A caligrafia de Deus – Por Gabriel Diniz

acaligrafiadedeus-gjpgNão conhecia nada obra do manauense Márcio de Souza; fiquei surpreso quando soube que o romance Mad Maria (1980), que transformou-se numa minissérie global, era de sua autoria. Todavia, a supracitada obra em prosa não foi  minha porta de entrada para a literatura de Souza. Optei por um livro de contos, A caligrafia de Deus.

A obra traz cinco histórias, todas elas tendo como de fundo a cidade de Manaus. As três primeiras narrativas, escritas durante a década de 70, fazem parte do que Alfredo Bosi, em seus estudos, intitulou de literatura brutalista. Nessa o destaque são as histórias urbanas, onde a violência extrema das cidades, oriundas da exclusão social, servem de palco para as histórias que centram-se principalmente no cotidiano de personagens marginalizadas. Escritores como João Antônio, Rubem Fonseca, Wander Pirolli et cetera são também nome de destaque na aludida corrente literária. É interessante lembrar que os escritores da década de 90, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Andre Sant’Anna, dentre outros também fizeram uma literatura bastante pautada nesse estilo.

Mas, voltemos a obra de Souza. Nessa tríade de narrativas escritas nos anos 70, as personagens, algumas vindas do interior do estado da Amazônia, sofrem em todos os sentidos com a falta de perspectiva em Manaus.

O primeiro conto, cujo o título é o mesmo que da nome à obra, traz para o leitor, logo no início, a chocante cena das duas personagens mortas. A primeira delas é uma índia, que tornou-se prostituta; ainda garota ela teve os dentes arrancados por uma freira estrangeira, que convenceu a jovem que sua arcada dentária era horrível. A segunda personagem, Alfredo Silva, que recebeu o apelido de Catarro também é uma figura marginalizada. Essas duas personas não possuem voz na sociedade; Souza utilizando duma narrativa que não usa nenhum discurso direto demonstra isso com eficiência, isto é, a condição de marginalização dos dois protagonistas do conto que não são ouvidas nem mesmo pelo leitor. O nome Catarro reforça a ideia de como esses personagens menores da sociedade são colocado em cena na grande cidade, Alfredo foi simplesmente cuspido na selva selvaggia,  escarrado como todos, porém suas chances de sobrevivência são as menores possível.

Na segunda narrativa, temos a história de dois jovens do interior que também tentam prosperar em Manaus. Contudo, a decadência também os atinge de maneira cruel.

O terceiro conto, talvez um dos melhores do livro, apresenta a história dum homem, um ex-garimpeiro que se hospeda num hotel. A narrativa conta com dois narradores; um deles, o recepcionista do hotel, e o outro um narrador em terceira pessoa que expõe a vida do hóspede e das demais personagens. A história mescla o fantástico com o real. Mostra a decadência de alguns índios e a interação desses com habitantes de Manaus. Entretanto, Souza consegue narrar uma história envolvendo essas personagens sem cair no clichês tão comuns nesse tipo de narrativa.

Nas últimas duas histórias escritas no início da década de 90, o brutalismo cede espaço a uma melancolia. Uma delas, O pobre diabo, usa também vários narradores que tentam desvendar a origem dum estrangeiro que passeia com seu barco por um dos rios perto de Manaus. O último conto, O velho cortume do bairro, traz à tona a questão ambiental duma maneira diferente, apresentam os dois lados da moeda, isto é, as intenções dum grupo de jovens empenhados em acabar com a indústria e a vida dos donos da empresa e de seus trabalhadores.

Se Deus escreve certo por linhas tortas não sabemos. Para as personagens do livro a caligrafia de Deus é torta e seu resultado é mais torto, creio que na obra de Souza, Deus escreve torto por linhas tortas.

A caligrafia de Deus é uma excelente obra, merece uma leitura bastante apurada. Para os que gostam de uma boa narrativa urbana, o livro é indispensável.

Originally posted 2009-05-20 02:20:47. Republished by Blog Post Promoter

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