Vício na fala – Oswald de Andrade – Uma breve análise

Laís Azevedo

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados

 

Comentários

Oswald de Andrade é, com certeza, um dos poetas mais brilhantes que já surgiram no panorama literário brasileiro. ícone do Modernismo que eclodiu na década de 1920, o poeta e prosador, alicerçado pela ideias do aludido movimento, rompeu com as tradições desenvolvidas nos oitocentos brasileiros. Assim, a poesia brasileira ganhou novas maneiras de ser produzida no tocante à forma e no que tange ao conteúdo. Logicamente, houve uma retomada de alguns elementos que foram importantes no Romantismo, tal como, por exemplo, a busca por uma produção literária que apresentasse características nacionais. No caso específico de Oswald de Andrade, o poeta não ignorava também as influências oriundas de fora; porém, essas deveriam ser utilizadas para romper com o que, como já dissemos, estava sendo produzido por aqui.

Os versos de “Vício na fala” são um bom exemplo disso. O eu-lírico traz à baila, de maneira sintética, valendo-se duma linguagem simples (sem os adornos, por exemplo, da poesia parnasiana), um poema que versa sobre as relações sociais que permeavam e até hoje ainda permeiam o Brasil.

Desse modo, nos cinco versos, o poeta elenca a forma popular e culta de vocábulos da língua portuguesa. Por meio da supressão dos verbos, ele vai aos poucos aproximando esses dois registros da língua, que de fato estão, no dia a dia, convivendo lado a lado. No terceiro verso, pior e pió estão colocados estrategicamente lado a lado. Em seguida, nos versos quatro e cinco, o poeta, valendo-se do verbo “dizer”, vai novamente afastando os dos modos de pronunciar as palavras. E, no findar do poema, ele quebra com a série de anáforas, e fecha com “E vão fazendo telhados”, que remete à classe de trabalhadores que laboram nos serviços ligados à construção civil e que usam essa forma, dita inculta, do português. Afora isso, tem-se também nesse último verso a idéia da urbanização que já, nos novecentos, estava aos poucos consolidando-se.

Em seis versos ágeis, o poeta conseguiu falar das diferenças que se dão na língua portuguesa falada no Brasil, por meio de uso de vocábulos ignorados nos movimentos poéticos anteriores. Ademais, introjetou elementos do cotidiano em sua poesia e de maneira sucinta, soube mostrar as diferenças que se dão, pelo meio do idioma.

Excelente poema!

 

10 thoughts on “Vício na fala – Oswald de Andrade – Uma breve análise

  1. Não encaro como vício na fala, mas como uma forma natural de uma determinada região e determinado nível cultural também. Podemos chamar isso de dialeto.

  2. Sim. Mas à época de Oswald, década de 1920, não existiam no Brasil, ainda, todas essas teorias da sociolinguística, que hoje estudam o assunto.

    O poema é interessante, no tocante ao aspecto que você levantou, pois como bom modernista Oswald já estava atento para todas essas variações.

  3. A que tipo de variação linguistica o autor faz referencia no poema? por quê? O autor está criticando as pessoas a quem ele se refere ou revela respeito em relação a elas? Justifique

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