“A história de uma hora”, Kate Chopin

Kate Chopin | Trad. Alice Dias

Trago, hoje, o conto de uma escritora norte-americana que viveu no século XIX. Com um pensamento feminista, Chopin transitou por diversos estilos na prosa. O conto, “A história de uma hora” é, simplesmente, surpreendente!

Boa leitura!

Sabendo que a Senhora Mallard sofria dum problema de coração, um grande cuidado fora tomado para dá-la, de modo mais suave possível, a notícia da morte de seu marido.

Foi a irmã, Josephine, que lha contou, com frases quebradas; pistas camufladas que revelavam a verdade, aos poucos. O amigo de seu marido, Richard, estava lá também, próximo a ela. Foi ele que lera, no jornal da secretaria, o nome de Brently Mallard, no topo da lista dos “mortos”, isto é, daqueles que haviam sido vitimados por um acidente acontecido na ferrovia. Ele tivera apenas o tempo de assegurar-se da verdade do fato, através de um segundo telegrama, antes de correr para evitar que algum descuidado mensageiro, um amigo menos tenro, desse a triste mensagem.

Ela não ouviu a história como a maioria das mulheres costumam a escutá-la, de maneira paralisada, com dificuldades para aceitar o seu significado. Ela chorou, duma só vez e abandonou-se nos braços da irmã. Quando a tempestade de sofrimento esgotou-se, ela foi para o quarto, sozinha; não queria que ninguem a seguisse.

Lá, parada, encarando a janela aberta, uma confortável poltrona. Nesta, ela afundou-se empurrada pelo cansaço que assombrava seu corpo e parecia chegar em sua alma.

Ela podia ver, no espaço situado antes de sua casa, o cimo das árvores que tremulavam com a vida trazida pela primavera. O delicioso sopro de chuva estava no ar. Na rua localizada abaixo, um vendedor ambulante anunciava suas mercadorias. As notas de uma distante música, cantada por alguém, chegavam esquálidas, e inúmeros pardais chilreavam em cima das calhas.

Havia duas trilhas de céu azul mostrando o aqui e o lá através das nuvens que  se encontravam e se empilhavam no oeste, mirando a janela.

Ela sentou-se; sua cabeça encostou-se no travesseiro da poltrona; estava completamente parada. A exceção, a esse estado, dava-se quando um soluço subia-lhe até à gargante e lha fazia tremer, como uma criança que chora por não querer dormir e que fica soluçando enquanto sonha.

Ela era jovem, possuia um rosto calmo e belo, o qual denunciava  opressão e, até mesmo, uma certa força. Mas, naquele momento, um olhar tedioso marcava-lhe os olhos que estavam fixados na direção duma das trilhas do céu azul. Não era um olhar de reflexão, mas evidenciava uma suspensão de inteligência, apesar disso.

Seu peito ergueu-se e um sentimento tumultuso invadiu-lha. Ela estava começando a reconhecer esta coisa que estava aproximando-se e possuindo-a,  estava esforçando para empurrar isso de volta, inutilmente como as suas fracas, esguias e brancas mãos. Quando ela abandonou-se, uma pequena palavra sussurrada escapou de seus lábios quase fechados. Disse isso várias vezes: “livre, livre, livre!”. O vazio e o terror, que surgiram, após ela proferir essas palavras, vieram de seus olhos. Eles permaneciam afiados e brilhantes. O pulso dela batia rápido e o sangue quente relaxava cada polegada de seu corpo.

Não parou de perguntar-se se isso era ou não um monstruoso gozo que lhe prendia. Uma limpa e exaltada percepção permitia-lhe pensar sobre isso de maneira trivial. Ela sabia que verteria lágrimas, novamente, quando visse as tenras mãos dobradas e mortas; a face. que nunca havia encarado-lhe com amor, hirta, macilenta e morta. Mas ela viu algo, além desse momento; observou uma longa procissão dos anos que iriam lha pertencer, absolutamente. E, por isso, abriu os braços para lhes dar boas vindas.

Não haveria ninguém para viver ao seu lado durante esses anos vindouros; viveria para si mesmo. Não haveria nenhuma vontade  inclinado-a a uma cega persistência com qual homens e mulheres acreditam que possuem o direito de impor suas vontades aos companheiros. Uma gentil intenção ou uma cruel intenção fez o ato não parecer um crime quando observou-o, neste breve momento de iluminação.

Não obstante, ela amava-o — às vezes. Frequemente, não. Mas por que isso importava? O que poderia amar, o não resolvido mistério, contava para ela em face ao possuir sua autoafirmação que ela, subitamente, reconheceu como o maior impulso de seu ser.

“Livre! Corpo e alma livres!”, ela continuou sussurrando.

Josephine estava ajoelhada defronte à porta fechada, implorando para entrar. “Louise, abra a porta! Eu imploro-te; abra a porta — você fará com que você mesmo fique doente. O que você está fazendo, Louise?” Pelo amor de Deus, abra a porta”.

“Avia-te! Eu não estou fazendo-me ficar doente”. Não; ela estava bebendo um elixir da vida através da janela.

Seu pensamento corria tumultuoso junto com os dias que ela imaginara. Respirou uma rápida oração que lhe mostrara que a vida poderia ser longa. Fora, somente no dia anterior, que pensou com estremecimento que a vida poderia ser longa.

Levantou-se e abriu a porta para os aborrecimentos da irmã. Havia uma febre triunfante em seus olhos, e ela portou-se, involuntariamente, como uma deusa da vitória. Agarrou o pulso da irmã, e, juntas, elas desceram as escadas. Richard estacado, esperava pelas duas no último degrau.

Alguém estava abrindo a porta com uma chave. Era Brently Mallard que entrava segurando uma pequena mala e um guarda-chuva. Ele estivera longe da cena do acidente, e nem sabia que havia ocorrido um. Parou impressionado com o choro de Josephine; com a rápido movimento de Richard, que visava protegê-lo da visão da esposa.

Quando os médicos chegaram, disseram que ela havia morrido duma doença do coração — o gozo que mata.

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