Análise de três poemas atribuídos a Gregorio de Matos

Laís Azevedo

À CIDADE DA BAHIA – POEMA 8

Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente,
Pelas drogas inúteis, que abelhuda,
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus, que de repente,
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote.
AOS VÍCIOS – POEMA 11

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto que me inflama e que me inspira
Tália, que anjo é da minha guarda
Des que Apolo mandou que se assistira.
Arda Baiona, e todo o mundo arda,
Que, a quem de profissão falta à verdade,
Nunca a dominga das verdades tarda.
Nenhum tempo excetua a cristandade
Ao pobre pegureiro de Parnaso
Para falar em sua liberdade.
A narração há de igualar ao caso,
E, se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por poeta o que é Pegaso.
De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?
Sempre se há de sentir o que se fala.
Qual homem pode haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um e outra desconcerto,
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.
o néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrada e incerto.
E, quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz facinho, e nada aprova.
Diz lago, prudentaço e repousada:
—Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoca?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas
E se foras poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras,
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não – por não ter dentes.
Quantos há que as telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos?
Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.
Todos somas ruins, todas perversos,
Só nos “distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse’só me censure, esse me note,
Calem-se as mais, chitão e haja saúde!
AOS PRINCIPAIS DA BAHIA CHAMADOS OS CARAMURUS – POEMA 16
Há cousa como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.
A linha feminina é carimá
Moqueca, pititinga caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piraguá.
A masculina é um Aricobé
Cuja filha Cobé um branco Paí
Dormiu no promontório de Passé.
O Branco era um marau, que veio aqui,
Ela era uma Índia de Maré
Cobé pá, Aricobé, Cobé Paí.
COMENTÁRIOS:

Antes de realizarmos a análise dos três poemas, faz-se mister aduzir que nos referiremos a eles de acordo com a organização elencada na obra Poemas de Gregório de Matos, que consiste numa antologia d’alguns dos poemas pertencentes à escola Barroca, atribuídos ao poeta baiano.

Isto posto, falaremos, primeiramente, do poema onze, cujo tema é a corrupção que assola à Bahia. Nesse, o eu-satírico tece críticas mordazes ao povo baiano. Para isso, lança mão de vinte tercetos, isto é, estrofes compostas por versos, onde “o primeiro e o terceiro verso rimam entre si com o segundo da estrofe anterior” (Malard, 1997, p. 51). Ademais, ele adotou, outrossim, versos de onze silabas, o chamado hendecassílabo. Além disso, o escritor recorreu a vários tropos, destacamos a metáfora e a ironia. No tocante ao primeiro, podemos encontra-lo em diversas partes do verso. A metáfora, por sua vez, fica evidente, por exemplo, no décimo sétimo soneto.

Calcando-se no que foi aludido acima, vejamos como o poeta trabalha com a sátira e a cidade.

Nas três primeiras estrofes, o sujeito-satírico mostra que com sua lira já cantou os diversos males do Brasil, e os cantará outra vez, porém, desta vez por meio dum plecto diferente, isto é, lançará mão da Terça Rima. Interessante notar a referência à lira, que era um instrumento usado pelos gregos para acompanhar os poemas líricos. Entretanto, se a lira dos antigos era usada para cantar, na maioria das vezes, os amores, na mão da persona satírica gregoriana suas cordas acompanharão versos ácidos contra a sociedade baiana. Na terceira estrofe, ainda sobre a relação com a poesia produzida na antiguidade clássica, que foi posteriormente retomada pelos classicistas nos quinhentos, vemos o sujeito-satírico declarar que está sendo amparado também por Apolo — que é o deus da luz, das artes e da beleza — e por Talia — musa da comédia e das idilias. Essa última de fundamental importância, mesmo levando em consideração que a sátira distingue-se em alguns pontos da comédia, todavia uma possui elementos da outra.

Nos versos sete e oito, o eu-satírico diz que não pode ficar calado, pois ele está a ver o lamentável estado de sua cidade. Sendo assim, chama a atenção dos ignorantes, que por hipocrisia, falta de conhecimento e medo de falar preferem ficar calados. Partindo disso, poder-se-ia afirmar, então, que a persona satírica coloca-se no papel daquele que sabe a verdade e não tem medo de expô-la.

Para findar a análise deste poema, retomemos, agora, a invocação da musa Talia feita no sétimo verso do poema. Na mitologia grega, Talia era, como já dissemos, musa da idília, que consiste numa forma de poema curto que visava descrever a vida rústica, pintava o pastor, o animal e o ambiente. Ora, sendo assim, podemos ver que os animais no poema atribuído a Gregório de Matos, são os néscios, “as bestas feras” tal como ele canta na estrofe quinze. Já o pastor é o sujeito-satírico, isto é , pegureiro do Parnaso. Contudo, se nos idílios o tema era o de falar, mormente, da felicidade da vida, no poema onze essa ideia é descartada, haja vista que a persona satírica quer tocar nas chagas da cidade.

Doravante, ater-no-emos à analise de dois sonetos: oito e dezesseis.

