Análise do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira

Hellen Freire Silva

No início da Semana da Arte Moderna, um grupo de artistas que sentiam a necessidade de abandonar os antigos valores clássicos, sobretudo, a estética antiga confrontaram os valores parnasianos que se fundamentavam na valorização da estética e da perfeição. A proposta deste grupo de artista era dar liberdade aos poetas, escultores, pintores e músicos, a fim de que arte brasileira não buscasse modelos estrangeiros, mas sim, valorizasse a própria cultura brasileira. Além disso, a Semana da Arte Moderna propunha o esclarecimento da identidade nacional, bem como, o reconhecimento da liberdade de expressão.

Com o intuito de provocar o estilo parnasiano, na época a escola literária que fazia o gosto dos brasileiros, é feita a leitura do poema de Manuel Bandeira que obviamente foi criticada ferrenhamente pelo público. O texto inicia-se com uma referência do poeta à vaidade dos parnasianos quando cita a palavra “enfunando” que tem o mesmo sentido de “encher-se”, “inflar-se”, no entanto, neste texto o significado mais cabível seria o “enfunar-se” de orgulho, de vaidade.

Ao longo do poema, o eu-lírico constrói a crítica ao parnasiano e a sua estética,

” Diz: – Meu cancioneiro
É bem martelado. “

E ironiza o modo perfeito de se fazer arte.

“Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.”

No trecho acima o poeta faz um zombaria com o primor que os parnasianos têm em compor rimas, inclusive, em rimar termos cognatos, ou seja, termos que possuem a mesma classe gramatical já que para o parnasiano rimar termos cognatos não é sinônimo de sofisticação, pois as rimas não são consideradas ricas.

 

Além de ressaltar a estética parnasiana de forma sarcástica,

“Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.”

Manuel Bandeira também faz uma alusão irônica aos poemas que valorizam a descrição dos objetos e da escultura clássica.

“Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.

Exemplos de poesia parnasianas que mantêm esta valorização dos objetos clássicos são “Profissão de fé”, de Olavo Bilac e “Vaso Grego”, de Alberto Oliveira. Seguem alguns trechos:

(…)

“Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.”

(“Profissão de fé“)

(…)

“Esta, de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de os deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia
.”

(…)

 (“Vaso Grego”)

Além do conteúdo temático, o poeta faz algumas construções estruturais que dão sentido ao tema. Uma destas construções é o uso de aliterações em “p” e “b” e as assonâncias em “u” e “a” que remetem o som do pulo dos sapos, assim como, o jogo de palavras em ” Não foi! – Foi! – Não foi!” que faz analogia ao coaxar dos sapos.

Entretanto, o poeta moderno não utiliza a forma como meio de compor o tema, mas também, como forma de compor a ironia temática presente no texto. Por exemplo, a composição de todos os versos com a mesma métrica (cinco sílabas) faz parte da proposta parnasiana. No entanto, o poema é criado em redondilhas menores, isto é, a forma mais simples de se compor as sílabas poéticas, o que para os parnasianos é inaceitável, já que eles louvavam a sofisticação e não a simplicidade.

Outro aspecto estrutural que zomba dos aspectos requintados da escola parnasiana é uso das quadras ou quartetos, formas consideradas populares, contrastando, desse modo, com as formas sofisticadas, tais como, o soneto que é muito prezado no parnasianismo.

Esta popularidade da quadra se torna mais evidente na última estrofe cujos últimos versos fazem alusão a uma cantiga popular brasileira.

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…”

Logo, o poema “Os sapos” faz uma crítica contundente ao parnasianismo de modo irônico e sarcástico, valendo-se do tema e da própria forma poética na construção poética.

 

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