Análise do poema “A arte de amar”, de Manuel Bandeira

20080408manuelbandeirajpg1“Arte de amar” é um poema de Manuel Bandeira que compõe a obra Belo Belo publicada em 1948. O livro foi incluído na nova edição de Poesias Completas; esta lançada pela primeira vez em 1940. Durante a década de quarenta, Bandeira já era um poeta elogiado pela crítica. Seus poemas tinham alcançado enorme aceitação entre o público. A admiração pelo poeta era tamanha. A prova disso se deu na década anterior, mais especificamente em 1936 — ano do cinquentenário de Bandeira —, quando os amigos editaram um livro intitulado de Homenagem a Manuel Bandeira. A obra continha estudos críticos, comentários e impressões sobre o poeta.

Para analisarmos qualquer poema de Manuel Bandeira, é de suma importância ressaltar que ele foi uma das figuras mais importantes do modernismo brasileiro. O movimento modernista no Brasil eclodiu de fato em 1922 na semana da arte moderna. A idéia basilar dos seus integrantes era a de romper com os padrões tradicionais da arte. Destarte, na poesia, isso ocorreu de forma bastante marcante, uma vez que a versificação tradicional cedeu espaço aos versos livres. Temas, como, por exemplo, o do cotidiano brasileiro foram trazidos à tona através dos versos modernos. Além disso, a poesia modernista incorporou um vocábulo diferente nos poemas, diferindo-se desta maneira, totalmente da linguagem utilizada pelos movimentos que o antecederam, que como sabemos calcavam-se mormente no português lusitano.

A morte sempre foi um dos temas mais recorrentes da poesia bandeiriana, visto que o poeta sofreu durante vários anos com a tuberculose e fora desenganado por uma pluralidade de médicos. Em Belo Belo, onde encontramos o poema ” Arte de amar”, e nos livros subseqüentes de Bandeira, a morte tornou-se um tema ainda mais constante. Todavia, não encontramos nestes poemas, uma ironia tão acentuada. Isto não quer dizer que o poeta abandonou totalmente este tropo. Pelo contrário, ele lança mão deste recurso, no entanto, o faz de maneira mais leve e reflexiva.

Depois de tudo que foi explicitado anteriormente, podemos nos ater a ” Arte de amar”. O poema conta com seis versos e uma estrofe composta por uma quintilha feitos de maneira livre. Esta organização realizada mediante à disposição dos versos supracitada, ajudam a dar um tom maior de reflexão à leitura do poema. Neste viés, de despertar esse pensamento reflexivo, Bandeira ardilmente, no que tange à pontuação, utiliza-se de pontos finais e vírgulas bem distribuídos no decorrer do texto. Os versos em “Arte de amar” são curtos; aqueles um pouco maiores recebem a vírgula, que tem como característica precípua a função realizar as pausas. O travessão, outrossim é utilizado no quinto verso, para realizar um efeito de explanação.

No tocante a rima, que segundo Antônio Candido: “no modernismo nunca foi abandonada. Mas os poetas adquiram grande liberdade no seu pensamento. O uso do verso livre, com ritmos muito mais pessoais, podendo esposar todas as inflexões do poeta, permitiu deixá-la de lado.”, “Arte de Amar” não possuí este recurso em seus versos. salvo no verso sete.

As figuras de linguagem não possuem neste poema papel preponderante, bem como os tropos que são tão comuns na poesia bandeiriana.

Feita a análise, podemos partir agora para o processo hermenêutico de “Arte de amar.” O sujeito lírico por meio dos versos quer passar uma idéia do que ele entende por amor, de como se dá essa arte. Antes de mais nada, é importante definirmos o que entender-se-á por alma no decorrer destes versos. Este substantivo quando empregados em certos contextos pode ganhar significados e usos diferentes. Neste poema, optamos por compreender alma através do conceito socrático, ou seja, a alma que tem a capacidade de exercer um comportamento ético é dotada de faculdades distintas e hierarquizadas: sentido, liberdade e inteligência. E para complementar este conceito elencado pelo filósofo grego, poder-se-á dizer que a alma seria a psique, isto é, um conjunto de fenómenos psíquicos, conscientes e inconscientes.

No primeiro verso o sujeito lírico diz que: “Se queres sentir a felicidade de amar, esqueça a tua alma. No verso seguinte fala que: “a alma é que estraga o amor.” Neste ínterim, baseando nestes versos, poder-se-á falar que para sentirmos a alegria de amar devemos abdicar das nossas vontades. O versos subseqüentes, dois e três, evocam o amor agapé, que na língua grega significa o amor, caridoso, compassivo. Esta forma de amor é o amor-compaixão, “é o sentimento que nega a vontade ao invés, em vez de afirmá-la.” O amor analisado a partir deste viés, foi aquele praticado por Cristo, santos et cetera. Com estes fatores explicitados anteriormente em mente, para o sujeito lírico a alma só encontra aprazimento quando está em contato com Deus, e não em outra alma. Além disso, outrossim volta a frisar a figura divina, indo até mesmo além, dizendo que a satisfação não pode se dar com nenhum outro ser terreno. O sétimo verso é pautado por um leve erotismo, pois os corpos entender-se-ão apenas com outros corpos. Isto demonstra que para o sujeito lírico o amor se dá apenas por meio de algo erótico, este sentimento é diferente do agapé. Assim sendo, vemos que o eu-lírico não crê no amor tão exaltado por uma miríade de poetas ao longo do séculos. Pelo contrário, ele chega até a ser pessimista em relação ao amor, e podemos dizer que sua visão talvez seja até mesmo baseada na idéia schopenhauriana. Para o filósofo alemão Schopenhauer, o amor estaria arraigado apenas na idéia de Eros, em outras palavras, no impulso sexual. Entretanto, não podemos afirmar com veemência que este pensamento versificado pelo sujeito lírico esteja totalmente em confluência com a do filósofo. No entanto, poder-se-ia falar que a arte de amar no poema é carnal — tendo a influência filosófica de Schopenhauer ou não —, pois afasta a possibilidade de um amor que se dá nas faculdades da alma.

Para findar, faz-se necessário frisar que “A arte de amar” é um poema reflexivo onde as rimas praticamente inexistem. Ele se aproxima bastante de um texto em prosa, porém não perde seu caracter poético através dos versos. É um poema escrito por Manuel Bandeira em seu melhor estilo.

3 thoughts on “Análise do poema “A arte de amar”, de Manuel Bandeira

  1. I simply couldn’t depart your site before suggesting that I really loved the usual info a person supply on your guests? Is gonna be back regularly to investigate cross-check new posts

Deixe um comentário!