Análise do conto “Cantiga de esponsais”, de Machado de Assis

machassis1Já abrimos o espaço no literatura em foco para a análise de poemas. Porém, não podemos esquecer de outro gênero, o conto. Sendo assim, o primeiro que iremos analisar será Cantiga de esponsais, de Machado de Assis.

Tudo começa em 1813, na capital fluminense, com Romão Pires, o Mestre Romão, regendo uma orquestra numa festa da igreja do Carmo. O protagonista possui sessenta anos de idade, é um grande músico. Contudo, apesar da grande experiência na profissão, ele enfrenta dificuldades enormes para compor.  Seu bloqueio no tocante a inspiração começa em 1779, mais especificamente três dias após o casamento, onde empolgado com o matrimônio, surge-lhe a idéia de criar um canto esponsalício para sua jovem esposa. Mas como o narrador diz: “a inspiração não pôde sair. Como um pássaro, que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola…”. Sendo assim, o Mestre guarda na gaveta a partitura onde conseguiu escrever apenas algumas notas. A amada esposa morre muito nova com apenas vinte três anos, o tempo passa sem com que o Mestre conseguisse trazer à tona uma canção sequer. Esse fato atormenta-o tanto, que um dia, ele sente-se doente. Pai José, escravo e grande amigo, recomenda-lhe que busque ajuda numa Botica. Entretanto, os remédios da mesma não funcionam. Preocupado, o companheiro chama um médico, que recomenda a Mestre Romão deixar a música de lado, diz-lhe para não pensar música.  A frase do doutor acende a chama da inspiração no protagonista. Deste modo, ele abre a gaveta e tenta finalizar a obra que começou em 1779; animado, transporta o cravo de uma sala do fundo, para outra que dava para o quintal. Enquanto tenta finalizar a cantiga, depara-se, através da janela, com recém-casados enamorados. Para seu desespero, a canção não sai do papel. Angustiado, Mestre Romão perece durante a noite.

“Cantiga de esponsais” é um conto brilhante, onde Machado conseguiu utilizar-se de uma fina ironia para discutir o problema entre a técnica e inspiração na arte. Ademais, nessa curta narrativa, encontramos, o problema da perfeição que assola diversas personagens machadianas.

Como vemos no conto, Mestre Romão, apesar de toda técnica, não possuí nenhuma inspiração para compor nem ao mesmo uma cantiga de esponsais, que se comparada a outros tipos de música, pode ser considerada relativamente simples. Além disso, o protagonista, apesar de todos os esforços é apenas um intérprete, pois não consegue imiscuir a habilidade musical com o ato de compor.

Faz-se importante também ressaltar o espaço e o ambiente do conto, que são muito bem trabalhados por Machado. A cena inicial aberta com a visão da igreja do Carmo, onde várias pessoas assistem a orquestra regida pelo Mestre que está embevecido com a música, demonstra um ambiente que influí diretamente na personagem. A multidão juntamente com a música, completam Romão, e contrapõem-se com a casa praticamente vazia com poucos móveis, que pode ser vista como um lugar triste, solitário e principalmente, um local, que representa a inspiração do mestre.

Outra parte que merece destaque é a tentativa do Mestre de compor, quando ele encontra-se no quintal. Ao tentar criar a canção, a personagem central mal consegue sair da nota Lá. O narrador a descreve seguida de reticências, o que nos leva a entender a dificuldade do Mestre em tentar finalizar a cantiga. O Lá outrossim, pode ser compreendido como um advérbio de lugar, que sinaliza a distância em que Mestre Romão está da inspiração.

Por fim, observamos que a procura pela perfeição marca a personalidade do protagonista. Ele não contenta-se com o fato de ser um intérprete. Ele quer mais, muito mais. Mestre Romão busca ser conhecido tanto pela sua técnica quanto pela sua inspiração. A falta desta última gera-lhe um grande conflito, que pode-se ser considerado o norte dessa narrativa machadiana.

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Originally posted 2009-05-19 05:04:39. Republished by Blog Post Promoter

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