Características anti-narrativas em Memórias Póstumas de Brás Cubas

 

Leonardo C.

Este texto busca explicitar algumas informações sobre as caractéristicas anti-narrativas no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. A bibliografia baseia-se, mormente, no livro de história literária de Afrânio Coutinho e em outros textos, esses reunidos no primeiro volume das obras completas de Machado de Assis publicado pela editora Nova Aguilar.

O texto? Ei-lo:

O período oitocentista brasileiro foi palco de várias transformações concernentes à politica, à economia e à estética. No início do aludido século, em 1808, devido a chegada da família real, o país, que na época era somente mais uma das várias colônias lusas, sofreu diversas modificações para abrigar a refugiada corte de Dom João VI. Além das modificações estruturais que ocorreram, basilarmente, na cidade do Rio de Janeiro e da elevação politica do Brasil a Reino Unido de Portugal, o príncipe regente criou a Impressão Régia, essa foi responsável pela produção de jornais e uma quantidade maior de livros no pais. Todavia, vale lembrar que obras literárias e doutros gêneros já circulavam no Brasil, porém devido as restrições da metrópole, a produção das mesmas era proibida.

A eclosão dessa imprensa real possibilitou, como já dissemos, uma maior difusão da literatura no pais. Sendo assim, novelas, contos e romances estrangeiros foram disseminados em larga escala. Alguns como O Diabo coxo, de Lesage e Paulo e Virgínia do escritor Jacques-Henrique Bernardin, por exemplo, tiveram vendas expressivas num território, cuja população de analfabetos era acentuada. Entretanto, se nos dois primeiros decênios dos oitocentos, o público leitor brasileiro tinha contato, mormente, com a tradução de obras oriundas da Europa, a partir de 1822, graças à independência, esse panorama mudou.

A emancipação política do Brasil culminou na criação dum projeto literário que possuía como característica primordial a criação duma identidade nacional. Ferdinand Denis e o poeta brasileiro Gonçalves de Magalhães foram as principais figuras que trouxeram à tona os caminhos que a infante literatura brasileira deveria trilhar. Dessa maneira, algumas décadas depois, os literatos brasileiros, calcados num ideal romântico, valendo-se de descrições exacerbadas da natureza e da figura dos povos autóctones, criaram poemas e obras em prosa em que o maior destaque deveria ser a chamada cor local, isto é, as marcas da nação que configurariam uma literatura, de fato, brasileira.

Durante o período romântico, vários escritores dedicaram-se à poesia e ao romance, dentre os mais célebres, podemos citar Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A Moreninha e José de Alencar, que tentou, através de seus romances, contemplar todos os aspectos regionais do pais. A poesia romântica que, segundos os historiadores literários, contou com três fases, também trouxe à baila nomes de peso, tais como: Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, dentre outros. Machado de Assis, que depois seria conhecido como um dos mais renomados prosadores brasileiros, também escreveu poemas, ora com características românticas, ora com traços parnasianos. No entanto, no final dos anos de 1870 e início da década de 1880, teorias cientificistas, que por sua vez influenciaram e serviram de suporte para a chamada poética realista-naturalista, começaram a exercer uma influência nos escritores desse período. Em 1876, no romance O Coronel Sangrado, Inglês de Sousa, pseudónimo de Luís Dolzani, segundo os críticos, já incorporava traços da escola criada por Gustave Flaubert e Émile Zola (COUTINHO, 1976, p. 206). Em 1881, o escritor maranhense Aluísio Azevedo publicou O Mulato, obra que, apesar de conter diversos elementos típicos de folhetins românticos, também trazia a lume características da estética realista-naturalista.

As informações explicitadas anteriormente ajudar-nos-ão a compreender melhor as características anti-narrativas aduzidas em Memorias Póstumas de Brás Cubas, romance de Machado de Assis publicado no mesmo ano de O Mulato.

