“Juca Pirama” – Canto IV

Desagradável ver o Márcio Gárcia vestido de Peri, não é? Também concordo, é triste mesmo. Coloquei a foto para mostrar quão triste é ver esta cena. E, também porque você conferirá o “Canto IV” de “Juca Pirama” escrito pelo romântico Gonçalves Dias. Alguns dizem que “Juca Pirama” é  poema um épico. Não concordo com essa classificação, pois o referido poema não possuí todas as características épicas.

Seja como for, selecionei o canto IV, por ele se trazer um belo ritmo. Para falar a verdade, são poucos poetas que conseguem imprimir em seus versos uma sonoridade tão fantástica. É, simplesmente, sensacional. No referido canto (formado por 5 sílabas métricas), Juca Pirama, índio que foi preso por uma tribo inimigo, conta sua história e diz que não se envergonha por chorar.

Pretendo, depois, realizar uma análise completa de “Juca Pirama”. Por enquanto, conferiram o quarto canto!

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

Andei longes terras
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimoréis;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes — escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo,
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!

O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu’ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossêgo
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego
Qual seja, — dizei!

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? — Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixai-me viver!

Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro:
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

One thought on ““Juca Pirama” – Canto IV

Deixe um comentário!