Análise de conto: “O caso da vara”, de Machado de Assis.

morte_cansada_01Por Laís Azevedo

“O caso da vara”, conto de Machado de Assis, publicado no jornal Gazeta de Notícias em 1891, reeditado em 1899 no livro Páginas recolhidas, traz à tona a história da personagem protagonista Damião, um mancebo, que devido a falta de vocação para o clero, foge do seminário, e, deste modo, abriga-se na casa da viúva Sinhá Rita.

Como sugere o narrador e os diálogos que se dão entre as personagens, Rita possuí uma estreita ligação, isto é, um namoro às escondidas com João Carneiro, o padrinho do jovem. Sendo assim, ela pede para que o namorado convença o compadre a aceitar o filho em casa. Neste ínterim, temos outra personagem crucial na narrativa, Lucrécia, uma franzina escrava de onze anos, que juntamente como outras moças, toma aulas de renda com a senhora, que é outrossim sua dona. Durante a estadia na casa, o rapaz, depois de contar algumas anedotas para a Sinhá e para as díscípulas, notou que a menina, ao escutar uma das piadas, deixou a tarefa de lado e começou a rir. A viúva, com uma vara, ameaçou a pequena que tinha descuidado do bilro. A compleição física da jovem, a tosse para dentro, bem como a advertência de Rita, fizeram com que Damião sentisse pena de Lucrécia, assim sendo, ele decidiu apadrinhá-la. Num outro dia, o moço, a pedido da senhora, contou outra piada. Neste viés, o mancebou, após de atender a solitação, observou se a pequena escrava havia rido, notou que não, viu que a garotinha quedou-se calada, ela estava concentrada em seu afazer. Destarte, imaginou que se ela tivesse dado uma alguma gargalhada, teria feito isso para dentro, tal como procedia quando tossia. Depois desse acontecimento, durante a noite, ele recebeu a notícia de que o pai não lhe aceitaria em casa. Porém, a viúva decidida ajudá-lo, tomando o negócio como dela, ordenou que João Carneiro retornasse a casa do pai do rapaz para tentar mais uma vez fazer com que a situação fosse resolvida. Em seguida, notou que Lucrécia não havia terminado o trabalho. Isso fez com que a Sinhá ralhasse com a menina, que após suplicar para não ser castigada, fugiu pela outros cômodos. Porém, a senhora agarrou-a, e puxando a orelha escrava, levou-a até até sala. Não querendo soltar a menina, pediu para que Damião pegasse a vara. Ele numa grande indecisão, ouvindo pedido de ajuda da jovem, agarrou o instrumento e entregou nas mãos de Rita.

Com base na breve descrição do enredo que foi explicitada acima, podemos realizar uma análise mais elaborada acerca do conto.

Primeiramente falaremos da personagens. A personagem central, como já fora dito, é Damião, ele está no cerne dos conflitos principais da narrativa. Já o pai do mancebo, poderia ser enquadrado como o antogonista da história. Apesar dele não contar nem ao menos com um nome, e nem com uma descrição física elaborada — o que se justifica, uma vez que o conto é um gênero onde a história deve ser célere —, nota-se facilmente que ele se opõe ao protagonista, uma vez que sua ação atrapalha o jovem a voltar para casa. Todavia, não poder-se-ia afirmar que ele seja o vilão da história. Como personagens secundárias, temos Sinhá Rita, João Carneiro e Lucrécia, essas, como bem frisa Cândida Vilares Gancho, na obra Como analisar narrativas, “são personagens menos importantes na história, isto é, que têm uma participação menor ou menos freqüente no enredo; podem desempenhar o papel de ajudantes do protagonista ou do antagonista, de confidentes, enfim, de figurantes.” . A discípulas da viúva devem ser compreendidas com personagens planas, mais especificamente de tipo, dado que são pouco complexas.

Cabe-nos agora tecer algumas considerações sobre esse narrador machadiano que trouxe à baila a história de Damião. Como poder-se-á notar, é um narrador em terceira pessoa onisciente e onipresente, haja vista que conhece tudo sobre a história, e que, além disso, está presente em todos os lugares da mesma.
No tocante ao tempo, o leitor percebe que Machado lançou mão basilarmente do cronológico. Os fatos que permeiam o enredo são narrados de maneira linear, em outras palavras, acontecem de maneira natural, partem do início para o final. Todavia, numa certa parte do conto, mais especificamente no início, Damião realiza uma digressão, onde ele se lembra de como foi levado ao seminário pelo padrinho. Calcando-se nisso, notar-se outrossim o tempo psicológico, que também está inserido na narrativa. Ademais, vale ressaltar que a história se passa no século XIX em 1850.

