Cemitério

 

José Paulo Paes | Comentários de Laís Azevedo

1

Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.

2

Aqui jaz uma pulga
chamada Cida
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
era uma pulga suiCida.

3

Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!

4

Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
Tinha tanta fome
que comeu-se a si próprio.

 

COMENTÁRIOS:

Uma das características que marcaram e que, ainda marca até hoje, a literatura infantil é a ideia de que essa tem de ser, essencialmente, moralizadora. Como já demonstrei em uma poema de Olavo Bilac, os escritores brasileiros do século XIX buscavam, com suas obras literárias, educar as crianças; passar para elas valores edificantes para a convivência em sociedade. Esse ranço de moralismo ainda perdura nos dias de hoje. Aliás, é muito forte, uma vez que vivemos numa sociedade marcada, infelizmente, pelo politicamente correto. Entretanto, a questão pedagógica não deve ser encarada como um mal, o que não pode acontecer, a meu ver, é tomá-la como uma obrigação. Em outras palavras, o escritor que almeja escrever para o público infantil não deve ser compelido a querer educar esse público. Digo isso, uma vez que os livros que o Estado destina às escolas públicas, geralmente, levam em consideração esse aspecto moralizador.

Isso posto, trago a lume o poema “Cemitério”, de José Paulo Paes, escrito em 1994. Ele é um bom exemplo de texto que não está calcado num primas pedagógico, uma vez que trabalha com algo mórbido, a morte. Entretanto, faz isso de maneira divertida. Assim, recorre há uma estratégia tradicional da literatura infantil, isto é, utiliza os animais como personagens.

Cada estrofe de “Cemitério” é pautada por um número. Esta ordenação, feita com numerais arábicos, serve para dar uma ideia de que cada conjunto de versos é uma lápide onde os animais estão, pois, sepultados. No primeiro túmulo, isto é, na primeira estrofe, tem-se um leão que faleceu devido a um urro. Interessante perceber que o nome do grande felino é Augusto. Esta referência é interessante, pois em nossa literatura, tivemos um grande poeta, Augusto dos Anjos, cuja obra trazia temas mórbidos.

Na segunda estrofe, há a informação de que uma pulga se suicidou. O poeta, habilmente, destaca do sufixo “cida”, do latim “caedo”, que exprime a noção duma ação que provoca a morte. Tem-se, portanto, o referido sufixo em todos os quatro versos restantes para que a ideia de morte, da própria ação que ceifa a vida seja reforçada.

O terceiro conjunto de verbos traz a lume a morte por um amor incontrolável. O morcego, criatura noturna, também ajuda marcar o tom macabro, porém divertido, do poema.

Por fim, nos versos finais há a morte associada ao nada, uma vez que havia, na sepultura, um bicho que comeu a si mesmo. Não existe, assim, nem os ossos dessa criatura. A morte levou toda matéria e dissolveu todas as coisas.

Considero “Cemitério” um dos poemas mais bacanas de Paes. O jogo de palavras faz com que o tema, sobremaneira mórbido, torne-se leve e divertido. Isso é, sem dúvida, literatura de alta qualidade!

 

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