Macário: A obra macabra de Álvares de Azevedo

Mariana do Nascimento Ramos

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852) recebeu algumas tantas alcunhas da crítica literária brasileira, dentre elas a de anjo e demônio do nosso romantismo. Não é à toa, porém, que sua obra é de difícil classificação, uma vez que a tentativa de pragmatizá-la acaba por retirar a densidade ambígua e contraditória – propositadamente, é claro – que está difundida em suas linhas e entrelinhas. A vertente ultrarromântica foi capaz de introjetar nas veias dos poetas as hipérboles proferidas com aquele exagero típico que os românticos mais poeticamente emocionados costumavam ter. Por outro lado, não é tarefa árdua reconhecer na obra do estudante paulista uma faceta irônica e mordaz, que se reveste de uma autocrítica sarcástica e atravessada por versos metalinguísticos capazes de negar sua própria imagem de poeta romântico. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes de sua obra poética.É nesse âmbito de classificações confusas e insuficientes que iremos encontrar o drama Macário (1855), talvez a obra mais ininteligível de Azevedo do ponto de vista pragmático. O próprio autor se esquivou de classificá-la em qualquer gênero literário para reconhecer nesse drama “apenas uma inspi- ração confusa, rápida, que realizei à pressa como um pintor febril e trêmulo”. Por conta disso, Macário muitas vezes nem é citada como objeto de estudo de sua poética, sendo deixada de lado, certamente por não fazer parte de um conjunto literário coerente e homogêneo. No entanto, a peça de Álvares de Azevedo é extremamente representativa da articulação consciente de um projeto literário baseado na contradição. Como ele próprio observou a respeito de sua poética, residem em um mesmo cérebro “mais ou menos de poeta” as facetas de Ariel e Caliban. As supostas contradições e incoerências dessa obra do poeta paulistano só reafirmam uma ideia do próprio Álvares de Azevedo acerca do romantismo brasileiro. Propomos, assim, uma breve análise do alcance da ambiguidade que a leitura do drama Ma- cário provoca, fato que se estende por quase toda a obra do autor. Vertente ingênua ou vertente irônica, angelical ou satânica, a peça de Álvares de Azevedo suscita um estudo mais detalhado e questionador a respeito das várias facetas que apresenta o próprio romantismo brasileiro.

O poeta e a vida boêmia de sua época

O Brasil do século XIX conviveu com um número representativo de agremiações estudantis, cuja importância para a vida literária das capitais brasileiras e suas principais províncias tornou-se indiscutível. Criadas a partir dos interesses acadêmicos, sociais e políticos dos estudantes das faculdades bra- sileiras – nessa época, o ambiente ideal de germinações intelectuais e ideológicas das gerações que por elas passavam –, essas sociedades definiram, de forma às vezes bastante conturbada, o panorama literá- rio nacional do século XIX.

O Rio de Janeiro esboçava um roteiro cultural determinado pelas grandes figuras que compunham os ambientes mais propícios ao desenvolvimento intelectual do país. Florescia, assim, um meio favo- rável à integração cada vez mais intensa entre políticos, escritores e intelectuais da época. O desenvolvimento econômico do Brasil pós-independência contribuiu decisivamente para o surgimento de um ritmo de vida citadino experimentado pelos habitantes da capital do Império. Além da Faculdade de Medicina, as livrarias começavam a ser frequentadas pela parcela da população que se preocupava em discutir os rumos que o país poderia tomar.

Contudo, não só a capital do Império possuía vida literária e produções intelectuais de grande por- te; as atividades políticas e culturais não paravam de crescer e de se multiplicar no bojo de uma socieda- de em plena constituição. O desenvolvimento e o comércio chegavam até outras capitais do país, como São Paulo, Recife e Salvador. Na capital paulista, a Sociedade Filomática, surgida em 1832, lançava os números de sua Revista da Sociedade Filomática, que buscava analisar o quadro sociopolítico do Brasil numa ótica nacionalista. No Rio de Janeiro, as associações literárias faziam parte da vida social dos jovens acadêmicos que se interessavam pelo futuro do país.

