Seres humanos imbecis? Confira “McTeague”, de Frank Norris.

Por Gabriel Diniz

Juntamente com Stephen Crane, Frank Norris foi um dos primeiros escritores norte-americanos a abraçar o naturalismo — tradição essa que nos deu Sinclair Lewis, Theodore Dreiser e John Steinbeck. Influenciado pelo darwinismo social e pelos realistas franceses (em especial, Emile Zola), o estilo desses escritores naturalistas era cortante, isto é, tentavam ver o lado podre do ser humano, fator esse que os afastava dos preceitos românticos.

“McTeague” é considerada a principal obra de Norris, a razão para isso é simples: o livro influenciou vários escritores, pois inovou ao introduzir na literatura norte-americana essa visão pessimista acerca dos homens.

Pois bem, falemos, agora, um pouco do enredo.

A personagem principal, cujo nome é o que dá título ao livro, é um dentista prático pertencente à classe média. McTeague é casado com Trina, uma descendente de imigrantes alemães que é também a queridinha de um primo distante, Marcus. A vida do casal subitamente muda quando Trina ganha cinco mil dólares na loteria. O prêmio, bastante alto para os padrões do século XIX, desencadeia uma sucessão de vis sentimentos característicos dos seres humanos; sendo assim, as personagens são afetadas pelo: orgulho, ciúme, avareza; sentimentos esses que imiscuídos despertam a intriga, o abuso e o homicídio etc. Apesar desse lado calcado numa noção mais dura de realidade, há personagens que não seguem esse caminho. O exemplo disso é o velho Grannis e a senhora Baker. O casal ancião, tem como maior prazer saber, que o amado existe. É interessante esse elemento, pois eles vivem em apartamentos vizinhos, seria um amor ideal, não atingido por meio da carne. Eis aí um elemento romântico, apesar de toda roupagem naturalista da obra.

O leitor do século XXI poderá, de todo modo, estranhar alguns estereótipos étnicos na obra de Norris, estereótipos esses que faziam parte da sociedade da época e que, dum certo modo, fazem parte da nossa sociedade até hoje, porém duma maneira mais velada. Desse modo, há uma personagem, Zerkow, um judeu polonês, sovina, vendedor ambulante que possuí os “lábios sem sangue” e “uma garra”, ou seja, dedos seguros — os dedos de um homem que acumula, mas nunca gasta. Além disso, ele sonha incessantemente com dinheiro e sempre entra em transe por perder um jogo de jantar feito de ouro. Essas alucinações de Zerkow são descritas pela sua empregada  mexicana Maria, que fica bastante seduzida por esse tesouro imaginário de seu patrão. A serviçal do avarento não possuí um bom nível de inteligência e é também uma cleptomaníaca, ainda que sua aparência não demonstre essas características.

Todavia, apesar desses estereótipos, uma leitura mais aprofundada, mostra que o narrador de McTeague queria trazer à tona a idéia de que todos os humanos não passam de animais, bestas ferozes, isto é, vivem sempre num “estado de natureza”.

Leitura recomendadíssima para os fás dos romances naturalistas do século XIX. Se você gosta de Aluísio Azevedo e Zola, não pode deixar de ler Frank Norris.

Compartilhe este post com seus amigos:
  • Print
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google Bookmarks
  • MSN Reporter
  • RSS
  • Twitter
  • email
  • MySpace

Leia também:

  1. Livro dos seres imaginários
  2. Recursos humanos

Tags: , ,

Leave a comment