Crânios, formicidas e uma irmã que chupa pau

Letícia

Vários crânios, de variados tipos, uns flutuando outros se arrastando; a maioria se arrastando. Crânios rumo à puta que pariu.

Eu. Parado. Grito: “dentista!, dentista!”

Uma bosta, o emprego. Fico com uns papéis na mão e tento atrair clientes. Você iria num dentista que tem um consultório num prédio fodido no centro da cidade? Eu sei que não. Eu concordo com você. Uns putos que nem diploma tem.

Eu. Parado. Grito: “dentista!, dentista!”. Canso-me. Olho o relógio. 15 minutos gritando: “dentista, dentista”. É o diabo.

Umas moças passam, aquelas com os ternos feitos para mulher. Aqueles ternos vagabundos que trazem uma cor preta, gasta, esbranquiçada, como se fosse porra que aos poucos escorre e mancha tudo, até mesmo o crânio. Lembro-me da minha irmã, neste momento. Num terno vagabundo, mal ajambrado, ela trabalha todos os dias. Não são todos os dias, sobra um tempo para ela chupar o pau do namorado. A existência de minha irmã resume-se a: um terno fodido, um emprego fodido e uma chupada no pau do namorado no final de semana. Bela vida.

Divago, sei.

Caminho em direção ao prédio; à escada; subo: o primeiro degrau, o segundo…

Empregos fodidos, sempre fodidos. Meu pai, enquanto ouvia um daqueles grupos de cantores travestis soviéticos dos anos 70, dizia: “as mulheres é que foderam com os homens. Eu não tenho emprego por causa delas. Se não existisse tanta mulher trabalhando, sobraria emprego para caras como eu!

Meu pai, um crânio seboso, careca que sustentava um óculos colado com durex. Aumentava o som da vitrola e gritava: “já que elas não me dão emprego, bem que podiam me dar suas bocetas para eu limpar, entendeu? Eu limparia só daquelas bonitas, aquelas bem gostosas. Seria assim: ficaria sentado; eu sentado ao lado delas perto da latrina; aí com o papel na mão; depois da mijada delas, limparia a racha delas!”. Ele ria e repetia: “a racha delas!”

Careca sujo, eu sei. Foda-se o velho que passou pelo sangue o fracasso que ele adquiriu do avô, que adquiriu do bisavô e que corrompeu todos da família. O sangue da desgraça, que é passada tal como a loucura e todos os outros vícios. Divago, sei.

No primeiro andar, paro. Penso que: em poucos segundos um crânio formicida, compacto, com uma cabeleira cor de Fanta receber-me-á! Ah! Desatino.

Qual é o sentido de tantos crânios no mundo?

Paro em frente à porta. Escuto uns gritos dum cara; berros oriundos dum consultório. Não estão arrancando os dentes ou colocando aquelas massas durepox; fazem, eu acho, trepanação nesses putos. Abrem os crânios, lá encontram apenas uma interrogação e um chip que diz: “arraste-se crânio”.

Bato na porta. Grita: “só um segundo, só um segundo, já vou”.

Abre a porta. Estende a mão para mim, o crânio de mão rançosa. Sinto o cheiro de “Bom ar”, desodorante de cu. Falo que é desodorante de cu, porque sempre que cagam, borrifam bom ar. Uma vez trabalhei na casa duma senhora que, sempre depois dar uma cagada, borrifava o desodorante anal pela casa. Sinto o cheiro até hoje. Lavanda do campo. Veja lá se cu tem cheiro de lavanda do campo. Assuma o cheiro da merda, não se esconda. Divago, sei.

Cinco dedos colados a uma massa de carne. Há algo mais nojento que a mão do ser humano? Passa por tudo quanto é local, pelo cu, pelo pau, pela boceta, pelo nariz, pelo cabelo, por aqueles ferros de ônibus, por defuntos, bolas, cadáveres. Rançosa, nauseabunda, grotesca, formicida.

Aponta em direção à cadeira. Sento-me. “Demito-me”, digo. “Vai largar um emprego foda desses?”, ele pergunta. “Sim”, respondo. “Tenta mais um pouco, meu chapa”, ele diz. “Vai se foder, meu chapa! Pro diabo com esses dentistas noiados, a puta que pariu pra você também, seu crânio formicida dos infernos, e soque essa mão sebosa sua no meio do cu”, grito.

O soco é rápido.

Ele dá no toco do nariz.

O caldo

desce

vermelho.

Sinto tonturas.

“Caio seu filha-da-puta, quebrou meu nariz”, grito engolindo sangue.

Caio.

Levanto-me. Saio da sala. O nariz fodido. Estanco o sangue com a camisa. Na rua, vejo-as com os ternos preto-porra. Paro em frente a uma delas. Dou no toco do nariz, o soco. Rápido. Ela cai. Corro. Sinto-me aliviado.

Preciso do emprego. Pro diabo!

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One comment

  1. Bom conto!

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