Homossexualidade nas literaturas de língua portuguesa do séc. XIX

Laís Azevedo

Homossexualidade é um tabu, ainda nos dias de hoje. Imagine esse tema sendo tratado no século XIX? No Brasil e em Portugal, o homossexualismo foi aduzido na literatura de cunho naturalista. Naquele período, assim como há pouco tempo (falo aqui no tocante à ciência e não ao pensamento de determinadas camadas da sociedade), optar por alguém do mesmo sexo era visto como uma doença, um desvio de comportamento que levava o indivíduo a um estado degradante. A literatura naturalista, contaminada pela ciência que estava desenvolvendo-se a todo vapor no século XIX, coadunava, também, com a ideia de que os homossexuais eram indivíduos enfermos.

Nos oitocentos, os ideais duma família estruturada por: marido, mulher e filhos, foram levados ao extremo. À mulher cabia a administração da casa, o orçamento e a educação dos filhos. O homem, por seu turno, era o provedor. Foi no período oitocentista que as crianças ganharam um novo olhar. Outrora, por exemplo, não havia o período da adolescência. Assim, os infantes eram tratadas como adultos em miniatura. Isso fica bem explícito nas pinturas renascentistas, barrocas e, claro, nos documentos dessas épocas.

Partindo do pressuposto que esse núcleo familiar burguês era considerado o padrão certo para que uma nação fosse civilizada e progredisse — no melhor espírito positivista, cada vez mais —, tudo que não se adequava a esse pensamento familiar burguês deveria ser curado ou eliminado do corpo social. Ora, desse modo, a literatura naturalista, que buscava apresentar os males sociais no intuito de corrigí-los, colocava no cerne de suas narrativas: homossexuais, prostitutas, libertinos, solteiros; enfim, todos aqueles que, duma certa maneira, apresentava um risco para a unidade familiar.

No Brasil, o maior exemplo de exposição da homossexualidade masculina na literatura do século XIX, deu-se através da pena de Adolfo Caminha em O Bom Crioulo. Mas e a homossexualidade feminina? O assunto ficou a cargo de Aluísio Azevedo. O conhecido autor de O Mulato, O cortiço e Casa de pensão, que é apontado pelos historiadores literários de ter trazido para o Brasil os ditames da escola de Émile Zola, escreveu, também, romances românticos e fez, em pleno período Imperial, da pena o seu mister. Azevedo, então,  costumava a escrever folhetins, um desses foi A Condessa Vésper. A obra com pitadas naturalistas e o enredo, principalmente, romântico aduziu o safismo, isto é, o lesbianismo na literatura brasileira.

A Condessa Vésper traz à tona uma variedade imensa de personagens, o livro tem reviravoltas típicas de folhetins que podem ser observadas, ainda nos dias de hoje, nas telenovelas. As principais personas são: Gaspar, Ambrosina, Gabriel, Gustavo  e Laura. Ambrosina, depois dum casamento frustrado com um homem, Leonardo, que enlouquece no na noite de núpcias, torna-se amante de Gabriel. Esse último, um jovem que herdara uma boa fortuna da mãe e fora criado por Gaspar, um médico, faz de tudo para manter Ambrosina ao seu lado; porém, a jovem sempre consegue enganá-lo e pegar do rapaz bons contos de réis. Laura é, tal como o grumete de O Bom Crioulo, a paixão de Ambrosina, que conhece a garota graças a uma intervenção de Gabriel. Ambrosina, num dos seus golpes, seduz Laura e foge para a Bahia. O interessante é que, em nenhum momento, o narrador explícita com detalhes a relação amorosa entre as duas mulheres, há sempre um jogo de palavras, um eufemismo, para trazer à tona a questão para o leitor. Gustavo, por sua vez, aparece na história quase no findar da obra, quando Ambrosina, depois de retornar da Europa — Laura já havia morrido — torna-se a Condessa Vésper. A figura de Gustavo é interessante, uma vez que o jovem assemelha-se muito a história de vida do próprio Aluísio. Oriundo duma província, o rapaz além de tornar-se escritor era também caricaturista. O fato é que, tal como Gabriel, Gaspar e outras personagens, o provinciano também, depois de travar contato com Ambrosina, tem sua vida ceifada.

