Tupi-Guarani

Marcelino Freire

Ele tá dizendo que quem apita agora é ele. É nós na fita. O Cacique Tupinambá. Nada de fotografar feito turista. Favor desligar o celular.

Ele tá dizendo. Que tá de saco cheio. Ele e o bando inteiro. De saco cheio. E que a maloca vai de mal a pior. Aqui pra vocês, ó. Grita o Pancararu. Pataxó. Tem criança. Curumim se matando. Assim: se suicidando de tristeza.

Sabe aquela beleza que havia na redondeza? Não vale mais a pena. Ele tá dizendo. Dá pena. É só poeira e pó. Mataram a cachoeira. A árvore um osso só. E ninguém faz nada.

Berra o Piraquara. Uma palhaçada.

A gente pinta a cara mas não é palhaço. Ouviu? Chega! Ele tá dizendo. Chega! Você aí, branco safado, mão na cabeça. Você aí, piranha. Isto é um assalto.

Um sequestro! Tomaram o Teatro Amazonas. Sério. Ele tá dizendo. Vai haver morte. Por isso não provoque. Hoje é dia de índio. Parecer em tudo que é jornal. Na foto, ao lado da sua cabeça degolada, sim, seu animal. Cara pálida assando na brasa. Todo mundo aqui é canibal. Ele tá dizendo.

Quanto às lanças e flechas, a tribo mesmo costurou. Pau e pedra. E a bosta ali, amarela, no cesto. Vai voar na hora da guerra. Povinho azedo! Ele tá dizendo: explorador!

Diz o Krahô à esquerda. Vai esquartejar, sim, o primeiro que pular da cadeira. Aquele que achar que isso é brincadeira. Dança. Roda. Ciranda. Muito menos Carnaval. Ora, ora. Corja de bundão. Ele que tá dizendo.

Bundão branco.

Sabe o Grande Sol? Pois então. Foi preso anteontem. Acusado de roubar um sabonete. É grande a nossa revolta. Roubar a gente não rouba. A gente toma de volta. Ele tá dizendo.

Quem inventou o banho? Por exemplo. Ele tá perguntando. E afirmando: fedorentos que vocês são. Se não fosse a gente…

E a banha?

E o floral?

O que é um sabonete perto da natureza? País de marginal!

Queremos que soltem o Grande Sol, o Cacique tá dizendo. Ele tem direito ao que é cheiroso. Já que tudo agora deu pra feder. Água de esgoto. Que ele trouxe no pote-curare.

Ave!

Você vem? Quem vem beber desta água? Quem tem coragem? Hein? Selvagem? De meter a língua nesta fedentina? Ele tá desafiando: a senhora aí, de blusa azul-piscina.

Saudade do cacau azul. E do jenipapo. Do jutai-açu. Ingá-chichi. Ele tá dizendo. Lacrimejando. Mas peraí. A gente não tá aqui pra chorar as pitangas. Fazer folclore, nada disso.

Porém vou contar uma história. Ele tá dizendo. Sabe o mendigo Caitetu? Não era mendigo. E nem tava nu. Veio à cidade de vocês, vestido. Maltrapilho e educado. E sabe o que fizeram com o Caitetu, o coiado?

Queimaram vivo.

Ele tá dizendo, repito.

Queimaram vivo.

O olho do Cacique, nesta hora, se encheu de brasa. E ódio. Onde há fogo, há fumaça. Sou eu que tô dizendo. Sinceramente, creio que daqui hoje ninguém escapa.

O Cacique ainda fala. Tagarela. O amigo Caitetu tava acostumado a sobreviver em outra selva. E nem imaginava o futuro que o aguardava. No hospital de gente ruim. Numa sala de operação. Tá sem pele e sem remédio. Que situação!

Quem dará jeito?

Pergunta, pergunta, pergunta.

O chefe de vocês, quem é? O presidente? O prefeito? Que pau-mandando é este povo de vocês? Esta população? De qual raça é esta nação?

Repete o Piraraquara: bando de bundão.

É isso o que vocês são. Por isso vão pagar. E não adianta vir oferecer dinheiro. Espelho. A gente não quer. A gente quer sossego. Ele tá dizendo.

Tempo para pescar. Voltar a flechar tucunaré, açari, surubim, pirá-mirim. Pois é. Tempo para deitar na rede. Na sombra. Fazer cafuné. Catar piolho em macaco.

Viver menos estressado. Longe da civilização.

Civilização? Qual civilizaçãoo? Quer saber Paranapanema. E ri da nossa inocência. E conta. O dia em que Macuxi foi levado pelo vento da covardia. Deixou a aldeia. Miserável e feia. Bateu asas até o Rio. Sem eira nem beira, desapareceu na travessia. Morreu nas águas da Baía de Guanabara.

Por isso, ele pergunta. Onde foram parar as folhas de coca que Macuxi levava? Paricá no porongo? E ayusca? Cidade Perdida, afirma Paranapanema. Só rezando. A Jupari. Caupé. Não ao Senhor de vocês. Que roubou o que a gente fez. O mundo. Por isso, decreto: o fim. O extermínio. De agora não passa. Diz o Cacique. Enfrentaremos qualquer ameaça. Gás, veneno. Bomba. Daqui só sairemos para uma nova vida. Uma outra terra. Vocês que se fodam! A matança já vai começar. Ele tá dizendo. Nesta língua que só eu entendo.

Fiquem com Deus, meus irmãos.

Que tá na hora de eu sair correndo.

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