Novela erótica/pornográfica em cinco capítulos – I

Alice Dias

O texto de Alice Dias, que será publicado, de agora avante, no literatura em foco, é uma tentativa de resgatar a tradição das novelas eróticas e pornográficas do século XVIII e XIX. Percebe-se, na leitura dos cinco capítulos que fazem parte da narrativa, uma forte influência de Marquês de Sade, John Cleland e demais autores anônimos que usaram o gênero romance para descrever aventuras e desventuras de heroínas ou anti-heroínas; trajetórias essas, cujo sexo desempenhava um papel primordial. Confiram o primeiro capítulo!

Na natureza, somente, como bem comprova a teoria, sobrevivem os mais fortes. Às vezes, os caminhos da virtude, da honra, da verdade e da pureza são os caminhos mais tortuosos para uma jovem, e nem sempre essas rotas são as mais compensadoras. Basta. Penso que devo deixar o leitor optar se os caminhos que trilhei foram mais venturosos, se a tentativa de defender minha honra foi a melhor escolha. Deveria eu optar pelo vício?

O luto

Eu acabara de completar 18 anos, quando meu pai, comendador Vinicíus Mendonça Freire, morreu devido a uma apoplexia. Minha mãe não resistiu ao choque e veio a expirar, acometida pela mesma enfermidade, dois meses depois. Eu e minha irmã herdamos uma casa num arrabalde próximo de Lisboa, onde morávamos, e recebemos também as inúmeras dívidas de meu pai. Ficou a cargo de meu tio, António Mendoça Freire, que havíamos visto somente uma vez, posto que ele era um negociante que viajava pelo mundo, administrar nossos bens até que completássemos 21 anos.

Nosso tio era viúvo, a mulher morrera tísica. Não tinha filhos, porém gabava-se que tinha bons contos de réis e se quisesse poderia comprar quantos filhos lho bastassem. Era ganancioso. O nariz reto, o queixo proeminente, as orelhas de abano e a mania de cofiar constantemente o bigode dava-lho um olhar vil, maligno. Era um homem, cujo sangue herdara as torpezas e as vilanias que fazem deste mundo um lugar pior que ele já o é.

Eu e minha irmã, Júlia, que outrora vivíamos uma vida um pouco mais confortável, enfrentávamos, após a morte de meus pais, as economias e censuras dum avarento.

De como os humanos são maléficos

Uma noite, à luz do gás, eu estava a ler Paulo e Virginia, quando meu tio adentrou em meu quarto, sentou-se na beirada da cama. Seus olhos penetraram em meu colo de maneira ameaçadora. Ele trancou a porta, colocou a chave no bolso e depois disse-me, mirando meu busto e cofiando o bigode:

— Júlia e tu bem sabes a despesa que me dão. Vosso pai deixou dívidas, e se não fosse por mim estaríeis morrendo a míngua, estaríeis entregue à miséria.

Concordei. Ele sentou-se ao meu lado, pousou uma das mãos sobre minha perna. Tremi ao sentir aquela garra apertando minha carne.

— Tu bem sabes, Clarice, que já podes contrair núpcias. Por isso, arrumei para ti um marido. Casar-te-ás com um brasileiro que está a enriquecer no Rio de Janeiro. Ele está quase a receber o título de barão por aquelas terras.

— Mas, meu tio – falei – como irei para aquela terra de brutos animais, infestada de enfermidades e  rústicas pessoas? Não desejo casar-me, prefiro ir para um convento.

— Com o diabo para os padres – ele respondeu e colocou a outra mão na minha perna – casar-te-ás de qualquer jeito. O contrato já está selado e selada tu estarás até o dia de teu casamento. Uma mulher que não se casa é um estorvo para a família. Tu tens sorte, ele não pediu nenhum dote. Além disso, é com os mais velhos que se aprende. Tu terás três enteados, um deles é uma moça da tua idade.

A ideia de casar com um homem mais velho e mudar para um país selvagem como o Brasil me assustara. E a pobre Júlia? O que seria feito com ela? Mantive-me calada. Ele deu uma risada.

A luz do gás diminuía. Subitamente, vi quando ele levantou-se, estacou em minha frente e com uma das mãos apalpou meu seio e deixou-o à mostra.

— Veja como são rosados – disse rindo enquanto com a outra mão abaixava com dificuldade a calça.

— Solte-me!  – gritei.

Meu tio parecia um sátiro. O demônio da luxúria parecia ter tomado seu corpo. Desvencilhei-me de suas mãos e corri em direcção à porta. Esmurrei-a, gritei; no entanto, ninguém veio ao meu socorro. Eu seria desonrada, ali?

Ele veio em minha direção, porém numa das mãos trazia um punhal. Parou defronte a mim e mandou que eu ajoelhasse-me. Obedeci.

— Por Deus, ó meu tio, não me desonre! Caso-me, vou para o Brasil, mas não me desonre – implorei com o rosto banhado em lágrimas

— Não serás desonrada – ele disse abaixando a calça e mostrando um membro rígido com veias salientes, cujo tamanho assustou-me, pois eu nunca havia visto as partes íntimas dum homem – Irei usar outras entradas até o dia de teu casamento. Vamos passe a língua aqui – ele falou apontando para a cabeça do membro.

Não me restou alternativas. Trêmula, projectei minha língua e toquei o rígido membro que estava diante de mim. Ele estremeceu de prazer, fechou os olhos e pediu para que eu passasse a língua em toda extensão de seu órgão. Não protestei. Desajeitadamente, aos poucos, com minha pequena língua, varri todo membro de meu tio que arfava de prazer.