Essa característica mórbida, de ceifadora, que Ambrosina desempenha na narrativa e sua personalidade ladina que sempre atrapalha a vida dos outros está, implicitamente nas palavras do narrador, ligada à sua opção sexual. A conduta homossexual de Ambrosina, que não se regenera em nenhum momento do romance, mesmo tendo ao seu lado um médico, que é uma figura muito utilizada nos romances naturalistas e, até mesmo nos românticos, para colocar certas personagens no caminho considerado correto, não funciona. A obra demonstra que o homossexualismo, se não fosse curado, levaria não somente o indivíduo que sofria de seus males à morte, bem como todos aqueles que o cercavam.

A história duma personagem que acaba, devido aos vícios das paixões homossexuais, encaminhando os outros para situações degradantes, aparece também em O Barão de Lavos, do escritor português naturalista Abel Botelho. Influenciado, tal como Azevedo, por Émile Zola, o autor escreveu uma série de cinco romances, cujo título é Patologia Social. O nome da série já indica bem a proposta do escritor português. A ideia de traçar as principais doenças que atingia Portugal no ultimar do século XIX abre-se com a história do Barão de Lavos, a personagem Sebastião Pires de Castro. Casado com Elvira o Barão, no decorrer da narrativa, devido sua obsessão por pessoas do mesmo sexo, vai se degradando tanto psicologicamente como fisicamente. Dono de uma boa fortuna herdada do pai, após conhecer Eugênio, um jovem rapaz que aceita tornar-se amante do Barão de Lavos por uma boa oferta de dinheiro, Sebastião põe tudo a perder. Elvira, sua esposa, apaixona-se por Eugênio; desse modo, o casamento é destruído, uma vez que o Barão sente-se traído duplamente, ou seja, tanto pelo jovem, bem como pela baronesa. A homossexualidade que é explicada como uma doença, um mau que se dava por meio da hereditariedade, leva o barão à falência.

A narrativa, calcada nos ideiais naturalistas, apresenta a figura do barão de forma nauseabunda; isso tudo, devido a homossexualidade. O narrador condena a felação, que surge de forma surpreendente na narrativa, numa noite entre Eugênio e Sebastião. Ademais, alerta para os riscos da masturbação, que provoca enfermidades na pele do barão. Interessante notar como essa visão do sexo como algo feito somente para procriar e manter a família ganha força no século XIX através das teorias cientificistas. O ideal de procriação já era colocado pela religião católica de forma bem explícita, porém ganha força no século científico. Essa mentalidade perdura, ainda, nos dias de hoje.

Nas duas narrativas que foram brevemente comentadas neste texto, vemos que os autores naturalistas encaravam os homossexuais como criaturas perigosas, maliciosas, que não mediam esforços para satisfazerem, na visão dos autores, seus pérfidos desejos.

A leitura das obras supracitadas ajuda a entender bem a mentalidade do período, além de trazer os recursos estéticos que eram empregados para aduzir o tema.

Aconselho, fortemente, para todos que gostam de literatura a leitura de A Condessa Vésper e O Barão de Lavos. Ambos, infelizmente, esgotados, mas que podem ser encontrados nos sebos.

Compartilhe este post com seus amigos:
  • Print
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google Bookmarks
  • MSN Reporter
  • RSS
  • Twitter
  • email
  • MySpace

Leia também:

  1. “Bel-Ami” – de Guy de Maupassant – clássico do séc. XIX
  2. L’Assommoir – Émile Zola – Pobreza e alcoolismo em Paris na segunda metade do século XIX – Por Camila Ribeiro
  3. Peter Pan na obra original e nas versões: Uma análise comparativa
  4. O mundo fantástico da ciência náutica portuguesa

Tags: , , , ,

One comment

  1. Parabéns pelo site! Interessantes artigos!

Leave a comment