“O cortiço”, o filme

 

Ivanete Mileski 

O filme O cortiço baseia-se no romance naturalista com o mesmo nome, de Aluísio Azevedo. A obra cinematográfica foi produzida em 1977, e retrata, à semelhança do livro, a realidade da sociedade do século XIX. O filme foi dirigido por Francisco Carvalho Jr., e tem duração de 110 minutos. Grandes atores da época em que foi produzido fazem parte de seu elenco, como Betty Faria, Mário Gomes e Antônio Pompeu.

O filme apresenta as mazelas de personagens comuns, moradores de um cortiço no Rio de Janeiro. João Romão é um português ambicioso que, ao relacionar-se com a ex-escrava Bertoleza, busca apenas explorá-la com o intuito de conseguir cada vez mais dinheiro. Assim, obtém uma quantia considerável, compra algumas casas: é o início do cortiço João Romão.

Depois de iniciar tal negócio, o português tende apenas a prosperar, uma vez que não faltam moradores para as pequenas casas que vão sendo construídas. Perto do local, mora Miranda, personagem “nobre” que João Romão, dono do cortiço, toma como modelo para buscar cada vez mais posses. No cortiço, começam a aparecer tipos muito variados, como: Rita Baiana, um mulata muito sensual; Firmo, o capoeirista com quem Rita é casada; Jerônimo, um português recém-chegado, que começa a ser seduzido pela mulata, apesar de ser casado; Machona, uma mulher com vários filhos, todos muito diferentes um do outro; Pombinha, uma moça que já era noiva, mas esperava menstruar para poder se casar.

Cabe destacar a sensibilidade do produtor na seleção dos personagens que são transpostos da obra literária para o filme, uma vez que elege apenas os mais representativos. Nesse aspecto, Carvalho Jr. foi muito feliz, dada a dificuldade para escolher os personagens de um romance em que até mesmo o espaço, um cortiço, adquire características humanas. Também retrata com muita propriedade as danças de Rita Baiana, descritas na obra.

Até não saber que João Romão tinha um bom dinheiro aplicado na Caixa Econômica Federal, Miranda desprezava-o por sua mesquinhez e simplicidade. Porém, ao saber da quantia que o português possuía, tenciona casá-lo com sua filha, uma vez que o próprio Miranda não era nobre, apenas havia comprado seu título de barão. Para a concretização desse intento, o único obstáculo era Bertoleza, que havia trabalhado muito para enriquecer o dono do Cortiço e morava na mesma casa que João Romão. Este, caracterizado como alguém inescrupuloso e ambicioso, cria um plano, que tem como desfecho a morte da ex-escrava.

Por sua vez, a relação de Jerônimo com Rita ocasiona o assassinato de Firmo. Jerônimo mata o capoeirista para vingar-se de uma briga. Depois disso, os dois vão morar juntos, mas o relacionamento não progride, e Jerônimo volta para sua esposa.

Da mesma forma que o romance, a obra cinematográfica apresenta o incêndio do cortiço e o grande lucro que o dono tem com isso. Apenas João Romão sai ganhando, ao passo que os moradores ficam ainda mais pobres, em vista das perdas ocasionadas pelo incêndio.

O filme termina com João Romão e a esposa, filha de Miranda, saindo para a lula de mel. Nesse instante, os moradores do Cortiço recebem a notícia da proclamação da República, e, mesmo alheios ao real significado dessa informação, comemoram. A obra revela, assim, o tom de farsa que a realidade pode adquirir: casamentos por interesse, morte injusta de escravas enganadas e a alienação de um povo que luta apenas para sobreviver.

Assistir ao filme, mesmo que não seja um lançamento do cinema brasileiro contemporâneo, faz-nos refletir de modo mais crítico sobre a realidade atual. Permanece a indagação: até que ponto não somos escravos de uma classe que, cada vez mais, cria planos de ação que visam apenas ao benefício próprio?

Para quem já leu a obra literária, o filme é uma oportunidade de conhecer uma das interpretações do romance, uma vez que, pela diferença existente entre os suportes, o cinema precisa quase sempre adaptar, recriar e modificar. Apesar disso, o filme consegue transmitir de forma muito fiel e adequada a essência da obra literária e, por mais que tenha se passado muito tempo desde a produção do romance naturalista até hoje, a realidade das periferias nas grades cidades em nada difere daquela apresentada no cortiço. Mais um motivo, então, para assistir ao filme e, a partir dele, observar com maior sensibilidade o que acontece ao nosso redor.

 

One thought on ““O cortiço”, o filme

  • October 1, 2013 at 9:48 am
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    este filme mostra realmente o que acontecia no século xx hoje se tornou pra mim um classico

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