito bom o texto.

  6. Muito bom o texto. Só uma besteirinha no segundo parágrafo: “deu-ma”. Não seria “deu-me”? Abraço!

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