No soneto oito — forma de disposição dos versos criada pelo italiano Petrarca, que consiste em duas estrofes formadas por quatro versos e duas estrofes finais de três versos — o tema é a decadência financeira da Bahia, que por sua vez, está ligado ao anticolonialismo. Acreditamos que este poema possui um gênero híbrido, ou seja, imiscuí a sátira e a lírica. É importante ressaltar que segundo Teixeira Gomes (1985 apud Malard, 1997, p. 44), o autor do poema recorreu a um discurso lírico atribuído a Franscisco Rodrigues  — poeta português que viveu no século XVI e XVII —, que angariou bastante sucesso na época.

No tocante às rimas, elas são distribuídas da seguinte forma: ABBA nos quartetos e CDE nos tercetos. De mais a mais, vale salientar que os versos são decassílabos à Os Lusiadas, do poeta luso Luís de Camões.

Com os elementos formais supracitados, partamos agora para a interpretação.

No poema, nos deparamos com um sujeito-lírico que lamenta a situação da Bahia em seu tempo. Destarte, ele identifica-se com a cidade, que nesse caso é personificada — eis aí uma figura de linguagem: a prosopéia —, haja vista que ambos compartilham os mesmos sentimentos de angústia que outrora não eram possíveis, posto que a Baia vivia momentos melhores. A segunda estrofe, por sua vez, coloca no cerne o comércio, que é responsável pela eclosão da bancarrota financeira tanto da cidade, como do sujeito-satírico. O do primeiro origina-se no comércio com os ingleses, a Bahia cede o valioso açúcar (cabe ressaltar que nesse período o produto de maior valia na colônia era o açúcar) e recebe as inúteis drogas. A do sujeito-lírico está calcada, por sua vez, as trocas que fazem sobre sua pessoa; isso pode ser lido como uma denúncia acerca das relações de negócio que se davam entre os cidadão baianos.

No remate do soneto há uma mudança de posição do sujeito-lírico. Se nos outros versos ele coloca a Bahia como uma vítima dos mercantes, no último terceto a persona lírica, valendo-se dum tropo — a metáfora — clama a Deus para que ele puna a cidade fazendo com que ela vista uma simples roupa de algodão, em outras palavras, uma indumentária trajada pelas pessoas de baixa condição social e pelos escravos. Contudo, ele não deseja para si as mesmas pragas que rogou à Bahia.

O soneto dezesseis, composto em versos decassílabos que seguem o padrão de rimas ABBA nos quartetos e CDC, DCD nos tercetos, traz à tona o tema das posições sociais na cidade. Utilizando a sátira, o eu-satírico vai apontar  um dos elementos que lhe desagrada fortemente, a ocupação de cargos de relevância por homens, Caramurus, que possuem algum parentesco indígena. Desta maneira, usando versos que têm diversas palavras indígenas, ele ridiculariza esses homens de alto cargo. Num viés romântico, isto é, calcado no projeto de literatura iniciado no século XIX, quiçá, afirmar-se-ia que o poeta, pelo fato de utilizar palavras indígenas, não estaria ridicularizando o índio, visto que ele fala de algo ligado aos autóctones brasileiros. Entretanto, como estamos diante duma sátira, percebe-se claramente que os vocábulos indígenas corroboram para depreciar ainda mais estes homens. Baseando-se no que foi explicitado anteriormente, vemos que o sujeito-satírico mostra-se insatisfeito com o modo de como a hierarquia, no que tange ao poder, se dá na Bahia.

Por último, não poderíamos deixar de ressaltar que a tríade de poemas atribuídos a Gregório de Matos — objeto de análise neste breve trabalho — continuam, dum certo modo, assaz atuais. As mazelas da colônia denunciadas nas sátiras gregorianas, principalmente as concernentes aos assuntos políticos, ainda, nos dias de hoje, em pleno final da década de 2000, continuam bastante pertinentes à sociedade brasileira. Infelizmente, o Brasil ainda sofre com a corrupção desenfreada que assola os três poderes.


REFERÊNCIAS:

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

____________.História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix 2006.

____________.Sobre alguns modos de ler poesia: memórias e reflexões. In: Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 1996.

CANDIDO, Antonio. Na sala de aula.  São Paulo, Ática, 1998.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 14 ed. rev. e atualizada. São Paulo: Ática, 2006.

MATOS, Gregório de. Poemas de Gregório de Matos: por Letícia Malard. Belo Horizonte: Autêntica Ed., 1998.

8 thoughts on “Análise de três poemas atribuídos a Gregorio de Matos

  1. Chinguem o quanto quiserem, não vai afetar na genialidade de Gregório de Matos, chinguem o uanto quiserem, pois vcs são pessoas sem informação, sem cultura, sem assuntos e sem argumentos, por falta de leitura, por falta de interpretação, meus parabéns, agora dêem um “ctrl c ctrl v” imprimam e entreguem às suas professoras, seus trabalhos mal feitos, sem nem ao menos ter noção do que diz ali, é por isso que o Brasil está como esta, sinto pena da educação, não adianta culpar apenas o governo sendo que estamos em uma geração de analfabetos funcionais.

  2. mandou bem, Bruna! Veja só que belo vocabulário o deles! Deve ser por isso que não entendem os poemas.

  3. Você tem todo o direito de não concorda com o que eles estão dizendo, mas você não tem o direito de chamar eles de analfabetos pois você,não sabe onde eles moram não sabe o lugar q eles vivem pois pense antes de tirar conclusões pois você esta vivendo nessa geração então os respeite porque você vive no mesmo mundo que eles.

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