O homem-pássaro ou Breve conto nu sobre a realidade animal

Karina Werneck

Como este sendo um conto claro e preciso deixarei alguns pontos delineados desde já:  o homem-pássaro não voa,  não bica e se envergonha de seus instintos; o que nos faz chamá-lo “homem-pássaro” é o fato de, como a maioria dos animais (exceto os humanos, os chipanzés e os golfinhos), ele não se reconhece diante de um espelho. Isso na realidade não é tão grande problema, mas se mostra um frio obstáculo diferencial visto pelos olhos dos golfinhos, dos chipanzés e principalmente dos humanos.

O dia do homem-pássaro é bastante semelhante com o dia de outros animais do planeta Terra: sôfrego. Porém com o peso maior do pequeno detalhe técnico de que sua espécie é a mais indiferente de todas as outras do Animalia. Basicamente, eles adoram vendas nos olhos;  isso, acima de tudo, faz eles não verem os reais problemas que os cercam, além de não poderem também ver a beleza (acreditem: ainda há beleza do trágico Planeta). E por mais que haja luz, sempre se faz a treva.

O homem-pássaro é macho e trabalha numa repartição onde o telefone, objeto usado para pessoas falarem coisas sem uma precisar olhar para os olhos da outra, faz barulho o dia inteiro. As pessoas no geral têm medo do silêncio e do que pode se ouvir dele, então procuram sempre construir e estar no meio de coisas que fazem barulho. Logo, tem-se medo da madrugada ( dizem que há pessoas que roubam outras pessoas), da natureza ( para o bem maior, procuram destruir o mais rápido possível essa doce vilã) e do amor (superstição camoniana de que esse sentimento é uma doença, assim como a gravidez e o comunismo).

O homem-pássaro está agora diante de um espelho dando um comprimento de relance para si mesmo e evitando encarar seus olhos, como todos os outros homens – até os não-pássaros- têm a obrigação de fazer.

Obrigação é uma ordem dada por alguém que tem o maior dos maiores medos de olhar nos próprios olhos, é adulto (portanto evoluído aos olhos da Biologia) e que geralmente não mantém contato físico ou sexual com outro ser semelhante independente do gênero.

O homem-pássaro agora deita em sua cama fria para amanhã ser igual aos últimos duzentos ontens , pois faz duzentos dias que acabaram suas férias. Nas férias, ele dorme até tarde e vê filmes na televisão.

Eis que um dia, contrariando todas as leis naturais, o homem-pássaro faz uma única mitose por todo o seu compacto corpo e alguém DNA-RNA idêntico ao seu surge. Minha gente, que esquizofrenia. Alguém ali precisava morrer, tão óbvio quanto o ar, a água e todos os seus derivados, pois homem nenhum consegue suportar a si mesmo, por mais que a pose de agradável convença.

Então, o novo homem-pássaro, praticamente pré saído do útero, teve uma brilhante ideia – pois mentes humanas recém nascidas têm ótimas ideias- e voilà: pediu com muita atenção e respeito que o velho homem-pássaro olhasse seus próprios olhos, seus grandes e bonitos olhos, pelo menos por uma vez. Foi tanta a comoção do outro eu que nenhum dos dois resistiu: o homem-pássaro, a repartição e o telefone que tocava dentro dele se encaminhou para o espelho (todos precisam da segurança da morte dentro de um armário) , e pela primeira vez um animal que não se reconhece na frente de uma superfície refletora se olhou. Mas não foi como das outras vezes como com os outros seres, porque seus olhos já tinham sido lavados por um fluido composto por água, sais minerais, gordura e proteínas popularmente conhecido como Lágrima.

Agora me perguntam o final dessa lastimante história. Bom, está claro ( e prometi ser objetivo desde o início, e olhem que tentei) que a criação e a criatura morreram ao primeiro contato imediato entre si. Me interessei por essa história pela diversidade neste curioso Planeta, longe de moralismos e conclusões semi-preparadas. Não que os humanos não gostem disso, eles adoram.

Depois, olhando para a pouca beleza que restou na doce Terra, fiquei com compaixão do pobre animal que não quer ser animal, do pobre ser que nega sua maior perfeição.

Enfim, caso é causo.

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