Isto posto, partiremos para as relações entre literatura e história que estão pautadas em “O caso da vara”.

O conto se passa no período imperial brasileiro, segundo reinado, onde a escravidão ainda estava em voga. Vale lembrar que o texto foi levado ao público em 1891, três anos após a abolição do regime escravocrata no Brasil. Porém, faz-se importante destacar também, que Machado vivenciou grande parte do período oitocentista, ele teve a oportunidade de acompanhar o longo processo, que se deu através de idéias, pressão estrangeira — da Inglaterra — e leis, que foram responsáveis pela derrocada do supracitado regime no Brasil. Baseando-se nisso, é inegável que o texto de Machado está ligado a história. e conseqüentemente a um tempo que ele viveu. Contudo, uma questão nos vem à mente: como o escritor conseguiu exprimir o universal no seu conto?, levando em consideração que ele trouxe para o leitor o tema da escravidão, que como se sabemos, no Brasil e em qualquer local do mundo, possuiu características bastante peculiares. Esse problema pode ser elucidado se utilizarmos como referência o excelente ensaio de Antonio Candido, Esquema de Machado de Assis. Como bem salienta o crítico, um dos temas recorrentes na obra machadiana é a transformação do homem em objeto do homem. Um ser que escraviza outrem, está justamente fazendo isso, utilizando o outro como um mero objeto. É essa a relação que se dá entre Rita e Lucrécia, e também entre Damião e Rita, uma vez que o moço utiliza-se da influência que a senhora tem mediante ao padrinho para conseguir seu objetivo que é o de voltar para casa; dessa maneira também acaba envolvendo Lucrécia. O mancebo que teve a oportunidade salvar a pequena escrava da punição, opta por não fazê-lo, visto que se ele intercedesse em prol da menina, com certeza ele seria o alvo da vara, que provavelmente o pai ou alguém do seminário, e que sabe até ambas as figuras, iriam desferir em seu corpo. Ora, sendo assim, vemos que este tema abordado pelo escritor fluminense é universal, ou seja, não está ligado a particularidade de um povo ou uma nação; é algo que não está preso às correntes de determinada época ou lugar.

16 thoughts on “Análise de conto: “O caso da vara”, de Machado de Assis.

  1. ÓTIMA ANÁLISE. RESALTA O MOMENTO HISTÓRICO VIVIDO POR MACHADO DE ASSIS AO ESCREVER O LIVRO, O QU EMUDA COMPLETAMENTE O PONTO DE VISTA. PARABÉNS !!

  2. O análise do conto de “O Caso da Vara” esta muito complexo, me ajudou em meus estudo. Assim completando os meus análises. Muito obrigado!!

  3. Gostaria muito de agradecer ao site pela análise, que está perfeitamente como gostaria, pois, me ajudou mutio para a realização do meu trabalho de Língua Portuguesa!!!!!!!!!!!!!!

  4. A ironia, sempre presente nos contos e demais obras do douto Assis, reside, de maneira avassaladora no fato de o personagem central Damião estar buscando livrar-se do castigo da vara, pelo fato de abandonar o seminário, com a oposição de seu pai. Constitui para tanto uma madrinha, na figura justamente de Rita, que possui ascendência sobre João Carneiro, o interlocutor entre seu desejo de saída e o castigo prometido por seu pai, se esta ação se concretizar. Ora, o ato da menina Lucrécia é em tudo semelhante ao seu. Ela transgrediu, ao ver de Rita, as regras da casa, ao se desviar das atividades diárias para – absurdo! rir-se da piada contada por Damião. Da mesmíssima forma que ele transgrediu as normas do seminário, fugindo de suas responsabilidades assumidas. Só que o moço só se preocupa em salvar a própria pele e não intercede a favor da criadinha Lucrécia (como em seu proveito intercedeu Rita), abandonando a escravinha à sua própria sorte. Injustiça das injustiças: ela é punida por motivo banal e ele recebe ajuda para safar-se de suas obrigações assumidas. Ou seja: exemplo de egoísmo, de preconceito racial, de injusta subjugação da escrava, tratada como posse e maltratada como reles animal. Por este ângulo, trata-se de contundente libelo Machadiano contra a Escravidão Negra, no Brasil.

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