Mas a época romântica conheceu também outro tipo de sociedade que se tornou muito difundida entre os estudantes brasileiros: eram as chamadas sociedades secretas, que consistiam, na maioria das vezes, em associações juvenis promovedoras de práticas excêntricas e controversas. A incidência desse tipo de associação está diretamente relacionada à vida acadêmica dos estudantes das faculdades do Brasil, já que era para as Academias de Direito e Medicina que costumavam ir os jovens de famílias burguesas das classes média e alta, afastando-se de seus familiares, que até então os haviam conservado bons e respeitosos rapazes de família. Entretanto, aquelas repúblicas abastadas de jovens estudantes não poderiam deixar de ser o lugar mais adequado à formação estética desses grupos de adoradores de Byron que apre- ciavam a noite, a poesia e a literatura gótica. Estimulados pelos companheiros mais experientes, os rapa- zes recém-chegados de casa deparavam-se com um ambiente livre do conservadorismo católico-familiar, e logo eram apresentados à bebida, ao charuto e aos jogos. Uma espécie de “personalidade byroniana” pairava sobre as cabeças daqueles rapazes que começavam a dar os primeiros passos como formadores de uma importante fase da história nacional. Embora fossem ainda muito jovens e inexperientes, esses estudantes de atitudes provocadoras possuíam plena consciência da importância daquele movimento para a sociedade brasileira.

Assim, em 1845, sob a influência da lenda de Lord Byron, os estudantes da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco criaram a famosa Sociedade Epicureia. Dela participaram alguns dos poe- tas mais renomados do romantismo brasileiro, tais como Bernardo Guimarães (1825-1884), Aureliano Lessa (1828-1861) e Fagundes Varela (1841-1875). Muitos autores não admitem, porém, a presença de Álvares de Azevedo nessa sociedade, pois de fato não há documentos que comprovem que o poeta participava dos encontros noturnos do grupo de São Paulo, embora muitos estudiosos prefiram acreditar em um provável contato do poeta com a Sociedade, já que muitos de seus amigos e companheiros de faculdade eram membros do grupo. Os estudantes viviam (ou queriam viver) uma verdadeira vida boêmia e suas práticas muitas vezes tinham a ver com o que liam sobre a geração romântica de Paris. Álvares de Azevedo escreveu o poema “Spleen e charutos”, combinação byroniana por excelência. Há ainda uma passagem de Macário que ilustra bem a importância que o poeta dava ao tabaco:

O DESCONHECIDO
Bebei mais um copo de Madeira. (Beberam.) Levais decerto alguma preciosidade na mala? (Sorri-se.) MACÁRIO
Sim…
O DESCONHECIDO
Dinheiro?
MACÁRIO
Não, mas…

O DESCONHECIDO
A coleção completa de vossas cartas de namoro, algum poema em borrão, alguma carta de recomendação? MACÁRIO
Nem isso, nem aquilo… Levo…
O DESCONHECIDO
A mala não pareceu-me muito cheia. Senti alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de vinho? MACÁRIO
Não! não! mil vezes não! Não concebeis, uma perda imensa, irreparável… era o meu cachimbo…

As sociedades secretas, como a Sociedade Epicureia, proclamavam os valores românticos relacionados com a literatura de Lord Byron, quais fossem a morbidez, o sarcasmo e o fascínio em relação à morte. A matéria poética que alimentava a geração ultrarromântica vinha das fantasias literárias daqueles rapazes sonhadores que procuravam, de alguma maneira, aproximar-se da figura de Don Juan.

Mais do que simples brincadeiras de rapaz que quer esbanjar todo o seu vigor juvenil e intelectual de forma exagerada, os encontros daquelas associações marginais engendravam um ideário pleno de valores importantes e decisivos para a literatura brasileira. Formava-se, em torno dos excessos e das fanfarronadas acadêmicas dos estudantes, um verdadeiro universo cuja perspectiva poderia assumir caráter muito sério, uma vez que consciente da configuração literária brasileira.

