Casa de pensão – Aluísio Azevedo – Por Gabriel Diniz

24875_63jpgI. Apresentação:

O naturalismo brasileiro contou com alguns representantes notáveis, Adolfo Caminha, Inglês de Souza, Júlio Ribeiro e Aluísio Azevedo. Esse último, com certeza, foi um dos expoentes do movimento Naturalista brasileiro. Influenciado pelo francês Émile Zola, Azevedo escreveu uma tríade de obras marcante que é composta por O mulato, Casa de pensão e O cortiço.

Aluísio Azevedo, nascido no Maranhão, foi o primeiro romancista brasileiro que dedicou-se profissionalmente ao ofício de escritor. Sendo assim, sua obra não foi somente calcada no naturalismo, ele também deixou romances com fortes influências do movimento Romântico; livros que foram publicados primeiramente em forma de folhetim.

II. Resumo da história:

Casa de pensão lançado em 1884, traz à baila a história de Amâncio Vasconcelos, filho dum comendador do Maranhão, que parte para a Corte no intuito de estudar medicina. Ao chegar na capital fluminense, o estudante é recebido por Campos e sua mulher Hortênsia. Durante seus passeios pela cidade, ele encontra outros estudantes, dentre eles: João Coqueiro, um jovem  que contraiu núpcias com uma mulher mais velha Mme. Brizard, uma francesa. Coqueiro e a esposa são donos dum pensionato, onde moram algumas figuras interessantes que são apresentadas no decorrer da obra. Todavia, na casa de pensão, além dos hóspedes, residem a irmã de João Coqueiro, Amélia e os filhos do primeiro casamento da francesa, Nini e César. É nesse contexto que a trama desenrola-se.

Coqueiro e a família decidem conquistar a confiança de Amâncio, na intenção de casá-lo com Amélia, para com isso desfrutarem da grande fortuna do rapaz. Deste modo, o jovem é convidado a morar no pensionato. Depois de mudar-se para o local, o mancebo maranhense sente-se, num primeiro momento, atraído por Lúcia, uma das hóspedes que mora com Pereira, um homem preguiçoso. Após alguns na residência, Amâncio fica doente. Isso faz com que ele aproxime-se ainda mais de Lúcia e de Amélia. Percebendo a aproximação da mulher de Pereira, Coqueiro decide expulsá-la do pensionato, para que ela não atrapalhe o futuro casamento do estudante de medicina com Amélia.

Depois de Lúcia e o marido serem colocados na rua, as relações de Amâncio com Amélia estreitam-se e os dois tornam-se amantes. Todavia, a doença de mancebo não melhora, o médico aconselha-o a mudar de casa. Para não perderem  o bom partido, a francesa e o marido, juntamente com a família e os hóspedes, também mudam de residência e estabelecem o pensionato noutro local.

Após curar suas moléstias, o futuro doutor nas artes médicas passa a sustentar João Coqueiro e a família, dado que as poucos os hóspedes da casa vão deixando o lugar. Amélia começa a ficar mais exigente, Amâncio é obrigado a comprar vestidos, jóias e, além disso, começa a sustentar a casa. Todavia, não lhe passa pela mente em momento algum casar com a jovem, para desespero do irmão da mesma.

Nesse ínterim, o maranhense apaixona-se por Hortênsia e escreve-lhe uma carta que antes de ser enviada é furtada por Amélia. A missiva que irá comprometer o jovem no decorrer da história reescrita e enviada para a esposa de Campos. Porém, a mulher não desperta, no momento, nenhum sentimento pelo estudante de medicina. No mesmo período, a irmã de Coqueiro convence Amâncio a comprar uma outra casa, para que possam ter mais liberdades. O jovem compra a casa, juntos sem precisar encontrarem-se às escondidas os dois amantes, acompanhado pela família de Amélia, mudam-se para  a nova moradia. A paixão do casal torna-se mais fria.

