“Desenganos da vida humana, metaforicamente”, uma análise dum poema de Gregório de Matos

Por Laís Azevedo

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

Introdução

Temos aí mais um poema de Gregório de Matos, poeta barroco que viveu na Bahia durante o século XVII que ficou conhecido por ter produzido uma obra poética que se divide entre o profano e o místico, o lirismo amoroso idealizado e o erotismo, a reflexão moralizante e a sátira francamente burlesca (que incita ao riso por ser ridículo). Todavia, antes de tecer uma análise sobre o poema “Desenganos da vida humana, metaforicamente”, eu gostaria de explicitar algumas características da estética barroca.

Poder-se-ia dizer que a arte barroca é marcada pela intensidade dramática, que se desencadeou devido às transformações que ocorreram na Europa no século XVI. Nesse período, houve a Reforma Protestante, que colocou vários dogmas pregados pela Igreja Católica em xeque. A Igreja de Roma reagiu, rapidamente, e, assim, após o Concílio de Trento, adotou medidas que culminaram na chamada Contra-Reforma. Toda essa agitação religiosa e política (falo política, haja vista que Estado e Igreja naquele tempo eram imiscuídos) fez com que a confiança do homem, adquirida no período renascentista, fosse abalada. Desse modo, o indivíduo daquele tempo viu-se perturbado por inseguranças e angústias. É valido ressaltar também que esse contexto histórico tem uma grande relevância no tocante às peculiaridades da arte barroca, posto que essa buscou legitimar o “direito divino dos reis”, propagar a fé católica e ganhar adesão de fiéis, por meio da persuasão, da admiração e do terror.

No Brasil, o Barroco manifestou-se, primeiramente, na literatura e, posteriormente, na pintura e na escultura, perdurando até o fim do século XVIII. Os historiadores literários que seguem uma vertente mais tradicional apontam que “Prosopeia”, de Bento Teixeira, deu início à aludida estética em nosso país. “Obras Poéticas”, de Cláudio Manoel da Costa, cuja publicação se deu em 1768, marcaria o fim do Barroco brasileiro.
Análise 
No tocante à forma, o poema gregoriano em questão é um soneto petrarquiano (duas estrofes de 4 versos e dois tercetos de três versos), no qual o padrão das rimas pauta-se em: ABBA dos dois quartetos, CDE e DCD, no primeiro e segundo terceto, respectivamente. Ademais, por ser um poema que se adequa ao cultismo (um dos estilos da arte barroca), percebe-se que Gregório de Matos valeu-se da exploração do jogo de palavras, das metáforas, dos hipérbatos (inversões sintáticas), etc.
O “título do poema”, isto é, sua didascália, já informa ao leitor que o eu-lírico tratará dos desenganos da vida humana, valendo-se de metáforas. E, um desses desenganos, o qual será alvo do poeta no decorrer das estrofes, é a vaidade. Por isso, no primeiro verso, o sujeito lírico explica a Fábio os desenganos daqueles que se deixam tomar pela efêmera vaidade, que por si só em sua acepção, já remete a algo ligeiro; rapidez essa que também será tratada durante o decurso dos versos. Por isso, na primeira estrofe a vaidade é comparada a uma rosa vermelha, cheia de vida, que surge ambiciosa e orgulhosa. Interessante perceber que o eu-lírico vale-se de vários adjetivos para mostrar a vaidade dessa flor, ou seja, adorna os versos da primeira estrofe, barrocamente, isto é, emprega o excesso característico da arte barroca.
Na segunda estrofe, por seu turno, o eu-lírico, ao utilizar a expressão “planta de abril favorecida”, no primeiro verso, fala da mocidade que também não é  permanente, haja vista que o tempo corrompe-a. A vaidade é, então, metaforicamente, comparada a uma pequena embarcação, cuja empáfia é tão grande como o mar. Porém, esse barco, que abre as águas, navega vaidosa e rapidamente.
Na terceira estrofe, a vaidade é, desta vez, comparada com uma nau, uma embarcação bem maior, que também se jacta, é soberba e, além disso, é marcada pela rapidez.
Cabe ressaltar também que há uma gradação das metáforas usadas para representar a vaidade, posto  que o poeta parte de um algo menor, a rosa, passa pela galeota (embarcação menor, porém, logicamente, maior que uma rosa), até chegar a uma nau (grande embarcação).
No último terceto, o eu-lírico, que por meio das metáforas falou do orgulho e da vaidade, acentuando a todo momento que esta é ligeira, mostra de que nada vale a vaidade humana. A soberba é um desengano haja vista que tudo chega ao fim, assim como a nau que vai de encontro ao penhasco, a planta que é ferrada e a rosa que à tarde já não romperá mais airosa, pois também se finda.
Para findar, pode-se dizer que este poema de Gregório de Matos é marcado por uma reflexão moralizante, uma vez que mostra que a vida na terra é efêmera, passageira e ligeira, e, por isso,  o fim sempre está próximo.

2 thoughts on ““Desenganos da vida humana, metaforicamente”, uma análise dum poema de Gregório de Matos

  1. À Vaidade não é de Gregório de Mattos…é de Frei Antonio das Chagas!!!
    Tanta dissertação em vão…

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