O Prefácio da segunda parte de Lira dos vinte anos

Quando se estuda e analisa a obra literária de Álvares de Azevedo, muitas vezes deixa-se de lado um dos textos mais significativos e importantes para uma compreensão aprofundada de sua lírica: o “Prefácio da Segunda Parte” de seu livro Lira dos vinte anos (1853), no qual o poeta faz uma análise inusitada – para um poeta romântico – de sua própria poética e do romantismo de maneira geral. Esse texto condensa, em poucas páginas, uma breve autorreferência da complexa binomia que reside na lírica do escritor, revelando que seu fazer poético organiza-se a partir de um universo ambíguo e ilustrativo daquilo que ele revelou como um de seus maiores desejos literários: a provocação, por parte da poesia, de senti- mentos antagônicos porém inseparáveis que encerram no homem sua natureza mais surpreendente.

É na primeira parte de Lira dos vinte anos que encontraremos um eu lírico carregado de sentimentalismo e emoções exageradas, as quais perpassam por versos que podem revelar desde um amor ingênuo e inocente por sua mãe:

À MINHA MÃE

Se a terra é adorada, a mãe não é mais digna de veneração.
Digest of hindu law.

Como as flores de uma árvore silvestre Se esfolham sobre a leiva que deu vida A seus ramos sem fruto,
Ó minha doce mãe, sobre teu seio Deixa que dessa pálida coroa

Das minhas fantasias

Eu desfolhe também, frias, sem cheiro, Flores da minha vida, murchas flores Que só orvalha o pranto

até um erotismo confluente de fantasias e realidade mórbida:

SONHANDO
Na praia deserta que a lua branqueia, Que mimo! que rosa! que filha de Deus! Tão pálida… ao vê-la meu ser devaneia, Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

[...]
A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor, Teus seios palpitam – a brisa os roçou, Beijou-os, suspira, desmaia de amor! Teu pé tropeçou…
Não corras assim…
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

[...]
Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar, Teu colo, essas faces, e a gélida mão…
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!

[...]
E a imagem da virgem nas águas do mar Brilhava tão branca no límpido véu…

Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu! Nas águas do mar
Não durmas assim…
Não morras, donzela,
Espera por mim!

 

É nessa primeira parte da Lira dos vinte anos que vamos encontrar o Álvares de Azevedo Ariel, ou angelical, como bem acentuou Antonio Candido em seu estudo “Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban”. Há, nesse âmbito específico de sua lírica, um eu poético que extravasa um certo sentimenta- lismo adolescente, quase ingênuo, cuja personalidade literária se percebe por vezes em imagens poéticas ternas e infantis. Seja uma virgem do mar idealizada, seja a mãe cujo amor é casto e sincero, o que podemos notar nessa primeira parte de Lira dos vinte anos é justamente esse enveredamento poético em direção ao que existia de mais previsível em um poeta romântico de sua época. É nessa parte da obra que vamos encontrar versos como os do poema “Itália”, pátria que aparece em Macário como o ambiente de sonhos de Penseroso, personagem apaixonado e sonhador:

Ver a Itália e morrer!… Entre meus sonhos Eu vejo-a de volúpia adormecida…
Nas tardes vaporentas se perfuma
E dorme, à noite, na ilusão da vida!

 

E, se eu devo expirar nos meus amores, Nuns olhos de mulher amor bebendo, Seja aos pés da morena Italiana, Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.

Segundo Antonio Candido, as múltiplas facetas que o romantismo parece apresentar sob a ótica poética de Álvares de Azevedo justificam-se, de alguma maneira, ao reconhecermos no movimento romântico traços de uma certa adolescência literária, reforçada pelo fato de que quase todos os poetas da geração de Álvares de Azevedo eram ainda muito jovens:

Se o Romantismo, como disse alguém, foi um movimento de adolescência, ninguém a representou mais tipicamente no Brasil. O adolescente é muitas vezes um ser dividido, não raro ambíguo, ameaçado de dila- ceramento, como ele, em cuja personalidade literária se misturam a ternura casimiriana e nítidos traços de perversidade; desejo de afirmar e submisso temor de menino amedrontado; rebeldia dos sentidos, que leva duma parte à extrema idealização da mulher e, de outra, à lubricidade que a degrada.