Amâncio, logo após receber a notícia do falecimento do pai, resolve voltar ao Maranhão no período de férias. Porém, ao comunicar sua decisão para Amélia, ela não concorda e diz para o mancebo que ele só viajaria caso os dois casassem-se. Amâncio, que não deseja contrair núpcias, aconselhado por Paiva—  um dos estudantes da Corte —, resolve fugir sem a família de Coqueiro saber. Porém, já sabendo das intenções do rapaz, Coqueiro apronta para o jovem uma cilada. Sendo assim, comunica a polícia que o rapaz violentou Amélia.

O maranhense, então, é preso. Para defender-se conta apenas com a ajuda de Campos. Contudo, Coqueiro apresenta para o único amigo do jovem a carta que o mancebo enviou para Hortênsia. Porém, mesmo com todas as armadilhas criadas por Coqueiro o réu consegue a absolvição, e passa a ser aclamado no Rio de Janeiro, uma vez que o caso ganha notoriedade entre a população. Coqueiro, por sua vez, fica humilhado. Desgostoso da vida, numa manhã, ele entra no Hotel Paris, onde Amâncio está hospedado, e efetua uma série de disparos contra o jovem que morre no quarto clamando pela mãe.

II. Considerações críticas:

Dentre as três obras escolhidas pelos críticos e historiadores de Literatura, Casa de Pensão talvez seja uma das melhores de Azevedo. Todavia, ela não contém como em O cortiço todos os elementos naturalistas bastante evidentes. É possível notar, mesmo nessa obra que os estudiosos consideram como uma das principais do naturalismo brasileiro, alguns traços folhetinescos. Esses últimos evidenciam-se mormente pela divisão dos capítulos, que nos moldes dos romances publicados nos jornais da época, visam suspender a ação num capítulo para gerar uma ansiedade no leitor, que tornava-se ávido para ler os próximos. Técnica utilizada até hoje nas telenovelas brasileiras para que o telespectador não deixe de acompanhar os outros capítulos da novela.
Uma das premissas basilares do naturalismo zolista era a de expor todas as chagas da sociedade, aduzir a coletividade de fato como ela era. Para isso os integrantes dessa escola literária utilizavam das teorias científicas da época — determinismo, evolucionismo et cetera. Assim sendo, as personagens tem suas ações determinadas devido às suas características físicas e pelo meio que as cercam.

Interessante notar, que diferentemente da maioria das personagens que compõe uma obra romântica, todos as personas dessa obra de Azevedo são hipócritas, querem sempre levar vantagem em tudo.

Amâncio, por exemplo, ajuda a família de Coqueiro para apenas desfrutar bons momentos de prazer com Amélia, sem assumir qualquer tipo de compromisso. Mantém a moça como uma cortesã.

Coqueiro, apesar de afirmar que interessa-se apenas em arrumar para Amélia um bom casamento, na verdade, quer é garantir seu sustento por meio da fortuna do cunhado. Sendo assim, não importa em colocar a moça nas mãos do estudante de medicina. De maneira semelhante pensa Mme. Brizard, para a francesa o que importa é garantir seu conforto e a internação de Nini, sua filha histérica, numa casa de saúde.

Falando na filha da esposa de Coqueiro, Nini; faz-se mister destacar que o histerismo foi um dos temas prediletos dos naturalistas. O assunto foi fortemente explorado por Aluísio Azevedo em O homem, por meio da personagem Magdá. Porém, é estranho notar que a obra não é considerada naturalista.

Ainda no tocante às personagens, cabe-nos realizar algumas considerações sobre os hóspedes.

Um deles, um doente que sofre com a tuberculose, é afastado de todos. Por meio deles, Azevedo expõe uma das enfermidades mais graves que grassou o Brasil no século XIX e no início do século XX; moléstia essa que ceifou a vida de inúmeros poetas da literatura ocidental. Numa das passagens em que as personagens dialogam acerca do tísico, um dos hóspede sente-se aliviado pelo fato de seu quarto não estar no mesmo andar da alcova do enfermo. Segundo esse pensionista, os miasmas que provocam o contágio da doença não seriam capazes de atingí-lo. A teoria dos miasmas era comum no pensamento médico oitocentista, a causa das doenças era atribuída geralmente a esses gases maléficos. Não se conhecia no período o bacilo de Koch. A teoria gerou inúmeras polêmicas no século XIX, os médicos da época acreditavam que os miasmas eram também expelidos pelos cadáveres, isso fez com que os mortos que outrora desfrutavam do sono eterno nas igrejas, fossem — para o desgosto da maioria da população — removidos para os cemitérios.

