Cláudio M. da Costa e Camões – análise- Por Paulo Filipe

autumn

CAMÕES

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma.

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

XXVIII

Faz a imaginação de um bem amado
Que nele se transforme o peito amante;
Daqui vem que a minha alma delirante
Se não distingue já do meu cuidado.

Nesta doce loucura arrebatado.
Anarda cuido ver, bem que distante;
Mas ao passo que a busco, neste instante
Me vejo no seu mal desenganado.

Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,
E por força da idéia me converto
Na bela causa de meu fogo ativo,

Como nas tristes lágrimas que verto,
Ao querer contrastar seu gênio esquivo,
Tão longe dela estou, e estou tão perto!

Aqui existem dois poemas: o primeiro, camoniano; o segundo, de Cláudio Manuel da Costa. Pode-se perceber, já de início, que se trata de uma imitação do segundo em relação ao primeiro. Necessário, portanto, é lembrar que o conceito de imitação não era abominado na época. Já Aristóteles apontava como se daria essa imitação: por meio de ritmo, linguagem e harmonia. (arte retórica e arte poética, p. 239).

No que tange ao ritmo, ambos apresentam grandes semelhanças, pois ambos são sonetos petrarquianos, decassílabos, em sua maior parte, heroicos, apresentando também pouca diferença neste quesito.
Porém, algumas distinções são possíveis entre o soneto de Camões e o de Cláudio Manuel.

O soneto camoniano “Transforma-se o amador na cousa amada”, apresenta a seguinte lógica: se o amador se transforma no ser amado, não há porque mais se desejar, podendo este então repousar.

Já em Cláudio Manuel, o amador se transforma no peito amado, mas este não se contenta em sê-lo. Ambos se fundem, apenas na imaginação do amador – o que lhe causa muito sofrimento.

Nas duas estrofes posteriores, Camões demonstra como o amador e o ser amado se fundem:

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Aproveitando-se da teoria das ideias de Platão, Camões faz uma bela comparação ao dizer que o puro amor de que é feito assim como a matéria simples busca a forma, onde o mundo dos sentidos busca o das ideias. Assim era o eu-lírico e sua amada.

Já em Cláudio Manuel, há um sofrimento pela não-correspondência do sentimento pela amada. Se em Camões este amor platônico é algo natural, para o poeta mineiro, ele é causa de imensa dor, como se pode ver em:

Como nas tristes lágrimas que verto,
Ao querer contrastar seu gênio esquivo,
Tão longe dela estou, e estou tão perto!

No que tange à linguagem, podem-se notar alguns traços do barroco em Cláudio Manuel da Costa, como as imagens do fogo ativo (v.11), o uso do verbo verter (v.12) ou mesmo da alma delirante (v.4). São imagens mais fortes e peregrinas, como relata Antonio Candido no primeiro volume de Formação da Literatura Brasileira:

No soneto pôde exprimir o jogo intelectual que prezava, e cabia perfeitamente na linha desta forma poética (…). Nele pôde ainda vazar o amor pela imagem peregrina, a rima sonora e a metáfora, herdadas do barroco: pois assim como o equilíbrio quinhentista de Camões ou Diogo Bernardes ele deslizou para o Cultismo, quase como para um complemento natural, ele pôde remontar deste àquele, sem perder as opulências de conceito e imagem aprendidas em Quevedo e Gongora. (p.89)

O gosto por hipérbatos (v.1-2) e pela farta pontuação, também são outro traço camoniano que o árcade mineiro cultiva.

Nas duas primeiras estrofes há um ritmo bem regular que parece seguir a seguinte ordem: versos ímpares, sem pontuação (exceção, v.7, onde aparece uma vírgula) e versos pares, pontuados; os dois primeiros, de cada quarteto, ponto e vírgula; os dois últimos, ponto fina, sendo que o v.6 apresenta também uma vírgula. Tal disposição se justifica, uma vez que os dois primeiros versos apresentam a proposição e os dois últimos, a consequência dessa. Basta observar que a consequência de a imaginação transformar o peito amante no bem amado faz com que a alma deste delire, tirando-lhe a razão.

Já as duas estrofes posteriores, os tercetos, são mais pausadas. Há mais vírgulas e nenhum ponto final, sendo que uma estrofe é ligada à outra. Há então uma só ideia, que se desenvolve, que é a da tristeza do eu-lírico por tal transformação, pois ele se encontra na amada, mas ela não lhe está presente. O seu sofrimento é ressaltado em função das vírgulas, que cadenciam os versos e, ao mesmo tempo, intensificam sua dor. Se em Camões, o último verso do poema se dá através de um ponto final, em Cláudio Manuel, este se dá através de uma exclamação, que confere maior comoção ao seu final.

Por fim, em Camões desenvolve-se a seguinte premissa: o ser amante se transforma no ser amado a partir da imaginação. Se tal ocorre, nada mais há a desejar. E Camões lança mão de antíteses como corpo x alma, matéria x forma, desejo x conformação. O bardo português prova então sua premissa, pois o seu amor enquanto platônico nada mais almeja.

Já o poeta mineiro, por sua vez, lança mão de antíteses como alma delirante x cuidado (v.3 e 4), longe x perto (v.13 e 14). Cláudio Manuel tem como premissa que a imaginação transforma o ser amante no ser amado. Porém, na contramão de Camões, o árcade demonstra que isso não é o suficiente para que se possa o primeiro ter paz. A metáfora da doce loucura do amor demonstra este caráter controverso, pois ela o faz buscar a amada. Entretanto dela nada possui, ainda que nela se converta e com ela se funda em pensamento – o que não lhe é suficiente, pois não existe reciprocidade no sentir. E isso lhe causa imensa dor, sentindo-se em posição antitética em relação à amada, perto em pensamento; longe em afeição.

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