 

O texto de abertura da segunda parte da obra indica que tipo de aproximação se fará necessário para que o leitor não se assuste ao ler o primeiro poema dessa parte inspirada por seu lado Caliban; tudo isso, porém, não passa de ironia metalinguística, uma vez que o leitor estranha esse novo universo macabro de qualquer jeito:

Cuidado, leitor, ao voltar esta página!

Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório: — a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.

 

Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban. A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia: — duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.

Essa ideia de binomia é ratificada em Macário, com a presença de Penseroso e Macário e as contradições discursivas do próprio Macário. Nesse universo obscuro da segunda parte de seu prefácio, en- contramos um lado sarcástico e irônico na obra de Álvares de Azevedo, capaz de transformar a típica imagem romântica da virgem na janela em uma caricatura irônica e zombeteira:

É ELA! É ELA!

É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou — é ela!… Eu a vi… minha fada aérea e pura,
A minha lavadeira na janela!

Dessas águas-furtadas onde eu moro Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas… Eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!… Tinha na mão o ferro do engomado… Como roncava maviosa e pura! Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso: Palpitava-lhe o seio adormecido… Fui beijá-la… roubei do seio dela Um bilhete que estava ali metido…

Oh! De certo … (pensei) é doce página Onde a alma derramou gentis amores!… São versos dela… que amanhã decerto Ela me enviará cheios de flores…

Trem de febre! Venturosa folha! Quem pousasse contigo neste seio! Como Otelo beijando a sua esposa, Eu beijei-a a tremer de devaneio…

É ela! é ela! — repeti tremendo,
Mas cantou nesse instante uma coruja… Abri cioso a página secreta…
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

 

Mas se Werther morreu por ver Carlota Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim mais bela… eu mais te adoro Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela! meu amor, minh’alma, A Laura, a Beatriz que o céu revela… É ela! é ela! — murmurei tremendo, E o eco ao longe suspirou — é ela!

 

Nesse poema, a “virgem” romântica é, na verdade, uma lavadeira que está na janela simplesmente porque aí está pendurando as roupas molhadas que acabou de lavar. Ironicamente, é essa cena pouco romancesca e poética que inspirará o poeta em seus versos de amor, transformando a lavadeira da janela em uma fada “aérea e pura”. O adjetivo “aérea”, que em outra situação poderia definir o sentido de san- tidade associado à mulher romântica – quase sempre referida como ser etéreo e diáfano –, é, no poema de Álvares de Azevedo, nada mais do que uma referência tópica ao fato de sua amada estar “pendurada” em uma janela, já que era uma lavadeira estirando roupas. A aventura quixotesca do poeta faz clara referência às musas românticas que inspirariam os escritores de sua geração, e ele próprio; entretanto, o exagero piegas do romantismo é, aqui, satirizado pelo próprio eu poético que dá voz ao poema. Álvares de Azevedo, assim, satiriza não só a sua geração de escritores, como a si próprio, visto que o poeta ad- mite que há também o lado Ariel em sua escritura, cristalizado na primeira parte da Lira dos vinte anos. Antonio Candido vê na dialética que provoca a autoironia do poeta a “execução de um programa cons- cientemente traçado”, uma vez que as tendências literárias na poética de Álvares de Azevedo – por ele próprio chamadas de Ariel e Caliban – são complementares e indissociáveis, dando à sua obra o caráter de uma binomia que, fundamentada em uma contradição, acabou por gerar o que seria, para o poeta, sua marca diferencial dentro do romantismo brasileiro.

