A arca dos marechais

Laís Azevedo 

Os romances contemporâneos brasileiros, a meu ver, sofrem, nos dias de hoje, com um sério problema: eles não trazem uma boa história. Os autores, preocupados em não cair numa prosa tradicional, criam pirotecnias literárias que prejudicam o enredo e servem, somente, para demonstrar que o escritor domina várias técnicas pós-modernas do fazer literário. Para desespero dos escritores contemporâneos, vale sempre lembrar que, “infelizmente”, o romance conta uma história. 

Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, não se aprofunda em experimentalismos e tampouco segue à risca a cartilha do romance tradicional. Entretanto, o autor sabe como poucos contar uma boa história. Poder-se-ia dizer que a prosa de Rey tem um quê de folhetim oitocentista, haja vista que não se consegue parar de ler suas obras. A cada capítulo, no melhor estilo rocambole, ele consegue envolver o leitor que fica ansioso para descobrir como se dará o desfecho do enredo.

Em A arca dos marechais, Marcos Rey traz à tona, numa narrativa em primeira pessoa, a história do narrador-personagem Emerich, o qual recebe do tio uma máquina de fazer dinheiro. Funcionário público que odeia o emprego em um aquário responsável por receber, semanalmente, a visita de crianças das escolas de São Paulo, o protagonista modifica sua vida de maneira radical quando usa o equipamento, herdado do tio, para fazer uma arca com marechais, isto é, armazena numa grande mala notas de cinco mil cruzeiros (aproximadamente cinquenta reais nos dias de hoje) que trazem estampados a foto do Marechal Castelo Branco, um dos presidentes militares do Brasil. Com uma enorme quantia em mãos, a personagem começa a arrumar uma maneira segura para passar para frente todo o dinheiro falso que fabricou. Desse modo, Rey cria um narrador que conduz o leitor por situações para lá de interessantes, uma vez que a falsidade das notas parece, de um certo modo, contaminar Emerich, pois ele, para não ser pego pela polícia, adota várias identidades falsas e começa, então, a viver diferentes vidas. Os conflitos, no decurso da narrativa, vão se tornando cada vez mais complexos. A paranóia do narrador aumenta a cada página e ele se sente observado e vigiado a todo momento. Vale destacar que este aspecto da vigilância que invade a vida de Emerich coaduna-se com o período ditatorial brasileiro, no qual as pessoas eram, constantemente, monitoradas pelo governo totalitarista.

Para findar, pode-se dizer que Rey expõe, em seu romance, uma possibilidade que, com certeza, já passou pela cabeça de qualquer um, a vontade de ter, em casa, uma máquina que reproduz de maneira bastante fiel cédulas de alto valor. A arca dos marechais é leitura obrigatória para os fãs da boa prosa brasileira.

 

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