Pereira, talvez possa ser vista como a personagem cômica da casa de pensão. O homem não gosta de fazer nada, a preguiça contamina-lhe de tal modo que ele parece não se importar que a mulher o traia bem debaixo de seu nariz. Diferentemente do que ocorre em O cortiço, o narrador de Casa de pensão não atribuí, pelo menos explicitamente, a causa da preguiça do marido de Lúcia ao clima tropical.

Ponto de destaque outrossim é julgamento de Amâncio. Essa parte do livro traz um bom apanhado dos tortuosos caminhos do direito e do processo penal no período imperial. Mostra a corrupção que imperava no período e como o judiciário ainda engatinhava na jovem nação. Isso fica evidente quando Coqueiro por intermédio dum advogado consegue duas testemunhas de acusação mentirosas que juraram ter escutado os gritos de Amélia. O jovem, como bem frisa o narrador, estava sendo acusado com base no artigo 222 do código criminal do Império; o dispositivo elencava que “ter cópula carnal por meio de violência ou ameaças com qualquer mulher honesta”, resultaria num pena que variava de três a doze anos; caso a mulher fosse uma prostituta, a reclusão poderia variar de um meses a dois anos. Ademais, o sentenciado era obrigado a pagar um dote para a ofendida. Ora, como sabemos, na sociedade do oitocentista brasileira, bem como em praticamente todo o resto do mundo ocidental no período aludido, a mulher era totalmente submissa. Outro detalhe jurídico que merece atenção é o uso do Júri Popular para determinar as sentenças calcadas nos crimes contra a honra; nos dias de hoje o Júri Popular é usado apenas no caso de crimes dolosos contra a vida.

Sobre a linguagem do romance, saliento aqui uma das partes onde um velho político duma certa província está conversando com um dos hóspedes do pensionato; o narrador diz que: “[...] mas que, nem à mão de Deus Padre, pronunciava os rr e os ss e dizia: ‘Os partido liberá, os senadô’, e outras barbaridades.” Como vemos os preconceitos inerentes a certos registros da língua foram registrados em Casa de pensão; a variedade linguistica mostrada na fala do ancião é motivo de indignação por parte do narrador.

Interessante evidenciar nessa breve análise a cena do assassínio de Amâncio. Apesar de surgir para se opor ao romantismo, o naturalismo não dispensa certos usos que se deram nas obras em poesia e em prosa romântica. A natureza sombria que acompanha Coqueiro até o Hotel Paris reflete os seus sentimentos. Em outras palavras, do mesmo modo, que o homicida sentia-se angustiado, a natureza ao seu redor mostrava-se assim também. O narrador diz que Coqueiro “abriu a janela. O dia repontava já, mas enevoado e triste. não havia azul; o céu e horizontes de neblinas formavam uma só pasta de cor pérola, onde vultos cinzentos se esfumavam. Deste modo, o céu nublado,  o fim da festa no hotel com o lixo espalhado por todos os cantos  — comemoração realizada para festejar a absolvição de Amâncio —  e o silêncio representam bem o estado de espírito do ambicioso homem antes do delito ser cometido.

O que foi aludido anteriormente denota que uma escola literária jamais rompe totalmente com outra.

Pode-se dizer que Casa de pensão não é a melhor obra naturalista de Azevedo; O cortiço com certeza ocupa esse posto. Todavia, na obra aqui analisada Azevedo mostra-se um dos melhores romancistas brasileiros do século XIX e de toda nossa literatura. É uma obra para ser lida não apenas pelos estudiosos de literatura, mas sim por todos aqueles que gostam de romances de qualidade.

Curiosidades:

Rita Baiana, uma das personagens que aparece no início da obra, ressurge em O cortiço.

Casa de pensão foi baseada num fato real que ocorreu no Rio de Janeiro em 1876.

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One comment

  1. Adoreiii
    Explificou de a historia de
    uma maneira claraa….

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