Macário: teatro macabro

Uma conversa regada a bebida, sarcasmo e delírio entre Satã e um jovem estudante de Direito que maldiz a própria sorte. Esse pode ser o núcleo central de Macário, a peça de Álvares de Azevedo considerada, muitas vezes, indecifrável, seja por sua matéria narrada incomum e fantasiosa, seja por causa de sua perspectiva de narração que não se enquadra em nenhum outro gênero literário conhecido até então. Segundo Antonio Candido, a obra pode ser lida como uma “mistura de teatro, narração dialogada e diário íntimo: no conjunto, e como estrutura, sem pé nem cabeça, mas desprendendo, sobretudo na primeira parte, irresistível fascínio”.

Macário pode ser lida, então, como um drama dividido em dois episódios. No primeiro, o jovem estudante Macário chega a uma taverna para passar a noite e começa a conversar com um estranho. O estranho revela ser Satã e leva-o para um passeio a cavalo por uma cidade inóspita e monótona, povoada por prostitutas e estudantes. Não se sabe ao certo em que cidade estão, mas entende-se que os personagens estão falando de São Paulo, cidade onde o próprio Álvares de Azevedo também cursava a Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco. Depois de peregrinar pelas ruas com o estranho, Macário tem uma alucinação e acorda palpitante, na pensão; a atendente reclama que ele dormiu comendo. Ele acha que foi tudo um sonho, mas os dois veem pegadas de cabra queimadas no chão e se entreolham, assustados. No segundo episódio, passado na Itália, Macário e outros estudantes aparecem em cena, confusos, deprimidos e em busca do amor puro e virginal. Seu amigo Penseroso acaba matando-se por amor enquanto Macário está bêbado. A peça acaba com Macário sendo levado pelo braço por Satã para uma orgia em um bar.

Não há sequência lógica na intriga capaz de sedimentar os episódios em outro lugar que não sejam os delírios e as vertigens da imaginação do protagonista da obra. Macário é um jovem estudante que estabelece uma espécie de companheirismo macabro e autodestrutivo com Satã, personagem sóbrio, sarcástico e, para espanto dos leitores ou expectadores, bastante amigável na maioria das vezes.

O pano de fundo é a tediosa – para aquela época – noite paulistana, durante a qual Macário e Satã conversam sobre o que poderia haver de mais importante para um poeta romântico daquela época: a pátria, as mulheres, o amor e a morte. O ambiente parece sempre hesitar entre o comprometimento com a realidade e um movimento incompreensível das personagens que evoca o delírio. A vertigem de Macário, porém, revela seus pensamentos e seus desejos mais profundos, o que somente Satã parece compreender; mais do que isso, às vezes, tem-se a impressão de que o próprio Satã seria o causador desse des- compasso vertiginoso na mente do estudante. O encontro entre Satã e Macário se dá de maneira muito natural, como se o estudante já parecesse, de alguma forma, evocar e sentir a presença do diabo:

MACÁRIO
Ainda uma vez, antes de dormir, o teu nome?
O DESCONHECIDO
Insistes nisso?
MACÁRIO
De todo o meu coração. Sou filho de mulher.
O DESCONHECIDO
Aperta minha mão. Quero ver se tremes nesse aperto ouvindo meu nome.
MACÁRIO
Juro-te que não, ainda que fosses.
O DESCONHECIDO
Aperta minha mão. Até sempre: na vida e na morte!
MACÁRIO
Até sempre, na vida e na morte!
O DESCONHECIDO
E o teu nome?
MACÁRIO
Macário. Se não fosse enjeitado, dir-te-ia o nome de meu pai e o de minha mãe. Era de certo alguma liber- tina. Meu pai, pelo que penso, era padre ou fidalgo.
O DESCONHECIDO
Eu sou o diabo. Boa-noite, Macário.
MACÁRIO
Boa-noite, Satan. (Deita-se. O desconhecido sai.) O diabo! Uma boa fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda! A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Me- fistófeles. Olá, Satan!

