Pelo menos tem comida em casa!

Letícia

Casa,

pai,

mãe,

avô sem os dentes com a mão na perna, enquanto assiste televisão.

Meu pai quando ficava bravo dizia: “vou ali na praça arrebentar uns veados”.

Sim, ele fazia isso. Pegava um porrete e metia nas costas dos travestis ou de qualquer camarada que andasse rebolando.

Quando meu pai saia, meu avô dizia: “seu pai só falta colocar um peixe no cu pra parecer sereia. Vai gosta de aparecer!… É o diabo!… É o diabo!…”

Minha mãe quando o via sair, também comentava algo, sorria e dizia: “pelo menos tem comida em casa!”.

Sim, logicamente, muita comida. À noite, enquanto minha mãe dormia, meu pai pulava o colchão do meu avô que ficava estendido defronte ao banheiro e, com um passo, chegava até à nossa cama. Tirava o pau para fora. Chupávamos, depois dávamos a bunda.

Um dia, mamãe viu a cena, sorriu e disse: “pelo menos tem comida em casa”. Sim, muita comida.

Enquanto meu pai comia minha bunda, arrebentava veados à noite e mandava meu avô limpar a privada cheia de merda, eu pensava numa maneira de sair de casa. Demorou anos, mas consegui.

Arrumei um emprego de cobrador de ônibus.

Blusa azul, com um bolso colado na frente, bigodinho, cecê e cheiro de porra amanhecida que saía da boceta da mulherada proletária pela manhã – perfume do ônibus lotado. Assim, tocava minha vida. Passava muita grana pela minha mão, tanta grana para no final do mês: eu ver aquela micharia caindo no meu bolso. Telegraficamente, resumo isso em três palavras: “tomar no cu”.

Um dia peguei a grana toda, meti no bolso e não voltei à empresa. Roubei. Passei numa loja, comprei um nike, um daqueles fodidões; é!, daqueles!, daqueles pra comer a mulherada!, peguei um ônibus na rodoviária e me mandei.

Quando você está fodido!, você está fodido. Se você tem pau, não tem boceta e vice-versa, mas tem cu, certo? E sempre tem alguém querendo foder seu cu, e se não tem ninguém querendo arrombar seu cu, tem você mesmo que com o dedo faz o estrago. Jogo rápido: a fodidez te cerca por todos os lados; é assim, não adianta.

O ônibus, que me levava rumo à liberdade, foi assaltado. Levaram até o nike!, até o nike! Voltei para a cidade. Eu iria me meter aonde? O jeito era voltar e chupar o pau do meu pai à noite e dar a bunda. É aquela história: “pelo menos tem comida em casa”.

Porra nenhuma!

No caminho de volta para casa, eu sabia que os polícias iriam atrás de mim. Era voltar e me foder.

Sento no passeio, fico olhando os carros passarem, tento calcular a velocidade dum que possa me arrebentar, mas que não me mate, mas que me deixe aleijado, pelo menos. Uma pensão vagabunda do Estado. Acho isso justo, haja vista a chupação e meteção do pátrio pau nos dias santos e não-santos. Se eu fizer certo, talvez caia uma indenização do motorista no bolso. A polícia que se foda, eu devolvo o dinheiro. Se não der certo pago um porta-de-cadeia-com-gravata-amarelada-e-suor-debaixo-do-braço pra me tirar de lá. O jeito é torcer para o cara estar mamado de cachaça e com as mãos no volante; coisa não muito difícil no país da lei seca.

Faróis acesos. Noite. Eu no passeio.

Levanto-me, o pé direito no asfalto. Farol aceso.

“Pelo menos tem comida em casa!”

E aí?

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