Análise de três poemas sobre Ouro Preto

Aline Starling

 “Ouro Preto”, de Manuel Bandeira

Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto Del-Rei, para a gloria do imposto.

Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras… Templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agencia postal era a Casa de Entrada…
Este escombro foi um solar… Cinza e desgosto!

O bandeirante decaiu – é funcionário.
Ultimo sabedor da crônica estupenda,
Chico Diogo escarnece o ultimo visionário.

E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão, lavrada como renda,
- Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!

“Vila Rica”, de Olavo Bilac

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre.
O último ouro do sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu…
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move…
Dobra o sino… Soluça um verso de Dirceu…
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

“Ouro Preto II”, de Mário Alex Rosa

Ouro Preto, depois da neblina
que a cobre, revela a reza proibida
De um amor um tanto tardio. Segredo
entre conchas que se esvai
para sempre em todas as tardes
cobertas de nossas penas.

Ouro Preto, tarda em mim
nas ladeiras que subo e desço,
nem sei mais onde permaneço.

Ouro Preto, entre fechaduras e
frestas semiabertas,
rara luz
vinda só de você.

Ouro Preto, depois que dormes,
acordo.

Análise

“Vila Rica” é um poema escrito por Olavo Bilac que retrata primordialmente a mineração em Vila Rica, atual município de Ouro Preto.

O soneto primeiramente remete, de forma impactante e agressiva, ao início da exploração aurífera em que se verificava a abundância do metal e sua forma descontrolada de utilização (verificada até mesmo nos detalhes das residências).  Entretanto, com o decorrer do tempo, a ambição insaciável pela extração do ouro e, consequentemente, o seu rápido esgotamento propiciou o declínio e o empobrecimento da cidade e gerou grandes impactos ambientais. Inclusive neste sentido, o eu- lírico do poema realiza uma analogia da erosão da terra com uma tortura ao corpo humano.

Verifica-se que a incontrolável extração aurífera marcou o passado glorioso de Vila Rica e a escassez do metal comprometeu a economia da região. Insere ainda que há uma  transição feita pelo eu-lírico através de um paralelo da oposição do auge da corrida pelo ouro com o Sol e da decadência da cidade com o crepúsculo. Além disso, é estabelecida uma relação entre a mudança da nomenclatura do município de Vila Rica para Ouro Preto que ocorreu rapidamente baseando-se na observação do céu (como na transição de um dia para a noite). Ainda assim, a essência de Vila Rica permanece na história.

Na última estrofe, há uma referência ao sofrimento das pessoas pela perda do prestigio social e essa atmosfera mórbida reflete os sons de um choro permeados por soluços que é sugerido pelo uso do fonema “s” e ainda pelo badalar do sino.

Já o poema “Ouro Preto”, de Manuel Bandeira, retrata igualmente a exploração do ouro ressaltando inclusive a sua utilização como moeda corrente com a finalidade do pagamento de impostos para a coroa lusitana. O mesmo também evidencia a decadência  da cidade com o transcorrer do tempo e a consequente escassez do ouro. Entretanto, há neste soneto uma ênfase para a perda do prestígio do município e as mudanças e os prejuízos socioeconômicos gerados.

De acordo com este contexto, observa-se que o eu-lírico do poema destaca ainda que a glória dos tempos áureos permanece apenas na história do local e nas obras do renomado escultor ouro-pretense Antônio Francisco Lisboa (ou Aleijadinho), cujos monumentos foram, em grande parte, feitos arduamente quando o artista encontrava-se já deformado por doenças e ainda estão expostos no município, sendo amplamente valorizados culturalmente em âmbito nacional.

A temática da extração aurífera e seus impactos econômicos é abordada somente nos dois primeiros poemas citados anteriormente. O terceiro poema, “Ouro Preto II”, de Mário Alex Rosa, registra um ambiente calcado primordialmente na essência romântica e lírica da cidade, baseando-se na paisagem simbólica e geográfica do lugar.

Através da irregularidade do lugar e de seus morros e ladeiras o eu-lírico demonstra o seu desequilíbrio emocional e sua instabilidade psicológica. Ou seja, o município  influencia e/ou reflete a personalidade do eu-lírico.

Essas ideias estão presentes também no formato do poema que se configura em um diálogo permeado de ideais subjetivos com a utilização de versos livres e a ausência de um padrão fixo de rimas.

Baseando-se nas ideias apresentadas, conclui-se que os poemas se assemelham, sobretudo, em relação à temática exposta e no reconhecimento da importância da cidade. Entretanto, há convergências no modo em que cada eu-lírico concebe o significado central de Ouro Preto e nos contornos particulares de cada poema.

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