 

Mas, assim como não existe um compromisso convencional com a verossimilhança, o leitor – ou o público, já que se trata de uma peça de teatro – não hesita em desvendar os caminhos (quase) incompreensíveis da imaginação do protagonista, que, na companhia duvidosa de Satã, empreende uma viagem estranha pelas ruas de São Paulo, cidade ideal para a peregrinação macabra dos dois companheiros de spleen:

MACÁRIO
Por acaso também há mulheres ali?
SATAN
Mulheres, padres, soldados e estudantes. As mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isto salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante, tu. MACÁRIO
Esta cidade deveria ter o teu nome.
SATAN
Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. [...]

 

Satanás, no entanto, não está interessado em fazer aflorar o lado perverso do jovem estudante para depois chantageá-lo; pelo contrário, Macário estabelece um diálogo sólido e consciente com seu inter- locutor, sem parecer dar muita importância ao fato de ele ser Satã. Este, aliás, parece se espantar – ou apenas finge se espantar – com o ceticismo de Macário: “Falas como um descrido, como um saciado! E contudo ainda tens os beiços de criança!” Satã, aqui, pode estar revelando todo o seu espanto ou o seu cinismo, sendo esta última opção difinitivamente a mais provável. A ambiguidade da poética de Álvares de Azevedo se faz presente de forma bastante nítida e reveladora nesta passagem, em que Macário dá respostas antagônicas para a mesma pergunta:

O DESCONHECIDO
E amaste muito?
MACÁRIO
Sim e não. Sempre e nunca.

Se fizermos uma leitura desses versos à luz do Prefácio da Segunda Parte de Lira dos vinte anos, encontraremos uma lírica revestida de binomia – termo por ele mesmo utilizado – que funde dois univer- sos diferentes em um mesmo fazer poético. De um lado, vislumbramos um eu lírico preocupado com a paixão, a natureza e a manutenção de uma certa inocência que tanto uma quanto a outra são capazes de oferecer; essa ingenuidade, entretanto, não é o único viés da lírica do poeta, uma vez que o byronismo macabro de que tanto gostava não deixaria de atravessar muitos de seus versos mais inspirados.

Antonio Candido observa como, na peça, Macário e Penseroso correspondem às duas facetas opostas e complementares da poética de Álvares de Azevedo:

Macário é o Álvares de Azevedo byroniano, ateu, desregrado, irreverente, universal; Penseroso, o Álvares de Azevedo sentimental, crente, estudioso e nacionalista. Aquele, por contraste, situado em São Paulo; este na Itália: a pátria da sua realidade e a pátria da sua fantasia.

Penseroso e Macário articulam duas instâncias imbuídas de signos poéticos específicos, transcri- tas na forma de uma lírica que procura aproximar ou afastar – confundir, algumas vezes – esses dois universos. Assim, em um personagem como Macário, por exemplo, as vozes ilustrativas de Ariel e Caliban se fazem presentes ao mesmo tempo. Pois se Macário é capaz de proferir sentenças imbuídas de sarcasmo e ironia: “O diabo! Uma fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda!”, também carrega no peito as ilusões amorosas com que sonhavam os poetas ultrarromânticos: “Oh! a mantilha acetina! os olhares de andaluza! e a tez fresca como uma rosa! [...] Apertá-las ao seio com seus ais, seus suspiros, sua orações entrecortadas de soluços, beijar-lhes os seios palpitantes [...]”

