“Cordilheira”, de Daniel Galera. Resenha!

cordilheiraPor Marcos Vinícius Almeida

A literatura contemporânea está em boas mãos. Essa é a sensação que o livro Cordilheira de Daniel Galera provoca de imediato. Com um talento incontestável de encarnar a personagem Anita, principalmente nos diálogos, Galera consegue prender o leitor a cada frase do texto. Não é o típico autor chato do viés esteticista. Do hermetismo gratuito de sujeitos que estão há anos ensaiando literatura em doutorados e acham-se no direito de apitar Copas de Literatura, onde o juiz aparece mais que a bola; desses sujeitos que levam a literatura muito a sério. Galera busca a construção mais simples, a clareza, a fluidez do texto sem perde-se no vulgar. Evoca no olhar do leitor imagens muito bem construídas, como uma câmera de cinema correndo pela Argentina. Busca aquele silêncio insondável da mulher frente a cordilheira, aquele silêncio do qual não se fala.

O enredo atravessa a condição da jovem Anita, escritora que viaja pra Bueno Aires em razão do lançamento de um romance com o qual não se identifica mais. A Anita de agora não é aquela Anita que escrevera aquele livro. Nessa conflito, percebe-se que a alcunha de escritor é uma falsa carapuça, um embuste, enfeite; numa época em que sujeitos auto-rotulam-se escritores, artista, Anita percebe-se apenas como uma mulher, mulher que escreveu um livro, um livro que está distante dela. O que é ser escritor? É possível ser escritor? Seu nome num livro faz de você romancista? Anita quer um filho, quer assumir a condição de mãe talvez no intuito de compensar uma frustração, uma perda muito forte de seu passado. Esse móvel leva Anita a um relacionamento com o excêntrico Houlden e seus estranhos amigos.
Envolvendo Anita numa seita de escritores que vivem as vidas dos personagens que criam, em detrimento de si, Galera evoca o elemento da Arte como representação, como outra realidade: a Arte não é o real e os personagens não são pessoas. Não de uma forma forçada, como um tese, como um romance esquadrinhado recheado de silogismos. Cordilheira, a cima de todas as coisas, conta um excelente história.
Não seria surpresa se esse livro ganhasse o Jabuti desse ano; mas seria apenas um detalhe. Cordilheira é maior que prêmios, que Copas de Literatura; Cordilheira é uma obra que atinge seu valor por si mesma, de resto, é resto.

Cordilheira, GALERA: Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

Prêmio Machado de Assis de Romance 2008 (Fundação Biblioteca Nacional)

Bordados

Laís Azevedo

Confesso que tenho me tornado viciada em ler quadrinhos cujas temáticas poderiam estar em qualquer bom romance. Isto apenas demonstra que os quadrinhos, de fato, não devem ser encarados como um gênero que se restringe somente ao público infantil. Pois bem, passeando pela livraria, encontrei Bordados, de Marjane Satrapi, quadrinista nascida no Irã, famosa pela obra, escrita também em quadrinhos, intitulada Persepolis. 

A premissa de Bordados é simples: um grupo de mulheres que depois da refeição, enquanto os homens fazem a sesta, sentam-se no sofá para realizarem um bordado, isto é, falar da vida alheia. Assim, no melhor estilo As mil e uma noites, cada uma das personagens conta uma história de alguém e/ou a sua própria. A temática das narrativas gira em torno das relações problemáticas relações amorosas. Desse modo, são discutidos assuntos sobre virgindade, casamentos desfeitos, a cirurgia de reconstrução do hímen (que é chamada de bordado, tal como o título da obra), dentre outros. Ao irem costurando esse bordado com suas falas, ou seja, as narrativas que constituem a obra, o leitor vai se deparando com os desenhos de Satrapi, os quais se mesclam perfeitamente aos interessantes diálogos repletos de ironia.