Isso posto, como já foi exposto, o autor de Dom Casmurro, durante o período romântico da literatura brasileira, aventurou-se na poesia. Porém, o escritor fluminense não limitou-se somente à produção de versos e à prosa romanesca. Assim, antes de publicar suas obras mais conhecidas, Machado de Assis também atuou como dramaturgo, cronista e crítico. Partindo disso, podemos afirmar que o autor de Helena acompanhou uma boa parte do movimento Romântico brasileiro, bem como presenciou também o auge da produção realista-naturalista no Brasil. Faz-se mister ressaltar que mesmo sendo contemporâneo dos autores que produziram os chamados romances de tese, Machado de Assis não introjetou em suas obras os ditames da escola realista francesa. O autor, também, durante o romantismo, não produziu obras de cunho indianista. Em seu texto Notícia da atual Literatura Brasileira: Instinto de Nacionalidade publicado em 24/03/1873, o autor de Esaú e Jacó, que até então havia publicado somente poemas e os Contos fluminenses, reflete sobre a produção literária brasileira. Interessante destacar que nesse artigo, Machado de Assis tece criticas, por exemplo, a desvalorização de Tomás Antônio de Gonzaga, que diferentemente de Basílio da Gama, não incorporou os indígenas em sua obra. Segundo o autor de Quincas Borba, não dar o devido ao poemas do escritor inconfidente, baseando-se no fato desse cantar as belezas da arcádia continha mais erros que acertos (ASSIS, 2008, p. 1203). O autor, nesse mesmo escrito, seguindo essa linha de raciocínio, assinala que a produção poética nacional não deveria ser feita somente levando em consideração, por exemplo, o temas indianistas. Machado de Assis pensa que tais assuntos não devem ser descartados, todavia eles não deveriam ser assuntos únicos e exclusivos da literatura brasileira (ASSIS, 2008, p. 1204). Acerca da produção de romances, o autor, ao falar da chamada cor local, defende as mesmas considerações que ele faz sobre a poesia. Machado de Assis considera em, Instinto de Nacionalidade, errôneo reconhecer o espírito nacional somente nas obras que tratam de assuntos locais, esse fator, segundo o escritor fluminense, “limitaria muito os cabedais da nossa literatura (ASSIS, 2008, p. 1205). Para sustentar esse argumento, Machado de Assis cita Shakespeare, escritor inglês; o autor de Memorias Póstumas de Brás Cubas ressalta que apesar desse ter escrito alguns dramas, cujo cenário não foi as terras inglesas, ninguém afirmaria que Shakespeare, um gênio da literatura universal, não fosse um escritor eminentemente inglês. Ainda acerca do caráter nacional da literatura brasileira, Machado de Assis expõe que:

Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço (ASSIS, 2008, p. 1205).

O Instinto de nacionalidade traz pistas importantes para entender um pouco das características anti-narrativas expostas em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Como vimos, Machado de Assis além de defender uma noção diferente do que deveria ser considerado nacional na literatura produzida no Brasil, traz à baila também autores que lhe influenciaram, tais como: Shakespeare, Charles Dickens etc. Não seria errado afirmar que no supramencionado texto, Machado de Assis já expõe qual seria seu trabalho como prosador nos anos seguintes, isto é, as características que lho tornariam um escritor singular no panorama literário oitocentista.

Ressaltando essa particularidade da obra machadiana no século XIX, é importante elencarmos que a ideia de considerar Machado de Assis um escritor realista a partir de Memorias Póstumas de Brás Cubas e um escritor romântico antes da publicação dessa é, nos dias de hoje, um equívoco. De certo, as obras anteriores ao aludido romance possuem elementos românticos, todavia, ao nosso ver, tais características podem ser encaradas como obras que serviram de exercício para que Machado trouxesse para o público os seus romances considerados maduros. Esses últimos também não figuram, como os historiadores da literatura no século XIX e XX insistiram, no movimento realista-naturalista. As características anti-narrativas, que veremos doravante, bem como outros elementos confirmam a singularidade desse romance.

Em 1881, Capistrano de Abreu, na coluna “Livros e Letras” da Gazeta de Notícias, publicou um texto intitulado de Sobre as Memórias Póstumas de Brás Cubas. O crítico, no primeiro parágrafo do mencionado artigo, lança uma indagação: “As Memorias póstumas de Brás Cubas serão um romance?”. Depois, prossegue dizendo: “Em todo o caso são mais alguma coisa. O romance aqui é simples acidente. O que é fundamentalmente orgânico é a descrição dos costumes, a filosofia social que está implícita (ABREU, 2008, p. 11).

Como podemos notar há uma certa dificuldade do crítico em classificar o supracitado romance de Machado no gênero romance. De fato, Memorias Póstumas de Brás Cubas foge da estrutura tradicional de narrativa e, com certeza, era uma novidade para leitores que estavam acostumados com a estrutura dum enredo engendrado numa forma que não continha os experimentalismos propostos pelo escritor fluminense. Sobre esse aspecto, José Guilherme Merquior (1972, p. 145), com propriedade, explicita que o romance em seu plano estilístico apresenta um experimentalismo ficcional; segundo ele:

esse “experimentalismo” que nada tem a ver, bem entendido, com o romance “experimental” dos naturalistas. Ao contrário: por experimentalismo ficcional aludimos exatamente àquela livre manipulação de técnicas narrativas que assimila Machado de Assis aos grandes ficcionistas impressionistas e o afasta dos naturalistas e de seu gosto pela execução linear do relato.