A viagem de Satã e Macário, no primeiro episódio, é um passeio fantasmagórico por uma cidade nebulosa e inóspita. O estudante de Direito de São Paulo, na companhia do Diabo, inicia também uma viagem imaginária, repleta de devaneios e considerações extravagantes e pessimistas acerca do universo e da natureza humana. No segundo episódio, ainda mais complexo e confuso, novos personagens aparecem, inclusive Penseroso, que elabora todo um discurso contra-argumentativo em relação ao ceticismo do amigo Macário. Este, ao lado de Satanás, torna-se cada vez mais indiferente e pessimista. Penseroso, ao contrário, pertence ao universo linguístico que projetou os signos poéticos presentes na primeira fase da Lira dos vinte anos; por ser tão inocente e cheio de fé – que o faz esperar uma vida de sonhos que nunca chega –, sucumbe à debilidade de seu ser e morre cheio de dúvidas. Macário, na cena final, dá o braço a Satanás, em uma atitude um pouco ambígua, e pede silêncio ao companheiro para poder escu- tar o discurso de um grupo de rapazes que bebem em uma taverna. Seriam os personagens de Noite na taverna, como Penseroso, indivíduos românticos e audazes na juventude, mas que ao longo do tempo se assumiriam como figuras cínicas e covardes?

A morte de Penseroso, na segunda parte da peça, não necessariamente representa o triunfo de Macário e sua aliança com Satã. Mais do que dividir categoricamente a sua binomia literária particular, trazendo falsas respostas que seriam antes de tudo uma negação do caráter complementar de suas duas facetas antagônicas, a obra Macário confirma a impossível dissociação de duas estéticas que se questionam e se validam ao mesmo tempo, em um complexo processo de continuidade literária que o poeta colocava em jogo em sua poética.

Torna-se, portanto, tarefa difícil dividir a obra de Álvares de Azevedo na chamada binomia da natureza humana, revelada no Prefácio da Segunda Parte de Lira dos vinte anos. Ariel e Caliban, como ele mesmo nomeou ambas as partes dessa dicotomia complexa e por vezes confusa, encontram-se em um mesmo verso, um mesmo signo poético capaz de revelar as facetas mais obscuras de uma poética atravessada por sentimentos antagônicos e complementares.

Notas

1 AZEVEDO, Álvares de. Macário. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987, p. 152. 2 AZEVEDO, 1987, p. 38.

3 Ariel e Caliban são personagens mitológicos de William Shakespeare. Os dois personagens aparecem na comédia A tempes- tade e representam, respectivamente, o Bem e o Mal.

4 AZEVEDO, Álvares de. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996a, p. 164.

5 AZEVEDO, 1987, p. 63.

6 AZEVEDO, 1996a, p. 2.

7 AZEVEDO, 1996a, p. 6-8.

8 Nesse estudo de Antonio Candido, o autor se baseia na imagem criada pelo próprio Álvares de Azevedo para justificar sua personalidade literária contraditória. Cf. “Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban”. In: CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte-Rio de Janeiro: Itatiaia, 1997, 2 vols., 1997, p. 159-172.

9 AZEVEDO, 1996a, p. 32.
10 CANDIDO, 1997, p. 159.
11 AZEVEDO, 1996a, p. 92.
12 CANDIDO, 1997, p. 161.
13 CANDIDO, 1997, p. 169.
14 AZEVEDO, 1987, p. 47.
15 AZEVEDO, 1987, p. 158.
16 AZEVEDO, 1987, p. 167.
17 AZEVEDO, 1987, p. 167.
18 CANDIDO, 1997, p. 169.
19 Ironicamente, o nome Macário vem do grego e significa “feliz, alegre”. 20 AZEVEDO, 1987, p. 175.
21 AZEVEDO, 1987, p. 179.

Referências

AZEVEDO, Álvares de. Macário. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

______. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996a.

______. Noite na taverna. São Paulo: Moderna, 1996b.

BROCA, Brito. Românticos, pré-românticos, ultra-românticos. São Paulo: Polis, 1979.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte-Rio de Janeiro: Itatiaia, 1997, 2 vols.

MACHADO, Ubiratan. A vida literária no Brasil durante o romantismo. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001.

One thought on “Macário: A obra macabra de Álvares de Azevedo

  1. Grande Álvares de Azevedo, ele era o CARA do Romantismo brasileiro, se ainda é. Essa “dupla personalidade” dele, é sem dúvida a sua marca registrada e que o faz ser um dos melhores poetas brasileiros e apaixonantes.

Deixe um comentário!