Balé e balas de coca-cola

crimeandpunishment_fullsize_story1Por Letícia Nogueira

PERSONAGENS

Adriano: Humano
Pablo: Humano
Injecção: Objecto
Balé: Manifestação atávica de Pablo
Pote de vaselina: Objecto que não aparece nesta peça
Balas de coca-cola e peruca:  Objectos misteriosos
O pai: Humano com crânio obtuso fadado a ser perfurado

ACÇÃO
Habitação fluminense

TEMPO
Presente

ATO ÚNICO

Cena:

Adriano sentado no sofá olha para o tecto. Pablo, trajado com uma roupa de bailarina e ostentando uma peruca ruiva, está sentado numa cadeira de rodas, a olhar para o chão.

O coro (olhando para dentro da casa através duma das janelas da casa): Quando Pablo nasceu, Adriano possuía quatorze anos. O pai morrera um ano antes atropelado por um caminhão de gás; crânio obtuso perfurado. A mãe morreu há quinze dias, porém o crânio não sofreu nenhum abalo.

Adriano (fumando e olhando para Pablo): Dança filha-da-puta, dança!

O coro: (olhando para dentro da casa através da fechadura): Pablo é aleijado, ficou assim graças ao pai que resolveu aplicar-lhe uma injecção. O pai, com seu crânio obtuso fadado a perfuração, dizia que: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”, acertou um ponto errado do cu de Pablo (não do olho do cu); resultado: pernas paralisadas.

Pablo ergue o braço direito arranca a peruca, e tomba o corpo em direcção ao chão.

A porta abre-se o pai entra. Adriano levanta e pergunta: que porra é essa? Voltou pra que, hein?, filho-da-puta!

Eu fodi com a vida do seu irmão.

Sim fodeu, Adriano responde.

Por que voltou?, Adriano pergunta.

O pai tira uma bala de coca-cola do bolso, encara o filho, bate no peito e fala: para dizer que eu fodi o seu irmão.

Adriano olha para o pai e diz: É… fodeu, e fodeu a perna dele também.

As cortinas descem.

Agora o coro se cala.

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