Valendo-se da influência do escritor inglês Laurence Sterne e Xavier Maistre, no tocante à forma, Machado de Assis, em Memorias Póstumas de Brás Cubas, constrói nesse romance características anti-narrativas que tornaram sua obra ímpar no cenário nacional. Vejamos quais são elas.

No início do já mencionado romance o leitor é apresentado a um narrador morto. Assim, temos, então, segundo bem aponta Alfredo Bosi (1999, p. 179), “uma história que começa pelo fim dos fins”, haja vista que as memórias são póstumas, ou seja, elas vêm depois da vida e da morte. Brás Cubas começa contando sua morte para só depois, com vagar e muita liberdade, reconstituir sua vida. A condição de uma criatura morta permite a este narrador-protagonista contar suas lembranças apartado dos homens que continuam os seus embates na terra. O uso desse narrador falecido difere-se de todas as narrativas que, até então, haviam sido produzidas no país. Os autores recorriam a narradores em terceira pessoa ou a narradores em primeira pessoa, esses últimos, obviamente, vivos. De mais a mais, não era comum a esses ofenderem, logo a partir do prólogo, seu narratário. Essas provocações de Brás Cubas permeiam todo romance e imprimem em Memorias Póstumas de Brás Cubas uma singularidade no que tange à composição da obra.

Baseando-se no que foi dito, pode-se dizer que ao utilizar essa característica anti-narrativa, Machado de Assis consegue criar situações que permitem a essa personagem que conta a história para seus leitores rir de si mesmo, ser cínico; devido a isso, ele não precisa de poupar nem outros nem a si, posto que já está “desafrontado da brevidade do século” (BOSI, p. 179, 1999).

Outro ponto, cujas características não comuns duma narrativa aparecem, dá-se no tocante à forma do livro, isto é, em sua composição estrutural. Os capítulos do romance machadiano em questão, além de conterem flashbacks que levam que os lê a uma sensação “ziguezagueante”, às vezes são compostos, por exemplo, por apenas um parágrafo. No capítulo CIXV, por exemplo, Brás Cubas diz: “Ao contrario, não sei se o capítulo que se segue poderia estar todo no título (ASSIS, 2008, p. 859). Nas narrativas tradicionais os capítulos costumam a ser mais intensos, geralmente são usados para levantar conflitos ou para resolve-los. Ademais, usualmente esses são compostos por descrições mais elaboradas e não trazem, pois, esse característico humour que Machado introjeta em Em Memorias Póstumas de Brás Cubas. Afora isso, não poderíamos deixar de ressaltar aqui alguns elementos tipográficos, tais como os que aparecem no capítulo LV, intitulado de “O velho diálogo de Adão e Eva”. Nesse, o narrador apresenta uma cena de sexo valendo-se da disposição dos nomes das personagens, tal como um diálogo duma peça de teatro, onde a fala dessas personas aparece somente com pontos de reticências, ora longos, ora curtos que se findam com pontos de interrogação ou de exclamação.

Acerca da questão dos conflitos, que é comum em quaisquer narrativas, sejam elas contos, novelas ou romances; ela é, na história de Brás Cubas, tratada duma forma diferente. Segundo Roberto Schwarz (1987, p. 192), , esse enredo “intercalado por digressões, anedotas e apólogos mais ou menos alusivos, e entrelaçada com uma crônica do Rio de Janeiro daquele tempo” fazem com que o romance ganhe uma versatilidade que o torna uma narrativa em câmera lenta. Ora, essa característica errática e frouxa da narrativa que nos dá essa sensação de lentidão se constrói graças a uma trama que não é retesada por conflitos, posto que esses requerem uma espécie de constância (SCHWARZ, 1987, p. 193). Isso fica bem explícito no capítulo CXIX, o autor contaminado pelo tédio abre um parêntesis na narrativa para proferir algumas máximas. O recurso quebra, dum certo modo, com toda a fluência de alguns capítulos anteriores e nos dá, de fato, a sensação dum enredo sem características lestas. Essa ideia torna-se mais evidente no findar da obra. No capítulo final, “Das negativas”, Brás Cubas, ao enumerar as coisas que não chegou a ser e ao expor a negativa basilar: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, trás para o leitor uma narrativa com a ausência de objetivos. Faz-se crucial salientarmos que essa ausência é construída ao logo do romance devido às digressões, às intromissões e às guinadas do narrador; em suma, a própria estruturação dos capítulos que reiteram esse ritmo vertiginoso que, como já foi dito, assemelha-se a uma imagem em câmera lenta (SCHWARZ, 1987, p.1994).

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