Esaú e Jacó – Algumas considerações

Laís Azevedo

Joaquim Maria Machado de Assis é, sem dúvida, um dos literatos brasileiros mais celebrados de todos os tempos. O autor que se aventurou em diversos gêneros literários é, atualmente, um dos escritores mais estudados pela crítica nacional.

Exímio contista, Machado de Assis deixou também romances de bastante qualidade e sucesso: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba. Essa tríade de obras é, com certeza, a mais conhecida do escritor fluminense. Todavia, como se sabe, o autor de Helena produziu romances toques românticos e outros em sua fase dita mais madura, tais como: Esaú e Jacó e Memorial de Aires; sendo esse último, o último livro publicado pelo escritor

Um escritor realista?

Boa parte dos historiadores literários buscaram encaixar Machado de Assis no movimento Realista brasileiro, uma vez que Memórias Póstumas de Brás Cubas juntamente com O mulato de Aluísio Azevedo inauguraram, em 1881, o movimento duma literatura “real” nas terras brasileiras. O problema nessa história toda é que a obra de Machado difere-se muito do realismo-naturalismo praticado tanto em França (terra de origem dos romances de tese) como no Brasil. Pode-se afirmar isso, logicamente, lendo as obras de Machado. Não há uma preocupação do escritor carioca em nortear seus narradores, personagens, a estrutura de seus romances tendo como base as teorias cientificistas, tais como: o evolucionismo social, o determinismo, o positivismo, etc. Pelo contrário, o autor de Quincas Borba beberá em outras fontes. Suas influências literárias e filosóficas, que ele não faz questão de esconder, concentram-se mormente nas obras escritas por autores ingleses como: Shakespeare, Sterne. O primeiro, com Otelo talvez tenha sido uma boa inspiração para a composição de Dom Casmurro. De Sterne, Machado de Assis aproveitou a composição tipográfica e o maneira de estruturar os romances, com o uso, por exemplo, de capítulos curtos e bastante ironia. Elementos esses que seriam utilizado pelos modernistas somente após 1922. De fato, Machado era um escritor de vanguarda.

Isso posto, poder-se-ia dizer que Machado foi sim um realista, posto que retratou bem as características da segunda metade do século XIX. Entretanto, Machado de Assis não foi realista à Zola, à Flaubert, dentre outros. Poder-se-ia dizer, que o escritor fluminense estava livre dos grilhões cientificistas e, graças a isso, soube trazer à tona os conflitos do ser humano que não estão localizados num determinado tempo e região geográfica, mas que se situam na alma de qualquer indivíduo. Talvez, seja por isso que muitos estudiosos afirmam que a literatura de Machado de Assis coaduna-se com o conceito aristotélico de universalidade.

Esaú e Jacó

O romance Esaú e Jacó não é um dos mais lidos de Machado, apesar de que, como foi dito, estar situado na fase em que o escritor, segundo os críticos, dominava as ferramentas primordiais que o tornaram um grande escritor. No que tange à qualidade, se comparado a Memórias Postumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, o livro em questão, neste texto, não possui a mesma força. Contudo, há no romance características que marcaram o trabalho de Machado de Assis, uma dessas: é a forte ironia.

O enredo do romance é simples e traz à baila a história dos dois protagonistas, irmão gêmeos, Pedro e Paulo, filhos de Natividade e Santos que durante o desenrolar da tramam rivalizam-se em questões amorosas, políticas, etc. No que toca ao amor, os dois apaixonam-se e amam a mesma mulher, Flora. Nas questões políticas, Pedro, que se torna médico, é a favor do Regime Monárquico; Paulo, por seu turno, advogado, é um republicano. Há situações, por exemplo, em que os irmãos, para demonstrarem suas convicções políticas, pregam na cabeceira de suas camas o retrato de Luís XVI e Robespierre; sendo o primeiro representante da monarquia, e o segundo um ícone da república moderna.

Entrementes, durante a história, aparecem também personagens marcantes como Aires, um conselheiro que apesar de não estar no lugar do narrador onipresente e onipotente (quando quer) conduz as personagens por meio de suas recomendações. E, por falar no narrador, ele também segue o estilo irônico e se dirige a todo momento ao narratário com indagações, afirmações e julgamentos.

Outro ponto que merece destaque é a utilização duma cabocla, que é consultada por Natividade, quando os irmão ainda eram bebês. Ela, que nos lembra a personagem do conto “A cartomante”, vaticina que os rapazes terão um belo futuro, mas alerta à mãe sobre as brigas que, segundo a adivinhadora, teriam começado durante o ventre. As previsões da cabocla são genéricas, mas conduzem boa parte do pensamento das personagens. Talvez seja uma maneira de mostrar que o século das ciências não era tão científico assim. As pessoas, como bem demonstra Machado, continuavam, da mesma maneira que hoje, agarrada às suas crenças.

Como foi explicitado, Machado de Assis era um bom retratista da alma humana e das características que desenvolveram-se ao longo do século XIX. A política, por exemplo, fica bem retratada nos episódios de disputa entre Pedro e Paulo e nos acontecimentos como a: Proclamação da República e a libertação dos cativos. De maneira irônica, Machado de Assis, ao lançar o olhar para a instauração da república brasileira, demonstra como a população, realmente, assistiu aquilo tudo bestializada. Não houve, como o narrador bem descreve, um movimento popular. O golpe foi desencadeado pelas elites insatisfeitas com a monarquia. Numa das passagens do romance, Paulo, mesmo sendo republicano, indaga a ausência das batalhas, do povo, das barricadas, isto é, o golpe militar diferia-se da famosa Revolução Francesa e das famosas lutas por mudanças de regimes que ocorreram no país europeu. Dum certo modo, a repetição de golpes e mais golpes que aconteceria no decorrer da história brasileira durante o século XX, em Machado, continua atualíssima. Há uma outra cena em que Custódio, dono duma confeitaria, recorre a Aires para que esse o auxilie com uma questão sobre a placa de seu estabelecimento comercial. A confeitaria chamada de “Confeitaria do Império” não poderia manter esse nome, posto que a república havia sido proclamada. Porém, Custódio, um dia antes da “revolução”, mandara pintar a tabuleta que trazia a palavra “império” bem estampada. Assim, Aires e o comerciante passam a discutir qual nome esse deve dar à confeitaria. Aires sugere que se coloque o nome de “Confeitaria da República”, mas Custódio se opõe dizendo que se a Monarquia voltasse ele perderia mais dinheiro. Enfim, a cena retrata bem a instabilidade política do país, naquele momento, e a falta de participação popular, uma vez que a personagem, mesmo sendo do comércio e travando conhecimento com várias pessoas, não sabia que o movimento poderia eclodir.

Durante a leitura, o leitor poderá ter a sensação de que  a briga entre os irmãos (que já é lançada logo no título pois remete às personagens bíblicas que eram irmãs e rivais) parece ser o que menos importa no painel que Machado pinta em Esaú e Jacó. Essa rivalidade, e o desfecho da mesma, poderia figurar, por exemplo, em algum romance Alencar, Macedo ou outro romântico brasileiro. De todo modo, pelo modo que é conduzido o enredo é que temos uma obra grande e bem escrita.

Eu, diria, que Esaú e Jacó é um romance lado B (no sentido de que não se encaixa dentre aqueles mais famosos) que merece ser lido tanto pelo prazer estético, bem como por aqueles que desejam conhecer a alma humana e a situação do século XIX.

Ah! E para finalizar, se você não estiver a fim de comprá-lo basta baixá-lo, posto que a obra caiu em domínio público há muito tempo.

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