Continue reading

“As relações perigosas”, de Chordelos de Laclos

Laís Azevedo

Romances epistolares foram, durante o século XVIII, uma grande mania na Europa. As narrativas compostas por cartas davam, à época em que o romance como gênero literário ainda estava ganhando força, uma sensação de serem reais. Nesse período, seguindo esse modelo de missivas, foram publicadas as obras PâmelaClarissa, ambas do romancista inglês Samuel Richardson, Júlia ou a Nova Heloísa, de Rousseau, Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, etc. Um dos que mais causou polêmica foi As relações perigosas, de Chordelos Laclos.

Continue reading

Traição, negação e felicidade

Retirado do Jornal  O Tempo

Enquanto a crise econômica assustava a Europa, com ameaça de um futuro tenebroso, a escritora irlandesa Anne Enright buscava, na literatura, dias melhores. Era 2009, e ela buscava o seu caminho num país à beira do precipício. Anne é dona de uma escrita cortante, impiedosa, que a consagrou em 2007, quando venceu o Man Booker, principal prêmio literário da comunidade britânica, com “O Encontro”. Continue reading

“Pagando por sexo”, quadrinhos de Chester Brown

Lais Azevedo

Muitos pensam que as histórias em quadrinhos são limitadas somente àquelas que contêm super-heróis e temáticas voltadas para o público infantil. Todavia, elas não se limitam somente a isso e, por isso, muitas contam com diferentes temáticas. Um bom exemplo é Pagando por sexo, do canadense Chester Brown. O autor, com diversos trabalhos publicados, passou a fazer parte, em 2011, do Canadian Comic Book Creator Hall of Fame.

Continue reading

Inércia – Resenha

inerciaPor Milena Pereira Silva, bolsista CNPq – UESB

A temática conflituosa que envolve a travessia da adolescência para a idade adulta é recorrente na literatura. O que não é recorrente é o fato deste tema geralmente não ser abordado do ponto de vista masculino. E este é o diferencial do romance Inércia, do jovem escritor mineiro Marcos Vinícius Almeida. Através do olhar do narrador-personagem Juan, jovem estudante de filosofia de vinte e poucos anos, somos convidados a re-vivenciar experiências de uma adolescência nostálgica, que provoca, seduz, convida e, paralelamente, desafia a um embate, um conflito. Juan recorre insistentemente ao passado, como forma de escapar à engrenagem circular que o prende à carroceis vivenciais subterrâneos. Cada ato, gesto, pensamento parece contido numa trama que ultrapassa o indivíduo singular. Dessa forma, implicitamente, o romance realiza um flerte sutil diante da antinomia determinismo x liberdade, aqui encarnado, em sua totalidade na vida medíocre desse sujeito comum, provinciano, pequeno burguês. Acorrentado em amarras surdas: o presente imóvel, o passado sedutor e um futuro sem perspectiva, o jovem encontra refúgio na perfeição de uma paixão idealizada, na projeção de uma figura ideal e abstrata que não pode realizar-se no cotidiano prático.

Continue reading

“José”, de Rubem Fonseca

Laís Azevedo

Rubem Fonseca é um dos meus escritores favoritos, pois foi responsável por despertar meu gosto pela literatura. Lembro-me que antes de conhecer o autor, a ficção, principalmente os clássicos do século IX, não me despertava tanto interesse, achava-a distante demais. No entanto, o autor de O Cobrador mostrou-me que a literatura pode ser concisa, rápida e violenta tanto verbal, como fisicamente. O interessante é que depois que passei a ler Rubem Fonseca, voltei minhas atenções também para os clássicos e, mormente, para quaisquer movimentos literários pautados pelo realismo. Mas não são as minhas memórias que merecem destaque.  Continue reading

Antologia da ‘Granta’ afirma novos talentos, mas traz decepções

Retirado do “Prosa e Verso”

Felipe Charbel*

A seleção de textos para a edição da prestigiosa revista inglesa “Granta” dedicada aos melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos causou alvoroço no campo literário nacional, já diagnosticado como carente de espaços de prestígio. Muita coisa estava em jogo: traduções, bons contratos, visibilidade e sobretudo a chancela da marca. Num sistema literário em que as relações de compadrio às vezes falam mais alto que o debate franco, um carimbo desses é extremamente cobiçado.

Continue reading