— Agora – ele ordenou – abocanha-o. Dá-me tua mão – ele pegou minha mão e me fez segurar o membro que parecia cada vez maior.

— Chega – protestei.

— Continue – ele ameaçou-me com o punhal – Isso movimente assim com as mãos, puxa-o para cima e para baixo. Mais rápido – ele ordenava.

A porta cerrada, a casa muda. Eu movimentava o membro como ele me ordenara.

— Agora coloca a boca, coloca a boca – ele dizia.

Abri meus lábios rosados, puros e pequenos; tentei abocanhar a cabeça daquele membro que soltava um líquido viscoso, líquido que mais tarde descobri que antecedia algo maior. Assim, movimentava o membro e tentava colocá-lo na boca. Meu tio puxava meus cabelos, queria que eu sugasse ao máximo seu pênis rijo.

— Tu deves estar molhada aí em baixo, rapariga. Quero me certificar de que…

Ele deu um grito forte, achei que uma apoplexia jogaria-o ao chão. Porém, de seu membro jorrou uma quantidade enorme dum líquido branco que penetrou pelos meus lábios, espalhou-se pelo meu rosto e caiu até meus seios. Foi um jato quente, viscoso numa quantidade absurda, o líquido pingava por todo chão.

Extasiado e com o membro ainda em riste, ele mandou-me ir para cama e disse-me que meu casamento seria realizado na próxima semana. Saiu pisando duro, trancou a porta. A luz do gás diminuiu. Sentada no chão, limpei o rosto com as costas das mãos. Queria lavar-me, porém o maldito havia levado a chave. Até quando minha honra seria mantida? Eu teria que sair daquela casa o mais rápido possível. Cair nas garras daquele sátiro, seria o fim de minha honra.

Adormeci com os vestígios da luxuria de meu tio que insistia em não deixar meu paladar. Acordei, ainda era noite, a porta foi se abrindo aos poucos. Outro suplício? Eu não aguentaria.

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10 comments

  1. Aguardo a continuação!

  2. Bom texto, mas acho que a escritora poderia ousar mais no próximo capítulo.

  3. OBSERVAÇÕES:

    a) “… até que completássemos 21 anos”. Eram gêmeas? (he he he he, é só brincadeira minha, porém poder-se-ia articular melhor esta frase, algo como: “até que a menor de nós duas não completasse 21 anos”).
    b) “Era um homem, cujo sangue herdara as torpezas e as vilanices que fazem deste mundo um lugar pior que ele já o é”. 1°) Vilanices? Que palavra é esta? Parece pouco usada! Seria usada talvez no tempo da narração? Sei não! 2°) “pior que ele já o é”, não está faltado o “do”, ou seja: “pior do que ele já o é”. Ou erro nesta observação?!
    c) “Júlia e tu bem sabes a despesa que me dão”. Está mal articulado isto. Talvez “Júlia e tu, tu bem sabes a despesa que me dão”.
    d) “Vosso pai deixastes dívidas…” Esta foi de matar! O correto é: “Vosso pai deixou…”.
    e) “Tu terás três enteados, um deles, és uma moça da tua idade”. “És”? O certo é “é”, pois se refere a “um deles”.
    f) “Direcção”, assim se escreve em Portugal, mas em seguida a autora escreve “direção”…, dá a impressão de que finge, pois não mantém o estilo.
    g) “Abocanhe-o; continue; movimente; puxe-o; coloque”? Que horror: Isto é terceira pessoa, quando o tio dela a está tratando em segunda pessoa (tu): o certo é “abocanha-o; continua; movimenta; puxa-o; coloca”…
    h) “… jorrou um quantidade enorme…” “Uma” quantidade.
    i) “… líquido que mais tarde descobri que antecedia algo maior”. Deveria ter evitado o segundo “que”, isto é “queismo”.
    j) …achei que uma apoplexia jogaria-o ao chão. Porque não “jogá-lo-ia”?
    k) “Cair nas garras daquele sátiro, seria o fim de minha honra”. Já caiu, pois! Melhor seria dizer “ter caído” e “será”!

    Tony.

  4. literatura em foco

    Tony, realizei as alterações. Grande parte delas, ao meu ver, pertinentes. Entretanto a questão de mesclar ortografias é intencional, mesmo que soe estranho. Esse aspecto está disseminado por todos os capítulos.

    Em relação à observação K, de facto, cabe mesmo a interpretação por parte do leitor. A personagem considera o fim da honra, somente, o sexo vaginal. Por isso, a frase foi escrita de tal maneira.

    Agradeço a revisão. É um prazer poder ler críticas construtivas e que me ajudam a melhorar.

    Muito obrigada,

    Alice Dias

  5. Oi, Alice!
    Que honra receber resposta sua. Confesso-lhe que, logo depois de ter postado estas observações, temi ter faltado com o respeito, mas eis que você responde de maneira tão amável que realmente me tranquilizou. Obrigado! Mais tarde tratarei de ler a continuação deste seu escrito, ok?! Vai em frente.
    Um abraço.

    Tony (from Bournemouth, UK).

  6. Alice, estimada escritora,

    corrijo a anterior mensagem, que pena! Bem pode ver você que sou brasileiro, pois, na pressa, escapou-me um “vai em frente!”. Errado. O certo é “vá em frente”, pois – como se faz na minha terra – estou a tratá-la por “você”! Todos necessitamos de constantes revisões! (Ha, ha, ha, ha, ha!)

    Até mais!

    Tony.

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